Os Puxadores das Escolas de Samba - I. "Assobiadeiras" no Quintal

Edwin O. Willis - Rio Claro-SP

Maria-assobiadeira (Sirystes sibilator, Família Tyrannidae) Desenho de P. Barruel

Nas matas e savanas do mundo é comum encontrar grupos de aves de várias espécies voando juntas, os famosos "bandos mistos". O nosso amigo, Tadeu de Melo Jr., com a feliz apelação batizou-os de "escolas de samba", porque todos pulam em um percurso comum. Todos procuram alimentos de maneira diferente e não são periquitos de várias espécies juntas numa fruteira, nem formicarídeos ou arapaçus aglomerados ao redor de uma correição de formigas, pegando insetos afugentados. O deslocamento do bando é importante; com pouco ou nenhum movimento comum, não há "escola de samba", nem bando misto.

Não é evidente porque as aves de bandos mistos seguem umas às outras, durante todo o dia, pois não são aves reunidas ao redor de alimento comum, como fazem os beija-flores em árvore florida ou aves marinhas em volta de barco pesqueiro ou junto de baleia que está espantando os peixes. São aves sociais, que não disputam pelo alimento.

Descourtilz, no século passado e Bertoni (1926), já registravam que os tiês-da-mata (Habia rubica) do sudeste da América do Sul, estavam sempre acompanhados de limpa-folhas-coroados (Philydor atricapillus) e barranqueiros-de-olho-branco (Automolus leucophthalmus), em níveis inferiores e escuros da mata.

No distante país de Belize, anos atrás (Willis 1960), registramos que os mesmos tiês-da-mata (Habia rubica) estão sempre acompanhados por vite-vites-uirapurus (Hylophilus ochraceiceps), tendo o mesmo território porque sempre que os tiês brigam com o bando vizinho, os vite-vites também o fazem. Posteriormente foi confirmado, na Amazônia (Munn & Terborgh 1979) que outras espécies dos bandos têm territórios idênticos, superpostos, limitados pelos movimentos conjuntos de seu bando misto a cada dia.

Presentemente, sabemos que os famosos bandos mistos ganham proteção contra gaviões, falcões e corujas perigosas. Andando juntas, as aves dão o alarme quando encontram o perigo, escapando das garras de seus inimigos. Entretanto, dentro dos bandos de Bertoni e outros bandos, tem aves que sempre têm a cabeça enfiada dentro das folhas secas, como os barranqueiros, ou dentro das folhas verdes, como os limpa-folhas, procurando bicar os insetos. Estas aves pouco olham à sua volta e, dependem de outras aves "sentinelas". As aves sentinelas são aquelas que voam distâncias médias para as presas, e sempre estão olhando para longe. No caso das aves estudadas por Bertoni, os tiês sempre olham de longe porque procuram voar alguma distância para insetos e frutos e, tornam-se "sentinelas" ao olhar para longe. Elas gritam muito quando aparece um ornitólogo, gato, gavião ou qualquer outro animal que seria um predador potencial. Não gritam para ajudar os limpa-folhas ou barranqueiros, mas porque têm filhotes ou o seu par no mesmo bando e não querem perdê-los.

Como no caso dos tejos-de-campo (Mimus saturninus) ou (Alves 1990) tiês-do-cerrado (Neothraupis fasciata), onde uma ave fica sem comer em cima de arbusto enquanto os demais permanecem forrageando no chão entre as ervas densas, estas aves "sentinelas" atraem os "aproveitadores". No caso das aves de Bertoni, os sentinelas são os tiês e, os aproveitadores são os limpa-folhas e os barranqueiros. Pode-se confirmar que, quando os tiês fogem para longe, os limpa-folhas e barranqueiros os seguem.

Anos atrás, no Panamá, já registramos o fato que grupos familiares de aves ocorrem na mata em espécies que voam distâncias curtas ou médias para presas, porque estas aves podem ficar vigiando por predadores ao mesmo tempo que procuram presas (Willis, 1972). Estas aves que gritam para avisar os membros de sua família, tornam-se sentinelas para as aves aproveitadoras, que bicam presas em folhagens densas e, não conseguem ver de longe. Os aproveitadores não deixam os filhotes ficarem juntos, porque três ou quatro aves com cabeças nas folhas não servem para dar o alarme. Elas ficam aos casais, ou sozinhos junto com aves em família, tipo tiê-da-mata ou tiê-do-cerrado.

