Mais uma ave recém descoberta para a ciência: Bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris)

Marcos Bornschein e Bianca Reinert - Curitiba-PR

A descoberta de uma nova ave, até então desconhecida pela ciência, foi realizada em meados do ano passado no litoral do estado do Paraná, próximo da cidade de Matinhos e publicada no final daquele ano na Série Publicação Técnico-Científica do Instituto Iguaçu, n° 1 (Rio de Janeiro), pelos biólogos Marcos Bornschein e Bianca Reinert, pesquisadores colaboradores do Museu de História Natural "Capão da Imbuia" da Prefeitura Municipal de Curitiba, no Paraná, e pelo Prof. Dante Teixeira do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

O fato mais incrível é que não se trata apenas de uma espécie nova, mas também de um gênero novo, ou seja: não havia nenhum representante da grande família ao qual pertence o pássaro que se aparentasse com ele.

A ave encontrada é bastante diferente, tendo exigido dos pesquisadores a análise anatômica do seu aparelho vocal - um estudo nunca antes realizado por qualquer brasileiro, para o qual utilizaram de técnicas laboratoriais bastante complexas.

Ela habita os banhados de taboa (Thypha dominguensis) nos Balneários de Ipacaray e Betares, que se localizam aproximadamente 60 metros da rodovia de acesso entre Matinhos e Praia de Leste, no litoral do estado do Paraná. O pássaro é um pequeno representante dos papa-formigas, família que é denominada tecnicamente de Formicariidae. Pesa cerca de 10 gramas e tem 14 centímetros de comprimento, tendo sido batizado de Stymphalornis acutirostris, nome que em parte deriva da mitologia grega, onde Héracles em um dos seus 12 trabalhos deveria eliminar as estinfálides, grandes e temíveis aves revestidas de bronze que habitavam o pântano impenetrável de Estinfalo, na Arcádia. Em alusão a forma longa e afilada do bico do pássaro, utilizou-se do latim o nome "acutirostris".

Fato que chama a atenção acerca desta descoberta é que as aves são os animais mais estudados do mundo, estimando-se que pelo menos 99% delas já sejam conhecidas pela ciência. No Brasil, pelo menos nos últimos 100 anos não se descobria um gênero e espécie de ave novos.

Existe uma grande preocupação com relação a preservação desta ave nova, pois ela habita banhados que vêm sofrendo uma vertiginosa perda de hábitat por diversas ações de origem antrópica que já podem ter colocado o bicudinho-do-brejo em iminente risco de extinção.

Recentemente foi criado o "Grupo Técnico de Proteção ao Bicudinho-do-Brejo", existindo um fax para contato dos interessados na preservação desta espécie, ou mesmo de pessoas ou entidades que queiram mais informações: (041) 222-9740.

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Marcos Bornschein & Bianca Reinert - Museu de História Natural "Capão da Imbuia"- Rua Benedito Conceição, 407 - Curitiba-PR 82810-080; fone (041) 241-8890 ou 366-3133.

 

Foto de Bianca Reinert


 

Considerações sobre a abundância de espécies do Gênero Xenops (Aves: Furnariidae) do Sul da Província de Missiones - Argentina

Ernesto R. Krauczuk (1), Ricardo J. Gunski (1), Gabriela Riviello López (1), Mario A. Ledesma (1) e Patricia Blanco (1)

Fig.1 Exemplar de Xenops minutus

RESUMO:

No presente trabalho, informa-se sobre o status de duas espécies da ornitofauna da Província de Missiones, Argentina, representantes da Floresta Paranaense (CABRERA y WILLINK, 1980) ou Brazilian Rain Forest (UDVARDY, 1975), que vão ser afetadas pelo alagamento dos ambientes naturais, como conseqüência da usina hidroelétrica de Yacyretá e pela futura construção do Projeto Corpus (se o mesmo for feito na região denominada Itacuá -Município de Candelaria).

Após aproximadamente 100 horas de observação nos Departamentos de Apóstoles, Candelaria, Capital, Leandro N. Alem e San Ignacio, foram observados cinco exemplares de Xenops rutilans (TEMMINCK, 1821) e dois exemplares de Xenops minutus (SPARRMAN, 1788), representado 0.051% para a primeira espécie e 0.0204% para a segunda do total de 9800 exemplares de aves contadas nos diferentes ambientes, todos eles alterados pela ação do homem.

Xenops rutilans TEMMINCK, 1821

Na floresta ribeirinha da fazenda San Juan (Candelaria), foram observados dois exemplares no dia 21-V-94 e outro o dia 8-V-95. Em Governador Roca (São Ignacio), observaram-se dois exemplares nos dias 12-XI-94 e 20-I-95.

OLROG & CAPLLONCH (1985) citam a espécie para o NE argentino em ambientes de Floresta Paranaense. DARRIEU (1986) sugere, para a mesma, uma distribuição exclusivamente paranaense e apresenta exemplares (10) capturados no E do estado de Corrientes, coletados por W. H. Partridge em Colonia Garabi, Fazenda Rincon de las Mercedes (1962) e três exemplares em Garruchos (1961).

