GALLERIA BIOGRAPHICA

 

Heretiano Zenaide, quem foi este autor de «Aves da Paraíba»?

José Fernando Pacheco e Henrique B. Rajão - Rio de Janeiro-RJ

Dentre as obras de ornitologia da região Nordeste destaca-se o livro «Aves da Paraíba» de autoria de Heretiano Zenaide (1953, Editora Teone, João Pessoa, 215 p.) por seu rico conteúdo e tema incomum.

Durante os vinte anos posteriores a sua publicação este livro permaneceu ignoto entre os mais ilustres especialistas do ramo. Olivério Pinto (1886-1981) que preponderou por 40 anos e a quem Sick (1985:116) chamou de «nestor» da ornitologia brasileira, embora tenha publicado importantes artigos sobre a distribuição das aves do Nordeste não chegou a conhecê-lo; nenhuma menção deste livro neste período aparece nos artigos de Sick, Novaes etc. Olivério Pinto, sem dúvida, teria dado especial atenção a este livro dado que sempre demonstrou, através de seus trabalhos, um gosto especial por resgate de informação, bem como pela própria história da nossa ornitologia. Por falar em ornitologia, dentre todas as regiões brasileiras o Nordeste extremo (entre o Ceará e Alagoas) está entre as menos conhecidas embora paradoxalmente seja daí que provenha a mais importante obra sobre História Natural do Brasil Colônia (séc. XVII), durante o período de invasão holandesa: Historia Naturalis Brasiliae de Marcgrave. Trabalhos de conjunto da avifauna sobre o Nordeste extremo são conhecidos apenas os de Hellmayr (1929) sobre as aves do Maranhão, Piauí e Ceará; a série de três trabalhos de O. Pinto: Pernambuco (1940); Alagoas (1954) e Ceará, Paraíba, Alagoas e noroeste da Bahia (1961) e as listas comentadas de Forbes (1881) e Lamm (1948), ambos de Pernambuco/Paraíba e Berla (1946) sobre aves da mata atlântica de Pernambuco.

O mérito de divulgação do livro de Zenaide coube ao zoólogo francês radicado no Brasil Pierre Louis Dekeyser (1914-1984) que durante o período em que foi professor titular da Universidade da Paraíba divulgou-o através do artigo «Avifauna aquícola continental do Brasil», publicada em 1978 pela Revista Nordestina de Biologia. Desde então as citações sobre «Zenaide (1954)» e espécies presentes neste livro se acumulam na literatura regular, tendo em vista principalmente a existência de dados sobre espécies ameaçadas, como o Pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa) ou pouco conhecidas como a Negrinha (Netta erythrophthalma).

É nosso propósito, conforme apresentado no III Congresso Brasileiro de Ornitologia, Pelotas em 1993, apresentar um trabalho mais extenso de análise das espécies constantes do livro de Zenaide (total de 174 espécies), a partir de suas descrições dentro de uma visão crítica para dirimir dúvidas e restabelecer a relação entre os nomes empregados provisoriamente por este autor e a nomenclatura atual vigente. Este artigo encontra-se em fase final de preparação.

Uma outra questão não tratada no nosso trabalho de Congresso está relacionada a figura de Heretiano Zenaide. Quem foi este autor? Na tentativa de elucidar esta curiosidade biográfica recorremos ao Instituto Histórico Geográfico Paraibano e ao zoólogo cearense, entusiasta de história da Zoologia, Melquíades Pinto Paiva. Através do sinuoso caminho da pesquisa chegamos ao jornalista Helio Nóbrega Zenaide, filho de Heretiano que nos forneceu quase a totalidade dos dados aqui divulgados. Aos dois últimos somos particularmente gratos.

