Adolf Schneider (1881-1946)

Alguns dados sobre a vida e obra do chefe da expedição de 1939 do Museu de Ciências Naturais de Berlim que trouxe Helmut Sick para o Brasil

José Fernando Pacheco e Claudia Bauer - Rio de Janeiro

Adolf Schneider em 1943

Dentre os ornitólogos estrangeiros que investigaram nossa avifauna, inegavelmente, sobre alguns persiste - como Adolf Schneider - a quase ausência de dados biográficos publicados. Nossos historiadores e pesquisadores desfilaram inúmeros comentários sobre Natterer, Spix, Maximilian de Wied, Langsdorff e outros famosos viajantes do século passado, pioneiros que foram da investigação metódica de nossa terra, identificando neste processo advindo da "abertura dos portos as nações amigas" um período denominado clássico. A história das expedições científicas e de seus participantes realizadas nesse século aguarda ainda, logicamente por razões de prioridade cronológica o mesmo tratamento dispensado a essas iniciativas mais antigas. No campo da historiografia ornitológica brasileira falta, p. ex. detalhar os eventos e resultados das campanhas da célebre Comissão das Linhas Telegráficas e Estratégicas, mais tarde Comissão Rondon, os avanços da Fundação Brasil Central, os detalhes das excussões de Emil Kaempfer, a serviço do Museu Americano e tantas outras. Quanto à Expedição de 1939 do Museum für Naturkunde der Humboldt-Universität zu Berlin nada se divulgou na forma de resultado de conjunto. O relativo pouco tempo decorrido - com testemunhas ainda vivendo entre nós - e a simultaneidade com a Segunda Grande Guerra implicam na quase ausência de dados a respeito. Embora fizesse parte dessa expedição Helmut Sick (1910-1991), consagrado anos mais tarde como Sênior da Ornitologia Brasileira poucas menções estão consignadas na literatura específica. Uma breve menção deste episódio e seus participantes faz parte das notas existentes em Pinto (1979:41 ); em outro artigo pouco conhecido sobre a contribuição germânica ao estudo das aves brasileiras, Pinto (1968) relaciona esta expedição como sendo a derradeira das iniciativas alemãs neste campo no Brasil. Sobre Sick, sua vida, sua obra e sua permanência no Brasil, de certo muito ainda se escreverá (Gonzaga,1991, Haffer & König, Haffer & König, 1992, Nomura, 1991); enquanto sobre Adolf Schneider, idealizador e chefe da expedição, nem mesmo um necrológio Ihe foi consignado (no pós-guerra muitos periódicos alemães foram interrompidos).

A nossa intenção foi resgatar e reunir nesta nota uma base de dados biográficos que contribuam para o delineamento das atividades deste pesquisador autodidata, especialmente no Brasil, prestigiando sua iniciativa e destacando os pontos que devem ser registrados no contexto Brasil-expedições estrangeiras.

Na Alemanha, sua origem, formação e atividades

Adolf Schneider, filho de (Wilhelm) Schneider e Elizabeth Hollemberg Schneider, nasceu em 14 de fevereiro de 1881 na cidade de Marxloh, no distrito industrial do vale do Rühr. Na virada do século concluiu seus estudos básicos demonstrando preferências por ciências naturais e música, da mesma forma que seus cinco irmãos. Em seguida prestou concurso e ingressou num seminário onde então se preparou para a carreira do magistério. Durante 22 anos conduziu o Liceu de Oranienburg no cargo de reitor. Suas aptidões musicais se evidenciaram durante suas atividades como compositor e regente de um coral. 0 coral sob sua regência participou de muitos festivais alemães e austríacos durante cerca de 20 anos. Na primeira década do século casou-se com Margarete Dietrich, natural de Wetzlar, tendo nascido dessa união duas filhas: Helena e Gertrudes.

