Os Psitacídeos da Estação Ecológica Mamirauá, Amazonas

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

 

Introdução

A Estação Ecológica Mamirauá (EEM) é a maior unidade de conservação da Amazônia Brasileira que se destina exclusivamente a conservar trechos da floresta de várzea. O ambiente de várzea, ou floresta periodicamente inundada, compreende vários tipos fisionômicos de vegetação que ficam submersas por águas brancas, ricas em sedimento, até por seis meses anualmente. Os dois tipos básicos de várzea encontrados na EEM são as florestas, localmente denominadas restingas e as áreas abertas localizadas em terras mais baixas denominadas chavascais (Ayres,1993). A EEM, com 1.240.000 ha está situada na região do médio Rio Solimões na confluência deste com o Rio Japurá. Uma série de estudos e ações multidisciplinares que darão suporte ao processo de implantação da reserva estão sendo coordenados pela Sociedade Civil Mamirauá, uma organização não-governamental, numa abordagem inédita no pais. Esta ONG pretende realizar a implantação da EEM compatibilizando a preservação do ambiente com a exploração sustentada de seus recursos pela população humana que tradicionalmente habita o local (Queiroz, 1994). Dentro da gama de aspectos abordados pelos estudos preliminares que deverão anteceder o processo de implantação e manejo da área, encontra-se o inventário da avifauna existente, suas interrelações com a várzea e o "status" das populações existentes. Minhas pesquisas ornitológicas no Projeto Mamirauá começaram em janeiro de 1993 dentro do programa de Faunística dos Sistemas Terrestres e estão sendo financiadas pela World Wildlife Fund, Overseas Development Administration e World Conservation Society. Estou utilizando prioritariamente o registro sonoro no levantamento de dados no campo Por considerar que esta forma de inventário da avifauna é sensivelmente mais eficiente. Esta metodologia tem se mostrado a mais eficaz e completa nos diversos locais trabalhados da Amazônia onde foi aplicada (Remsem, 1994).

Dentre os grupos de aves focais da questão conservacionista, os Psitacídeos, estão entre os mais importantes. Eles formam um dos grupos mais ameaçados de aves do planeta e doze espécies já estão virtualmente extintas (Stattersfield,1988). Além da destruição dos hábitats, causa comum que atinge uma infinidade de seres vivos, milhares de psitacídeos são anualmente capturados para servirem como animais de estimação e outros milhares são exportados ilegalmente para atender o crescente tráfico internacional. Paradoxalmente, muitas vezes a raridade de uma ave acaba sendo um fator complicado na sua preservação. A sua cotação se torna altíssima no mercado negro de aves contrabandeadas e a captura na natureza de qualquer exemplar se torna altamente lucrativo para todos os segmentos deste mercado.

 

Psitacídeos na Amazônia

 

São conhecidas para o Brasil 69 espécies de Psitacídeos, segundo a mais recente versão inglesa do livro Ornitologia Brasileira (Sick,1993), ou 73 segundo uma lista recente de nomes gerais (Willis & Oniki, 1991). Este número tende a variar segundo a interpretação pessoal dos autores sobre três pontos básicos: a) validade das espécies; b) "status" taxonômico, i.e, se determinada forma deve ser espécie ou subespécie e c) incorporação de registros recentes. O Brasil é o país com maior número de espécies de Psitacídeos do Mundo (Forshaw, 1989), 67% deste total pode ser encontrado na Amazônia. 46,5% das espécies de Psitacídeos brasileiras são endêmicas (restritas) da Amazônia.