Heretiano Zenaide Nóbrega de Albuquerque nasceu em Alagoa Grande, Paraíba, no dia 25 de setembro de 1887, filho do senador Apolônio Zenaide Peregrino de Albuquerque Montenegro e de Dona Josefa de Gouveia Nóbrega. Formou-se em 1909 pela Faculdade de Direito do Recife e casou-se com sua prima Dona Maria Elvídia Nóbrega Zenaide com quem teve 20 filhos. Foi vereador e prefeito de sua terra e deputado estadual por diversas legislaturas e após a Revolução de 1930, deputado federal até o golpe de 1937.

Durante o período de sua legislatura federal na então Capital, passava a maior parte do tempo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e bibliotecas de História Natural, onde se dedicou ao estudo da botânica e zoologia. Viajava regularmente a São Paulo onde freqüentava habitualmente o Horto Florestal da Cantareira.

Na Paraíba, suas observações zoológicas e botânicas se concentraram nos municípios de Alagoa Grande e Soledade com eventuais excursões ao litoral, rio Gramame e Cabo Branco. Entre 1926 e 1951 foi proprietário da Usina Tanques (07o00’S,35o38’W) em Alagoa Grande, tantas vezes mencionada em seu livro, onde montou um horto florestal de essências locais de que muito se orgulhava. Possuía também outras propriedades de agricultura e criação em diversos municípios paraibanos. Em Alagoa Grande, além da principal acima mencionada, teve o Engenho Barra Nova e a fazenda Bastiões. A fazenda Bananeiras, em Monteiro. No município de Soledade as fazendas Flores e Timbaubinha. Ainda no município de Juazeiro a fazenda Pedras Pretas e no município de João Pessoa a fazenda Santo Antônio. Todas em menor ou maior grau serviram de palco para suas pesquisas.

Heretiano Zenaide veio a falecer em 13 de dezembro de 1971, em João Pessoa, aos 84 anos.

Sua bibliografia é composta dos seguintes títulos:

1) As ruínas da Praia do Poço (1946). Rev. Inst. Hist. Geogr. Paraib.,10:129-131.

2) Palestra com os fazendeiros (1948). Liv. Popular: João Pessoa, 48 p.

3) Sertão de João Pessoa (1950). A União (jornal de João Pessoa): 16 VII 1950; 23 VII 1950; 13 VIII 1950: 20 VII 1950.

4) Aves da Paraíba (1953) Ed. Teone: João Pessoa, 215 p.

5) Livrinho de Nossos Animais (1955) Ed. Teone: João Pessoa, 134 p.

6) Meu Herbário Cariri (1990) Coleção Mossoroense nº36, ESAM: Mossoró, 241 p. (obra póstuma, escrita em 1955).

Esta pequena nota pretende ser a primeira de uma série (GALLERIA BIOGRAPHICA) a ser publicada no ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS que abordará traços bibliográficos de pessoas que se dedicaram à ornitologia brasileira, especialmente aquelas sobre as quais pouco se tem publicado. Neste espaço falaremos em breve de Herbert Berla e Adolf Schneider, ambos ornitólogos com passagens pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro.

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Laboratório de Ornitologia, Depto. Zoologia. Instituto de Biologia CCS - Cidade Universitária, 21944-970 Rio de Janeiro, RJ Brasil.


 

Um registro de albinismo em Columbina talpacoti (TEMMINCK, 1811) para o Rio de Janeiro

Francisco Mallet-Rodrigues - Rio de Janeiro-RJ

A rolinha-caldo-de-feijão, Columbina talpacoti (Temminck, 1811), também conhecida por rolinha-roxa, rola-cabôcla ou sangue-de-boi (Andrade 1982) apresenta-se como a mais conhecida das espécies brasileiras de columbídeos (Sick 1985). Típica de paisagens meio abertas, adaptou-se muito bem ao ambiente urbano, tornando-se a ave mais abundante em metrópoles como o Rio de Janeiro (Sick 1985). A espécie distribui-se do México à Argentina, sendo acidental no Chile e EUA (Hellmayr & Conover 1942; Meyer de Schauensee 1970; AOU 1983). É encontrada em todo o Brasil (Pinto 1978; Sick 1985).