Por algum tempo foi assistente do Prof. 0. Hertwig (1849-1922) em Berlim, onde adquiriu conhecimentos aprimorados de histologia e anatomia (Gebhardt 1964, Henteschel & Wagner, 1993). Essa aptidão e a forte influência exercida por seu grande amigo ornitólogo Oskar Heinroth ( 1871 -1945 ) o levou a concluir e publicar dois estudos anatômicos: o primeiro sobre o peru Meleagris gallopavo (Schneider,1931) e o segundo sobre um faisão de Borneo, Lophura bulweri (Schneider,1936) que complementava os estudos sobre o cortejo nupcial da espécie publicados simultaneamente por Heinroth (1936). Embora seu interesse principal na zoologia tenha sido até então o estudo dos peixes, a partir de 1931 associou-se a "Deutsche Ornithologen-Gesellschaft", Sociedade Ornitológica Alemã e passou a trabalhar como assistente do Prof. Dr. Erwin Stresemann (1889-1972) no Museu de Berlim. O crescente interesse pela avifauna brasileira foi evidenciado no estudo que realizou das gravuras de aves do Brasil Holandês estampadas no século XVII (Schneider, 1938). 0 resultado deste estudo tornou-se a contribuição de Schneider mais conhecida. Coube-lhe determinar a utilização correta e ainda vigente, dos nomes Lineanos de Fluvicola nengeta e Trogon curucui, bem como Hydropsalis brasiliana de Gmelin baseados, precipuamente, em descrição e pranchas do livro Historia Naturalis Brasiliae ( 1648)  de Marcgrave cujos originais pôde examinar na Biblioteca de Berlim.

Primeira visita ao Brasil

Sua filha mais nova Gertrudes, nascida em 1912, casou-se na Alemanha com o argentino de descendência germânica Alberto Kehl (1906-1976) e mudou-se para o Brasil em janeiro de 1931. Kehl na ocasião veio trabalhar para a firma argentino-germânica Lutz Ferrando, de equipamentos de precisão, na cidade de São Paulo. Em 1935, o casal, já residindo em Niterói, recebeu a visita dos pa is, Adolf e Margarete Schneider, quando da iminência do nascimento do terceiro filho do casal. Aproveitando-se dos passeios familiares pôde ele conhecer os arredores de Niterói sobretudo a restinga da lagoa de Piratininga e visitar a floresta serrana dos arredores de Mury, Nova Friburgo onde um amigo da família Richard Reverdy, mantinha o Sítio Dorothea. Essa curta visita de três semanas - julho e agosto - fez despertar em Schneider o interesse pela exuberante avifauna neotropical e foi a mola propulsora da intenção de retornar ao Brasil para realizar uma expedição de maior envergadura.

Projeto e articulação da Expedição Brasileira de 1939.

A partir daquele momento quando de seu retorno à Alemanha em agosto de 1935, Schneider começou a trabalhar na idéia de montar uma expedição zoológica ao Brasil. Em 1937 submeteu à Academia Prussiana de Ciências Naturais o projeto de expedição ao Brasil para obtenção de fundos que resultou na concessão de 3.0C0 marcos. 0 parecer favorável da Academia permitiu também a liberação adicional de 2.400 marcos do Conselho de Pesquisas Alemão. Quando em 1938 a Sociedade Ornitológica Alemã Ihe confiou o cargo de 2º presidente, pôde Schneider obter o apoio final necessário. Com aval oficial amplo não foi difícil conseguir apoio de empresas fabricantes de equipamentos e material de uso científico como Leitz e Kodak. Este plano também recebeu o suporte importante do presidente da Sociedade e diretor do Museu de Berlim, Dr. Erwin Stresemann, talvez o maior ornitólogo do século.

