FRUGIVORIA POR TRAUPÍDEOS E OUTRAS AVES NA RESERVA NATURAL LA PLANADA, COLÔMBIA.

Yoshika Oniki e Edwin O. Willis - UNESP, Rio Claro - SP

Nos anos 60, Eisenmann (1961), Willis (1966) e Leck (1969) estudaram as aves frugívoras na América Central e do Sul. Após a publicação de Pijl (1972), os estudos de frugivoria em aves ganharam novo impulso, especialmente nos neotrópicos. Como foi apontado por Rosenberg & Cooper (1990), embora "o conhecimento detalhado das dietas é crítico para muitos estudos da biologia e ecologia de aves", as informações sobre as dietas de aves neotropicais ainda são esparsas e raras. Skutch (1980) lista 20 espécies de aves alimentando-se de Clusia spp. na Costa Rica e Snow e Snow (1971) estudaram o forrageamento de traupídeos em Trinidad. Portanto, como um dos métodos de obtenção dessas informações é a observação direita na natureza, e como informações das interrelações ave-planta torna-se crucial, no momento em que se tenta o reflorestamentos e a reconstituição do hábitat para a preservação das aves, é importante o acúmulo de dados sobre plantas visitadas e as aves que as visitam.

No presente trabalho, apresentamos uma lista de aves alimentando-se em frutos de Schefflera sp. (Araliaceae) e Clusia sp. (Guttiferae) e também em outras plantas na Cordilheira Ocidental da Colômbia.

ÁREAS DE ESTUDO E MÉTODOS

O uso de frutos foi estudado por 9 horas e 37 minutos entre 20 de fevereiro e 12 de março de 1989, em duas áreas na Reserva Natural La Planada (zero graus e 54 minutos Norte, 77 graus e 16 minutos oeste, 1800-2000 metros de elevação), acima de Ricaurte em Nariño Ocidental, Colômbia.

Uma área de estudo localizava-se na clareira junto aos alojamentos, onde havia muitas Clusia (CC, na Tabela 1); e junto à mata adjacente havia um arbusto de Schefflera com infrutescências (CS). A outra área de estudo localizava-se junto à trilha que leva ao interior da mata, onde havia várias Schefflera (TS) em mata secundária alta.

As aves foram observadas com binóculos Nikon 9 x 25, a taxonomia seguida é a de Meyer de Schauensee (1970).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 1 apresenta a freqüência e as espécies de aves observadas. As aves visitaram as plantas mesmo com uma chuva fraca e forte nevoeiro e em uma ocasião mesmo uma chuva forte não as impediu de continuar forrageando. As Schefflera próximo da trilha atraíram muitas aves de mata (5 espécies de Tangara sp.) mas o número de espécies foi quase igual (8 versus 7) comparando com as Schefflera da clareira.

Somente 4 espécies visitaram as Clusia da clareira, algumas destas capturaram insetos antes de alimentar-se de frutos de Clusia.

Na clareira, as aves visitaram tanto a Clusia como a Schefflera mas disputas interespecíficas foram mais freqüentes nesta última, talvez devido ao grande número de infrutescências. Os frutos de Clusia eram abundantes mas mais dispersos em diversas árvores de porte médio, de forma que as aves podiam explorar os frutos sem muitos encontros e suplantes.

Andigena laminirostris (Ramphastidae) é uma ave que aprecia bastante os frutos de Clusia mas não foi observado com freqüência na clareira devido à intensa atividade humana e presença de 3 cães que certamente perturbavam as aves.

As aves forragearam, cedo na manhã, em pequenos grupos de 4 a 12 indivíduos vagando entre a Clusia e Schefflera, emitindo curtas vocalizações mas eventualmente voaram para a mata circunvizinha. A maioria eram traupídeos, conhecidos por vagar pelas matas aos pares ou famílias explorando frutos e sementes (Isler & Isler 1987). As disputas entre as diferentes espécies de traupídeos eram comuns: Thraupis cyanocephala geralmente estava no topo das infrutescências cedo nas manhas e parecia estar se aquecendo com os primeiros raios do sol. Um casal de Anysognathus flavinucha visitou com freqüência mas com poucas disputas. Entretanto, um casal de Tangara arthus sempre se aproximou quando os demais estavam ausentes. Se representantes das espécies acima chegavam, T. arthus saiam dos frutos, ficavam nos arredores e retornavam quando os demais se afastavam; permaneciam nas partes mais baixas das infrutescências ou por entre os ramos e raramente saiam para o topo. No dia 21 de fevereiro,  às 8:18h, um par de T. arthus ficou nas partes mais baixas da Schefflera esperando que T. cyanocephala fosse embora e quando isso ocorreu, eles subiram até as infrutescências e então se movimentaram à vontade durante o forrageamento. Portanto, parece que T. arthus (20 gms) é subordinada a T. cyanocephala (32 gms) e Anisognathus flavinucha (41.4 gms) (Oniki & Willis 1991).

