O Brasil perde cinco espécies de aves!

Uma análise crítica dos registros de Ruschi para alguns beija-flores das fronteiras setentrionais brasileiras

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

Phaethornis augusti incanescens, macho. Desenho de Rolf Grantasau

São conhecidas onze espécies de beija-flores montícolas endêmicos da região dos tepuis venezuelanos, limitante com o Brasil e Guiana Inglesa: 1) Doryfera johannae, 2) Phaethornis augusti, 3) P. griseogularis, 4) Campylopterus duidae, 5) C. hyperythrus, 6) Colibri delphinae, 7) C. coruscans, 8) Lophornis pavonina, 9) Polytmus milleri, 10) Amazilia viridigaster e 11) Heliodoxa xanthogonys (Willard et al. 1991). Todas essas espécies constam da lista de aves do Brasil, embora três ainda não tenham sido encontradas no lado brasileiro da fronteira. Duas questões se colocam imediatamente após esta afirmativa. a) Como pode alguma espécie estar na lista de aves do Brasil sem possuir registro específico? b) Uma espécie pode constar da lista de aves de um país apenas por ser potencialmente provável sua ocorrência? Iremos discutir inicialmente a primeira questão. Uma espécie consta da lista de um país ou de um estado porque alguém a incluiu, ou melhor, a registrou. Existe uma diferença entre alguém registrar alguma espécie e a espécie estar registrada corretamente. A rigor, qualquer registro publicado pode ser reconsiderado, re-alocado ou, simplesmente, refutado se evidências posteriores colocarem em discussão a informação original, nesse caso considerando mesmo casos de fraude. Nem sempre o registro desconsiderado é apenas um equívoco do autor que a publicou. Existe uma possibilidade ampla de casos que explicam a retirada de uma determinada espécie de uma lista regional e que estariam fora do alcance do autor, tais como: erro na procedência do exemplar, re-arranjo sistemático, alteração das fronteiras políticas etc. A segunda questão envolve um detalhe nem sempre adotado; a lista de qualquer país, estado, município ou qualquer outra divisão política (arbitrária) deve ser composta de registros especificamente realizados dentro de seus territórios. Parece simples, mas existem inúmeros casos onde a lista comprovada e a lista potencial (hipotética) de espécies ocorrentes numa região se misturam. Nestes casos parece que a intenção é sempre de aumentar, artificialmente, o número de espécies de uma lista.

Todas as onze espécies endêmicas do tepuis acima relacionadas foram, ao mesmo tempo, incluídas na lista «atualizada» de beija-flores brasileiros organizada por Augusto Ruschi (1965), embora já estivessem presentes em duas publicações anteriores, sobre nomes vulgares de beija-flores (Ruschi, 1963a, 1963b). Por essa época apenas dois artigos, escritos na Venezuela, sobre a avifauna da faixa fronteiriça brasileira haviam sido publicados (Phelps & Phelps, 1948, 1962). Nestes dois artigos seis espécies de beija-flores restritos a essa região altiplana foram pela primeira vez assinalados no Brasil (1948: espécies 1,3 e 6; 1962: 5, 10 e 11).

Depois disso o diminuto Lophornis pavonina foi coletado no Cerro Urutani, que faz parte do complexo da serra de Paracaima, Roraima (Dickerman & Phelps 1982), embora os autores não digam em que lado da fronteira o exemplar foi coletado, indicam, antes no texto, explicitamente que o Cerro Urutani fica na fronteira Venezuela-Brasil. O oitavo e último representante deste grupo de beija-flores altimontanos assinalado para o Brasil foi Colibri coruscans com base num exemplar coletado em Caldas, lado brasileiro do Monte Neblina (Willard et al. 1991).

