Registros de algumas aves ameaçadas no estado de Minas Gerais.

 

Tadeu Artur de Melo Júnior - Belo Horizonte - M.G.

Para compreendermos melhor o conceito relativo ao processo de extinção, é preciso observarmos inicialmente alguns padrões existentes em nosso planeta. As aves possuem diferentes formas de distribuição geográfica, que refletem suas interações com o meio ambiente onde estão inseridas. Algumas espécies de não-passereiformes ligadas ao habitat aquático, ocorrem com relativa abundância em diversos países ou continentes, como por exemplo, a garça-branca-grande (Egretta alba), o socozinho (Butorides striatus), o irerê (Dendrocygna viduata) e o frango-d’água (Gallinula chloropus). Por outro lado, aves que evoluíram dentro de ecossistemas complexos, como pode ser observado nas Matas Amazônica e Atlântica que apresentam características ecológicas peculiares, acabaram por desenvolver uma maior especificidade com essas áreas onde vivem e se reproduzem, estando dessa forma mais vulneráveis às alterações que ocorram nesses ambientes. Muitas espécies que estão ameaçadas atualmente, são aquelas que por razões históricas se tornaram restritas a um certo habitat ou local, podendo ser até relativamente comuns dentro dele; essas aves são chamadas de endêmicas (1). Entretanto, a maioria das espécies endêmicas das matas citadas, dificilmente suportaria impactos que alterassem drasticamente as áreas que habitam. Um exemplo de impacto sobre uma espécie que vivia restrita a um único local, pode ser lembrado pelo dramático episódio da invasão antrópica que ocorreu nas Ilhas Maurício, que culminou com a dizimação da população de dodos (Raphus cucullatus) em 1681, sendo extinta uma espécie que não era muito conhecida do ponto de vista biológico pelos cientistas da época (2).

Atualmente, diversos modelos foram propostos para avaliar os critérios referentes aos graus de ameaças impostos aos seres vivos. Tratando-se do grupo das aves, devemos destacar as atividades científicas promovidas pela CITES (Convention on International Trade in Endangered Species of Fauna and Flora), ICBP (International Council for Bird Preservation) e IUCN (International Union for Conservation of Nature). As duas últimas instituições referidas são responsáveis pela elaboração do RED DATA BOOK (3), ou seja, o "livro vermelho" que apresenta dados analisados globalmente sobre as espécies propostas como ameaçadas. Em nosso país, a Nova Constituição (1988), através do Parágrafo I do artigo 225, define como obrigação do dever público preservar a diversidade do patrimônio genético encontrado no Brasil, delimitando os espaços territoriais destinados a proteção de espécies, além de promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino. Após a iniciativa conjunta do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e da Sociedade Brasileira de Zoologia (SBZ) durante uma reunião em janeiro de 1989, foi elaborada uma lista mais atualizada sobre a Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, utilizando basicamente os mesmos critérios do ICBP/IUCN (4). Essa listagem foi publicada posteriormente pela portaria oficial 1522 do IBAMA. Recentemente, foi divulgada oficialmente em Belo Horizonte, uma deliberação do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM/MG) que aprova a lista de espécies ameaçadas de extinção em Minas Gerais, se tornando esse o primeiro estado brasileiro a divulgar um manifesto dessa ordem.

O objetivo desse trabalho é divulgar dados coletados em campo pelo autor no período 1991-1996, cotejando-os com aqueles obtidos pela bibliografia. Também foram analisadas algumas peles depositadas na coleção do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Dessa forma, esperamos aumentar o conhecimento sobre algumas aves consideradas como ameaçadas de extinção pela portaria do IBAMA citada anteriormente, em localidades do estado de Minas Gerais, incluindo unidades de conservação. Dados são apresentados sobre as seguintes espécies: Jacamaralcyon tridactyla, Amazona vinacea, Macropsalis creaga, Leucopternis polionota, Spizastur melanoleucos, Phibalura flavirostris, Pyroderus scutatus e Poospiza cinerea. Entre parênteses estão discriminadas as fontes bibliográficas utilizadas, que se encontram numeradas e ordenadas pela sequência apresentada no decorrer do texto.

Jacamaralcyon tridactyla (Vieillot,1817) - Espécie endêmica do sudeste brasileiro, havendo sido registrada também no Paraná, que possui apenas três dedos e vive em regiões com cursos d’água e barrancos, próximos de matas primárias ou secundárias (1) (3) (5). Registros históricos do século passado apresentam o violeiro ou cuitelão em regiões a leste do Espinhaço, sendo que Pinto da Fonseca obteve exemplares no início deste século no Rio Matipó, Naumburg coligiu dois indivíduos na região de Caparaó em 1935, enquanto que cinco anos depois, Olivério Pinto coletou espécimes nas proximidades do Rio Piracicaba (3) (6). Alexander Brandt visualizou a espécie na década de 80 na Fazenda Montes Claros (Caratinga) e na Serra do Brigadeiro, próximo de Araponga (3). Foi encontrada recentemente em três áreas na região metropolitana de Belo Horizonte (7): inicialmente detectada por Henrique R. Nobre e Ricardo Gontijo em agosto de 1993, na mata da Copasa/Barreiro e posteriormente por Henrique R. Nobre, Luiz F. Silveira e Luiz G. Mendes em novembro do mesmo ano, no Parque Fernão Dias em Contagem; observei um indivíduo pousado e posteriormente forrageando na região dos Buritis em outubro de 1993. Os avistamentos desse galbulídeo em Belo Horizonte são relevantes, pois podem corroborar o dado coletado por Burmeister para Lagoa Santa no final do século passado, sobre o qual persistem dúvidas (3). Sua presença também foi confirmada nas proximidades do Parque Estadual do Rio Doce, onde detectei a presença de dois indivíduos em maio de 1995.