HAYES et al. (1991), para o Paraguai, a determinam como rara para o Alto Paraná e o Paraguai Central. CONTRERAS et al. (1991), para a fazenda San Juan, indicam uma abundância de 13.84% para essa espécie segundo a fórmula de OLMOS (1989). Giraudo et al. (1993) citam a espécie para Porto San Juan (Candelaria) no mês de Janeiro de 1992. CONTRERAS et al. (1994) fornecem dados dessa espécie em diferentes locais, entre eles, citam a fazenda San Juan onde foi coletado um exemplar e Profundidad (Candelaria) entre os anos 1988 e 1991.

 

Xenops minutus SPARRMAN, 1788

No dia 12-VI-95, aproximadamente às 10:30, foram capturados dois exemplares (Fig.1) na fazenda San Juan, utilizando-se rede de neblina (mist net) a uma distância próxima aos 100 cm do chão, praticamente no ecótono floresta-sucessão secundária. Os exemplares foram capturados numa trilha só utilizada para cavalgadas, onde é abundante o "crisiuma" (Chusquea ramossisima, Lindm), que forma uma estrutura compacta de vegetação. Esta poderia ser a dificuldade que apresenta a espécie para as avistagens, já que é considerada do estrato médio ou alto da Floresta (NAROSKY et al., 1987).

No Brasil (estado de Paraná), recentemente foi observada em duas oportunidade por Mähler Junior (Com. pessoal) no início do caminho para Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, um exemplar no ano de 1992 e outro no ano de 1993. HAYERS et al. (1991) citam a espécie como rara na Paraguai Central e o Alto Paraná e NAROSKY et al (1987) a descrevem com distribuição desde Centro América até Argentina.

Os escassos dados dessa espécie para o Estado de Missiones, segundo CHEBEZ (1994), correspondem as citadas por ESTEBAN (1952); NAVAS & BO (1988) e MOSCHIONE IN LITT. (1987).

Essa espécie precisa de estudos mais detalhados que permitam determinar seu status atual.

Fig.2 Mapa da Província de Misiones e locais de amostragem

Mapa da Província de Misiones (Argentina)

Referências:

1 - Posadas 2 - Iguaçu 3 - Campo San Juan 4 - Bompland 5 - Governador Roca

 

 

(1) PROYECTO DE ESTUDIOS CITOGENÉTICOS DE AVES DE LA PROVINCIA DE MISIONES Y ZONAS LIMÍTROFES

Facultad de Ciencias Exactas, Químicas y Naturales (UNaM), Gabinete de Genética, Félix de Azara, 1552 6o. Piso (3300) Posadas, Misiones, Argentina.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CHEBEZ, J C 1994 Los que se van. Especies argentinas en peligro. - Editorial Albatros, Bs As, Argentina

CONTRERAS, J R; A GARELLO, E KRAUCZUK 1994 Consideraciones acerca de diez especies interesantes de aves de la Provincia de Misiones, República Argentina. - Notulas Faunísticas (52)1-8, Ctes, Argentina

CONTRERAS, J R; M RINAS, C GALLIARI, S MONTANELLI, R STETSON, G CAMARERO, C SAIBENE, A JOHNSON, S HEINONEN, A GOMES, G GIL, Y DAVIES, A GIRAUDO, E KRAUCZUK, M HUDY, L FLORENTIN, R MARTINEZ. - 1991 - Informe Inédito. - Informe de estudio de fauna y flora silvestre, Programa de Fauna y Flora (Convenio Ministerio de Ecologia y R.N.R. - Entidad Binacional Yacyretá.) - Primera Campaña - Pdas, Mnes, Argentina.

DARRIEU, C A 1986 Estudios sobre la avifauna de la Provincia de Corrientes III. Nuevos registros de Aves Passeriformes (Dendrocolaptidae, Furnarridae, Formicariidae, Cotingidae y Pipridae) y consideraciones sobre su distribución geográfica. - História Natural 6 (11) 93-99, Ctes, Argentina

GIRAUDO, A; J BALDO & R ABRAMSON. 1993 - Aves observadas en el Sudoeste, Centro y Este de Misiones (República Argentina); com mención de especies nuevas o poco conocidas para la Provincia. - Nótulas Faunísticas. (49) 1-13 - Corrientes, Argentina

HAYES, E F; P SCHARF & H LOFTIN 1991 - A Birder’s field checklist of the Birds of Paraguay - Russ’s Natural History Books. - Lake Helen, Florida, USA.

NAROSKY, T. & D IZURIETA 1987. Guia para la identificación de las aves de Argentina y Uruguay, Asociación Ornitológica del Plata Bs As. Argentina.

OLROG, C. & P CAPLLONCH 1986 Bioornitologia Argentina Historia Natural, Suplemento Especie (2) 1-41, Ctes, Argentina.

UDVARDY, M D F 1975 A Classification of the Biogeographical Provinces of the World. - Project nº 8. - Man and the Biosphere Programme (M.A.B.) - UNESCO - U.I.C.N. Occasional Paper nº 18 - Morges, Switzerland.

 

AGRADECIMENTOS: Ao Prof. Julio R, Contreras pela bibliografia fornecida. A Juan Carlos Chebez e Mariano Ordano pela revisão desse trabalho, a Mähler Junior pela informação fornecida, a Josefina e Victoria Durini pelas atenções recebidas, a José Paz pelo auxilio nos trabalhos de campo e ao Dr. Alberto Fennochio e a seu grupo de trabalho pela permanente colaboração.

 

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