EXPEDIÇÃO DE 1939 DO MUSEU DE BERLIM

Da esquerda para direita: Helmut Sick, Antonio Aldrighi, Adauto Miranda - caçador local, Adolf Schmeider e Margarete Schneider

No Brasil intercedia por Schneider junto às instituições o seu genro Alberto Kehl que, por ser representante dos microscópios Leitz, mantinha contato amigável com ilustres cientistas brasileiros como, p. ex: Dr. Lauro Travassos (1890-1970). 0 próprio Schneider escreveu a partir de 1937 algumas vezes ao diretor do Museu Nacional, geólogo Alberto Betim Paes Leme (1883-1938) e ao próprio Lauro Travassos para obter orientação quanto ao seu projeto de realizar uma expedição zoológica ao Brasil. Uma das cartas endereçadas a Travassos, escrita em francês, datada de 2 de dezembro de 1937, encontra-se no arquivo do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil vinculado ao CNPq, daqui em diante denominado apenas Conselho.

De acordo com as orientações recebidas Schneider dirige-se ora ao diretor do Museu Nacional, ora ao Ministério da Agricultura a fim de conseguir, respectivamente, patrocínio e autorização para a realização de seu projeto. Suas gestões iniciais junto ao Museu não receberam o desejado retorno conforme pode-se verificar através do teor contido no ofício 118 de 12 de maio de 1938. Neste documento, a então diretora do Museu Nacional, professora Heloísa Alberto Torres (1895-1978), queixando-se da conduta do zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939), por não fornecer as informações por ela solicitadas para o cumprimento da missão, dirige-se ao Presidente do Conselho em tom de desabafo afirmando que "...para não deixar à mercê de fantasias de um funcionário [Miranda-Ribeiro] o bom andamento do serviço público...  o Museu Nacional não mais patrocinará expedições científicas", por considerar que as atividades de patrocínio seriam conflitantes com as de fiscalização, cuja tarefa caberia igualmente ao Museu segundo legislação em vigor.

Esgotada a possibilidade de apoio do Museu Nacional a expedição somente se concretizou graças a intervenção de Lauro Travassos, em tempo hábil, que transformou a expedição ornitológica do Museu de Berlim, de caráter específico em expedição conjunta financiada pelo Instituto Osvaldo Cruz para coleta paralela de material parasitológico. O ofício 165/39 de 26 de maio de 1939 do Conselho concedeu definitivamente a autorização para a realização da expedição do Museu de Berlim/ Instituto Oswaldo Cruz para pesquisas no norte do Estado do Espírito Santo com duração prevista de seis meses. O ofício remetido em 25 de abril de 1939 por Schneider ao Ministério Brasileiro das Relações Exteriores indicava como participantes alemães da expedição: Prof. Adolf Schneider, chefe; Dr. Helmut Sick, assistente e Margarete Schneider, taxidermista.

Para acompanhar o marido nessa missão e participar oficialmente da expedição, Margarete Schneider (1888-1946) se preparou freqüentando um curso de taxidermia ministrado pelo preparador-chefe no Museu de Berlim, Herr Walter, dedicando-se com afinco e recebendo o diploma algum tempo antes da partida. O jovem Doutor Helmut Sick que se tornou, anos mais tarde, um dos grandes mestres da Ornitologia Brasileira, foi indicado por seu orientador E. Stresemann como participante. O Ministério da Agricultura, órgão ao qual estava subordinado o Conselho, através da diretoria da Divisão de Caça e Pesca (DCP) designou, como "fiscais" brasileiros da expedição, os técnicos Alvaro Aguirre (1899-1987) e Antônio Aldrighi, tendo em vista que o Instituto Oswaldo Cruz não se fez acompanhar por pesquisadores, mas sim por dois ajudantes de campo subalternos, coletores de material. Outro participante dessa expedição foi Adauto Miranda, do Departamento Nacional de Produção Animal, na condição de caçador da DCP.