O albinismo, como forma de heterocroísmo (Harrison 1964) ou caso extremo de hipocroísmo (Mayaud 1950), caracteriza-se pela perda da pigmentação da pele, pés, íris e bico (Pettingill 1970). A ausência de melanina nos albinos é devido a falha na síntese do pigmento pela enzima Tirosinase (Lucas & Stettenheim 1972).

No Brasil tem sido relatado o albinismo em algumas aves (Oliveira 1981, 1983; Veiga & Pardo 1990, Coelho & Alves 1991, Pomarède 1991), sendo um fenômeno relativamente raro. Entretanto, a muito tempo vêm sendo selecionadas e desenvolvidas em cativeiro algumas variedades ou raças de várias espécies exóticas de Columbidae, nas quais busca-se fixar a ausência total ou parcial de pigmentos na plumagem. Informação sobre albinismo em C. talpacoti é dada, por Flecha (1986), de forma muito breve. Esse autor refere-se a uma fêmea, de sua propriedade, toda branca com os olhos vermelhos e que libera da plumagem grande quantidade de pó branco.

Em Columbina talpacoti, os machos apresentam uma coloração marrom chocolate fortemente contrastante com o cinza azulado da cabeça. As fêmeas têm coloração mais pálida e uniforme. Em ambos os sexos encontram-se pequenas pintas nas coberteiras superiores das asas. É conhecida uma mutação canela (Sick 1985).

Em fevereiro de 1985 foi observado um pequeno columbídeo branco junto a um grupo de C. talpacoti. O grupo distribuía-se pelo solo de um terreno localizado numa área bastante urbanizada da cidade do Rio de Janeiro. O indivíduo branco, que se alimentava de pequenos grãos, assim como os outros indivíduos, apresentava-se sem a cauda.

Observado mais atentamente, com o auxílio de um binóculo, a ave muito se assemelhava no aspecto, porte e comportamento a um típico C. talpacoti, exceto pela coloração extremamente clara.

Com a utilização de uma gaiola-armadilha, colocado no solo, e um pouco de sementes de alpiste, no interior da mesma, foi possível atrair as aves. Entretanto, somente o indivíduo branco entrou na gaiola e foi capturado.

Um exame mais detalhado revelou tratar-se de um indivíduo de Columbina talpacoti portador de albinismo imperfeito. Segundo Pettingill (1970), o albinismo imperfeito é um dos quatro tipos conhecidos de albinismo (total, incompleto, imperfeito e parcial) e ocorre quando todos os pigmentos são reduzidos (diluídos) ou pelo menos um dos pigmentos está ausente em alguma área ou em todo o corpo do animal. Apesar da plumagem apresentar-se muito clara, o indivíduo possuía as pintas típicas nas asas, embora um pouco mais claras que nos indivíduos normais. O dorso apresentava uma suave pigmentação, como se a ave branca estivesse coberta por uma leve camada de fuligem. A cauda encontrava-se com as retrizes totalmente quebradas, restando apenas parte do cálamo de cada pena. O bico, de coloração rosada, era completamente diferente do bico cinza plúmbeo dos indivíduos normais. As patas apresentavam um tonalidade rósea pouco mais clara que nas aves normais, no entanto as unhas eram brancas e não escuras. A íris, geralmente castanha avermelhada, diferia pouco do encontrado nos indivíduos normais. (Fotografia)

Mantido em cativeiro, o animal a princípio mostrou-se muito agitado, mas em pouco tempo acalmou-se e passou a conviver harmoniosamente com outros C. talpacoti no mesmo recinto. Não foi constatada qualquer diferença no comportamento do albino para o observado nos indivíduos normais.