Amazona vinacea (Kuhl,1820) - o papagaio-do-peito-roxo ocorre no Brasil da Bahia ao Rio Grande do Sul, além do leste do Paraguai e na região de Misiones, Argentina (5). Olivério Pinto registrou a espécie no Rio Doce (6), existindo também uma pele coletada na região de Piranga, depositada no museu da Universidade Federal de Viçosa (3). O número de indivíduos parece estar declinando bastante, o que faria com que a espécie permanecesse em grupos isolados, utilizando principalmente fragmentos florestais, sendo mais registrada nos pontos mais preservados e de maiores altitudes (8). Observada com uma freqüência relativa no Parque Estadual do Ibitipoca durante a década de 80 (9)(10). Outra unidade de conservação onde esse papagaio foi assinalado é o Parque Nacional do Caparaó, onde constatei a espécie em março de 1991, acompanhando J. Fernando Pacheco, Cláudia Bauer e membros do COA-RJ (3) (11). Dois indivíduos foram identificados próximo do município de Baependi em setembro de 1995, onde fui acompanhado por Rodrigo Toledo, que já havia me relatado sobre a possibilidade da existência dessa espécie para a região.

Macropsalis creaga (Bonaparte,1850) - Espécie que possui sua distribuição no Brasil entre os estados do sudeste até o Rio Grande do Sul (5), ocorrendo também na região de Misiones, Argentina (12). Um macho adulto da região de Vargem Alegre do início deste século foi enviado ao Museu Paulista; J. Moojen exercendo a função de professor em Viçosa, coletou a espécie nas proximidades dessa cidade, na década de 30 (6). O único dado atual referente a presença em outras localidades que consegui para o bacurau-tesoura-gigante no estado, foi obtido durante encontro de observadores de aves, em março de 1991, no Parque Nacional do Caparaó (11). Ao lado dos observadores André Carvalhaes e Henrique R. Nobre, observei três indivíduos fazendo exibições em vôo, sendo que aparentemente ao menos dois eram machos.

Leucopternis polionota (Kaup,1847) - o gavião-pombo ocorre geralmente em áreas florestais, desde Alagoas a Santa Catarina, além de estar presente no leste do Paraguai e na região de Misiones, Argentina (5). Pinto da Fonseca, trabalhando nos arredores de Mariana coletou um exemplar no início do século (6). A espécie também foi avistada nas proximidades de Minas Novas (13). Observamos em duas diferentes ocasiões um indivíduo no Parque Natural do Caraça, próximo do município de Santa Bárbara: em fevereiro de 1993, acompanhado por Mário L. e Lourdes Fontana, foi avistado um espécime que estava pousado e vocalizando próximo da estrada asfaltada que conduz ao Colégio; em fevereiro de 1996, junto com Luiz G. e Doralice Mendes, foi possível visualizar um exemplar sobrevoando a mata que fica entre o Tanque Grande e o Campo de Fora; dentre outras aves pessoalmente registradas para esse local, destacam-se as presenças do ameaçado tropeiro-da-serra (Lipaugus lanioides) e do chibante (Laniisoma elegans), ave de hábitos pouco conhecidos e incluída no anexo das espécies brasileiras insuficientemente conhecidas e presumidamente ameaçadas (4). Apesar de não estar presente como espécie ameaçada no Red Data Book, por ocorrer em uma área mais ampla e em regiões mais elevadas, L. polionota poderá se tornar ainda mais raro em Minas Gerais, com os processos de desmatamento nas encostas onde ainda existem fragmentos de mata atlântica.

Spizastur melanoleucos (Vieillot,1816) - com ocorrência prevista para a região neotropical, desde o México à Argentina (5), o gavião-pato possui poucos registros de campo para o nosso estado, não tendo sido encontradas referências históricas sobre sua presença. Os únicos dados obtidos se referem ao registro de campo na região norte, em Tejuco, próximo do município de Januária realizado por Geraldo Mattos e Marco A. Andrade (10) e a citação feita por Forrester (14) de que haveriam registros escassos para a região do Itatiaia, no extremo sul. No Parque Estadual do Rio Doce, acompanhando Marcus V. de Freitas e Maria I. Ferolla, consegui visualizar durante cerca de 20 minutos um indivíduo, que estava inicialmente pousado em um vinhático aproximadamente a 12 metros do solo e posteriormente voando, na trilha do Campolina em abril de 1993. Em diferentes períodos de visitação também foi possível registrar outras aves ameaçadas nessa reserva, como o macuco (Tinamus solitarius), o zabelê (Cryturellus n. noctivagus) e o anumará (Curaeus forbesi), presentes em outras referências sobre o Parque (9)(10).

