O GAVIÃO-PATO (Spizastur melanoleucus) EM MINAS GERAIS:

UMA AVE RARA E AMEAÇADA DE EXTINÇÃO.

Marco A. de Andrade, Ricardo G. Ribeiro Gontijo, Luiz Guilherme de Moura Mendes *

Belo Horizonte - MG

Detalhe do possível ninho do Gavião-pato (Spizastur melanoleucus), construído no alto de uma árvore no interior de mata ciliar da Reserva da Fazenda Jaguara, Minas Gerais. Foto: Marco Andrade, julho/96.

 

O Gavião-pato, Spizastur melanoleucus (Vieillot, 1816), pertence à ordem Falconifomes e à família Accipitridae, sendo também chamado de "Apacamim" (do tupi yapaka 'ni), "Apacanim-branco", "Gavião-pombo" ou "Gavião-branco-e-preto".

Sua distribuição geográfica abrange do México e da América Central à Colômbia, Guianas, Brasil até o Paraguai e norte da Argentina. No Brasil, segundo Pinto (1978), está restrito às porções setentrional (Amazônia rio Branco, Pará), este-meridional (do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul) e central (norte de Goiás e de Mato Grosso).

Até a década de 80 ainda não existiam informações precisas sobre registros de campo desta espécie para o Fstado de Minas Gerais. O paleontólogo e naturalista Peter Lund, que trabalhou na região de Lagoa Santa e arredores, próximo à Matozinhos, durante o período de 1835 a 1845, não encontrou o gavião-pato (Pinto 1950). Em 1952, Olivério Pinto publicou importante trabalho intitulado ''Súmula Histórica e Sistemática da Ornitologia em Minas Gerais", mas não menciona nada sobre a ocorrência de Spizastur melanoleucus em Minas Gerais. Posteriormente, Schauensee (1982) e Sick (1985 e 1993) também não mencionam a ocorrência desta espécie no Estado de Minas Gerais. Os primeiros registros bibliográficos para a região de Minas Gerais foram provenientes de Dunning (1982 e 1987 - através de mapas de distribuição geográfica) e Mattos et al (1984: "Lista de Aves de Mina.s Gerais"). Burton (1989) e Brown & Amadon 1989), em suas importantes obras sobre as aves de rapina do mundo, citam a distribuição do gavião-pato para a região Sudeste do Brasil. Mattos et al (1991), obtiveram o primeiro registro de campo para Minas Gelais em 21/11/1986, no município de Januária, regiao noroeste do Estado. Andrade (1991), apresenta dados sobre a distribuição de algumas aves ameaçadas de extinção em Minas Gerais, dentre elas o Spizastor melanoleucus.

No dia 7 de julho de 1996, durante uma saída de campo ao município de Matozinhos (Lat. 19°33’ Long.44°04’), a cerca de 60 Km ao norte de Belo Horizonte, tivemos a grata satisfação de observar e identificar um indivíduo de Ulil indivíduo de Spizastur melanoleucus.9/ Ele estava vocalizando insistentemente no alto de uma árvore na borda de mata ciliar, à beira de um açude de águas claras e piscoso, localizada na Reserva da Fazenda Jaguara, de propriedade particular, a cerca de 600 m de altitude. Foram feitas várias gravações de sua voz, sendo que o mesmo respondeu de imediato ao "play back: eriçando seu topete, movimentando a cabeça para os lados e abrindo um pouco as asas. Ele ficou vocalizando durante cerca de 20 minutos no alto de uma árvore com aproximadamente 20 metros de altura. Foram feitos três contatos visuais em diferentes pontos do interior e borda da mata ciliar (que tem cerca de 30 ha., incluindo o açude) Nesta ocasião tivemos a oportunidade de registrar informações inéditas sobre seu comportamento, vozes e aspectos de sua morfologia externa.

