Andorinhas e andorinhões: uma histórica confusão que deve ser evitada

Mauro Pichorim - Curitiba-PR

 

Desde os tempos mais longínquos, o estudo das aves e o relacionamento dos homens com elas sempre mereceu grande importância nas mais variadas culturas. Tanto pelo canto, plumagem e capacidade de vôo são, ao longo de séculos, objetos de admiração e por que não dizer de inveja, visto a liberdade que nos inspira. As mais variadas formas nos mostram um mundo de beleza e força, onde aparentes criaturas débeis, demonstram exuberante resistência física. Dar nomes a estes seres sempre foi preocupação e necessidade dos homens, assim, sistemas nomenclaturais diferenciados surgiram nas mais variadas culturas e regiões. Estes basearam-se e baseiam-se em aspectos como alimentação da ave, hábitos, sua utilização por determinada comunidade, tipo de canto e coloração da plumagem. Sendo assim, os nomes populares ou nomes vernaculares, surgiram de maneiras variadas e são ligados à região de origem, portanto, uma mesma ave com ampla distribuição pode ter 2, 3, 4 ou até 5 nomes diferentes no Brasil e se considerarmos todo continente americano esta quantidade no mínimo triplicaria.

Não devemos ver isto como um problema, pois cada nome tem seu valor quando expressa as diferenças culturais de cada localidade. Contudo, o que me preocupa são as denominações que generalizam certos grupos de aves, como no caso das andorinhas e andorinhões que possuem apenas aparências semelhantes, o que basta para serem considerados popularmente como uma única qualidade de ave. Portanto, partindo do ponto de vista que informação nunca é demais, gostaria de esclarecer as diferenças destas aves e o porquê de suas semelhanças.

Pela maneira como os nomes populares sugerem, aparentemente é implícita uma diferença morfológica de tamanho em aves estritamente relacionadas, sendo as andorinhas menores e os andorinhões maiores, implicando muitas vezes na crença de que as andorinhas são filhotes dos andorinhões. É curioso ressaltar que esta confluência de nomes não ocorre em outras línguas. No espanhol «golondrina» é uma variação de «golondre» que, por sua vez, deriva da palavra latina «hirundo» que significa andorinha; e «vecenjo» é uma alteração do antigo «oncejo», que pode significar tanto unha - que está de acordo com as fortes garras dos andorinhões -, como foice - correspondendo à figura arqueada destas aves. Já no inglês, andorinha é chamada de «swallow», que é igual a deglutir ou deglutição, isto em alusão a seu alto consumo de insetos; e andorinhão de «swift», o que corresponde a rápido ou veloz, devido a sua grande capacidade do vôo. Portanto, vemos que os nomes em português têm pouco a ver com a biologia e comportamento destas aves e ao mesmo tempo contribuem para confundir, pois as diferenças entres estes grupos são muito maiores do que parecem. O mais correto seria utilizar os nomes «taperá» e «taperuçu» - de origens tupi -, para designar os ditos andorinhões, visto que derivam de «tapera» que significa taba ou aldeia abandonada, o que corresponde à preferência destas aves em habitar construções, silos ou então chaminés abandonados. A persistência desta confusão encontra-se até nas denominações científicas, pois, muitas vezes semelhantes raízes foram utilizadas na composição dos nomes das diversas espécies destes controversos grupos. Como a palavra «progne» de origem grega, que está presente nos gêneros Progne e Phaeoprogne da família Hirundinidae (andorinhas) e no gênero Streptoprocne da família Apodidae (andorinhões). Além deste, outros exemplos existem, o que não aclara nossa discussão e evidencia uma histórica confluência, a qual é sobremaneira difícil de ser revertida.

Deixando de lado as questões etimológicas e partindo para as comparações morfológicas, ressalto em primeiro lugar, como diferença marcante, a incapacidade dos andorinhões de se empoleirarem sobre fios da rede elétrica, antenas, galhos e outros substratos horizontais. Isto se deve a modificações nos pés, tornando-os adaptados somente para agarrarem-se a superfícies verticais ásperas (fig. 1). Por isso, somente andorinhas são vistas empoleiradas, os andorinhões, após deixarem seus locais de pernoite, o que correspondem no ambiente natural a ocos de grandes árvores, grutas de pedra e folhas secas de palmeiras, permanecem em vôo durante a maior parte do dia.

Quanto a coloração, as andorinhas possuem geralmente o dorso em tons escuros de azul e verde que a longa distância pode parecer preto; o ventre é comumente esbranquiçado. Já os andorinhões são de tonalidades parda-fuliginosas ou pretas em todo o corpo, com pequenas áreas do pescoço e ventre esbranquiçadas ou então acinzentadas.

Em vôo, a distinção pode ser mais patente pelas manobras mais graciosas com batidas de asas não tão rápidas e a baixa altura das andorinhas, em comparação com os vôos agitados e mais elevados dos andorinhões com rápido bater de asas. Pela silhueta as andorinhas possuem asas mais largas e a cauda é geralmente bifurcada, os andorinhões têm caudas em forma de cunha sendo poucas as espécies de cauda furcada e as asas são estreitas, longas e curvas lembrando a forma de um bumerangue (fig. 2). O tamanho nada pode indicar pois existem espécies de andorinhões, como a Chaetura brachyura que são bem menores que muitas andorinhas - e algumas andorinhas, como Progne calybea, que são bem maiores que muitos andorinhões.