Em geral, as aves forragearam em sessões curtas de 1-4 minutos; sessões mais longas foram raras. Howe (1979) explica que talvez as aves têm receio de forragear em áreas abertas onde os gaviões poderiam atacá-los e assim, forrageiam por curtos períodos, voam para plantas adjacentes e logo retornam para nova sessão de forrageamento. Em 18 casos registrados, as visitas foram de menos de 1 minuto, em um caso entre 1 e 2 minutos. Em 3 de março, às 7:19, um gavião Buteo magnirostris passou voando na clareira e as pequenas aves voaram para dentro dos arbustos circunvizinhos e permaneceram imóveis e silenciosos até que o perigo tivesse passado. Mais tarde, às 7:50, um Thraupis cyanocephala "congelou" ficando imóvel por 30 segundos e logo reiniciou a alimentação. Em 28 de fevereiro, às 12:29, um Tangara nigroviridis "congelou" por dois minutos, nas partes baixas das infrutescências que ficavam junto à trilha e depois continuou forrageando em seguida. Não foi observado sinais de gavião ou outro perigo iminente pois as demais aves permaneceram comendo e apenas este indivíduo agiu assim.

Mesmo quando os frutos começam a terminar, as aves continuam suas visitas e apanham insetos. Foi o que ocorreu em 26 de fevereiro, às 7:45, quando um par de Thraupis cyanocephala visitou uma Clusia com poucos frutos, chegaram nos ramos mais baixos, subiram com pequenos saltos pegando alguns insetos no processo. Um casal de Zonotrichia capensis e de Pachyramphus versicolor também pousaram nas Clusias para apanhar insetos.

FORRAGEAMENTO EM OUTRAS ESPÉCIES DE PLANTAS

Em 27 de fevereiro, às 9:50, observamos, na mata, um Lipaugus cryptolophus (Cotingidae) alimentando-se de pequenos frutos cor de laranja de Chamaedorea polyclada (Palmae). Em duas outras ocasiões, Willis observou uma fêmea de Rupicola peruviana (Rupicolidae) alimentando-se de frutos verdes de outra palmeira, Prestoea sp. (Palmae). Em 13 de março, uma Euphonia xanthogaster defecou sementes verdes e pegajosas de Phoradendron flavescens (Loranthaceae) e em 14 de março, outra fêmea defecou minúsculas sementes brancas (Família Aracea) e outras sementes escuras e mais alongadas que não foram identificadas.

AGRADECIMENTOS

A National Geographic Society pelo apoio à expedição que nos levou a Colômbia, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Científico pela bolsa de pesquisa a Y. O.; Guillermo Cantillo e Jorge Orejuela pela hospitalidade em La Planada e Carla Restrepo pela identificação das plantas.

BIBLIOGRAFIA

EISENMANN, E. 1961. Favorite foods of Neotropical birds: flying termites and Cecropia catkins. Auk, Lawrence, 78: 636-638.

HOWE, H. 1979. Fear and frugivory. American Naturalist, 114: 925-931.

ISLER, M. L. & P. R. ISLER. 1987. The tanagers: natural history, distribution and identification. Smithsonian Inst. Press, Washington, D. C. 404 pp.

LECK, C. F. 1969. Observations of birds exploiting a Central American fruit tree. Wilson Bull, Lawrence, 81: 264-269.

ONIKI, Y. & E. O. WILLIS. 1991. Morphometrics, molt, cloacal temperatures and ectoparasites in Colombian birds. Caldasia, Bogotá, 16: 529-524.

MEYER DE SCHAUENSEE, R. 1970. A Guide to the Birds of South America. Wynnewood, Pennsylvania, Livingston Publ. Co. 470p.

PIJL, L. VAN DER. 1972. Principles of dispersal in higher plants. 2nd. ed., Berlin: Springer-Verlag.

ROSENBERG, K. V. & R. J. COOPER. 1990. Approaches to avian diet analysis, p. 80-90. in M. L. Morrison, C. J. Ralph. J. Verner, and J. R. Jehl, Jr (eds.), Avian foraging: theory, methodology, and applications. Studies in Avian Biology No. 13, Berkeley, California.

SKUTCH, A. F. 1980. Arils as food of tropical American birds. Condor, Lawrence, 82: 31-42.

SNOW, B. K. & D. W. Snow. 1971. The feeding strategy of tanagers and honeycreepers in Trinidad. Auk 88: 291-322.

WILLIS, E. O. 1966. Competitive exclusion and birds at fruiting trees in western Colombia. Auk, Lawrence, 83: 479-480.

 

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