Notulae et corrigenda - III

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro

Dando prosseguimento a finalidade desta coluna em chamar a atenção para equívocos pertinentes a literatura relativa a ornitologia brasileira selecionamos, nesta terceira nota da série, dois casos interligados pela mesma causa. Ambos se relacionam com a distribuição equivocada divulgada por obras monográficas. As consagradas obras monográficas sobre grupos familiares de aves (p. ex.: Parrots of the World, Woodpeckers of the World); aves de uma determinada região (p. ex.: The Birds of South America) ou a conjugação de grupo e região específica (p. ex.: Beija-flores do Brasil) pretendem, como se deduz do entendimento da palavra monografia, esgotar o tema através do esmiuçamento dessa fatia do conhecimento, através de larga compilação de dados, tratamento de síntese e ordenamento de idéias. Essas obras passam a ser referência obrigatória dos grupos e regiões de domínio abrangido, deixando de exercer essa forte influência apenas com o passar dos anos quando são substituídas, em parte, por novas obras similares revisadas e atualizadas.

A distribuição geográfica das espécies tratadas nestas monografias é um dos dados de maior dependência da compilação de dados publicados. Uma distribuição das espécies correta, detalhada e atualizada (como deveria se esperar), acompanhada de competente visão crítica dos registros existentes, requer uma aprofundada consulta às fontes originais, muitas vezes expressas em idiomas diversos. Essa prática desejável raramente é implementada pelas obras monográficas ornitológicas e quanto maior o escopo do trabalho, menor aparentemente o grau de detalhamento da informação geográfica fornecida. Se por um lado essas obras ganham projeção pelo seu substancial volume, por outro induzem ao erro ou perpetuam uma série de informações equivocadas por tratarem a matéria relativa a distribuição geográfica com uma inevitável superficialidade.

Em 1988 o ornitólogo australiano Leo Joseph divulgou uma nota (1) onde apresentou uma extensão significativa para a distribuição do Anacã, Deroptyus accipitrinus, a partir de uma observação sua realizada realizada em Rondônia. Este novo ponto estenderia em cerca de mais de 500 km a distribuição "conhecida" da espécie. De fato Joseph apenas considerou sua observação como extensão relevante porque se baseou principalmente no mapa fornecido na obra Parrots of the World de Forshaw (2). Logo, Joseph assumiu que o mapa e a compilação de dados realizada para tal pelo seu compatriota Joseph M. Forshaw era correta, abrangente e definitiva. Porém está publicado em português (talvez seja esse o problema) desde 1920 (3) um registro do Anacã para o rio Juruena, noroeste de Mato Grosso, portanto quase na divisa com Rondônia. Este registro documentado por peles depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro foi divulgado em artigo intitulado "Revisão dos Psittacídeos Brasileiros", publicado em periódico de larga permutação internacional, a antiga e tradicional (mesmo em 1920) "Revista do Museu Paulista" e escrita por zoólogo brasileiro de projeção, Alípio de Miranda Ribeiro. Nenhum desses atributos foi suficiente (embora o título seja plenamente relacionado com a matéria) para que Forshaw consultasse esse artigo - com 82 páginas - e a partir da informação da presença do Anacã em Juruena produzisse um mapa diferente daquele que apresentou em suas duas primeiras edições (4). Talvez a maioria dos autores considere mesmo a referência de Miranda-Ribeiro particularmente obscura! A maioria dos autores também entende que Joseph ao se basear no mapa de Forshaw tenha procurado uma fonte lógica de consulta! Mas, a pergunta que fica é a seguinte: poderia uma obra monográfica sobre psitacídeos do mundo considerar "obscuro" um artigo de mais de 80 páginas publicado em uma das principais revistas científicas da América Latina da época? Conjugando o fato de ser o Brasil o país com o maior número de psitacídeos do mundo e o fato de que o longo artigo de Miranda Ribeiro ter sido a primeira monografia específica sobre psitacídeos do Brasil, a omissão de Forshaw é quase inaceitável. Esta omissão acabou por levar Joseph a julgar relevante geograficamente o seu achado em Rondônia e a fazer o editor da revista achar o teor da matéria pertinente para publicação!

Em 1980, um volume publicado pelo American Museum of Natural History dedicou 357 páginas a uma monografia sobre a família neotropical dos furnarídeos (5). Esta obra póstuma de Charles Vaurie (1906-1975) dedicada a taxonomia e a distribuição geográfica do grupo marcou época. Na página 211 desta obra aparece consignado para a distribuição brasileira de típico furnarídeo dos banhados, o Bate-bico Phleocryptes melanops a seguinte sentença: "No valid records seem to exist in Brazil north of Southeastern Rio Grande do sul". Entretanto, o bate-bico fora colecionado na Lagoa Feia, Norte do Rio de Janeiro por coletores da Expedição do Museu de Zoologia de São Paulo já em 1941, conforme se lê no célebre ensaio "Cinqüenta anos de investigação ornitológica" de Olivério Pinto (6). Como questionamento final para refletir sobre estes dois casos pergunta-se: são verdadeiras "as novidades" quanto a distribuição geográfica das espécies que se verificam ao se consultar as monografias? Ou, melhor é reconhecer que as monografias devido ao dilatado universo que tentam abraçar nem sempre conseguem incorporar todas as informações pertinentes publicadas?

Referências

(1) Joseph, L. 1988. Range extensions of the Red-fan Parrot Deroptyus accipitrinus in Amazonian Brazil. Bull. B.O.C., 108 (3): 101-103

(2) Forshaw, J. M. 1977. Parrots of the World. Neptune, N. J.: T.F.H.

(3) Rev. Mus. Paulista, 12:1182 (1920)

(4) Forshaw, J. M. 1973. Parrots of the World. Melbourne: Landsdowne - Press; Forshaw, J. M. 1977. Parrots of the World. Neptune, N. J.: T.F.H.

(5) Vaurie, C. 1980 Taxonomy and geografical distribuition of the Furnariidae (Aves, Passeriformes). Bull. Amer. Mus. Nat. Hist. 166(1): 1-357

(6) Arq. Zool. São Paulo, 4: 261-340 (1945)

 

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