Um Oásis na conservação da natureza brasileira: O projeto ararinha-azul

Fernando Costa Straube - Curitiba-PR

A convite do Comitê para a Recuperação da Ararinha-Azul (CRAA), dirigi-me, no final de novembro de 1994 para a região de Curaçá, Bahia para, por quase 20 dias, acompanhar o trabalho ali desenvolvido.

Curaçá situa-se em pleno polígono das secas, no extremo norte baiano, quase na divisa com Pernambuco e é banhada pelo rio São Francisco. A região na qual está compreendida foi cenário de importantes fatos da História do Brasil. Muito próxima dali está a cidade de Canudos, sede do exército revolucionário anti-republicano de Antônio Conselheiro; também nas imediações localiza-se a Serra da Natividade, um dos muitos esconderijos do capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

A História também revela outros aspectos interessantes de interação humana e biológica sobre os quais pode-se traçar curiosos paralelos. Em plena zona semi-árida brasileira subsiste o último indivíduo de uma espécie de Psittacidae, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixi). A cronologia de seu declínio populacional é notada desde sua descoberta, em 1819 pelo zoólogo bavaro Johann Baptist von Spix, que lhe cedeu o nome para o epíteto específico, criado por Wagler. Naquela época já era escassa, tanto que a distribuição mencionada por Charles Cory no «Catalogue of Birds of Americas» publicado em 1918, consta apenas como «eastern Brazil» com base em uma única localidade: Rio São Francisco, Bahia. Um estudo realizado pelo suíço Paul Roth confirma esta afirmação, pois que estima um número de apenas 30 casais no início do século.

Por uma intensiva pressão por parte de traficantes que retiravam filhotes para abastecer o comércio de aves de cativeiro e também em parte pela caça e destruição de seu hábitat, a ararinha-azul teve sua população, já em 1984, dizimada a apenas cinco indivíduos. Não era à toa portanto, que apenas um animal vivo desta espécie causasse tanto interesse visto que, pela raridade, seu valor comercial estaria estimado em mais de meia centena de milhares de dólares. Desta forma, diversas tentativas para a obtenção de exemplares foram realizadas, nas quais chegava-se a extremos como a quebra de ovos e a captura de indivíduos adultos com uso de visgo. O freqüente descaso para com a conservação da espécie por parte de altos cargos governamentais aliado à escassez de equipamentos disponíveis à fiscalização acabou favorecendo o desaparecimento de quase todos os outros indivíduos, dos quais restou apenas um.

Em 1990 formou-se uma expedição, organizada por Luiz Claudio Marigo e Francisco Pontual, integrada também pelo biólogo Carlos Yamashita, para tentar localizar o derradeiro espécime. O sucesso da empreitada resultou no reencontro com o mesmo, permitindo a coleta de dados biológicos, de seu hábitat e boas imagens (inclusive de tentativa de cópula com um outro Psittacidae sintópico, a maracanã Ara maracana). No mesmo ano criou-se o Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha Azul (C.P.R.A.A.) pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) cuja finalidade é a elaboração de estratégias para a conservação da espécie.

No ano seguinte, o biólogo catarinense Marcos A. Da-Ré foi convidado a coordenar os trabalhos de campo do «Projeto Ararinha-Azul», acompanhando o último indivíduo e observando-lhe cada detalhe da história natural (comportamento, alimentação, uso do hábitat etc.). A ele uniu-se em 1992 o biólogo pernambucano Lucian Interaminense e, posteriormente, Robério Possídio Gonçalves, encarregado principalmente das questões administrativas do trabalho.

Mas a proposta de conservação não se resumiu aos bastidores estéreis das quatro paredes. O novo hábitat dos biólogos era mesmo e definitivamente a caatinga, ambiente conhecido (mas raramente vivido) por seus contrastes: extremos sociais de distribuição de renda; chuvas copiosas que duram cerca de uma semana por ano, intercaladas por períodos severos de seca; estepes desérticas e hostis convivendo com o belíssimo e próspero rio São Francisco e sua vegetação ripária verdejante.

