Estudos citogenéticos em aves da Floresta Misionera

Ricardo J. Gunski - Argentina

O estado de Misiones apresenta a maior avifauna da Argentina, com aproximadamente 600 das 900 espécies citadas, sendo uma das poucas regiões donde podem ser estudadas espécies da Floresta Paranaense (Brazilian Rain Forest - UDVARDY, 1975).

As aves representam entre os vertebrados, um dos grupos animais menos conhecidos do ponto de vista citogenético. É possível mencionar vários fatores como responsáveis deste fato; o elevado número cromossômico e a presença no complemento de pequenos cromossomos denominados microcromossomos sãos os principais. Com o desenvolvimento de novas técnicas que permitem obter preparações de boa qualidade gerou-se, com base em certos estudos, a idéia de um alto grau de homologia estrutural do cariótipo das aves.

Na Argentina esta área da genética não tem sido desenvolvida, sendo os grupos de pesquisadores brasileiros os que realizaram os maiores aportes para o conhecimento da citogenética das aves sul-americanas.

Assim, desde o mês de outubro de 1994, no âmbito do Departamento de Genética da Faculdade de Ciências Exatas, Químicas e Naturais da Universidade Nacional de Misiones (UNaM), trabalhamos no projeto "Estudos Citogenéticos em Aves da Província de Misiones e zonas Limítrofes", que tem como objetivo principal o fornecimento de dados a respeito da citogenética da Classe Aves com informações referidas aos cariótipos e padrões de formação de bandas cromossômicas, que permitam realizar comparações entre gêneros e espécies, em função do aspecto taxonômico e formulando hipóteses que expliquem os prováveis mecanismos de evolução cromossômica.

Nesta primeira fase temos priorizado o estudo de algumas famílias, como por exemplo: Tyrannidae, Tinamidae, Caprimulgidae, Emberizidae, entre outras. Na tabela que segue se apresenta o número de gêneros e espécies, por famílias, em estudo atualmente.

 

Família N° Gêneros N° Espécies

Tyrannidae 15 17

Columbidae 4 7

Tinamidae 4 4

Caprimulgidae 2 2

Thraupidae 2 2

Cuculidae 3 3

Emberizidae 5 6

Fringilidae 1 1

 

Os primeiros resultados obtidos para tiranídeos foram apresentados recentemente no V Congresso de Ornitologia Neotropical em Assunção, Paraguai; os mesmos mostraram para as espécies analisadas uma marcada variabilidade tanto numérica quanto morfológica, com número diplóides muito pequenos para a classe como em Platyrinchus mystaceus 2n=60 (Fig.1), ou elevados, como em Cnemotriccus fuscatus 2n=84 (Fig.2) (GUNSKI, et al, 1995). Em P. mystaceus o número relatado é um dos menores descritos na bibliografia, comparável com os dados de LUCCA (1980) para Uropelia campestris 2n=68 e LUCCA (1983) para Falco sparverius 2n=50. Em P. mystaceus são predominantes os cromossomos metacêntricos ou submetacêntricos, que poderiam ser originados por rearranjos do tipo robertsoniano como fusões cêntricas entre microcromossomos, os que resultariam em uma redução numérica do complemento. Já em C. fuscatus os cromossomos acrocêntricos são predominantes, superando em número a Xolmis cinerea 2n=80 (ROCHA, 1987), representando entre as poucas espécies de tiranídeos até agora pesquisadas, o maior número observado. Os resultados obtidos, embora preliminares, justificam amplamente o desenvolvimento de estudos nesta área, considerando que menos de 8% das aves conhecidas têm sido objeto de abordagens citogenéticas (GUNSKI, 1992) e, portanto, muitas famílias ainda não têm sido estudadas. Os dados cariotípicos também constituem uma valiosa ferramenta para a identificação e caracterização de espécies taxonomicamente complexas, além de permitir a sexagem de espécies sem dimorfismo sexual aparente (LUCCA & ROCHA, 1992), entre outras aplicações.

Finalmente, estudos cromossômicos em aves sul-americanas são particularmente importantes, tendo em conta a sistemática destruição do meio ambiente, o que tem colocado muitas espécies em perigo de extinção.

Fig. 1 - Cariótipo parcial de uma fêmea de Platyrinchus mystaceus 2n=60

Fig. 2 - Cariótipo de uma fêmea de Cnemotriccus fuscatus 2n=84

Fig. 3 - Exemplar de Platyrhinchus mystaceus

 

Bibliografia

GUNSKI, R.J. Análise citogenética e algumas considerações biológicas da espécie Rhea americana - Ema (Aves: Rheidae). Tese de mestrado. Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. UNESP. Jaboticabal, São Paulo, 119p. 1992.

GUNSKI, R.J.; KRAUCZUK, E.; GARNERO, A.; LIOTTA, J.; NIETO, L. Estudios cariotípicos en Tiránidos (Aves: Tyrannidae). Anales V Cong. Ornitologia Neotropical. Asunción, Paraguay. 1995. Pág.1.

LUCCA, E.J. Mecanismos de Evolução cromossômica em Columbiformes e Psittaciformes. Instituto Básico de Biologia Médica e Agrícola, Botucatu, UNESP. Tese de Livre Docência. 1980.

LUCCA, E.J. Somatica chromosomes of Falco sparveius and Buteo magnirostris (Falconiformes - Aves) The Nucleus, 16 (1):48-56. 1983.

LUCCA, E.J. & ROCHA, G.T. Citogenética de Aves. Bol. Mus. Para. Emílio Goeli, sér.zool. 8(1):33-68. 1992.

ROCHA, G.T. (1987) Apud LUCCA, E.J. & ROCHA, G.T. Citogenética de Aves. Bol. Mus. Para. Emilio Goeli, sér.zool. 8(1):33-68. 1992.

UDVARDY, M.D.F. A Classification of the Biogeographical Provinces of the World. Project 8 - Man and the Biosphere Programme (MAB) UNESCO UICN Occasional Paper 18 - Morges Switzerland - 1975.

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Ricardo J. Gunski

Depto. de Genética - FCEQN - Univ. Nacional de Misiones; Fone 0054-75222186; FAX 0054-752-25414

 

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