NOSSA ORNIS

Otávio Salles - Jacutinga-MG

 

BEIJA-FLORES

Setas Vivas de Cor e Luz que Podem Extinguir-se

 

Fêmea de Balança-rabo canela - Ramphodon dohrnii (Foto de Augusto Ruschi)

 

 

Caninana-suikire - É primavera em Caacangaba (Mato Denso), região em que sobressaem os gigantescos polifemos vegetais que a tribo de Urutu-uru denomina yekiti’bá. Árvores imensas, altíssimas, chegando aos quarenta metros e com tronco tão grosso que só muitos apyaba (homens) conseguem abraçá-lo. São torres de observação vivas no meio da magnífica mata atlântica abarrotada de yu’sara (juçaras), diariamente visitadas por bandões de ya’kutinga, as lindas aves alvinegras com bico azulado. O bom tempo (aracatu) favorece os sonhos de Caninana-suikire (Cobra sem-Veneno-Azul). Gracejador, brincalhão (aruãi), Caninana-suikire é uma espécie de baiá (poeta, músico e cantor). Suas nhamemuã (brincadeiras) alegram a todos, mas ainda não lhe abriram a porta mágica do ambicionado coração de Botyra-tatá, a circe silvestre, a Flor de Fogo. Caninana-suikire canta com sua voz metálica, melodiosa, caprichando ainda mais quando vislumbra a deusa dos seios redondos (camapuã) aproximando-se, acompanhada da amiga predileta, a esguia Caba-sukyra (Vespa-Azul). Galante, atrevido, o alegre rapaz, quando passam, exclama: - «Botyra-tatá!» Prontamente ela se volta e ele lhe oferece pequeno cesto (bakité) repleto de bananas muito saborosas (baié). Aracy, a Mãe do Dia (verdadeiro nome da Flor de Fogo) sorri seu sorriso resplandecente (beraba) e vai agradecer quando Caninana-suikire, estimulado pelas cuias de nanaui (vinho de ananás) e bacutinguy (vinho de jenipapo) abraça-a de surpresa e tenta colocar em seu pulso esquerdo reluzente bracelete de penas (auana). Aos gritos de Botyra-tatá logo responde apavorante mbaé-guaú (cantiga de assombração), que tem o efeito de uma flecha incendiária (atauúba) no coração do ousado baiá. Em segundos surge da trilha o terrível caamondossara (caçador). É Urutu-uru, com seu arco mortífero pronto para disparar muitas flechas fatais. Caninana-suikire prefere uma retirada estratégica, deixando no solo, além do bracelete de penas cintilantes, um par de brincos de plumas reluzentes (nambipora). Tudo preparado por mão hábil, com os despojos de belíssimo aratarataguassu (variedade de beija-flor), muito numeroso em Caacangaba. Botyra-tatá fica aninga (arrepiada) de felicidade (angatu) ao ver o atangatu caamondossara (forte caçador) exaltado. Mas Urutu-uru logo se vai e a deixa sozinha com os guainumbis luminosos que esvoaçam na clareira. Eles não sabem, mas exatamente na região que denominam Caacangaba surgiria, muitos e muitos anos depois, o povoado que deu origem à cidade mineira de Jacutinga.

Fabulosas hélices vivas - A família Troquilídeos, a que pertencem os beija-flores, é uma das mais especializadas da classe Aves. Denominados guainumbis pelos indígenas do Brasil (guirá-mimbig, pássaro cintilante), também chamados colibris (essa palavra deriva da língua caraíba, significando área resplandecente, alusão aos pontos luminosos que algumas espécies possuem na garganta, fronte, peito etc.), os beija-flores apresentam complexas adaptações morfológicas e anatômicas às incríveis modalidades de vôo que desenvolvem, com espetaculares acrobacias aéreas, vôo em ré ascendente e até mesmo o mágico vôo estático, que lhes permite posicionarem-se diante de uma flor enquanto sugam o néctar, ou «parar no ar». Tudo isso só é possível graças à constituição especialíssima de suas asas: a mão é muito grande, mas o braço e o antebraço são extremamente curtos. Tal disposição permite que as asas, ao vibrarem durante o vôo, realizem um movimento helicoidal. São hélices vivas! As vibrações das asas dos beija-flores variam de intensidade. A maior espécie do mundo, Patagona gigas, atinge de 8 a 10 vibrações por segundo, muito pouco, porque Caliphlox amethystina, um dos menores colibris do Brasil, pode chegar a 90 vibrações por segundo, produzindo ruído característico, semelhante ao de um inseto. É evidente que tão assombrosa façanha só é viável em razão dos poderosos músculos peitorais e supracoracóides (o osso externo do beija-flor é muito desenvolvido, permitindo que a musculatura de vôo atinja um quarto ou mesmo um quinto do peso total). Também o coração e os pulmões são grandes. Além disso, todas as espécies têm pele grossa e penas resistentes. Em proporção ao peso, são os vertebrados que consomem maior quantidade de alimentos. Isso se justifica, porque é necessário imenso coquetel de calorias para produzir toda a energia requerida pelos músculos quando a ave voa (no beija-flor, o sistema cardiovascular tem uma resposta de freqüência cerca de 300 a 500 vezes mais elevada que no homem, passando do estágio de repouso para o esforço físico em 0,3 a 0,5 segundos; no homem isso não ocorre em menos de 160 segundos...). E é elevadíssimo o valor da contração da musculatura no vôo (100 Hertz).