A sensibilidade dos pesquisadores mostrou-lhes que o trabalho não possuía apenas um objetivo, uma situação pontual ao fim do estudo; era na verdade um horizonte, uma linha, geométrica e filosófica, na qual a participação da comunidade local seria não apenas útil, mas de fato imprescindível. Criou-se uma nova mentalidade para a conservação, embasada na interdisciplinaridade do conhecimento e do sentimento humano.

Na prática, esta experiência foi vivida com o contato constante com os moradores das cercanias de Curaçá, gente humilde, castigada pela pobreza, cujo itinerário do dia a dia inclui caminhadas quilométricas em busca de água em cacimbas improvisadas escavadas no leito dos rios. Eles mesmos foram os protagonistas do sucesso atingido até então. Uma corporação de guardas-florestais voluntários somados em mais de 20.000 pessoas, habitantes do município, vigilantes unidos em um objetivo (ou horizonte) comum. «Ararinha Azul: orgulho e responsabilidade de Curaçá», frase que adorna suas vestimentas, associa-se aos adesivos e cartazes de divulgação, os quais raramente faltam nas paredes das casas e estabelecimentos comerciais, nos vidros de automóveis da cidade. Releva-se já assim uma manifestação rara de co-participação.

E não é só. Os biólogos, sob o símbolo da ararinha-azul de Spix, participam da Campanha Nacional contra a Fome, obtendo alimentos para os flagelados da seca. E colaboram na educação das crianças, construindo escolas, orientando as «professoras leigas» (pessoas que apesar de pequena formação escolar têm a convicção de que podem ao menos ensinar as crianças a ler e escrever); destruindo preconceitos. Aqui e «acolá».

Está em fase de acabamento, a restauração de um teatro quase secular na cidade de Curaçá. E lá estão novamente os biólogos capitaneando a iniciativa. A idéia é transformá-lo em um Centro de Cultura Ambiental onde a comunidade local e das cidades próximas possam aprender, de maneira informal, os tantos e tantos caminhos das ciências, das artes e principalmente os pontos onde estes caminhos convergem.

Há os que, mais por desconhecimento do que tradicionalismo, oponham-se à forma como os trabalhos vêm sendo realizados. «Um teatro? Mas para quê um Teatro?» Essa é mesmo, uma proposta decididamente distante da compreensão daqueles que acreditam ser a conservação um conjunto de atitudes ditatoriais e inflexíveis, cercadas de documentos e burocracia, É distante também dos que, entre quatro paredes teorizam alternativas; também é dos que nem isso fazem e vivem a tão-somente criticar.

Felizmente a equipe do Projeto Ararinha Azul e o simpático povo de Curaçá têm conseguido provar que suas idéias são absolutamente consistentes: a preservação de uma espécie, seja lá qual ela for, depende da de todas as outras e, particularmente, da preservação do Homem, respeitando suas necessidades, sua cultura, seu futuro.

 

A Vegetação da Caatinga

A caatinga, à primeira vista, impressiona. Temperaturas elevadas, mais uma parca precipitação anual, que se manifesta não mais do que poucos dias durante todo o ano, conferem-lhe as suas características de paisagem pouco hospitaleira. A riqueza de espécies de cactáceas, ora representadas por formas de candelabros como o «facheiro» (Pilocereus squamosus) que sobressai emergente à paisagem, o «xique-xique» (Pilocereus gounellei) e o «mandacaru» (Cereus jamacaru), ora como esferas, sempre densamente espinhosas como o «cabeça-de-frade» (Melocactus bahiensis), reforçam o caráter árido da região.