As florestas de várzea têm sido tradicionalmente consideradas menos ricas em número de espécies de aves do que as florestas de terra-firme, entretanto as várzeas possuem mais espécies em alguns grupos, estando neste caso os psitacídeos e aves aquáticas. Muitas das 49 espécies de araras, papagaios e periquitos da Amazônia freqüentam a borda da floresta, áreas de camping, floresta transicional, florestas abertas, palmais e mesmo, muitas vezes, os ambientes alterados pelo homem. Estas espécies não estritamente florestais, freqüentam a borda da floresta para se alimentar de frutos de árvores pioneiras ou para procurar cavidades nas árvores mortas. Dentre os locais mais bem pesquisados da Amazônia e seu número de espécies de psitacídeos assinalados estão:

 

Local N° de espécies Fonte

 

A maior parte destes dados apresentados no quadro acima foram retirados de manuscritos inéditos (sigla MS), Mas serve para demonstrar que o número de Psitacídeos encontrados nos diversos pontos é algo próximo entre si e certamente deve haver substituição de espécies em ambientes correlacionados. A composição de dezenove espécies da EEM quase copia a composição de Psitacídeos encontrada em Letícia, na Colômbia (Hilty & Brown, 1986) . Esta similaridade não é surpreendente, pois Letícia está situada a 600 km oeste na mesma margem do Rio Solimões. Através de pesquisas bibliográficas históricas poderia se contar até 22 espécies para a região de Manaus, entretanto os três inventários recentes conhecidos realizados nessa região apontam números inferiores: Reserva Ducke, 10 espécies (Willis, 1977); Balbina, 14 (Willis & Oniki,1988) e fazendas situadas 100km ao norte de Manaus, 14 (Stotz & Bierregaard,1989).

 

Psitacídeos no Mamirauá

 

Na EEM encontrei até o momento 19 espécies de psitacídeos, fazendo parte deste total 3 espécies de grandes araras e 4 espécies de papagaios. Este número pode ser considerado expressivo, mesmo se comparado com outras áreas bem conhecidas da Amazônia (Veja o quadro apresentado na seção anterior). Deste grupo podemos destacar por sua abundância na EEM, o periquito-brasileiro (Brotogeris sanctithomae), a curica (Graydidascalus brachyurus) e o papagaio papa-cacau (Amazona festiva). Seus bandos podem chegar a centenas e formam um espetáculo a parte no entardecer nos céus do Mamirauá. É impressionante o alarido forte produzido pelos bandos de curicas, conforme Sick já chamou a atenção, que estão entre as vozes da Amazônia mais fortes e estridentes, a despeito de seu tamanho.

São moderadamente freqüentes a maracanã (Aratinga leucophthalmus) e o periquito-de-santo-antonio, (Forpus xanthopterygius) e a maracanã-grande (Ara severa). As duas primeiras de ampla distribuição no Brasil. Nesta categoria também podemos incluir o periquito-de-asa-branca (Brotogeris versicolurus), entretanto esta espécie se restringe na EEM aos ambientes pioneiros existentes nas ilhas recém-formadas, conhecidas por ilhas novas, que formam um ambiente muito particular para aves, possuindo diversas espécies próprias. Outras particularidade deste último periquito é que ele se tornou uma ave urbana extremamente comum em duas capitais da Amazônia: Belém e Macapá. A arara-vermelha (Ara macao) pode ser encontrada com mais facilidade no meio do ano, quando das cheias, sendo mesmo assim incomum (veja capítulo Conservação). Várias espécies de Psitacídeos, por sua vez, devem apenas visitar a EEM para se alimentar quando da disponibilidade de certos frutos; esse é o caso do papagaio-moleiro (Amazona farinosa), da maitaca (Pionus menstruus) e da Arara-vermelha (Ara chloroptera). Na maioria das vezes apenas é possível observar estas espécies cruzando os céus da EEM. A arara-amarela (Ara ararauna) ocorre em pequenas populações, especialmente nas cheias. Esta espécie de arara parece preferir na Amazônia as florestas de solo de areia da bacia do Rio Negro. Sua raridade no EEM contrasta com os incontáveis bandos existentes, por exemplo, ao longo dos igapós do Rio Jaú, afluente do Rio Negro (obs.própria). Outras espécies teriam distribuição dentro da EEM bastante localizadas, existindo apenas em determinado setor da EEM. Esse é o caso, talvez, da maracanã-pequena (Aratinga pertinax), que até o momento apenas foi encontrada na área sob domínio do Rio Japurá. É difícil avaliar ainda o "status" da presença das seguintes espécies: Ara manilata, Aratinga weddellii, Pyrrhura melanura, Pionopsitta barrabandi, Amazona autumnalis e Amazona amazonica, devido a sua baixa freqüência na EEM. Essa  baixa freqüência também determina o desconhecimento dos habitantes locais com relação a essas espécies. Nenhuma delas possui nome vulgar específico local, sendo apenas reconhecidas, ou em alguns casos confundidas, através de nomes genéricos como periquitos ou papagaios.