A magia cintilante da plumagem - Quem observa um colibri à luz do Sol, resplandecendo como uma pedra preciosa, em geral não imagina que esses matizes deslumbrantes, as tonalidades de um brilho metálico estupendo, basicamente não provêm de pigmentos. São provenientes, isto sim, da microestrutura das penas, que favorece a difração e a reflexão da luz, conforme a incidência dos raios de sol. Nos beija-flores, as bárbulas das penas possuem, de certo modo, autênticas células óticas prismáticas. Esta é outra característica típica desses seres encantadores. Na maioria das espécies, apenas os machos ostentam colorido espetacular. A plumagem das fêmeas, em geral, é bem mais discreta. Mas há beija-flores que não apresentam dimorfismo sexual (macho e fêmea praticamente iguais). E nota-se, em algumas espécies, nos machos, plumagem pré e pós-nupcial (ou de repouso, sem os vivos matizes que exibem na época da reprodução, para atrair e conquistar as fêmeas). Incluem-se nesse caso colibris do gênero Heliomaster. Fato curioso da biologia das setas vivas de cor e luz é a acentuada poligamia dos machos, que só se incumbem da fecundação, deixando às amantes todas as responsabilidades conjugais, desde a construção do ninho à incubação e criação dos filhotes. Os ovos (sempre dois) são chocados, conforme a espécie e as circunstâncias, num período que varia de 13 a 17 dias. Espécies que habitam grandes altitudes podem demorar até 20 dias. Os filhotes deixam o ninho, de acordo com a espécie, ao completarem 20 a 30 dias de vida. Excepcionalmente (quando a fêmea é obrigada a buscar alimento muito longe), podem fazê-lo com 35 dias. No passado havia controvérsias sobre a participação ou não do macho na criação dos filhotes. Hoje, após muitas espécies terem sido reproduzidas em cativeiro, sabe-se, comprovadamente, que só a fêmea cumpre tão nobre missão. O prof. Ruschi descreveu os vários tipos de ninhos, relacionando-os em grupos diferentes. Para elaborá-los as fêmeas tecem com o bico, utilizados como agulhas, os mais delicados materiais, inclusive teias de aranha, liquens, lã vegetal...

Néctar, aranhas e insetos - Durante anos não faltaram especulações sobre a alimentação dos beija-flores. Muitos estudiosos presumiam que, para sobreviver, os colibris dependiam exclusivamente do néctar das flores. Não estavam totalmente enganados. Hoje se sabe que esses faiscantes fragmentos vivos de arco-íris dependem, para suprir seu extraordinário dispêndio de energia, de grandes rações de carboidratos, proporcionados pelo néctar das flores. Eles preferem, ao contrário das abelhas, néctar diluído (pouco mais de 20%). Este fato tem implicações também ecológicas, pois evita a competição com os insetos (as abelhas visitam flores com concentrações de até 70% a 80% de néctar). A proporção de carboidratos na dieta dos colibris vai além de 95%. Consomem, junto com o néctar, porções limitadas de pólen e também proteína animal (minúsculas aranhas e insetos presentes nas flores, além dos que são capturados no ar ou na vegetação). Determinadas espécies (isso foi comprovado em laboratório) ingerem, por dia, até trinta vezes o próprio peso em alimentos. Outras, bem menos (seis a oito vezes). Num estudo realizado na Alemanha, mencionado pelo prof. Helmut Sick em sua obra magna, um Hylocharis pesando 3 gramas sugou durante um dia de 16 horas 22 g de água açucarada, que continha 2,2 g de açúcar, o que corresponde a 73% do peso da ave. Além disso, capturou nada menos que 677 mosquinhas do gênero Drosophila, pesando juntas 0,8 g (27% de seu peso). Isso somado dá um consumo diário de alimento impressionante! Um homem, para realizar façanha similar, precisaria ingerir 58,9 kg de pão! Se os beija-flores adultos necessitam de doses maciças de néctar (carboidratos), os filhotes não se desenvolvem nem sobrevivem sem alimentação predominantemente protéica (microinsetos e aranhas minúsculas). Desde que isso foi descoberto, pelo mago dos beija-flores, prof. Augusto Ruschi, tem sido possível reproduzir inúmeras espécies em cativeiro.

