Notulae et corrigenda IV

Ainda sobre o "Rei-dos-tangarás", híbrido entre Chiroxiphia caudata e Antilophia galeata, Notas adicionais.

José Fernando Pacheco & Ricardo Parrini - Rio de Janeiro

Faltou incluir na publicação de uma nota nossa (AO 66), a respeito da presença do "Rei-dos-tangarás" no sul de Minas Gerais, maiores informações acerca da distribuição de cores da plumagem desse interessante híbrido. A coloração do indivíduo encontrado em Monte Belo, MG concordava basicamente com aquela descrita por Sick (1979, Bull. B. O. C., 99:115-20) e com o exemplar de cativeiro existente em 1991 na coleção de Armando Assumpção, São Paulo. De frente ele copiava o macho de Antilophia (negro, porém com a crista avermelhada frontal menor), enquanto seu lado dorsal (costas azuladas com tintas amareladas) e a cauda recordavam Chiroxiphia (retriz central levemente prolongada). Nesses indivíduos e nas peles da coleção seriada da UNICAMP, oriundas do interior de São Paulo (Botucatu, Pirassununga, Porto Ferreira) nota-se uma freqüente variação na tonalidade da crista (ora cambiando para o alaranjado) e do manto (mais amarelo ou mais azulado). Podemos agora ilustrar esta nota com uma fotografia desse bonito híbrido natural encontrada no espólio de Helmut Sick (UFRJ) e recebida por cortesia nos anos 70. Provavelmente trata-se do mesmo indivíduo que viveu em cativeiro até 1976 (capturado por Paulo F. Bürnheim quatro anos antes, em Pirassununga, SP) e que encontra-se taxidermizado na coleção da UNICAMP (etiqueta ZUEC nº 0890). O prof. Miguel Marini, da UFMG, nos informa que esse híbrido é conhecido na região do Triângulo Mineiro pelo sugestivo nome de "Faixa-amarela". Fica aqui consignado nosso agradecimento ao prof. Luiz P. Gonzaga pelo uso das informações existentes no acervo de H. Sick e por críticas e sugestões feitas a nota anterior.

O Rei-dos-tangarás (Foto de Paulo Burnheim)

 

Uma nova espécie a ser incluída na lista de aves do Brasil: Anurolimnas castaneiceps (Gruiformes, Rallidae)

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro

Ted Parker ouviu um par desta espécie vocalizando em dueto, no dia 11 de julho de 1992, na floresta ribeirinha do lado brasileiro do baixo rio Abunã, Rondônia. O rio Abunã, neste ponto, serve de fronteira entre o Departamento de Pando, Bolívia e o Estado de Rondônia. Esta informação fragmentada e inédita, mas de interesse pontual para a atualização da lista de aves brasileiras, estava em um manuscrito inacabado deixado pelo famoso ornitólogo norte-americano Theodore. A. Parker III (1953-1993) [falecido tragicamente no dia 3 de agosto de 1993 em um acidente de avião quando sobrevoava os andes equatorianos]. Este dado foi recebido especificamente através de correspondência pessoal de Mort L. Isler, pesquisador associado do Smithsonian Institution, Washington, D. C. e datada de 11 de agosto de 1995.

Segundo Sibley & Monroe (1990, Distribution and Taxonomy of birds of the world, Yale Univ. Press) o ralídeo Anurolimnas castaneiceps ocorre nas baixadas a leste dos Andes colombianos (Caquetá, Putumayo, sudeste de Nariño); no leste do Equador, leste do Peru e norte extremo da Bolívia (Pando).