No cerrado, sendo que em vegetação baixa, uma ave pode ficar em cima de arbusto como sentinela para todos, pode não ser ave que voa para presas que fica em grupo familiar. Famílias podem juntar-se com qualquer espécie, mesmo ave que bica presa perto de sua cabeça, em ambiente onde um sentinela fica sem forragear para ver um predador potencial de longe. Esta ave sentinela precisa descer para comer e, outra ave da família precisa subir para tomar seu lugar. Sem o revezamento, uma ave vagabunda da família pode ficar gorda sem ficar de sentinela, parte do tempo, coisa inaceitável dentro de qualquer família unida. Melhor deixar o vagabundo para trás, que ter membro da família que não presta serviço de sentinela com precisão e dedicação. Um macho ou fêmea que não presta tempo suficiente como sentinela, deve perder logo a esposa ou marido para outro mais trabalhador.

Entretanto, as aves aproveitadoras de espécie diferente podem ficar junto das aves sentinelas, porque não dependem destas para reprodução. Não há maneira de se punir os aproveitadores, neste caso. É preciso aguentá-los, esperando que vez por outra vão ver o predador primeiro, ou espantar alguma presa que dá para pegar no ar.

Esta última, presa no ar, é importante quando o bando misto torna-se grande. Um "arrastão" de tantas aves em volta, "trabalhando" nas folhagens e troncos nas mais variadas formas, pode espantar um inseto que sai voando ou caindo de vez em quando. Uma ave que voa longe para presas, em vez de procurar com o bico e olho nas folhas, consegue pegar uma presa ou outra "no pulo". Aqui, começa a nossa estória da maria-assobiadeira (Sirystes sibilator, Família Tyrannidae) ou "assobiadeira".

A assobiadeira é ave preta e cinza claro, perita em ficar dentro de bando misto, aproveitando qualquer inseto que pula na frente deste "arrastão". Voa espertamente para pegar o inseto no ar, antes mesmo que o limpa-folhas consiga tirar o seu nariz de dentro da folha seca ou verde desde onde o inseto pulou. Tem ave que fica assim sem fazer qualquer coisa em troca, por exemplo o arapaçu-liso (Dendrocincla turdina) no sudeste do Brasil. Espera em baixo, no tronco, para algo cair espantado pelo bando de macaco-prego (Cebus apella) acima ou, pular na frente da correição de formigas (Willis, 1983; Willis & Oniki 1992). Quando não tem macacos nem taócas, espera sob as aves de bando misto. Dá um grito de alarme quando aparece um gavião, mas não presta nenhum outro serviço para as demais aves do bando.

A assobiadeira, entretanto, não consegue pousar em tronco vertical sob as outras aves. Como a maioria dos tiranídeos, têm pernas curtas porque fica sentada em galho fino olhando para presas de longe, nas folhagens ou no ar. Não tem perna para andar, nem para pousar em tronco. Sendo que não tem muita luz em meio das folhagens no interior da mata, também não há muitos galhos finos, porque este é o suporte de folhagem verde e, morre e cai quando as folhas morrem sem luz. Assim, a assobiadeira fica nas copas e sub-copas da mata, onde tem luz e folhas verdes e, mais importante ainda, galhos finos para pousar. Ficando nas copas, precisa ter as outras aves de perto e, não de longe. Se a presa de longe cair, vai perdê-la para o arapaçu-liso e outras aves lá em baixo. O que fazer?

A esperta maria-assobiadeira desenvolveu uma maneira interessante de ter aves logo em volta, providenciando alimentos pulando à sua volta à qualquer hora. Em vez de ficar silenciosa, esperando em baixo como faz o arapaçu-liso, fica assobiando a cada vez que fica com fome, chamando as outras aves para este ou aquele lado como "batedores" para ela. As outras aves até agradecem, porque é difícil saber onde estão os companheiros sem algum "puxador de escola de samba". Quando há barulho da assobiadeira à direita, as outras aves vão para a direita; à esquerda, todos vão para a esquerda!