Quantos são os beija-flores do Brasil? - Não é tão difícil responder a tal pergunta, embora os especialistas não estejam totalmente de acordo quanto a isso. Para o saudoso dr. Olivério Pinto, grande estudioso da sistemática das aves, ocorrem em nosso meio 83 espécies e 53 subespécies. Já o grande prof. Helmut Sick relaciona 88 espécies, não mencionando as subespécies. O prof. Rolf Grantsau, em seu livro Os Beija-Flores do Brasil, assinala para o nosso país 86 espécies e 59 subespécies. E o imortal prof. Augusto Ruschi, o homem que, em todo o mundo, melhor os conhecia, pois mais profundamente e durante mais tempo os estudou, menciona em sua obra fantástica sobre o assunto (2 volumes, 452 páginas, fotos em cores de quase todas as espécies) 92 espécies e 63 subespécies. É lamentável ter que mencionar aqui um fato que, a meu ver, só pode ter três nomes: precipitação, injustiça ou despeito científico. Por incrível que pareça, há quem acuse o prof. Augusto Ruschi de «chutador» de espécies. Ele as relacionaria sem maiores cuidados, incluindo híbridos e até descrevendo imaturos como se fossem novas espécies e subespécies. Ora, os prováveis híbridos apontados por seus detratores, Augasma smaragdinea e A. cyanoberyllina, não foram descritos por ele mas por Gould e Berlioz. Também estão presentes no famoso catálogo do mestre Olivério Pinto, com a ressalva: parecem ser híbridos. Já acusar o prof. Augusto Ruschi de apontar imaturos como novas espécies, isso me parece sem fundamento. Ninguém melhor que ele, que criou mais de cem espécies em cativeiro, para conhecer as diferenças entre adultos e imaturos. O fato de algumas espécies ou subespécies que descreveu não serem reconhecidas por certos ornitólogos é insuficiente para condená-lo. Nosso grande sistemata, o exigente Dr. Olivério, relaciona quatro delas em seu catálogo. A meu ver, somente estudos mais aprofundados, com análise comparativa dos sonogramas de cada espécie ou subespécie e análises bioquímicas e serológicas podem esclarecer em definitivo, sem margem de erro, tal questão.

O mago dos beija-flores - Se hoje é grande meu interesse científico pelas aves e outras formas de vida, nem sempre foi assim. Há trinta anos gostava realmente é de manter pássaros engaiolados e orgulhava-me de minha pontaria, primeiro com o estilingue, depois com a espingarda de ar comprimido.  Tudo começou a mudar quando tive acesso a uma série de artigos científicos publicados em Seleções de Reader’s Digest. Trabalhos de Alan Devoe, Donald Culross Peattie, Jean George e outros. Um desses artigos, intitulado O Éden de Augusto Ruschi (Seleções de julho de 1.965), tratava, com extremo respeito e admiração, da vida e obra do notável naturalista, então com 50 anos. Aquilo interessou-me profundamente, contribuindo para que direcionasse minha curiosidade natural em relação à vida selvagem. Hoje parece-me que nós, brasileiros, deveríamos valorizar mais o gigante da Ciência que foi Augusto Ruschi. Naturalista completo, especializado nos mais diversos ramos das ciências naturais (Botânica, Ornitologia, Entomologia, Mastozoologia...), ecologista quando ninguém ainda falava em ecologia. Batalhou durante décadas pela expansão do conhecimento humano. Prezava e sabia valorizar o que é nosso, os tesouros naturais do Brasil. Tornou-se o maior especialista do mundo em beija-flores, desvendando seus maiores segredos. Seus trabalhos eram feitos com conhecimento de causa, embasados em observações de campo e pertinente argumentação científica. Consultou as coleções de colibris taxidermizados dos principais museus do mundo: Britsh Museum Natural History, de Londres; Musée Nationale d’Histoire Naturalle, de Paris; a famosa coleção do prof. Jacques Berlioz, também em Paris; American Museum of Natural History, de New York; United States National Museum (da Smithsonian Institution, Washington) etc. Diante de tudo isso, chamá-lo de «chutador» de espécies me parece um insulto à Ciência. E quando se fala de Augusto Ruschi é impossível esquecer Etienne Demonte, seu fabuloso ilustrador, o genial pintor-naturalista que, no livro Beija-Flores do Estado do Espírito Santo, superou a si próprio pela perfeição dos colibris que retratou com a magia de seu pincel. Foi uma honra tê-lo conhecido pessoalmente, e a seus talentosos filhos.