Na época da expedição o baixo Rio Doce era uma das mais remotas regiões do sudeste do Brasil. Embora a fundação de São Mateus e Linhares datem, respectivamente, do século XVI e XVIII, ainda na década de 1940, a parte leste, arenosa, alagada e florestada ao norte do Rio Doce, Espírito Santo era praticamente despovoada (Egler, 1951, Aguirre, 1951). Este quadro, a pouca representação de aves do leste brasileiro no acervo do Museu de Berlim e a intenção de palmilhar as regiões percorridas pelo célebre Príncipe Maximilian de Wied-Neuwied em sua viagem ao Brasil, cuja obra foi estudada a fundo por Scneider, foram determinantes para a escolha dessa região como palco das atividades da expedição alemã. Conjugado as razões acima contribuiu para escolha a existência do enigmático jacu-taquara, Neomorphus geoffroy, notável cuculídeo terrícola cujo comportamento reprodutivo suscitava dúvidas - aventava-se naquela época que pudesse ser parasita - e que havia sido brevemente estudado por Snethlage (1927). Apenas, a título de colaboração, informamos aos interessados que a narrativa de viagem do Príncipe Maximilian nos anos 1815 até 1817 através das florestas existentes entre o Rio de Janeiro e a capital baiana, que tanto encantou e estimulou Schneider, encontra-se disponível em língua portuguesa (Wied, 1940).

Retorno ao Brasil e início da Expedição ao Espírito Santo

Schneider e esposa aportaram no Rio de Janeiro em 5 de julho de 1939, após 20 dias a bordo do navio Monte Rosa. Enquanto aguardavam a chegada de Helmut Sick, que somente pôde embarcar semanas depois, permaneceram como hóspedes da filha Gertrudes, residente em Niterói, antes de iniciar a expedição ao Espírito Santo.

Em visita ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, travou conhecimento com o zoólogo brasileiro João Moojen de Oliveira (1904-1985) responsável pela coleção de vertebrados da instituição, com quem iniciou atencioso e amigável contato. Moojen havia ingressado no Museu Nacional em janeiro de 1939 e já em 20 de junho de 1941 tornaria-se chefe da Divisão de Zoologia (Nomura, 1993). Neste primeiro encontro Schneider recebeu convite de Moojen para participar de uma excursão ao Tinguá, sopé da Serra do Mar - atualmente Reserva Biológica do Tinguá - nos dias 22 e 23 de julho de 1939, onde coletou os primeiros 20 exemplares de sua coleção ornitológica brasileira. Nos últimos dias de julho e início de agosto excursionou, repetidas vezes, à Lagoa de Piratininga onde fez várias observações sobre aves aquáticas obtendo cinco exemplares adicionais.

Através de contatos feitos no late-Clube de Niterói, com o Sr. Paul Krause e o Sr. Rahn foi possível excursionar na primeira semana de agosto pela Baía de Guanabara e visitar a propriedade do segundo situada em Boca do Mato, no sopé florestado da Serra de Nova Friburgo.

Com a chegada no dia 9 de agosto do navio Monte Oliva trazendo Helmut Sick - que ficou albergado no late-Clube por gentileza de Paul Krause - foram ultimados os preparativos para a expedição ao norte do Espírito Santo. A comitiva partiu no dia 11 de agosto em trem noturno na direção da capital capixaba, através do ramal da Estrada de Ferro Leopoldina. Chegando à Vitória no dia seguinte, permaneceram até o dia 15, quando então viajaram de automóvel até Linhares enquanto a bagagem, a parte, seguiu em caminhão fretado. O acampamento foi instalado em 20 de agosto no picadão da linha telegráfica Linhares-São Mateus, às margens do córrego Juerana, afluente do rio Cupido, bacia do rio Barra Seca. Este acampamento em forma de choupana de palha (veja a foto) abrigou todos os integrantes da expedição e especificamente os participantes da DCP até o dia 15 de setembro, quando Aguirre teve que retornar ao Rio por causa de notícias recebidas a respeito da saúde de suas filhas gêmeas recém-nascidas. Aguirre, Aldrighi e Miranda, independentemente, também coletaram, nesse intervalo de 25 dias, material zoológico. Tratava-se da primeira expedição de Aldrighi, recém contratado e na ocasião com 23 anos. Como curiosidade podemos relatar ainda que as 94 peles de aves trazidas pelo pessoal do DCP dessa expedição de 1939 (Aguirre & Aldrighi, 1983) formariam o marco inaugural das coleções iniciadas nesse ano para a formação do Museu de Caça e Pesca, mais tarde Museu da Fauna do Rio de Janeiro. Aguirre por outro lado era mais experiente, tendo já publicado alguns artigos, inclusive um determinado artigo versando sobre a caça e a pesca no rio Doce (Aguirre, 1938).