Assim, a assobiadeira fica assobiando para puxar as aves da "escola" para o seu redor, assegurando insetos à sua volta. As outras aves sabem onde fica o bando misto, para evitar ficarem perdidas e sozinhas numa mata cheia de gaviões perigosos. Têm outras aves nas copas da Amazônia e América Central que fazem o mesmo tipo de barulho para atrair os seus batedores: a pipira-gritadora (Lanio fulvus), pipira-barulhenta (L. versicolor) e parentes (Família Emberizidae, subfamília Thraupinae), por exemplo. Nos bandos do sub-bosque na Amazônia e leste de Bahia até Rio de Janeiro, várias espécies de uirapurus barulhentos (Thamnomanes sp., Formicariidae) têm um sistema algo semelhante, a ser explicado em outra ocasião. Todas estas aves voam para presas, espantadas pelo bando misto e, todas são "puxadores de escolas de samba".

Voltando para a assobiadeira, de vez em quando ela aparece perdida, assobiando na borda da mata ou em mata pequena, onde não tem bando misto grande. Não conseguindo reunir sua "escola", ela vai embora à procura de mata menos desmatada, onde tem bando misto melhor.

De fato, as escolas de samba na natureza não gostam muito do homem. O problema é que o homem desmata tudo: as matas ficam pequenas. Não tem escola de samba grande em cidade pequena. Poucas aves sobrevivem na mata pequena, especialmente as aves dos bandos mistos. Elas precisam de sombra, onde têm seus insetos e não têm os bentevis-verdadeiros (Pitangus sulphuratus) ou outras aves das bordas que as atacam ou roubam os seus ninhos.

Pior ainda, os falcões e os gaviões das bordas das matas caçam de maneira diferente daqueles do interior da mata e, não adianta muito ter bando misto. Caçador de borda de mata, muitas vezes caça no vôo, atacando de longe e, atacando de preferência bando de aves. O falcão passa rápido antes que alguma ave dê o alarme; as aves têm somente o lado da mata para se esconder, não no lado de fora da mata. Dentro da mata, falcão e gavião voadores não entram; os gaviões são do tipo "caçador de espreita" ou de "tocaia". Aí o bando misto funciona porque os muitos olhos do bando vão ver a tocaia, com bastante tempo e lugar para fugir.

Assim, as aves de bandos mistos são as aves que desaparecem muito rapidamente em borda da mata ou em mata pequena, que é lugar de muita borda por todo lado. A mata pequena não é boa. Nas serras de Santa Teresa, Espírito Santo, onde trabalhamos muito nos últimos 7 anos, bando misto grande ocorre somente nas reservas de 4.400 ha da Reserva Biológica Augusto Ruschi (Nova Lombardia) e na reserva adjacente de Santa Lúcia do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão. Não tem formação de muitos bandos nas matas pequenas em volta da cidade de Santa Teresa, nem nos corredores de mata com muita borda favorável para falcão de fora.

Entretanto, encontra-se bando muito pequeno até nas cidades. Quando estávamos estudando ninho de choca-barrada (Thamnophilus doliatus, Formicariidae) em nosso quintal, aqui em Rio Claro, um dia à tarde, a choca apareceu na companhia de três outras espécies de quintal, todos procurando insetos nas laranjeiras, goiabeiras e mangueiras densas atrás da nossa casa. Havia um ou dois bentevis-verdadeiros, uma cambacica (Coereba flaveola, Emberizidae) e alguns pardais-domésticos (Passer domesticus, Ploceidae) passeando juntos e, depois, indo para as laranjeiras do quintal ao lado. Entretanto, não era aquele bando de 20 até 50 ou mais espécies que pode ser encontrado em qualquer reserva grande de mata. Também não tem maria-assobiadeira nem perto de Rio Claro - exceto de passagem, perdida e assobiando incessantemente, avistada uma vez no eucaliptal do Horto Florestal junto a cidade. Ainda sobrevive na mata grande de 1.400 ha preservado por nosso amigo José Carlos Reis de Magalhães, na Fazenda Barreiro Rico, em Anhembi, a 100 quilômetros de Rio Claro (Willis, 1979).

No sítio "Rincão do Serafim", nas serras de Santa Teresa vimos, uma vez, a assobiadeira no quintal desta casa, junto à mata algo destruída. O Sr.Luis, proprietário, colocou bebedouros de água açucarada para beija-flores, atraindo muitos, até, recentemente, o caseiro esqueceu-se de limpar os vidros e trocar a água diariamente, causando fungos que atacam as línguas e matam os beija-flores. É um perigo começar a dar alimento quando não se tem o cuidado necessário; é melhor plantar mais flores.

