Algumas aves de hábitats especiais da região de Itirapina (São Paulo)

Edwin O. Willis - Rio Claro-SP

 

Muitas aves silvestres ocorrem em matas e outros ambientes naturais de grande extensão, mas algumas espécies ocorrem somente em hábitats especiais de áreas menores.  Esses hábitats são encontrados, às vezes, como ilhas dentro de mata ou de cerrado, bem como áreas pequenas em regiões cultivadas pelo homem.  É importante descobrir e preservar esses hábitats especiais, mesmo quando pequenos, porque podem conter espécies de aves e outros organismos que não sobrevivem em áreas maiores de mata, cerrado ou cerradão.

 

Aqui, descrevo brevemente sobre as aves de 4 hábitats especiais de áreas pequenas nos cerrados (senso lato) do Município de Itirapina, Estado de São Paulo, para ressaltar a importância da preservação desses hábitats de distribuição restrita: bosques de várzea, brejos de várzea, campos limpos e campos sujos.

 

    1.  Bosques de várzea:  Em meio aos campos e brejos de várzea da região de Itirapina, existem ilhotas ou manchas pequenas de um bosque de várzea ou mata ciliar com aspecto de uma capoeira.  Entretanto, este bosque baixo é uma formação natural decorrente de elevação de nível do lençol de água, acima das raízes das árvores pequenas durante quase todo o ano.  Devem ai ocorrer espécies de plantas e artrópodos distintos, pois vive dentro destes bosques de várzea, uma ave insetívora endêmica do interior do Brasil: pula-pula-branco Basileuterus leucophrys (Parulidae). A leste e sul do estado, esta ave desaparece e ocorre uma espécie aparentada, pula-pula-assobiador Basileuterus leucoblepharus, que é bem mais comum porque vive em qualquer mata grande com solo seco ou pouco alagado.  B. leucophrys é ave pouco conhecida e é necessário estudá-la para se saber as razões de sua ocorrência restrita aos bosques de várzea.  Esta é a maior das 49 espécies de Parulídeos existentes em todo o continente da América do Sul, de acordo com Meyer de Schauensee (1970) e é muito comum dentro dos bosques de várzea de Itirapina, com vários casais em poucos hectares de extensão.

 

Outras espécies de aves do bosque de várzea são interessantes, como por exemplo a choca-de-asa-ruiva, Thamnophilus torquatus (Thamnophilidae) e a pipira-vermelha, Ramphocelus carbo (Thraupinae) que aqui aparecem no limite sul de suas distribuições geográficas.

 

    2.  Brejos de várzea;  Os brejos ou banhados de Cyperaceae, Gramineae e outras plantas baixas ao redor dos bosques de várzea são hábitats específicos para várias aves.  Destacam-se o estranho "galito" (Alectrurus tricolor, Tyrannidae), a grande tesourinha-do-brejo (Gubernetes yetapa, Tyrannidae), o colorido dragão-do-brejo (Pseidoleistes guirahuro, Icteridae) e outras espécies de brejo, endêmicas da região sudeste da América do Sul.  O caminheiro-grande (Anthus nattereri, Motacillidae) (ave em extinção) ocorre quando o fogo ou atividade moderada de gado abre um pouco a vegetação, sendo uma das aves que indica a necessidade de fogo no cerrado.  Muitas outras aves podem ser ainda citadas e outras deverão ser encontradas com estudos mais aprofundados.  A utilização de várzeas como estas para plantações de arroz, por exemplo, no programa "Provárzea", pode acabar com populações dessas importantes espécies de aves que vivem em brejos de várzea.

 

    3.  Campos limpos:  Os campos naturais da região de Itirapina, ocorrendo ao redor dos brejos e bosques de várzea, são ambientes propícios para várias espécies endêmicas da região sudeste da América do Sul.  Destes campos naturais é conhecida a muito interessante codorna-buraqueira (Nothura minor, Tinamidae), ave rara e só existente no sudeste do Brasil, além da codorna-amarela (Nothura maculosa), mais comum.  Um falcão dos campos , o falcão-de-coleira, Falco femoralis (Falconidae) e o gavião-de-cauda-branca, Buteo albicaudatus (Accipitridae) são também raros no Estado de São Paulo e a grande ema (Rhea americana, Rheidae) ainda ocorre nos campos e nos campos sujos ou cerrados adjacentes.  Dentre as aves menores do sudeste do continente, incluem a rara andorinha-morena, Alopochelidon fucata (Hirundinidae) e o tico-tico-mascarado Coryphaspiza melanotis (Emberizinae), ave em extinção.

 

    4.  Campos sujos:  Entre os cerrados e os campos limpos de Itirapina, os campos com arbustos esparsos (campos sujos) atraem algumas espécies de aves endêmicas do sudeste do continente. A primavera, Xolmis cinerea (Tyrannidae), as avoantes (Zenaida auriculata, Columbidae) e a meia-lua-do-cerrado, Melanopareia torquata (Rhinocryptidae) ocorrem ai.  Foram observadas também neste hábitat outras aves raras ou pouco conhecidas: o mineirinho, Charitospiza eucosma, o batuqueiro, Saltator atricollis (Emberizidae); o tiê-do-cerrado, Neothraupis fasciata, e a bandoleta,  Cypsnagra hirundinacea (Thraupinae) e duas pequenas aves muito raras, o tricolino-canela, Polystictus pectoralis e a maria-do-campo, Culicivora caudacuta (Tyrannidae).  Muitas outras aves, incluindo espécies de campos limpos e de cerrados, ocorrem também nos campos sujos.  Estudos posteriores serão necessários para se determinar quais são as espécies mais ligadas a esses tipos de vegetação.  Todas estas espécies serão fatalmente prejudicadas com as plantações de Pinus sp. e Eucalyptus sp. nas zonas de campos limpos e sujos, ou pela transformação antréopica em pastos ou laranjais.

 

 

AGRADECIMENTOS

 

    Agradeço à Yoshika Oniki pela leitura crítica do manuscrito.  Sou grato também pela cooperação do Instituto Florestal do Estado de São Paulo e especialmente dos funcionários do Horto Florestal de Itirapina.

 

BIBLIOGRAFIA

Meyer de Schauensee, R. 1970. A Guide to the Birds of South America. Livingston Publ. Co., Wynnewood, Pennsylvania. 470 pp.

 

Willis, E. O. & Y. Oniki.  1991.  Nomes Gerais para as Aves Brasileiras. Gráfica da Região, SP. 79 p.

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Depto. Zoologia, UNESP, C. P. 199, 13.506-900 Rio Claro, SP

 

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