Que perigos ameaçam quais espécies? - Constitui fato inegável que a maior ameaça para os beija-flores na atualidade é a destruição de seus hábitats, dos diversificados ecossistemas onde vivem, sobretudo em áreas florestais, abrigo e criadouro natural de grande parte das espécies. Esse perigo aumenta terrivelmente quando tais espécies ou subespécies são endêmicas, restritas a áreas limitadas. É o caso, por exemplo, de Ramphodon dohrnii (que alguns incluem no gênero Glaucis), Threnetes grzimeki, Phaethornis margarettae, Phaethornis nigrirostris, todos do Espírito Santo e considerados ameaçados de extinção pelo prof. Helmut Sick, que encontrou os três primeiros também na Bahia. Acho importante mencionar os beija-flores raros, que nunca foram comuns ou tornaram-se escassos: Avocettula recurvirostris (presente nas Guianas e Venezuela a Roraima, Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí; é raro no Brasil), Popelairia langsdorffi (encontrado da Bahia ao Rio de Janeiro, além do alto Amazonas, até Venezuela, Colômbia e Peru) Discosura longicauda (espécie do norte da América do Sul até Roraima, Amapá e Pará, além do Nordeste e Leste do Brasil, até Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro). E há os que, ainda não estando ameaçados nem sendo raros, devem merecer atenção especial por constituírem endemismos: Ramphodon naevius, Phaethornis maranhaoensis, Phaetornis gounellei, Phaethornis idaliae, Melanotrochilus fuscus, Lophornis magnifica, Aphantochroa cirrhochloris, Clytolaema rubricauda, Augastes lumachellus, Augastes scutatus e Heliomaster squamosus (por limitação de espaço não especificamos suas áreas de distribuição). É surpreendente que Chrysolampis mosquitus, beija-flor belíssimo, mesmo tendo sido a espécie mais perseguida pelos comerciantes de peles que, no século passado, sacrificavam milhares de troquilídeos, utilizados na confecção de adornos para vestidos e chapéus, não se encontre hoje ameaçado. Outro grande perigo que paira sobre inúmeras espécies é o uso inconseqüente de agrotóxicos nas lavouras. O prof. Helmut Sick observa que nas plantações de abacaxi, pulverizadas com venenos químicos, os beija-flores morrem às centenas e aos milhares.

E o futuro? - Fazer especulações sobre um feliz amanhã para as setas vivas de cor e luz não parece sensato. Não se levarmos em conta a realidade atual. Apesar de existirem leis conservacionistas, estas são freqüentemente atropeladas por interesses políticos e econômicos. No Brasil as áreas de preservação ambiental (parques nacionais, estações ecológicas, reservas biológicas...) apesar de escassas e incompletas, levando-se em conta as dimensões do país, são mal-administradas e carentes de vigilância. Muitas ainda não têm situação fundiária regularizada. Somando-se a isso os severos desmatamentos, os incêndios criminosos e incontroláveis, a aplicação maciça de agrotóxicos nas lavouras, o futuro não parece nada promissor para as espécies já raras, endêmicas e ameaçadas. No entanto, não é proibido ser otimista. Se quiser, o homem pode adotar medidas que contribuirão para a salvaguarda dessas espécies, pois já foram realizadas tentativas vitoriosas de repovoamento e reintrodução de espécies localmente extintas (prof. Augusto Ruschi). O plantio de vegetais atraentes para beija-flores também é recomendável, já que onde há fartura de alimento a tendência é as populações crescerem. A verdade é que, apesar de possuírem diversos inimigos naturais (cobras, caburés, caranguejeiras que atacam seus filhotes...), estes em nada afetam sua sobrevivência. Aves especializadíssimas (é notável o fenômeno da hibernação por que passam à noite, quando sua temperatura - 40oC a 42oC durante o dia - cai a 24oC, o que lhes permite sobreviver doze horas sem alimento), de grande importância na polinização da flores de diversas famílias botânicas, com hábitos migratórios em muitas espécies, é fundamental que sobrevivam a esta fase atribulada e insensata da evolução humana. Talvez o século vindouro lhes seja mais propício, com o reflorescimento de espécies que devemos, no mínimo, impedir que se extingam.

 

 

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