A comitiva alemã, os ajudantes do Instituto Cswaldo Cruz e mateiros locais baseados no mesmo acampamento, seguiram coletando material sob a chefia de Schneider até 11 de dezembro de 1939. A coleção composta de 683 peles de aves taxidermizadas (total computado até o retorno de Schneider ao Rio de Janeiro) teve origem nas extensas e altas matas de tabuleiro de feição amazônica que naquela época começavam nas imediações do acampamento e de outros pontos não muito distantes. Dentre esses se alistam o córrego Cupido, rio Pequeno, lagoa Juparanã, Fazenda Europa que eram alcançadas através de excursões a pé, com exceção da -um pouco mais distante - barra do rio Doce em Regência, cujos participantes resolveram explorar nas duas últimas semanas de outubro. Em Linhares e no acampamento Schneider obteve valioso auxílio logístico do Sr. Schmoeger, cônsul alemão. Notícias sobre os progressos da expedição através de cartas de Schneider e Sick foram enviadas ao editor Stresemann e publicadas no "Ornithologischen Monatsberichten". Menção especial merece a síntese da carta publicada (Schneider, 1941), escrita pelo chefe da expedição sobre os resultados oficiais da campanha de 1939.

Com o início da Segunda Grande Guerra em setembro e o esgotamento do prazo concedido pelo Conselho para a expedição, Schneider resolveu retornar ao Rio de Janeiro. A última ave. coletada na baixada florestada do norte de Linhares foi um gavião-pernilongo Geranospiza caerulescens, datado de 11 de dezembro de 1939. No caminho de volta, Schneider e Sick fizeram  um pequeno desvio na direção da cidade de Santa Teresa, situada na região Serrana Espírito-Santense e travaram breve contato com o jovem pesquisador local Augusto Ruschi (1916-1986), que mais tarde tornar-se-ia Delegado regional do Conselho. Na ocasião de seu regresso em Santa Teresa, Schneider resolveu dar por terminada a expedição e por conseguinte sua responsabilidade sobre os membros da comitiva, no caso explicitamente sobre Helmut Sick.

Sick como se depreende desse fato permaneceu sozinho no Espírito Santo por sua própria conta e a partir daí passou a se corresponder diretamente com Stresemann continuando a reunir mais material zoológico para o Museu de Berlim. Uma carta de Sick ao diretor do Museu de Berlim encontra-se arquivada no Conselho, datada de 18 de fevereiro de 1940, versando sobre essa nova situação. Sabia Sick então que o seu retorno ao Rio poderia significar a sua convocação imediata para a guerra, embora não pudesse declarar abertamente as razões da sua permanência. Interpretações a parte, seu posicionamento na época contra o regime transparecia nitidamente em conversas testemunhadas com amigos como o Prof. Ernst Marcus (1893-1968) da USP e Herbert Levy, da Harvard University, ambos de origem judaica (Johann Becker, com. pess.). A direção do Museu de Berlim, entretanto, somente considerou como terminada a gestão oficial de Schneider sobre a "Brasilien-Expedition" a data específica de 1º de julho de 1940, talvez por demanda de trâmites burocráticos.