Antes deste problema, que acabou matando ou afastando os beija-flores, a minha esposa, Dra. Yoshika Oniki sempre nos levava (a mim e a seus alunos) no seu projeto de anilhamento de beija-flores e tirar "piolhos’ para sua pesquisa. Uma manhã ouvimos os assobios da assobiadeira na mata no outro lado do córrego abaixo. Foi um bando misto relativamente grande, faltando muitas aves de dentro da mata mas, atraindo aves das bordas, além de algumas outras que raramente saem das sombras. Com a assobiadeira à frente ou no meio, pulavam nas variadas árvores atrás da casa, bem perto da estrada, pegando insetos e atraindo as saíras que estavam pegando frutos com o bando.

Neste momento o casal de assobiadeiras tentou virar 90° e levar as demais aves para o eucaliptal e pinheiros altos junto à entrada da casa. Voavam para lá, assobiando constantemente, atraindo algumas aves. Entretanto, a área era aberta demais ou faltavam os alimentos e as poucas aves que voavam para lá começaram a retornar e deixar as assobiadeiras. Não adiantava assobiar, depois de poucos minutos estas ficaram sem os companheiros, e voltavam para o bando, que passava para as árvores pequenas descendo o córrego, ao longo da estrada. Muita ave fugiu para a mata, desaparecendo nesta passagem nas zonas de capoeira e capoeirões.

As assobiadeiras continuaram à frente do grupo reduzido, conseguindo levá-las rio abaixo até encontrar uma estrada lateral, em zona com café e pinheiros com arbustos não muito altos. Aí, voaram mais de 100 metros para as matas pequenas distantes. A maioria do grupo desistiu, não arriscando atravessar as zonas algo cultivadas. Voltando para as matas de onde haviam saído uma duas horas antes. As assobiadeiras assobiavam constantemente, mas poucas aves atravessaram com elas. Ai paramos as observações porque a "escola de samba" havia sumido como folhas ao vento.

Uma outra vez, no inverno, no cafezal do Sr. Valdir, ao lado de suas matas e da Reserva de Nova Lombardia, observamos um casal de assobiadeiras levar um bando misto grande a caçar insetos. Deve ter limpado bem os insetos de todo o grande canto do cafezal junto à mata, poupando o Sr. Valdir da necessidade de usar agrotóxicos, porque atravessando e pulando nos pés de café por quase uma hora. Aquele canto do cafezal é um dos melhores que já vimos em volta de Santa Teresa e pode ser que estes "puxadores de escola de samba" estão prestando serviços valiosos de controle de insetos para o Sr. Valdir, sem que ele saiba. Assim, pulamos nas cidades e esquecemos os puladores na mata.

AGRADECIMENTOS - Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia (CNPq) e National Geographic Society (E.U.A) pelo apoio parcial aos nossos trabalhos em Espírito Santo; ao Museu de Biologia Prof. Mello Leitão e Reserva Biológica Augusto Ruschi (Nova Lombardia) e seus funcionários; aos Srs. Luís e Valdir e respectivas famílias.

 

BIBLIOGRAFIA

Alves, M. A dos S. 1990. Social system and helping behavior in the White-banded Tanager, (Neothraupis fasciata). Condor 92(2):470-474.

Bertoni, A de W. 1926. Apuntes ornitologicos. Hornero 3:396-401.

Descourtilz, J. T. (1944 trad.) Ornitologia Brasileira ou história natural das aves do Brasil. Kosmos, Rio de Janeiro.

Munn, C. A & J.W. Terborgh. 1979. Multi-species territoriality in neotropical foraging flocks. Condor 81:338-347.

Willis, E. O 1960. Red-crowned Ant-Tanagers, Tawny-crowned Greenlets and florest flocks. Wilson Bull. 72:105-106.

Willis, E. O 1972. The behavior of Spotted Antbirds. AOU. Monographs 10:1-162.

Willis, E. O 1979. The composition of avian communities in remanescent woodlots in southern Brazil. Papéis Avulsos Zool., S. Paulo 33:1-25.

Willis, E. O 1983. Three Dendrocincla woodcreepers (Aves, Dendrocolaptidae) as army ant followers. Ciência e Cultura 35:201-204.

Willis, E. O & Y. Oniki. 1992. As aves e as formigas de correição. Bol. Mus. Paraense Emílio Goeldi, Zoologia 8:151-216.

Depto. Zoologia, UNESP, C. P. 199, 13.506-900 Rio Claro, SP

 

 

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