Ornitologia Prática: Observações e pesquisa no campo

 

A biologia reprodutiva do Perna-longa (Himantopus himantopus Linnaeus, 1758)

Alberto Masi - Itália

Introdução

Para identificá-lo os ornitólogos de todo o mundo o chamam de Himantopus himantopus. Na Itália se chama "Cavaliere d’Italia". Cavaliere deriva do francês, chevalier, usado para as aves de margens porque têm a atitude "de como se estivessem em cima de um cavalo"; d’Itália porque estava presente em muitas regiões italianas.

O nome científico himantopus deriva do grego imanto = chicote, tira de couro, e de peus = pé, que coloca em destaque as longas e finas pernas que em vôo ultrapassam em muito a cauda. Na Espanha é pitorescamente chamado de "Ciguenuela", cegonhinha, porque efetivamente é semelhante a uma cegonha branca pequena.

Nomenclatura

Em francês é chamado Echasse blanche. Português: Perna-longa. Alemão: Stelzenlaufer. Inglês: Black-winged Stilt. Espanhol: Giguenuela. Húngaro: Golyatocs (Szekigolya). Holandês: Stelthluut. Sueco: Styltlopare. Dinamarquês: Styltelober.

Na seqüência: 1 - Um ninho em terra e o giro do ovo; 2 - A fêmea posiciona suas longas pernas durante a incubação; 3 - A característica roupagem do pequeno nidífugo; 4 - Durante o período de incubação algumas populações apresentam penas negras na cabeça.

Sistemática

Pertence à Família dos Recurvirostrideos, no interior da Ordem dos Caradriiformes que reagrupa aves ligadas ao ambiente aquático e chamadas "limícoles" ou habitantes do limo (=lodo), mas também aves de margem. Preferem pântanos e lagunas com extensões de água. Já chamada por Linnaeus Charadrius himantopus (Systema Naturae, ed.10. 1, 1758, p.151), apresenta o bico direito e não curvo distinguindo-a dos outros gêneros.

Reconhecimento

É uma ave com cerca de 38-40 cm, de aspecto inconfundível e inesquecível pela belo manto branco-negro, o porte magestoso, as pernas avermelhadas, longas como dois trampolins. O corpo como um grande pombo com asas longas, de aspecto triangular, de cor negra com reflexos verde-azulados, em forte contraste com o corpo branco e o pescoço de um belo branco-cândido. Sobrecauda "lavada" de cinza-marrom. Bico negro, fino, com ápice da mandíbula superior levemente dobrado em baixo, terminando com uma ponta aguda. Íris vermelho-carmezim. As patas, como os dedos, muito longos. Com um ano de idade estes são de uma bela cor róseo-avermelhada.

Atitudes

Não vivem entre a vegetação, mas na lagoa, ao longo dos rios, nos lagos e pântanos lodosos com água baixa. Avançam banhando-se até a tíbia. Caminham e correm com muita elegância. Têm vôo rápido e, voando, têm as pernas projetadas para dentro, além da cauda. Vivem em casais, em bandos ou em pequenas colônias.

Alimento

Se alimentam bicando sobre a superfície da água, de insetos e larvas, coleópteros, pequenos moluscos, pequenos peixes e ovas de peixe, de rãs.

Comportamento

Executam passos longos e extensos, ajudados pelos longos tarsos, enquanto o pescoço ficando para o alto, ondeia. O corpo permanece horizontal. Se a lama gruda nas patas, repentinamente leva a pata sobre o dorso, jogando-a com força e afastando o limo que estava grudado. A cabeça fica também completamente imersa, para a busca do alimento, sob o fundo do espelho d’água.

Reprodução

Por volta do período invernal, no território escolhido para a reprodução, o Perna-longa fica sempre muito excitado e colérico. Então ecoam ricas manifestações sonoras, típicas da espécie. Em alguns casos, na chegada, os casais já estão formados. Os machos que devem, e vice-versa, atrair as fêmeas estão em contínuo litígio assumindo uma posição empertigada enquanto o longo bico lembra uma espada. Formado o casal, o território individual é defendido também pela fêmea que pode ser mais agressiva que o macho. A pouca distância do lugar escolhido para a construção do ninho se desenvolve a parada nupcial. Esta parada é muito bonita, digna da mais famosa direção cinematográfica. O casal se avizinha um após outro fingindo bicar o alimento e movendo a cabeça parecendo que se cumprimentam levantando os pés. A fêmea neste ponto se mostra passiva. Esta negligência excita o macho que se aproximando mais da fêmea, afunda o bico na água enquanto procura arrumar a plumagem. A fêmea não respondendo com nenhuma manifestação, implicitamente encoraja o macho que, com decisão, monta sobre as costas da partner arrumando-se melhor agitando as asas, como se não quisesse perder o equilíbrio conseguido e abaixando-se unem-se as cloacas com um tremor intenso. Montada a fêmea, com sublime delicadeza, desce rodeando a amada com uma asa sobre o dorso enquanto em seguida fazem cruzar os bicos num afetuoso esgrima. Imediatamente depois correm juntos, lado a lado, e parando se saúdam agitando a cabeça, fingindo bicarem-se.