A ocorrência deste ralídeo no Brasil é aguardada desde o artigo de S. Olson (1973, Proc. Biol. Soc. Washington, 86: 403-12), quando antecipara: "it no doubts includes westernmost Brazil". Esta suposição teve origem na coleta de um exemplar em Balta, Departamento de Loreto, Peru a poucos quilômetros da fronteira brasileira do Acre. Mais recentemente, T. A. Parker & J. V. Remsen (1987, Bull. B. O. C., 107(3): 94-107) voltaram a chamar a atenção para a forte possibilidade de existência da espécie no Brasil, quando a registraram para a localidade boliviana de "Camino Mucden", situada a exatos 13 km da fronteira com o Acre, na bacia do Acre/Purus.

Esquematicamente, a forma agora registrada no Brasil, encontrada em Rondônia por Parker, é a nominal, A. c. castaneiceps. (Sclater & Salvin, 1868). A outra forma A. c. coccineipes Olson, 1973 é privativa das regiões situadas ao norte do rio Marañon. Curiosamente, este é o segundo novo ralídeo a entrar para a lista de aves do Brasil em 1996, pois F. Novaes & M. F. C. Lima (1996. Bol. Mus. Par. E. Goeldi, sér. Zool., 10(2): 293-94) acabaram de relatar a fortuita presença de Laterallus jamaicensis em Belém, PA.

UFRJ - Instituto de biologia, Depto. De Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil


 

Algumas fontes antigas de divulgação do nome "Maxalalagá" para o ralídeo Micropygia schomburgkii

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro

Maxalalagá, fotografada no Parque Nacional das Emas, Goiás (Foto: Luiz Claudio Marigo).

Na "Ornitologia Brasileira, uma Introdução", livro de Helmut Sick (1985), aparece indicado à página 252 para a pouca conhecida e minúscula saracurinha Micropygia schomburgkii o nome "Maxalalagá". Um nome curioso e que todos, em princípio, imaginaram que [ele mesmo] Sick havia ouvido dos indígenas, quando trabalhara na célebre Fundação Brasil Central ao lado dos irmãos Villas Boas, atravessando o então quase desabitado sertão do Araguaia em direção as cabeceiras do Tapajós, entre 1946 e 1957. Para muitas outras espécies, Sick mencionou em seu livro, nomes indígenas que ouviu durante sua estada no coração do Brasil. Quando assim fez, Sick colocou geralmente entre parênteses o grupo indígena responsável pela informação, como, por exemplo, o nome "Junurá" para o buconídeo Malacoptila rufa, registrado à pg. 403, atribuído especificamente aos "Kaiabim". Trata-se neste caso dos índios Caiabis, uma das nações inseridas na Reserva Indígena do Xingu, norte de Mato Grosso.

Em 1937, o zoólogo brasileiro, Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939), registrou na revista "O Campo" - nas entrelinhas da quarta parte da série "Considerações preliminares sobre a zoogeografia brasilica" - dados preciosos sobre Micropygia. Estão neste artigo consignados, além do nome "Maxalalagá", comentários de valor taxonómico, biometria de doze exemplares e um registro da espécie para o Pará, proveniente de uma pele trazida pelo General Rondon em 1928.

A revista "O Campo" editada no Rio de Janeiro - circulando entre 1930 e 1952 - era veículo de divulgação científica dos temas relacionados às atividades agrícolas. Seria naquela época ao lado de "Chácaras e Quintais" (editada em São Paulo) e "Seleções Agrícolas (Rio de Janeiro), mantida as devidas proporções, uma espécie de "Globo Rural" dos nossos dias. Por não ser periódico estritamente científico, muitas de suas contribuições zoológicas, dispersas nos muitos fascículos publicados, não chegaram a ser devidamente absorvidas pela literatura especializada, mesmo nos casos em que foram escritas por zoologistas de projeção.

A julgar pelas informações relativas a Micropygia, existentes nos catálogos e monografias mais recentes, fica claro que as informações de Miranda-Ribeiro passaram desapercebidas. Na praxe do jargão ornitológico de língua inglesa, diz-se-ia que as importantes informações deste trabalho foram "overlooked". O registro divulgado para o Pará (de notável relevância) - mais precisamente para os campos do rio Cuminá, tributário do Trombetas, afluente da margem esquerda do Amazonas - demonstra que Olivério Pinto, nosso antigo mestre da taxonomia e distribuição das aves brasileiras, não conheceu ou não leu, com atenção, o mencionado artigo.