Atividades de Schneider no seu retorno ao Rio de Janeiro

O contato realizado com João Moojen antes da partida ao Espírito Santo permitiu que Schneider, a título de colaboração, pudesse inventariar e determinar cientificamente um grande número de material ornitológico depositado na coleção seriada do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Seus conhecimentos taxonômicos sobre aves brasileiras adquiridos na Alemanha e sua personalidade laboriosa e metódica fizeram de Schneider o principal organizador da coleção ornitológica do Museu Nacional no início dos anos 40, quando o acervo atingia cerca de 25.000 peles. Quase todo o material remanescente desse período existente nas coleções atuais trazem nas etiquetas adicionais de gabinete a identificação corrente da época e a chancela "determinado por A. Schneider". Ocupava-se também do estudo e coleta de aves nos arredores de Niterói, cujas excursões fez muitas vezes concomitante aos passeios para banho de mar ou piquenique da família. A maioria de seus achados são, em sua maioria, provenientes da lagoa de Piratininga, embora esparsamente conste algumas menções em seus diários - em 1940 e anos subseqüentes - para Pendotiba, Horto Botânico, Ingá, Icaraí e Saco de São Francisco.

Outro local que teve oportunidade de conhecer foi Pati dos Alferes (veja o registro de Piranga flava em Schneider & Sick, 1962). Sua experiência como professor e o contato estabelecido com o Dr. Ferdinand Künzig, professor e ex-Diretor do Colégio Humboldt-Deustsche Schule do Rio de Janeiro fizeram com que Schneider recebesse o convite para ministrar aulas na colônia de férias existente na Fazenda Tinguá de propriedade do Sr. Kurt Gies que o hospedou e o apoiou nas pesquisas ornitológicas desenvolvidas nos arredores. Um pouco da história do antigo e tradicional Colégio Cruzeiro (ex- Humboldt) e dessa colônia de férias está inserido na narrativa de Borges & Nägele (1962). Dentre os achados - ainda inéditos - relevantes do período 1939-40 podemos citar p.ex: as observações de Claravis godefrida nas matas do Tinguá; Triclaria malachitacea em Boca do Mato, Cachoeiras de Macacu e Tinguá e de Tangara desmaresti no alto do Corcovado, registro inédito para o município do Rio de Janeiro que antecede por muitos anos os nossos registros feitos em 1988 no Pico da Tijuca.

Em agosto e setembro de 1940, Schneider esteve hospedado pela família dinamarquesa Thomsen estabelecida no local denominado Sertão das Cobras, no alto da Serra da Bocaina, através do acesso pela cidade de Bananal, São Paulo. Neste sítio coletou entre 10 de agosto e 10 de setembro 148 peles representativas da avifauna da Serra do Mar, que por falta de informação considerou como oriunda do Estado do Rio de Janeiro, embora a propriedade esteja plenamente dentro do Estado de São Paulo, segundo os mapas atuais. Até o início dos anos 70 a família Thomsen ainda era proprietária dessas terras, por título discriminatório, através da viúva Melanie Thomsen, quando pouco depois as terras foram desmembradas e vendidas.

Neste período - dezembro de 1940 - Schneider também estabeleceu contato com Paul Sändig que coletou e lhe vendeu alguns exemplares provenientes do sítio "Alcindo Guanabara", aparentemente na subida da serra de Teresópolis, em Guapí. Consta que Sändig também desenhava e que manteve contato com a Dra. Emilie Snethlage (1868-1929) em sua passagem pelo Museu Nacional. Alguns desenhos seus são por exemplo aquele do tipo de Phylloscartes roquettei (Snethlage 1928).