Com a estreita ligação do casal, ambas as aves preparam o ninho que pode ser construído em água baixa e na terra, não longe da água. Em cada caso é uma construção circular não muito acurada: na água assume a uma forma semelhante ao cone de um vulcão emergente de uma base chata e desalinhada, formada por canas, hastes secas e folhas "jogadas ali" amassadas; o suporte da parte interna é que é acurado.

O diâmetro interno do ninho é de cerca de 12 cm e a profundidade de 15 cm; aquele externo, medianamente, mede 25 centímetros (medidas efetuadas no período de sete anos num total de 20 ninhos), assim é freqüente 13 cm, que não é pouco. Deve-se levar em conta que a espessura varia segundo a conformação do terreno e segundo a ventilação atmosférica exercida no local e o grau de umidade das horas noturnas.

A partir dos meses de maio são postos normalmente 4-5 ovos da forma "oval apontada", lisos e brilhantes. De cor esverdeada-marrom-avermelhada com manchas distribuídas na superfície larga, essa coloração tende ao marrom-escuro. Não se deve excluir um interesse pelos ácidos úmidos. Pesam cerca de 21 gramas e medem medianamente 41 x 31 mm (dados revelados em cerca de 45 ovos que abriram). Na incubação participam ambas aves por 25 dias. A troca do turno de incubação ocorre sempre "por via terrestre" com um ciclo sistemático da alvorada ao entardecer por cerca de três horas. Isto se reduz a duas horas nos últimos três dias que antecedem a laceração da casca do ovo. Também se os ovos não se abrem contemporaneamente, nos últimos dias se distingue muito bem um tipo de comunicação entre embriões. De fato, durante estes piados internos, o genitor gira mais freqüentemente todos os ovos sem trocar-lhe de lugar (ver mais adiante) enquanto respondendo aos chamados imprime-lhes o timbre da própria "voz" que constituirá no futuro a salvação deles.

O macho incuba mais que a fêmea, ficando às vezes também de noite sobre o ninho. A troca é característica, além de interessante: um sujeito se avizinha do ninho bicando o seu território e a pouca distância do mesmo emite um débil som, assumindo posição ereta. Recebida a resposta com análogo som, se avizinha lentamente exibindo-se ainda na limpada da perna do lodo. Ao mesmo tempo o outro partner ou some improvisadamente ou se ergue muito lentamente, como se fosse espreguiçar a pata que está dobrada lateralmente sobre o corpo, encontra o cônjuge, trocando com o mesmo dois golpes de bico. Antes de deitar no ninho, o "turnista" controla as longas pernas passando-as no bico como se fosse escrupuloso. A partir do 22o dia de incubação a ave gira os ovos muito mais freqüentemente.

Notei que neste período, no regresso para o ninho, presumo que fosse o macho, a parte inferior do ventre deste último se apresentava molhada, como se os ovos precisassem de mais umidade (observação inédita).

Do 24o ao 25o dia de incubação acontece o milagre do nascimento: asseguro que é uma coisa surpreendentemente maravilhosa. Abre-se a casca do ovo pelo lado arredondado. Imediatamente mais em baixo uma série de furinhos racham o ovo na altura do ombro. Ajudando com o ombro, enquanto a cabeça já está fora, com incrível esforço divide completamente o ovo em dois e sem saber, devido a rotação do próprio ovo, se encontra ensopado e piando no "novo universo", sob o bico vigilante do genitor. Saído da casca, o filhote fica praticamente inerte, sem forças. Com amor é aquecido pelos pais que os empurram com a parte lateral do bico para o centro do ninho onde ficam por cerca de um dia inteiro. Depois, sempre assistidos pelos pais, abandonarão o abrigo para retornar somente durante a noite. Nascido o último da ninhada, a família inteira deixa definitivamente o ninho sem mais retornar.

Cuidados dos pais

Os cuidados dos pais são necessários por cerca de um mês. As patas dos filhotes são curtas, o tarso é grosso e fraco, diria grosseiro, mas cômodo para os pequenos já que gostam de repousar sobre eles, como se fosse sua cômoda poltrona. É desajeitado, divertido vê-lo como os manetas de asas que não lhe dão equilíbrio no andar, semelhante ao "andar de bêbado".

Alcançada a independência, um mês depois, os jovens apresentam as partes superiores coloridas por um cinza areia. Duas bandas irregulares escuras ornam o manto e o dorso; aquela do flanco se junta na cauda. As partes inferiores são esbranquiçadas. Procuram o alimento não perdendo de vista os pais, permanecendo unidos. Emitem em continuação dos "chamados de contato", piados com notas rápidas e aceleradas.

Os pequenos desaparecem sempre ao mínimo alarme partido dos pais. A "voz" deles impressa quando estavam ainda no interior do ovo.

Distribuição

Eurásia (França, Itália e Hungria), Rússia, Iraque, Oman, Irã, China, Índia, Burma, Indochina, Norte de África, Ilhas Canárias, Madagascar, Ilhas Ceilão (Sri-Lanka).

Tradução: PSF

 

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