A preservação do papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) e outros psitacídeos na Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Morrinhos e arredores.

José Juracy de Oliveira Pereira - Feira de Santana-BA

O ninho em cupinzeiro no mandacaru...

...de onde são retirados filhotes de A. cactorum...

...são alimentados a mão e quando maiores são marcados com presilha...

...a cabaça é o novo ninho...

...um lote de filhotes de Amazona aestiva...

... um dos exemplares bem mais desenvolvido...

...após o desmame o jovem A. aestiva já totalmente desenvolvido...

...está apto para retornar a liberdade e o autor faz a reintegração...

...um exemplar adulto vivendo livremente após a soltura.

A Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Morrinhos está localizada no nordeste da Bahia, região do semi-árido, distante aproximadamente 308 km de Salvador e a mais ou menos 30 km da cidade de Queimadas-BA. Geograficamente suas terras estão nas áreas dos municípios de Queimadas e Santa Luz. Anteriormente, Refúgio Particular de Animais Nativos (Portaria IBDF nº 247-P de 04/06/84) depois reserva através da Portaria IBAMA nº 644/90 de 03/05/1990. Situada numa região composta de grandes e pequenas propriedades, onde a exploração predominante é a pecuária e para os minifúndios é feita a cultura de subsistência (mandioca, milho e feijão), quando o tempo permite, e também a extração da fibra do sisal que, por razões de constantes estiagens está muito comprometida. Para a população nativa é duro viver da terra. As chuvas não são certas e tudo que se produz depende única e exclusivamente do tempo. O índice pluviométrico é de 600 mm/ano, quando acontece, porque há anos em que não passa de 150 mm/ano. É duro viver no semi-árido! A vida é feita de incertezas. Por falta de ações governamentais, ou seja, uma política de geração de trabalho, a migração é intensa. São levas de famílias à procura do sustento no sul-maravilha, o que no fundo não passa de um grande engano; ou então o estado de Goiás e o oeste da Bahia, onde se diz existir trabalho. Quem ainda teima em ficar é para penar. No momento, a saída encontrada para essa gente está sendo a extração do carvão vegetal, provocando o desmatamento desmedido, como também as péssimas condições de trabalho (alto nível de insalubridade) provocadas por essa atividade. O tempo judia muito do caatingueiro. Preservar o ecossistema do semi-árido dentro da realidade sócio-econômica descrita é por demais trabalhoso. Por mais que se faça para evitar a caça, a pesca e captura de aves e animais, o nativo não resiste à necessidade da fome. Mas, mesmo enfrentando todas as dificuldades, durante estes 11 anos foi feito muito na Fazenda Morrinhos. Com a ajuda direta da Superintendência do IBAMA na Bahia, paulatinamente foram reintroduzidas espécies extintas lá, a exemplo da ema (Rhea americana), perdiz (Rhynchotus rufescens), zabelê (Cypturellus noctivagus zabele), cágado (Geochelane carbonaria), caititui (Tayassu tajucu), jacus (Penelope superciliaris), aracuã (Ortalis guttata), etc.

A avifauna do semi-árido é muito rica. Podemos destacar na região da reserva os psitacídeos: papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) periquito-guerre-guerre (Aratinga cactorum cactorum) e periquito-cuiubinha (Forpus xanthopterygius). São aves interessantes pela sua expressão de alegria como também pela predominância de plumagem verde que, nas épocas das chuvas, se confunde com a explosão exuberante da vegetação caatingueira.

O trabalho conservacionista destas espécies tornou-se um imperativo pela razão de que, ano a ano, o número de exemplares na natureza vem sempre diminuindo, em que pese todo um trabalho de educação e conscientização da população.

Há anos vem sendo feito um rastreamento com acompanhamento dos ninhos e uma sistemática fiscalização para que nem os filhotes e nem os pais fossem capturados. Todas as tentativas foram frustadas. As crias foram capturadas e, em alguns casos, até os pais, vez que foram encontrados ninhos com ovos abandonados já gerados. Os ninhos só são abandonados no caso de uma forte agressão.

Após as tentativas de preservar as espécies nos seus próprios ninhos, o que não resultou em sucesso, foi adotado um novo procedimento, o que será relatado com base em anos de observação "in loco" e pesquisas.

Os processos de nidificação do papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) e do periquito-guerre-guerre (Aratinga cactorum cactorum) dão-se entre os meses de dezembro e janeiro, havendo, contudo, particularidades em cada caso. Já o periquito-cuiubinha (Forpus xanthopterigius) entre os meses de março e abril.