As três espécies remanescentes assinaladas para o Brasil apenas por constar na lista de Ruschi (1965) e subsequentemente incluídas em todos os catálogos de distribuição de aves da América do Sul ou Brasil (a partir de Meyer de Schauensee, 1966) sem aparente contestação foram Phaethornis augusti, Campylopterus duidae e Polytmus milleri. Neste caso, o que está em questão não é discutir a possibilidade (inegavelmente forte) de existência dessas espécies em solo brasileiro, mas saber se a inclusão delas na lista de aves do Brasil foi originalmente fundamentada. Iremos em seguida examinar, caso a caso, as espécies envolvidas:

a)Phaethornis augusti - O único exemplar de P. a. incanescens (variedade geográfica dos tepuis) existente nas coleções do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão (MBML), Santa Teresa, ES é um exemplar com etiqueta rasurada coletado em 1971 (o registro de Ruschi é de 1965) no Departamento de Sucre, Venezuela, portanto da forma típica: P. a. augusti (Vielliard, 1994).

b)Campylopterus duidae - Não existem exemplares brasileiros desta espécie no MBML (Vielliard, 1994). Ruschi afirma textualmente ter coletado esta espécie na serra do Imerí, Amazonas em dezembro de 1963 (Ruschi, 1964), embora contraditoriamente já a tenha incluído em dois artigos anteriores a data da coleta (Ruschi, 1963a: 28 de outubro; Ruschi, 1963b: 28 de novembro).

c)Polytmus milleri - Não existe qualquer espécime no MBML (Vielliard, 1994).

Não existem também exemplares de Lophornis pavoniva e Colibri coruscans germanus no MBML que dariam a Ruschi (1965) primazia do registro para o Brasil.

Analisando as datas de coleta do material coletado na zona montanhosa fronteiriça de Roraima e Amazonas e indicadas nas respectivas etiquetas pelo próprio Ruschi (Vielliard, 1994) verificamos uma façanha: ele teria estado nessa região por «sete» ocasiões e coletado apenas 12 exemplares! Levando em conta a notória riqueza dos tepuis em beija-flores endêmicos, o maior interesse de sua carreira como pesquisador, pergunta-se: por que jamais relatoriou qualquer dessas visitas?

Em Benjamim Constant, na divisa com a Colômbia onde Ruschi parece ter realmente trabalhado 40 dias em 1957, foram preparados 56 exemplares taxidermizados e capturados 60 beija-flores para a sua coleção viva (Ruschi, 1957). Se era tão produtivo em termos de coleção quando excursionava aos pontos mais distantes do país, por que não seria nas sete viagens que fez a zona fronteiriça com a Venezuela? Por que rasurou algumas das etiquetas de beija-flores da sua coleção que eram provenientes da Venezuela? Tentava indicar que eram provenientes do lado brasileiro da fronteira?

Os dados acima colocam em dúvida a possibilidade da existência desta série de excursões, eu diria mesmo, baseando-se nas várias evidências em contrário, da existência de qualquer uma das excursões.

Outra inegável evidência de que Ruschi talvez não tenha jamais estado no platô dos tepuis é que as duas espécies mais comuns da região: Campylopterus hyperythrus e Heliodoxa xanthogonys, com centenas de exemplares depositados no Museu de Ciências Naturais de Caracas (Phelps & Phelps, 1958) não estão representadas por nenhum exemplar brasileiro na coleção de Ruschi. Para um exemplar de H. xanthogonys ocorreu o mesmo que em Phaethornis augusti, a etiqueta do exemplar coletado na Venezuela está rasurada (Vielliard, 1994).

O problema das inclusões de beija flores na lista de aves do Brasil por Ruschi de forma arbitrária ou mais precisamente de forma fraudulenta não se limita à Roraima. Duas outras espécies devem ser retiradas da lista do Brasil e nem mesmo estão numa situação de possibilidade marginal de ocorrência, porque são de distribuição andina, portanto bem longe da fronteira brasileira: Klais guimeti e Heliodoxa gularis.

O exemplar de Heliodoxa gularis coletado em Benjamim Constant, Amazonas (Ruschi, 1957) foi reidentificado como sendo Heliodoxa schreibersii (Vielliard, 1994).

Klais guimeti foi originalmente indicado por Ruschi como coletado em Parima, divisa com Venezuela e no rio Javari, divisa com o Peru (Ruschi, 1971). O registro na planície amazônica do Javari seria o único registro de baixada conhecido para esta espécie montícola! Os dois exemplares coletados na região dos tepuis seriam os únicos conhecidos para essa região, embora as coleções ornitológicas feitas na região somem vários milhares de exemplares (Mayr & Phelps, 1967). A probabilidade de Ruschi ter coletado K. guimeti na região dos tepuis (numa amostra de 12 exemplares) é tão remota que ultimamente ele mesmo não incluía serra de Parima na distribuição desta espécie (Ruschi, 1979).