O indivíduo observado era, provavelmente um imaturo (subadulto) e apresentava as seguintes características morfológicas: cabeça branca com topete também claro, contendo uma ou duas penas centrais negras; asas pretas com as coberteiras salpicadas de cor creme-esbranquiçada; garganta, peito, ventre, flancos e crisso branco alvo; dorso escuro, ligeiramente pardacento; cauda clara-acinzentada com cinco faixas (o adulto apresenta quatro faixas) escuras, quase negras, sendo a parte apical branca; bico preto com cera amarelo-claro; íris amarela-ouro; tarsos emplumados de branco e dedos amarelos: unhas negras. A região do loro (porção entre o bico e os olhos) era toda clara, ao contrário do indivíduo adulto que, na literatura consultada, apresenta coloração negra nesta região. Brown & Amadon (1989) mencionam a existência de uma 5a. faixa escura na cauda do imaturo de S. melanoleucus sendo que este detalhe foi nitidamente observado. Outro aspecto típico de imaturo nesta espécie é a presença de poucas penas negras no topete e faixas claras nas rêmiges (Hilty & Brown 1986). Este conjunto de características morfológicas, principalmente os detalhes das espessuras das faixas da cauda, coloração da íris e cabeça e o topete às vezes eriçado, diferem Spizastur melanoleucus da fase clara do gavião-de-cabeça-cinza (I,eptodon cayanensis).

Em 16 de julho de 1996 retornamos à Rcserva da Faz.enda Jaguara para tentar obter informações adicionais sobre o gavião-pato. Tivemos um único contato visual de Spizastur melanoleucos pousado em uma árvore às margens da lagoa. Percorrendo novamente o interior da mata ciliar encontramos um ninho, estrategicamente bem posicionado no alto de uma árvore, que nos chamou a atenção. O ninho era uma enorme plataforma bem construída com fortes e compridos galhos e gravetos secos, encaixado em uma forquilha do tronco da árvore, a cerca de 15 metros do solo. Sua base era bem rígida e larga o suficiente para suportar o peso de uma grande ave de rapina de grande porte e seus filhotes. O ninho media aproximadamente 90 cm de comprimento, 65 cm de largura e 55 cm de altura. Estava situado a cerca de 20 metros do local onde obtivemos os primeiros contatos visuais e auditivos do gavião-pato. Encontramos alguns vestígios ao redor da árvore onde estava o ninho, tais como: plumas e penas, provavelmente de gavião, pequenos ossos, regurgito e moluscos. Isto nOS leva a crer que o gavião havia utilizado recentemente aquela árvore como local de alimentação e pouso. Em outros pontos da mata, próximos ao local do ninho, encontramos várias penas de asa e cauda da pomba-asa-branca (Columba picazuro)) espalhadas pelo solo. Sabe-se que os gaviões de grande porte alimentam-se de mamíferos, aves e répteis. Assim, é muito provável que este Columbideo, abundante na região nesta época, esteja fazendo parte do cardápio do gavão-pato. Brown & Amadon (1989), citam que a dieta alimentar deste gavião é pouco conhecida. Apesar de não ter sido visto pousado no ninho ou na árvore onde foi construído, acreditamos ser o ninho de Spizastur melanoleucus, devido às evidências assinaladas anteriormente.

Na literatura consultada não encontramos nenhuma descrição detalhada do ninho de Spizastur melanoleucus ou sobre seu comportamento reprodutivo. Segundo Browns & Amadon (1989), o ninho desta espécie não é descrito. Martin de la Peña (1992), menciona que seus ovos são de coloração branca-creme com manchas marrom escuro e cinzentas.

O Gavião-pato (Spizastur melanoleucus) apresenta ocorrências esparsas e raras no Brasil (Sick 1993). Está incluído na Lista Oficial de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, conforme portaria n° 1.522 de 1989, do IBAMA (Bemardes et al 1990). No Estado do Paraná é considerado raro e ameaçado de extinção, com registros apenas para áreas florestadas da Serra do Mar e oeste do Estado (Paraná 1995). No Pantanal de Mato Grosso é citado como uma ave rara, principalmente na região de Poconé (Dubs 1992). Burton (l989), o considera como uma ave rara e de distribuição local. Recentemente foi incluído na "Lista de espécies ameaçadas de extinção da fauna do Estado de Minas Gerais", na categoria em perigo de extinção no Estado (Deliberação COPAM n° 041/95, Minas Gerais, 1996). Dentre as principais ameaças que vem sofrendo estão a destruição de hábitat, a exploração predatória (caça, perseguição) e a ocorrência de populações pequenas e isoladas. Estratégias para a conservação desta espécie ameaçada de extinção e seu hábitat devem ser desenvolvidas a curto prazo.