O desejo de permanecer colaborando com o Museu Nacional, mesmo que voluntariamente, e de empreender excursões de maior envergadura, levou Schneider a solicitar novamente ao Conselho autorização para trabalhar a serviço do Museu. Este novo pedido era naquele momento a única maneira de continuar ativo, estendendo a amplitude de suas atividades para flora do âmago das propriedades de famílias amigas. Numa carta datada de 2 de janeiro de 1941, Schneider relataria sua excursão ao Espírito Santo um ano depois, declarando as razões da guerra para justificar o explícito atraso. Não pôde entretanto deixar de mencionar que H. Sick permanecera - "ficou independente" - no Espírito Santo, fornecendo inclusive o endereço do Pastor Leonhard Friedrich Fuchshuber de Figueira de Santa Joana (Limoeiro) que o hospedara. Sick circunscreveu basicamente suas atividades de colecionamento, durante o período 1940/1942 a este povoado depois de uma breve campanha nos arredores de Santa Tereza. Esses dois pontos trabalhados foram colonizados predominantemente por colonos de origem italiana (Wagemann, 1915) embora, tal qual o pastor, residissem nestas duas povoações descendentes teutas. Sick, durante sua estada, também excursionou pela Serra do Caparaó, nos confins do Espírito Santo/Minas Gerais e retornou brevemente a baixada florestada da região de Linhares.

A carta de Schneider foi enviada ao Conselho após ser traduzida pelo austríaco Friedrich Wilhelm Sommer (1907-1994) que prestava serviços dessa natureza aos cientistas do Museu Nacional. Curioso á que Sommer anos mais tarde obteve o título de doutor em ciências inscrevendo o seu nome como um dos grandes especialistas da micropaleobotânica e palinologia (Campos, 1995). Essa carta desencadeou dois processos, o primeiro visava a concessão de autorização para coleta de material para o Museu Nacional, o segundo visava caracterizar a "situação irregular" em que se encontrava Sick no Espírito Santo muito tempo depois de expirado o prazo legal da expedição concedida.

O Conselho concedeu a Schneider autorização através de um certificado datado de 5 de abril de 1941 depois que a direção do Museu Nacional se posicionou formalmente sobre a relevância do projeto de Schneider. Este documento licenciava suas atividades para os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais.

Através de contatos previamente estabelecidos no Rio, Schneider resolveu partir com a esposa para a fazenda Três Barras, localidade de Porto Quebracho, ao sul de Porto Murtinho, atual Mato Grosso do Sul. Lá recebeu apoio da infra-estrutura existente da empresa Quebracho do Brasil S/A, indústria química produtora de tanino, cujo diretor de nome Hammer gentilmente concedeu certas facilidades à sua disposição. Entre 27 de abril e 17 de novembro de 1941 coletou 566 peles de 192 espécies (Pacheco & Bauer 1994).

Consta também que realizou várias curtas excursões nas imediações do Rio de Janeiro e norte do Estado, como p.ex: Corcovado, Paquetá, Magé, Serra dos Órgãos, Sambaetiba, rio Estrela (fundo da baía de Guanabara), Maricá, Araruama, Barra de São João e Campos. Também visitou brevemente o Parque Nacional do Itatiaia. Em todos esses pontos foram realizadas observações transcritas em seu diário particular.

Últimos acontecimentos e o seu retorno à Alemanha

Em fevereiro de 1942, Schneider e esposa retornaram a Sertão das Cobras para complementar a coleta de exemplares realizadas em agosto e setembro de 1940. Nesta oportunidade foram obtidos 215 exemplares de 106 espécies diferentes, conforme relatório apresentado por Schneider ao Conselho, datado de 10 de março de 1942.

O caso Sick, cujo processo havia sido desencadeado com a informação prestada por Schneider ao Conselho, ocasionou a diligência policial que acabou por prendê-lo em flagrante, em plena atividade, não autorizada, de colecionamento de material científico, infringindo diretamente o regulamento de expedições estrangeiras estabelecido pelo Decreto nº 22698 de 11 de maio de 1933. A prisão de Sick, por desrespeito às leis, noticiada pelos jornais de 7 e 8 de abril de 1942 resultou na apreensão integral de notas de campo e material científico em seu poder. Após quase três anos de reclusão, Sick foi libertado e decidiu permanecer no Brasil, naturalizando-se brasileiro (Gonzaga, 1991).