Os Psitacídeos, em geral, não atuam no processo de dispersão de sementes, ao contrário são classificados como predadores de sementes, porque se utilizam mais desta parte como alimento final do que da polpa do fruto. As sementes são trituradas pelos possantes bicos adaptados para quebrar superfícies rígidas. A arara-vermelha (Ara macao) na EEM se utiliza preferencialmente dos frutos do assacu (Hura crepitans), uma euforbiácea de grande porte que é produto de exploração madeireira local. Por essa razão, as araras são mais facilmente observadas quando os assacus frutificam durante as cheias, ou seja, no meio do ano. O periquito-brasileiro (Brotogeris sanctithomae) se alimenta preferencialmente de árvores pioneiras muito abundantes na EEM, a munguba (Pseudobombax munguba) e as embaúbas (Cecropia spp). Abundância destas espécies de árvores deve responder pela abundância dos periquitos. A curica (Graydidascalus brachyurus) se utiliza preferencialmente da gaxinguba (Focus maxima) e do pingo d’água (Banara nitida), mas pode ser observada se alimentando das diversas espécies de figueiras, conhecidas localmente por apuí. Os frutos mencionados aqui fazem parte de uma massa maior de informação sobre frugivoria que estou acumulando sobre as aves da EEM. A existência de um bom inventário de árvores que produzem frutos na EEM (Ayres, 1993) e o bom conhecimento prático dos mateiros da região que trabalham no Projeto Mamirauá facilitam a determinação dos itens alimentares preferidos pelas diversas espécies.

 

Conservação

 

Muitos dos Psitacídeos Neotropicais estão em risco de extinção. 14,4% das espécies brasileiras listadas na mais recente edição do livro vermelho das espécies ameaçadas são psitacídeos (Collar et al, 1992) embora os psitacídeos perfaçam menos de 5% do total de espécies assinaladas para o Brasil (Sick,1993). das 140 espécies de Psitacídeos do Novo Mundo, cerca de 30% podem ser consideradas sob algum risco de ameaça (Collar & Juniper,1992).

Dentre as espécies de aves amazônicas (incluindo aqui os não Psitaciformes, também) que mais facilmente demonstram a interferência humana no meio ambiente estão as araras, a anhuma, a cigana e os mutuns. Estas espécies já desapareceram dos arredores de várias grandes cidades da Amazônia como Belém e Macapá e Iquitos, no Peru (B. Whitney, com. pessoal) muito mais por causa de caça e captura do que pela destruição do hábitat. Muitas vezes as matas ainda existem, mas as espécies não. No futuro teremos cada vez mais grandes cidades encravadas na Amazônia. E na preservação a longo prazo destas espécies e na manutenção integral da biodiversidade que as unidades de conservação com mais de 1.000.000 de hectares como a EEM e o Parque Nacional do Jaú deverão plenamente servir. Estudos recentes realizados em Manu, Reserva Mundial da Biosfera, situada no sudeste do Peru, revelaram que as araras, por exemplo, possuem baixa produtividade reprodutiva. Apenas de 10% a 20% da população total de araras reproduzem a cada ano, criando na maioria das vezes apenas um filhote. (Munn, 1992). A julgar por esses dados o autor considera extremamente fácil exterminar (ou reduzir drasticamente) populações de araras em locais onde exista pressão de captura.