Trata-se, sem dúvida, de um registro de campo inédito para a porção central do Estado de Minas Gerais, em uma região de domínio do cerrado já bastante degradada e relativamente próxima de um grande centro urbano. É também um dos poucos registros recentes da ocorrência desta espécie para a porção oriental do Brasil.

 

Referências Bibliográficas

Andrade, M.A. (1991). Notas sobre aves ameaçadas de extinção que ocorrem em Minas Gerais. Revista SOM, Belo Horizonte, (39): 16-17.

Bernardes, A.T. et al (1990). Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Brown, L. & Amadon, D. (1989). Eagles, Hawks and Falcons of the World. N.J.: Wellfleet Press. V. I e II, 945 p.

Burton, P. ( 1989). Birds of Prey of the World. London: Dragons World.

De La Peña, M. R. (1992). Guia de Aves Argentinas. 2a. ed., Tomo II (inclui ninhos e ovos). Buenos Aires: L.O.L.A.

Dubs, B. (1992). Birds of Southwestern Brazil: Catalogue and Guide to the Birds of the Pantanal of Mato Grosso and its Border Areas. Betrona-Verlag.

Dunning, J.S. (1982). South American Land Birds: A Photographic Aid to Identification. Newtown Square: Harrowood Books.

Dunning, J.S. (1987). South American Birds. Newtown Square: Harrowood Books.

Hilty, S.L. & Brown, W.L. (1986). A Guide to the Birds of Colombia. Princeton: Princeton University Press.

Mattos, G. T.; Andrade M. A.; Castro, P.T.A.; Freitas, M.V. (1984). Lista preliminar das aves do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: Instituto Estadual de Florestas.

Mattos, G.T.; Andrade, M.A. &: Freitas, M.V. (1991). Levantamento de aves silvestres na região noroeste de Minas Gerais. Revista SOM, Belo Horizonte, (39): 26-29.

Minas Gerais. (1996). Lista de espécies ameaçadas de extinção da fauna do Estado de Minas Gerais - Deliberação COPAM n° 041/95.Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais. (20/01/96 - n° 14)

Paraná. Secretaria de Estado do Meio Ambiente. (1995). Lista Vermelha de Animais Ameaçados de Extinção no Estado do Paraná. Curitiba: SEMA/GTZ.

Peterson, R. T. & Chalif, E. L. (1973). A Field Guide to Mexican Birds. HMCO/National Audubon Society,USA.

Pinto, O. (1950). Peter W. Lund e sua contribuição à ornitologia brasileira. Papéis Avulsos do Dept° Zool., São Paulo, 9 (18): 269-284.

Pinto, O. (1952). Súmula Histórica e Sistemática da Ornitologia de Minas Gerais. Arquivos de Zoologia 8 (1): 1-51.

Pinto, O. (1978). Novo Catálogo das Aves do Brasil. São PauJo, 1a.parte.

Schauensee, R.M. de (1982). A Guide to the Birds of South Ameriea. Philadelphia: ICBP/Pan American Section.

Sick, H. (1985). Ornitologia Brasileira: Uma Introdução. Brasília: Editora Universidade de Brasília. V. I

Sick H. (1993). Birds in Brazil: A Natural History. Princeton lJniversity Press.

* Os autores são membros do Clube de Observadores de Aves - COA/MG.

Detalhe do possível ninho do Gravião-pato (Spizastur melanoleucus), construído no alto de uma árvores no interior de mata ciliar da Reserva da Fazenda Jaguara, Minas Gerais. Foto: Marco Andrade, julho/96.

 

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