Sendo isto verdadeiro, fica explicado porque O. Pinto em seus catálogos nenhuma objeção faz a validade da raça Micropygia schomburgki chapmani (Naumburg, 1930), originalmente baseada [apenas] em medidas de um único exemplar de Mato Grosso e que Miranda-Ribeiro, anos antes, soube com abundância de material, concluir por sua insustentabilidade. Logo, a opinião fundamentada deste último autor, se conhecida e acatada, faria retornar Micropygia schomburgkii a condição de espécie monotípica.

Por outro lado, será que Sick ao usar o nome "Maxalalagá" forçosamente aproveitou-se da indicação presente no artigo de Miranda-Ribeiro? É muito possível, mas para confirmar esta indagação procurei por alguma anotação ou indicação esclarecedora nos originais do livro "Ornitologia Brasileira" e no índice de seus diários pessoais. Como nada de definitivo foi encontrado e nem mesmo o referido artigo existe em sua coleção particular de separatas (atualmente na UFRJ), acredito que Sick, provavelmente, possa ter copiado o nome "Maxalalagá" das etiquetas do material existente no Museu Nacional durante o período (1960-1980) em que lá trabalhou.

Miranda-Ribeiro tendo participado da Comissão Rondon trouxe para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 1909, onze peles de Micropygia coletadas nos "Campo dos Palmares" na região das cabeceiras do rio Jamarí (sic), na Chapada dos Parecis. As etiquetas originais da Comissão Rondon, escritas pelo próprio punho de Miranda-Ribeiro, traziam geralmente os nomes locais das espécies coletadas, conforme a informação recebida dos caboclos e indígenas. Esses nomes tupis das aves toscamente registrados a lápis nas etiquetas azuis da Comissão Rondon (muitas vezes ilegíveis ou quase) foram confundidos, em parte, com os nomes das localidades de igual origem. Percebe-se de maneira nítida esta mistura checando as etiquetas originais e os dados transcritos para o livro de entrada do material da coleção de aves.

Curiosamente descobri, intencionalmente, que o nome tupi desta saracurinha - de apenas 13 cm - apareceu muito antes em um livro (igualmente pouco conhecido) da "Commisão de linhas telegráphicas estratégicas de Matto-Grosso ao Amazonas" publicado em 1916, intitulado "Missão Rondon", pela "Typographia do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro". Pode-se ler na página 123, retirado dos diários do próprio Coronel Rondon, o seguinte trecho: "Todo o chapadão em derredor de nós se apresentava tomado pelo fogo voraz.... maxalalagás (saracuras do chapadão), mal consegui escapar a rapidez do terrível elemento....". Ainda através desta fonte inferi que o nome "Maxalalagá" foi emprestado aos índios Nhambiquaras.

As cabeceiras do "Jamari", que Miranda Ribeiro e Rondon referiram para situar a região, são na verdade atribuíveis as cabeceiras dos formadores do rio Ji-Paraná, no "plateau" da Chapada dos Parecis e próximo a atual cidade de Vilhena, nos limites dos Estados de Rondônia e Mato Grosso. Este engano geográfico não era incomum aos desbravadores daquela região nos idos do início do século.

Devido a surpreendente quantidade de autênticos nomes regionais para as aves esquecidos na literatura, seria interessante iniciar uma pesquisa minuciosa sobre a nomenclatura [vernácula das aves brasileiras] que fosse capaz de resgatar a imensa quantidade de indicações históricas dispersas nas etiquetas de material coletado, diários de campo dos pesquisadores e demais fontes a fim de criar um catálogo abrangente específico. Fica aqui a sugestão.

UFRJ - Instituto de Biologia, Depto. De Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

 

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