Ocorrência acidental da gaivota-de-Franklin, Larus pipixcan no médio Solimões, Amazonas

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

Durante os trabalhos de inventário da avifauna da Estação Ecológica Mamirauá (3º07’S, 64º47’W), situada na confluência do Japurá com o Solimões no domínio exclusivo das florestas de várzea, foi possível assinalar 350 espécies, 60% das quais documentadas através de registro sonoro. O trabalho continuado (1993-94) e repartido em diferentes épocas do ano permitiu também registrar os visitantes regulares (presentes na área apenas em meses específicos) em alguns outros que supostamente são de ocorrência acidental. O grupo de visitantes acidentais (vagrants) tende a aumentar de importância na lista final de um local qualquer com o incremento do número de horas trabalhadas.

Dentre os representantes da família (Lariidae) das gaivotas, abundam na EEM, bem como normalmente em todos os demais rios da bacia amazônica: o Trinta-réis-grande, Phaetusa simplex; o Trinta-réis-anão, Sterna superciliaris e o (sempre fascinante) Talha-mar-preto, Rhynchops niger. Nos meses de seca com suas praias arenosas expostas ao sol, as três espécies podem ser observadas com maior facilidade, inclusive nidificando. Estas três espécies compõem o trio usual e quase exclusivo de larídeos que ocorrem nas águas interioranas brasileiras, quer seja na Amazônia, Pantanal, bacia do Paraná ou São Francisco.

Foi surpreendente encontrar na manhã do dia 15 de março de 1994, quando retornávamos ao acampamento flutuante, uma solitária e autêntica gaivota do gênero Larus voando entre os numerosos Trinta-réis-grandes. A importância que este registro inusitado representava fez com que eu e meu mateiro, Arismar Cavalcanti, fizéssemos meia-volta e perseguíssemos de «voadeira» o exemplar que já se distanciava. Duas espécies vieram a minha cabeça quando me aproximava do indivíduo: Larus cirrocephalus e Larus delawarensis. A primeira porque eu mesmo já havia observado em regiões distantes do mar, isto é, em alagados do interior do Rio Grande do Sul e a segunda porque sabia da captura de um exemplar anilhado no Canadá, bem perto dali (Tefé, Sick 1979). A primeira eu poderia reconhecer quase de imediato devido a experiência que obtive com a espécie na Lagoa de Araruama, litoral do Rio de Janeiro, a segunda sabia apenas que possuía um anel preto no bico («Ring-billed Gull» dos americanos),

Com a aproximação e observação de cerca de 5 minutos, pude notar a cabeça preta, porém com a fronte branca, típica para plumagem de descanso das gaivotas em geral, o que pode lembrar L. cirrocephalus, mas descarta L. delawarensis, de pronto. O padrão das asas diferia de L. cirrocephalus e lembrava imediatamente uma outra espécie que observara na costa do Amapá: L. atricilla. Era nítido um «colar nucal branco», efeito freqüente nas gaivotas de dorso cinza e cabeça preta. Chamava a atenção uma faixa branca na borda interna da asa, que contrastava com o cinza e uma faixa subterminal preta na cauda. O bico era preto ou de cor escura. De volta ao Rio de Janeiro e com apoio dos guias de identificação para aves marinhas conclui que a gaivota observada era Larus pipixcan (Franklin’s Gull).

A gaivota-de-Franklin reproduz no Canadá e Estados Unidos e inverna regularmente na costa pacífica da América do Sul. A primeira e única menção para o Brasil foi feita a partir de um adulto observado na pista do aeroporto de Fernando de Noronha em 16 de maio de 1988 (Antas et al. 1990). O registro aqui divulgado para o Solimões não é o primeiro para a Amazônia, devido a existência de dois registros precedentes oriundos do Peru: Depto.Madre de Dios em 12 de novembro de 1979 (Schulenberg 1980) e Depto. Loreto, perto de Iquitos em 26 de maio de 1982 (Cardiff 1983).

 

Bibliografia citada

Antas, P. T.Z., A. Fillipini & S.M. Azevedo-Junior. 1990. Anilhamento de aves oceânicas e/ou migratórias no arquipélago de Fernando de Noronha em 1987 e 1988. Anais IV ENAV, Recife:13-17.