Embora a Amazônia não seja considerada uma área crítica para espécies ameaçadas como é a Mata Atlântica, onde nada menos do que 11 espécies de psitacídeos estão sob ameaça de extinção (ao contrário de apenas uma espécie na Amazônia: a guaruba; Collar & Juniper,1992), alguns aspectos conservacionistas devem ser considerados. Não podemos imaginar que as medidas de conservação só deverão ser tomadas quando a situação de alguma espécie se tornar crítica, como por exemplo, o caso da ararinha-azul. Na Amazônia ao contrário, diferente de outras regiões do país, existem ainda condições plenas de se preservar imensas áreas originais representativas, onde populações geneticamente viáveis de espécies como a onça-pintada, a harpia e outros seres dependentes de grandes extensões de território poderão se perpetuar. Por isso se torna altamente recomendável que o processo de preservação na Amazônia seja imediato. Temos que iniciar, portanto, este processo agora. Imaginemos que pudéssemos, por exemplo, tomar medidas assim na Mata Atlântica nos dias de hoje. Imaginemos que o quadro de intocabilidade que muitas regiões da Amazônia ainda possuem em dimensões consideráveis existisse ainda hoje na Mata Atlântica. Isto tornaria possível o sonho de se demarcar uma reserva suficientemente grande, por exemplo, no Sul da Bahia que pudesse refletir a opulência do Brasil quando da época do descobrimento, com muitas onças e araras, ou preservar áreas consideravelmente maiores na Mata Atlântica Nordestina de Pernambuco e Alagoas a ponto de preservar estoques viáveis do mutum-do-nordeste, e assim por diante. Se nós queremos preservar hoje o "todo" original na Amazônia temos que apoiar iniciativas de preservação e desenvolvimento compatíveis com a manutenção da maior parte da floresta. Caso contrário o quadro irreversível de destruição por qual o Leste Brasileiro experimentou se repetirá na Amazônia e, com certeza, com os recursos de destruição atuais que dispomos, muito mais rapidamente!.

 

Agradecimentos

 

Agradeço especialmente ao coordenador do Projeto Mamirauá, Dr. Márcio Ayres, pelas múltiplas oportunidades oferecidas. Consigno meu reconhecimento também a Andréa Pires e Ana Albernaz, pela orientação na identificação de alguns itens alimentares; aos habilidosos guias de campo Arismar Martins e Tito Cavalcanti pela oportunidade de aprender com eles um pouco dos mistérios de seu mundo, o Mamirauá; a Claudia Bauer e Paulo Sérgio M. Fonseca pela revisão do texto e finalmente a William Gilbert, do Clube de Observadores de Aves do Rio de Janeiro, pela gentileza em preparar a aquarela que ilustra este artigo.

 

Bibliografia

 

Ayres, J. M. 1993. As matas de várzea do Mamirauá. MCT-CNPq. Programa do Trópico Úmido: Brasília

Collar, N. J., Gonzaga, L. P., Krabbe, N., Madroño Nieto, A., Naranjo, L.G., Parker III, T. A. and Wege, D. C. 1992. Threatened Birds of the Americas. International Council for Bird Preservation, Cambridge, U. K.

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Forshaw, J. M. 1989. Parrots of the world. Third revised edition. Lansdowne Ed., Melbourne.

Hilty, S. L. & Brown, W. L. 1986. A guide to the birds of Colombia. Princeton Univ. Press.

Munn, C. A. 1992. Macaw biology and Ecotourism, or "When a bird in the bush is worth two in the hand". pp. 47-72 In Beissinger, S. R. & Snyder, N. F. R. New World Parrots in crisis. Smithsonian Institution Press: Washington.

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Remsem, J. V. 1994. Use and misuse of bird lists in community ecology and conservation. Auk, 111:225-227.

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