Os periquitos-guerre-guerre escolhem, como local de postura, cupinzeiros abandonados e constróem seus ninhos num processo que consiste numa escavação de baixo para cima até alcançar a parte superior, onde alargam até obter espaço adequado para postura e incubação. Este sentido de escavação tem por finalidade proteger sua prole de eventuais chuvas, como também é uma forma de proteção contra predadores. Com o ninho pronto, soltam penas, deduzindo-se com isto que a parte da região inferior da ave fique mais livre para expelir umidade tão importante na alimentação dos filhos ainda dentro do ovo, como também para o nascimento, vez que é necessário que a casca do ovo esteja dentro de uma consistência que o filhote possa romper. As A. cactorum põem em média 5 ovos e a eclosão alcança até 100%. A incubação dura mais ou menos 23 dias e os filhotes voam entre 30 e 45 dias. Nascem com olhos fechados e com uma penugem; com o tempo nascem as verdadeiras penas. Um dado curioso no processo de reprodução foi observado quando chega o tempo dos filhotes voarem. Como o local da postura fica na parte superior do cupinzeiro, os filhotes para alcançarem o mundo, não saem pelo corredor que vai até a parte inferior, e sim esperam os pais fazerem uma abertura na parte superior. Dos psitacídeos citados, é único exemplar que de fato constrói seu ninho.

Os papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) escolhem, como local de postura, ocos em grandes árvores como aroeiras, pau-d’arco (Tecoma heptaphylla), baraúnas (Schinopsis brasiliensis), barrigudas (Cavanillesia arbórea) etc. Começam a freqüentar o ninho, fazendo inicialmente uma limpeza. O ninho fica a uma profundidade de acordo com o tamanho do oco, chegando a ser observado ninho com 2 metros. Como as A. cactorum, antes da postura soltam penas para processar a incubação. Põem em média 3 ovos e escolhem todo o ano sempre o mesmo local para a postura, sendo a incubação feita tanto pelo macho como pela fêmea e a eclosão dando-se com 24 dias, voando os filhotes com mais ou menos 45 dias. Foi observado casos de uma segunda postura, quando a primeira sofria algum tipo de agressão. Não chegam a escolher árvores só dentro da caatinga, mas também nas pastagens abertas. Usam, para seus ninhos, tanto árvores vivas como também ocos de árvores mortas. Foi observado sempre o nascimento de 2 filhotes, em que pese terem sido encontrados ninhos com 3 ovos. Nascem com olhos fechados e uma penugem. São carentes de assistência dos pais até voarem. Foi observado que, mesmo após estarem voando, ainda acompanham os pais por algum tempo. Segundo os nativos, os filhotes sempre voam na quaresma. Trata-se de uma crendice, vez que há casos em que a postura se dá em abril e os filhotes voam no mês de junho.

A exemplo do papagaio-verdadeiro o periquito-cuiubinha também não faz ninho. Usa ocos abandonados e faz a postura todo ano no mesmo lugar. Tem o mesmo costume do A. aestiva para a postura. Limpam o ninho e soltam penas. A postura consta de uma média de 5 ovos e a eclosão se dá com 21 dias, nascendo com os olhos fechados e penugem. Voam com mais ou menos 30 dias. A incubação é feita tanto pelo macho como pela fêmea.

Estas aves são monógamas, acasaladas, só o tempo as separa. Alimentam-se dos frutos do imbuzeiro (Spendias tuberosa), da umburana (Bursera leptophleos), do ouricorizeiro (Cocos coronata), do mandacarú-de-boi (Cereus jamacaru), flores de pendões da flecha do sisal (Agave sisalana) e do cipó-de-leite (Oxypetalium spp).

O procedimento para a preservação destas espécies constitui neste trabalho de acompanhamento e, como não foi possível conservá-los nos ninhos até voarem, adotou-se o método de retirar os filhotes dos seus ninhos para serem criados em casa até alcançarem a liberdade. Isto de fato foi um sucesso. São aves fáceis de serem criadas. Alimentam-se com papa à base de milho, ainda morna para ter a mesma temperatura com que são alimentados pelos verdadeiros pais. São acondicionados em cabaças com folhagem para suprir a carência de calor, necessário quando ainda jovens. A alimentação é dada 2 vezes ao dia (não se observando necessidade maior). Neste ano de 95, foram conseguidos 10 exemplares do A. aestiva e 3 A. cactorum. Estas aves sofrem um processo de marcação que consiste num fecho tipo presilha numerado na asa direita e anilhas com numeração/ano, a marca J1 e telefone da cidade de Feira de Santana-BA. No momento, algumas destas aves já alcançaram a liberdade, fazendo com que o semi-árido fique mais alegre e cheio de vida.

A fauna e a flora do semi-árido são de uma riqueza sem fim. A caatinga nordestina contém uma pureza e beleza que só quem a vive, sente. É necessário  toda a sociedade ter este direito.

Para o sucesso deste trabalho é de se agradecer à Divisão Técnica/Setor de Vida Silvestre da Superintendência do IBAMA na Bahia. Agradecimentos a Evaldo Oliveira da Silva e Eliane Lopes da Silva (Fazenda Morrinhos), Osvaldo Silva de Almeida, Divandira da Silva Araújo e Barnabé Alves de Araújo (Fazenda Soledade), pessoas que muito fizeram pelas suas consciências, zelo e vontade. Por fim, agradecimento à minha mulher Verbena  Pereira pela sua paciência e verdadeira compreensão. A meus filhos, Bartira, Juliana e José Emilliano.

 

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