Notulae et corrigenda

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

Inauguro nesta nova série um espaço dedicado a pequenas notas aditivas e correções a serem feitas nas mais variadas fontes bibliográficas relativas a ornitologia brasileira, onde a intenção básica é divulgar informações curtas que chamem a atenção para pequenos equívocos. Muitas dessas notinhas ficam anotadas por anos a fio e muitas vezes não são divulgadas rapidamente por não «caberem» num trabalho, ou mesmo não justificarem uma nota em si.

A idéia dessa nova coluna nasceu de uma conversa com o Professor Aristides Pacheco Leão (1914-1993). Ele fazia cuidadosas anotações a lápis na margem do seu «Catálogo de aves da América do Sul» de Meyer de Schauensee para alterar a distribuição a partir das novas informações dispersas publicadas nos muitos artigos e notas. Ele mesmo dizia que os autores gostavam muito de ampliar, fazer novos registros, fornecer novos indícios, mas muito raramente retificavam a sua própria informação publicada com erro, anos atrás. Esses enganos se perpetuavam na literatura e eram repetidos décadas após num verdadeiro fenômeno de «erro em cascata». Depois de cem anos passados um registro de distribuição errada torna-se muito parecido com uma ocorrência extirpada pela ação humana!

Nesta primeira «Notulae et corrigenda» retificarei informações direta ou indiretamente relacionadas com a minha pesquisa: O mutum-fava, Crax globulosa das florestas de várzea foi registrado por mim em várias oportunidades, embora classificado como incomum e menos encontradiço que o mutum-cavalo, Mitu tuberosa, durante o período 1993-94 na Estação Ecológica Mamirauá, médio Solimões e não no Parque Nacional do Jaú, drenagem do médio rio Negro como indicado (pág.62) no Bird to Watch 2 - The World list of Threatened Birds (N.J. Collar, M. J. Crosby & A. J. Stattersfield, Bird Life Conservation Series Nº 4, Londres), a partir de informação de B.M. Whitney.

O gavião-bombachinha, Harpagus diodon no município do Rio de Janeiro foi primeiramente relatado indiretamente por Goeldi (1895, As aves do Brazil, Livr. Clássica Alves & C.) quando afirma (pág.63) ter abatido um exemplar de Harpagus bidentatus na «aba das mattas do Corcovado». Goeldi confundia nitidamente as duas únicas espécies do gênero quando (pág.62) afirma que «por baixo... primeiro cinzento claro, depois bruno vermelho», numa alusão clara ao considerar a plumagem de H. diodon como sendo a do jovem de H. bidentatus. Portanto, o registro de H. bidentatus para a Guanabara (Sick & Pabst, 1968. As aves do Rio de Janeiro-Guanabara, Arq. Mus.Nac.,53:99-160:Sick, 1985). Ornitologia Brasileira - uma introdução, p.744) baseado nessa única fonte, segundo diário de H. Sick, é incorreto. O registro de H. diodon publicado por Pacheco (1988, Bol. FBCN, 23:104-20) para a Floresta da Tijuca é de fato uma adenda a lista de as aves da Guanabara de H. Sick, embora seja precedido pelo registro de Goeldi, agora reavaliado. Fica sem efeito o comentário de Nacinovic (1993, II Congr. Bras. Orn.Pelotas, painel 7) para estabelecer o primeiro registro de H. diodon para a «região metropolitana do Rio de Janeiro», por ele atribuído a Hellmayr & Conover (1949, Catalogue of Birds of the Americas, vol.13 part 1, Nº4, Field Mus.Nat.Hist.) a partir da menção de 5 exemplares para o «Rio de Janeiro». Em adição, as menções de Hellmayr para «Rio de Janeiro» não podem ser consideradas como procedentes estritamente dos arredores da capital; nesses casos referem-se as grandes séries comerciais (exportadas do Rio), naturalmente sem procedência atribuível, depositadas nos museus europeus. Quando Hellmayr queria especificar a cidade do Rio de Janeiro, homônima do Estado, escrevia «Rio de Janeiro: Rio de Janeiro» (veja, p. ex.: Sicalis flaveola, pág.324 in Hellmayr, 1938, op.cit. part 11).

A foto de Polydor dimidiatus na entrada de seu ninho no Parque Nacional das Emas existente (pág.140) no livro Cerrados - Vastos espaços (1992-93, Rio de Janeiro: Livroarte Editora) foi identificado por Dante M. Teixeira, autor do capítulo sobre aves como sendo Sittasomus grissicapillus (sic); outro engano de identificação foi cometido no mesmo livro na foto de Herpsilochmus longirostris (pág.141), identificado como sendo Hepsilochmus pileatus. Ambas as espécies foram gravadas por mim e atraídas através de «play-back» para serem fotografadas por L.C. Marigo durante os trabalhos de produção de imagens em agosto de 1992.

__________________

UFRJ - Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro-RJ - Brasil

 

AO - SERVIÇOS - LINKS