Cardiff, S.W. 1983. Three new bird species for Peru, witn other distributional records from Northern Departamento de Loreto. Le Gerfaut, 73:185-92.

Schulenberg, T.S. 1980. A Franklin’s Gull (Larus pipixcan) in south-eastern Peru. Le Gerfaut, 70:403-04.

Sick, H. 1979. Notes on some Brazilian birds. Bull.B.O.C., 99:115-20.

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UFRJ- Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 Rio de Janeiro-RJ

 


 

Novos registros do trinta-réis-escuro, Anous stolidus para o Estado do Rio de Janeiro.

José Fernando Pacheco & Henrique B. Rajão - Rio de Janeiro-RJ

O trinta-réis-escuro, Anous stolidus possui ampla distribuição oceânica pan-tropical (Sibley & Monroe, 1990), sendo reconhecidas quatro raças geográficas dentro dessa larga área de ocorrência (Harrison 1983). No Brasil a espécie nidifica em Abrolhos, Fernando de Noronha, Arquipélago de Trindade, Penedos de São Pedro e São Paulo e atol das Rocas (Sick 1993).

A espécie reproduz-se, p. ex., nos meses de setembro (Fernando de Noronha, Nacinovic & Teixeira, 1989), outubro (Abrolhos, Coelho, 1981) e novembro (Fernando de Noronha, Oren, 1982) e em seguida dispersa-se através do Atlântico. Embora de hábitos essencialmente pelágicos alguns indivíduos têm sido registrados ao longo do litoral brasileiro: Ceará (Dias da Rocha, 1948), Pernambuco (Azevedo-Junior et al. 1994) e Alagoas ou Sergipe (Souza, 1993).

No Rio de Janeiro a espécie havia sido assinalada através de uma carcaça encontrada na praia da Barra da Tijuca, capital do Estado em maio de 1987 (Teixeira et al. 1988). Ultimamente, encontramos um indivíduo voando rente a água, cerca de 2 milhas do Cabo de São Tomé, litoral norte do Estado (22°03’S,41°05’W) em 17 de novembro de 1990 e um outro também solitário próximo a praia do Foguete, Cabo Frio (22°53’S,42°01’W) em 15 de abril de 1993.

Bibliografia citada

Azevedo Junior, S.M., W.R. Telino-Junior & R.M.de L.Neves. 1994. Primeiro registro das aves oceânicas Sula dactylatra, Sterna fuscata e Anous stolidus na costa de Pernambuco, Brasil. Resumos IV Congr.Bras. Orn.,Recife:81.

Coelho, A.G.M. 1981 Observações sobre a avifauna do Arquipélago dos Abrolhos, Bahia. Publ.Av.Univ.Fed.Pernambuco,1:1-16.

Dias da Rocha, F. 1948 Subsídio para o estudo da Fauna Cearense. Catálogo das espécies animais por mim coligidas e notadas. Rev.Inst.Ceará,62:102-138.

Harrison, P. 1983. Seabirds, an identification guide. London & Sidney:Croom Helm.

Nacinovic, J.B. & D.M.Teixeira. 1989 As aves de Fernando de Noronha: uma lista sistemática anotada. Rev.Bras.Biol.,49(3):709-729.

Oren, D.C. 1982 A avifauna do arquipélago de Fernando de Noronha. Bol. Mus.Para. Emílio Goeldi, zool.,118:1-22.

Sibley, C.G.& B.L.Monroe,Jr. 1990 Distribution and Taxonomy of birds of the World. New Haven & London: Yale Univ.Press.

Sick, H. 1993 Birds in Brazil. A Natural History. Princenton Univ.Press.

Souza, M.C. 1993. Sobre as aves marinhas no litoral dos Estados de Sergipe e Alagoas. Resumos III Congr.Bras.Orn., Pelotas:P.19.

Teixeira, D.M., J.B. Nacinovic, I.M. Schloemp & E.E. Kischlat. 1988. Notes on some Brazilian seabirds. Bull.B.O.C.,108(3):136-139.

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UFRJ- Instituto de Biologia. Depto.de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 Rio de Janeiro-RJ.

 

 

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