Recomendo que outras análises críticas sobre determinados resultados da obra de Augusto Ruschi (1916-1986) sejam iniciadas. É preciso saber no futuro o que podemos utilizar e perpetuar em termos de dados dentro da sua extensa produção científica, que extrapolou inclusive a seara da Ornitologia.

Em suma, devem ser retiradas da lista de aves do Brasil, por falta de elementos comprobatórios, as seguintes espécies: Phaethornis augusti, Campylopterus duidae, Polytmus milleri, Klais guimeti e Heliodoxa gularis.

Bibliografia citada

Dickerman, R. W.& W.H.Phelps, Jr. 1982. An Annotated List of the Birds of Cerro Urutaní on the border of Estado Bolívar, Venezuela, and Territorio Roraima, Brazil. Amer. Mus.Nov., 2732

Mayr & Phelps, 1967. The origin of the big fauna of the south Venezuelan highlands. Bull. Amer. Mus.Nat.Hist., 136(5):269-328.

Meyer de Schauensee, R. 1966. The species of birds of South America and their distribution. Narberth: Acad.Nat.Sci.Philadelphia.

Phelps, W.H. & W.H.Phelps, Jr. 1948. Descripcion de seis aves nuevas de Venezuela y notas sobre veinticuatro adiciones a la avifauna del Brasil. Bol.Soc.Venez.Cienc.Nat., 11:53-74.

Phelps, W.H. & W.H.Phelps, Jr. 1958. Lista de las Aves de Venezuela com su distribucion. Tomo II. parte I. No Passeriformes. Bol.Soc.Venez.Cien.Nat., 19:1-317.

Phelps, W.H. & W.H.Phelps, Jr.1962. Cuarentinueve aves nuevas para la avifauna brasileña del Cerro Uei-Tepui (cerro del Sol). Bol.Soc.Venez. Cienc.Nat.,23:32-39.

Ruschi, A. 1957. A trochilifauna da foz do rio Javari e rio Amazonas em Benjamim Constant. Bol.Mus.Biol.Prof. Mello-Leitão, Biol., 20. Ruschi, A. 1963a. Os nomes vulgares dos beija-flores do Brasil (Trochilidae-Aves). Bol.Mus.Biol.Prof. Mello-Leitão, Divulg.,5.

Ruschi, A. 1963b. Os nomes vulgares dos beija-flores do Território de Roraima. Bol.Mus.Biol.Prof. Mello-Leitão, Divulg.,9.

Ruschi, A. 1964. O gênero Campylopterus e as espécies representadas no Brasil. A sua atual distribuição geográfica, com um novo representante para o Brasil. (Trochilidade-Aves). Bol.Mus.Biol.Prof. Mello-Leitão, Biol., 40.

Ruschi, A. 1965. Relação atualizada das espécies de beija-flores do Brasil, com a sua distribuição geográfica pelos Estados, Territórios e distrito federal e a chave analítica para os gêneros representados no Brasil (Trochilidae-Aves). Bol.Mus.Biol.Prof. Mello-Leitão, Biol.,47.

Ruschi, A. 1971. A distribuição geográfica de Klais guimeti (Bourcier, 1843) e algumas observações sobre a sua biologia e ecologia. Arq.Mus.Nac., Rio de Janeiro, 65:153-57.

Ruschi, A. 1979. Aves do Brasil. São Paulo:Ed. Rios.

Vielliard, J.M.E. 1994. Catálogo dos Troquilídeos do Museu de Biologia Mello Leitão. Santa Teresa: MBML

Willard, D.E., M.S.Foster, G.F. Barrowclough, R.W.Dickerman, P.F. Cannel, S.L.Coats, J.L.Cracraft & J.P.O’Neill. 1991. The Birds of cerro de la Neblina, Territorio Federal Amazonas, Venezuela. Fieldiana. Zool., n.s.,65.

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