Desde o início de 1942, Schneider e sua expedição, passaram a ser alvo de insinuações por parte da imprensa. Considerava esses jornais que suas atividades no Brasil fizessem parte de um plano articulado de arregimentação de colonos alemães no Espírito Santo para servir aos intentos do regime nazi-fascista. Essas matérias veiculadas sem o necessário fundamento eram impregnadas de ironia, como p. ex: a intitulada «Chô! Chô! Passarinho» divulgada no jornal O Radical de 5 de março de 1942 e a «Expedição abusiva», no Correio da Manhã de 9 de abril de 1942.

Com o rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Alemanha, Schneider foi detido, tal qual muitos outros alemães residentes no país, em outubro de 1942. Sua detenção durou nove meses passados em quartéis de Niterói e na ilha das Flores. Antes da prisão ele tentou obter autorização legal para despachar parte do material colecionado no Brasil para a Alemanha; este pedido acabou por ser formalmente negado através de sessão do Conselho realizada no dia 2 de março de 1942. Esta resolução, publicada em ata, também recomendava expressamente que o material científico acumulado indistintamente por Sick e Schneider, período 1939-1942, - cerca de 2300 exemplares - passasse a integrar as coleções seriadas do Museu Nacional. Entre maio de 1943 - quando foi libertado - e março de 1944 Schneider morou com sua esposa numa pensão do bairro niteroiense de Icaraí, à beira da Baía da Guanabara. Nestes dois últimos anos de permanência no Brasil - a prisão e as dificuldades causadas pela guerra - o tempo ocioso foi ocupado na preparação de três manuscritos: um manual de identificação de aves (iniciado na Alemanha), um trabalho versando sobre as aves do Espírito Santo e Rio de Janeiro e um relatório circunstanciado de suas atividades ornitológicas no Brasil. O retorno a Alemanha no dia 12 de março de 1944 foi realizado através do vapor Cabo da Buena Esperanza, com destino a Lisboa, através de entendimentos junto a embaixada da Espanha no Rio de Janeiro.

Schneider voltou às suas atividades no Museu de Berlim continuando com o seu interesse por aves neotropicais. De saúde debilitada devido ao período em que passou preso no Brasil, não suportou os rigores do frio europeu vindo a falecer em 7 de outubro de 1946 por inanição - no pós guerra a comida na Alemanha Oriental foi racionada - e esforço demasiado. Sua esposa seguiu-lhe suicidando-se no mesmo dia.

Agradecimentos

A maior parte das informações inéditas aqui relacionadas foram gentilmente cedidas através de entrevistas com a Sra . Gertrudes Schneider de Kehl e Dra. Alice Silva, respectivamente filha e neta de Adolf Schneider. A essas duas amáveis senhoras somos particularmente gratos. Igualmente agradecidos somos ao Sr. Antonio Aldrighi, pelo empréstimo da foto e por reminiscências da sua participação na expedição de 1939 e às seguintes pessoas que contribuíram, nos vários estágios, com informações preciosas para composição desta nota: Johann Becker, Alceo Magnanini, Ingrid Woepcken, Ingeborg Reverdy, Otto Reverdy, Ingrid Fricke, Richard Sachsse e Julia Nägele. Cabe aqui o reconhecimento do auxílio prestado por Aracy G. Lisboa e Maria Celina Mello e Silva do arquivo do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil vinculado ao CNPq e a Sra. Hermínia Ferreira da Academia Brasileira de Ciências. Revisaram o texto e contribuíram com valiosas sugestões: Paulo S. M. da Fonseca e Dinorá B. Cesar.

Referências

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José Fernando Pacheco e Claudia Bauer

UFRJ- Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia CCS Cidade Universitária, 21944-970- Rio de Janeiro- RJ, Brasil

 

 

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