Mas a caatinga (mata branca da língua tupi), ou melhor, a região por ela dominada, apresenta uma grande variedade de expressões fitofisionômicas. Florestas estacionais, onde abundam «carnaubeiras» (Copernicia cerifera), são amplamente representadas às margens do rio São Francisco, revelando uma grande diversidade vegetal. Nas margens dos riachos temporários, graças à maior disponibilidade de água no subsolo, desenvolve-se uma espécie de vegetação de galeria (que aliás, é o principal hábitat da ararinha-azul), dominada pela «caraibeira» (Tabebuia caraiba). Também nas zonas ditas várzeas, marginais aos talvegues e sujeitas às raras inundações pela sua situação orográfica plana e baixa, são comuns a «favela» (Cnidoscolus phyllacanthus) com seus espinhos caulinares urticantes, o «pinhão» (Jatropha molissima) e o «mulungu» (Erythrina mulungu), cujas sementes vermelho-carmim destoam do colorido comum das outras plantas.

A caatinga, como fisionomia, distingue também basicamente, duas outras modalidades, uma delas sem qualquer cobertura herbácea expressiva em cujo solo encontram-se os «quipás» (Opuntia spp.), outra com um denso atapetamento amarelado de gramíneas. Em ambos os casos é amplamente extraída para ser utilizada na curtição de couro, a «catingueira» (Caesalpina pyramidalis), o «pereiro» (Aspidosperma pyrifolium), a «aroeira» (Astronium urundeuva), o

pau-de-colher» (Maytenus rigida) com suas folhas coriáceas e ornadas de espinhos, equivalente geográfico da nossa «espinheira-santa» (Maytenus ilicifolius) do sul, o «juazeiro» (Zyziphus joazeiro) e, principalmente a «baraúna» (Schinopsis brasiliensis), com sua folhas aromáticas. Epífitas são raras, que não um ou outro indivíduo de bromeliácea, família que, aliás, é melhor representada por elementos terrícolas como a temida «macambira» ( Bromelia laciniosa) que forma associações às vezes intransponíveis e o «caroá» (Neoglaziovia variegata) utilizado em artesanato. Para o homem, dos poucos frutos carnáceos disponíveis, destacam-se os da «quixabeira» (Bumelia sartorum) e do «imbuzeiro» (Spondias tuberosa).

O botânico Carl F.P. von Martius, que acompanhou Johann B. von Spix no século passado, em uma das poucas expedições científicas à caatinga, descreveu-a da seguinte maneira, ressaltando-lhe o caráter hostil:

«Caso o Brasil fosse unicamente revestido com aquelas sombrias caatingas, ... ...o país apareceria ao habitante apenas como deserto luxuriante, onde ele nunca se poderia sentir como em casa; um sertão que o hostiliza sem cessar, tentando afugentá-lo de sua possessão recém adquirida».

Na maior parte do ano realmente, a caatinga mostra cores que não comumente se observa em outras fisionomias brasileiras: o róseo, o cinzento e o alaranjado a avermelhado. Pouco se nota da cor verde, na maior parte das vezes restrita às várzeas e aos exemplares de cactáceas, os quais, por incrível que possa parecer, são as figuras mais importantes a quebrar a monotonia visual do ambiente. Contudo, na época de chuvas e no curto período que a sucede, a paisagem se modifica por completo. As folhas rebrotam com incrível velocidade e surpreendentemente nas várzeas, formam-se pequenas lagoas, com diversificada vegetação e fauna aquática.

É esta incrível variação na paisagem, associada à impressionante adaptabilidade de sua fauna e flora que fazem da caatinga um dos ambientes mais interessantes no Brasil.

 

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Pesquisador colaborador; Museu de História Natural Capão da Imbuia, Prefeitura Municipal de Curitiba. Rua Prof. Benedito Conceição, 407. Curitiba-PR 82810-080.

A difícil vida do catingueiro. No quintal da casa feita de barro, um mandacaru adapta-se ao solo pedregoso.

A paisagem da caatinga, na maior parte do ano.

O biólogo Marcos Da-Ré em uma das tantas incursões pela caatinga observando a ararinha-azul.

Um tipo de caatinga cujo solo é ornado por um denso atapetamento de gramíneas.

 

 

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