Com alguns meses de cativeiro constatou-se uma maior fragilidade da plumagem do albino, uma vez que o indivíduo não mantinha a cauda em perfeito estado por muito tempo. As retrizes, de coloração cinzenta com a extremidade branca, tão logo cresciam quebravam-se. Indivíduos normais, mantidos nas mesmas condições, apresentavam sempre a cauda em excelente estado. Esse fato talvez confirme a informação do que os pigmentos dão a pena boa resistência, tornando-a mais sólida e menos sujeita a abrasão (Mayaud 1950; Sick 1985). Não foi constatada a presença de pó branco, como cita Flecha (1986), sendo possível que esse pó, encontrado intensamente por aquele autor, seja resultado da maior abrasão sofrida pelas penas despigmentadas.

A vocalização do albino era idêntica a de um indivíduo normal, e diante da insistência em vocalizar e cortejar as fêmeas presume-se que a ave fosse um macho.

Em momento algum foi observada uma maior sensibilidade à luz, possivelmente porque a pigmentação da íris não era tão deficiente, sendo muito semelhante à de um indivíduo normal.

Conclui-se assim que o albinismo aparentemente afetou pouco ou nada o comportamento do indivíduo, sendo a plumagem a mais afetada. Uma maior fragilidade apresentada pela plumagem da ave albina, em relação a plumagem das aves normalmente pigmentadas, talvez corresponda a desproteção causada pela ausência do pigmento, como citado anteriormente. Entretanto, somente um estudo minucioso poderia ou não confirmar essa hipótese.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à José Fernando Pacheco e ao Prof. Luiz Antonio Pedreira Gonzaga pela leitura crítica e sugestões ao texto original.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

American Ornithologists’ Union. 1983. Check-list of North American birds. 6th. edition. Washington: Am. Ornithol. Union.

Andrade, G. A. 1982. Nomes populares das aves do Brasil. SOM-IBDF, Belo Horizonte.

Coelho, E. P. & V. S. Alves. 1991. Um caso de albinismo em Sula leucogaster na ilha de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Ararajuba 2: 85-86.

Flecha, E. A. 1986. Criação e mutações. Parte 9. SOBoletim 10: 3-9.

Harrison, J. M. 1964. Plumage, abnormal and aberrant. in: (ed. A. L. Thomson) A new dictionary of birds. London: Nelson. Hellmayr, C. E. & B. Conover. 1942. Catalogue of birds of the Americas. Vol. XIII, Part I (1). Chicago: Field Museum of natural history.

Lucas, A. M. & P. R. Stettenheim. 1972. Avian Anatomy-Integument. Part. II. Washington: U. S. Department of agriculture.

Mayaud, N. 1950. Téguments et phanères. in: (ed. P. P. GRASSÉ) Traité de Zoologie. Tome Xv. Paris: Masson & cie.

Meyer de Schauensee, R. 1970. A Guide to the birds of South America. Narbeth: Livingstone Press.

Oliveira, R. G. 1981. A singela história de um urubú albino. Anais da Soc. Sul-rio grandense de Ornit., II: 23-24.

Oliveira, R. G. 1983. Variação de cor na plumagem do cardeal do sul (Paroaria coronata Miller, 1776). Anais da Soc. Sul-rio grandense de Ornit., IV: 10-12.

Pettingill, O. S. 1970. Ornithology in Laboratory and field. 4th. edition. Minneapolis: Burgess publishing Company.

Pinto, O. M. O. 1978. Novo catálogo das aves do Brasil. I. São Paulo: Secretaria de Agricultura.

Pomarède, M. 1991. As mutações e as variedades brancas de aves de gaiola. Atualidades Ornitológicas, 40:13-14.

Sick, H. 1985. Ornitologia brasileira, uma introdução. 2 Vols. Ed. UnB.

Veiga, L. A. & E. Pardo. 1990. Ocorrência de um caso de albinismo em Sabiá-laranjeira. Arq. Bol. Tecnol. 33(2):329-333.

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Francisco Mallet-Rodrigues

UFRJ, Instituto de Biologia, Departamento de Zoologia, Cidade Universitária, CEP 21944-970, Rio de Janeiro, RJ.

 

 

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