Em uma análise mais detalhada e não tão superficial, vemos o porquê da separação destas aves não só em famílias diferentes como em ordens a partes, adotada pelos taxonomistas, apesar das aparentes semelhanças. A família Hirundinidae, pertencente a ordem Passeriformes (que compreende 55% de todas as aves mundiais e é representada pelos ditos pássaros no geral), compõem-se de aproximadamanete 74 espécies de andorinhas distribuídas pelo mundo inteiro, com exceção do continente Antártico. São pássaros que habitam lugares abertos próximos à água e se alimentam de insetos voadores e de outros artrópodos sustentados pelo ar a média altura, também podem coletar seu alimento diretamente do chão, o que é menos freqüente. A vocalização é pobremente desenvolvida composta por chilreados mais ou menos melodiosos emitidos em vôo ou de um poleiro. Seus movimentos migratórios são amplos e talvez os mais conhecidos de todas as aves, não são devidos às mudanças climáticas, mas sim pela concentração de insetos. Possuem no máximo nove rêmiges primárias, que são as principais penas das asas responsáveis pelo vôo, característica em comum com os demais pássaros canoros. A família Apodidae é pertencente a ordem Apodiformes, denominada assim em alusão aos pés diminutos como se faltassem. Esta família é composta por aproximadamente 82 espécies amplamente distribuídas pelo mundo com rotas migratórias pouco conhecidas. Suas asas são adaptadas para vôos de altas velocidades com o úmero pequeno e grosso, ulna curta e carpo longo possuindo no mínimo 10 rêmiges primárias sendo as secundárias bastante curtas. São as mais aéreas de todas as aves, podendo permanecer uma noite inteira em vôo e únicos em copulação no ar, embora também o façam no ninho. Alimentam-se de artrópodos que voam ou que são suspensos pelo ar, mas em maiores alturas que as andorinhas. Vocalizações de grupo ocorrem pela manhã, tarde e quando em seus locais de pernoite. O material de seus ninhos muitas vezes é aderido com saliva, produzida sazonalmente em grande escala pelas glândulas salivares. No caso de algumas espécies, como Aerodramus fuciphagus, natural da Ásia e Oceania, os ninhos são quase que completamente confeccionados com saliva e, por isso, são muito procurados como iguaria.

Portanto, pelas grandes diferenças existentes entre andorinhas e andorinhões, não seria correto agrupá-los em uma única unidade taxonômica pelas simples aparências externas. Na verdade, esta aparência se dá por meio de uma convergência morfológica, ocorrida em ambos os grupos para poderem usufruir do mesmo hábitat e não por afinidades filogenéticas. Isto quer dizer que o ambiente onde andorinhas e andorinhões vivem, seleciona os indivíduos de maneira a permitir somente um padrão morfológico básico, que seria um corpo aerodinâmico com capacidade de planar, bico achatado e largo e pés pequenos e fracos, tornando-os semelhantes apesar das diferentes posições que ocupam na escala evolutiva.

Os andorinhões do Paraná somam ao todo 7 espécies. A menos conhecida é, com certeza, o andorinhão-de-coleira-falha (Streotoprocne biscutata) -fig. 3 e 4 - que foi registrada somente nos anos de 1907 e 1959 em nosso estado. Atualmente voltamos a encontrá-la na porção leste paranaense em uma gruta granítica na Serra do Mar. Esta gruta recém descoberta, e uma outra em Minas Gerais, são os únicos locais conhecidos onde esta ave se reproduz em toda sua área de distribuição. Portanto, percebemos que tínhamos em mãos uma ótima oportunidade de obter novos e inéditos dados sobre esta espécie, contribuindo para sua preservação através do conhecimento de suas necessidades básicas e das principais pressões antrópicas que sofre. Elaboramos, então, o projeto Biologia e Conservação do Andorinhão-de-coleira-falha (Streptoprocne biscutata) na Serra da Baitaca, Floresta Atlântica Paranaense, o qual está sendo patrocinado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza desde agosto de 1994 e conta com os biólogos Bianca L. Reinert e Marcos R. Bornschein na equipe técnica. O objeto maior de tal trabalho é ampliar o conhecimento sobre os andorinhões brasileiros, dando o primeiro passo para projetos subseqüentes que abordarão outros apodídeos, visto serem estas aves muito esquecidas pela comunidade científica devido principalmente às dificuldades de trabalho em campo, e por serem muito confundidas ou ignoradas pela população em geral. Sendo assim, pedimos a participação dos leitores neste trabalho contribuindo com qualquer informação sobre estas aves, comunicando-nos sobre novas grutas de pernoite ou áreas onde hajam grandes concentrações de andorinhões.

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Mauro Pichorim

Divisão de Museu de História Natural, Prefeitura Municipal de Curitiba, Rua Benedito Conceição 407, Curitiba-PR 82810-080.

 

Figura 1 - A única maneira de um andorinhão pousar é agarrando-se à superfícies verticais ásperas, como demonstra o desenho

Figura 2: demonstração das diferenças entre as silhuetas de um andorinhão (A) e de uma andorinha (B).

Figuras 3 e 4: dois perfis do andorinhão-de-coleira-falha (Streptoprocne biscutata), espécie muito pouco conhecida.

 

 

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