Phibalura flavirostris Vieillot,1816 - A tesourinha é um pássaro de hábito migratório, que pode ocorrer localmente na Bolívia, no Brasil, do sudeste ao Rio Grande do Sul, no nordeste do Paraguai e na Argentina, na região de Misiones (1) (5). Não foram encontradas indicações históricas anteriores a década de 70 sobre sua presença em Minas Gerais. Na coleção do departamento de Zoologia da U.F.M.G., foram examinados dois machos adultos taxidermizados por J. Jacinto, sendo um proveniente do Caraça, datado de maio de 1973 e o outro coletado em Belo Horizonte, no interior do Museu de História Natural, em outubro de 1979. Na região sul do estado, existe um dado para a fazenda Lagoa (10) em Monte Belo, enquanto que Pineschi (15), relata a sua ocorrência para o Parque Nacional do Itatiaia. Acompanhado por Mauro G. Diniz, constatei a presença de dois indivíduos, provavelmente um casal, no dia 21 de março de 1993, na mata da Baleia em Belo Horizonte. A área poderia ser descrita como uma transição entre mata e cerrado, sendo que foi possível observar a espécie novamente uma semana depois no mesmo local. Encontrei três indivíduos próximos de Congonhas em setembro de 1994, sendo que dois deles estavam pousados em fios a cerca de 3 metros do solo.

Pyroderus scutatus scutatus (Shaw,1792) - Ocorre em diversos países da América do Sul, sendo encontrado em nosso país, desde o sudeste da Bahia e sul de Goiás até o Rio Grande do Sul (1) (5). Não obtivemos registros históricos, mas existem duas peles na coleção do departamento de Zoologia da U.F.M.G. A espécie é citada para a região do Parque Natural do Caraça e no Parque Estadual do Rio Doce, Parque do Ibitipoca e Fazenda Lagoa (10)(14), além de ter sido registrada por Geraldo T. Mattos em Divisópolis, na extremidade nordeste do estado (10). Por duas vezes, acompanhando trabalho de campo desenvolvido nos meses de fevereiro e março de 1992 pelo prof. Ney E. D. Carnevalli, avistei um indivíduo na reserva de Peti, área citada também por outros autores (10)(14). Um estudo populacional sobre a espécie deveria ser realizado, confrontando os dados existentes com aqueles realizados em campo e não publicados, que parecem indicar um número maior que o esperado para o estado.

Poospiza cinerea Bonaparte,1850 - Pássaro endêmico da região central do Brasil, ocorrendo nos estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo (5). Historicamente a espécie foi registrada nas localidades de Lagoa Santa, Sete Lagoas e Vargem Alegre (3) (6). Recentemente, foi encontrada na reserva de Peti, onde pessoalmente observei um indivíduo em março de 1992, e na Serra do Cipó (9) (14). Foi constatada a presença de um macho adulto na coleção do departamento de Zoologia da U.F.M.G., obtido na localidade de Lapa Vermelha, município de Pedro Leopoldo, em novembro de 1971. Durante trabalhos de campo realizados no Parque das Mangabeiras, acompanhado por Cláudio T. de Freitas e Cristina Roscoe, foi possível avistar poucos indivíduos em novembro de 1994 e abril de 1995; Andrew Whittaker relata sua presença nesse mesmo local durante oito meses no ano de 1989, onde inclusive teria visto alimentação de um jovem e movimentação para construção de ninho (9); a citação sobre essa unidade de conservação descrita em Wege e Long (9), contém um dado incorreto a respeito de sua localização que deveria ser corrigido, já que o Parque das Mangabeiras se encontra dentro do perímetro urbano de Belo Horizonte, estando situado cerca de 4 km do centro da cidade. A espécie foi observada também na Serra do Curral em março de 1995, área relativamente próxima do Parque citado anteriormente. Um registro adicional sobre a ocorrência do capacetinho-do-oco-do-pau, foi obtida no município de Sabará, acompanhando atividades desenvolvidas por Henrique R. Nobre em fevereiro de1993.

 

Bibliografia:

 

1- Sick, H. (1985) Ornitologia Brasileira, uma introdução. v.1. Brasília: Editora Universidade de Brasília.

2- Pough, F.H., J.B. Heiser e W. N. McFarland (1993) A vida dos vertebrados. São Paulo: Atheneu Editora.

3- Collar, N.J., L.P. Gonzaga, N. Krabbe, A. Madroño Nieto, L.G. Naranjo, T.A. Parker III e D. Wege (1992) Threatened Birds of the Americas: the ICBP/IUCN Red Data Book. Cambridge, U.K.: International Council for Bird Preservation.

4- Bernardes, A.T., A.B.M. Machado e A.B. Rylands (1990) Fauna brasileira ameaçada de extinção. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

5- Sibley, C.G. e B.L. Monroe Jr. (1990) Distribution and taxonomy of birds of the world.

New Haven:Yale University Press.

6- Pinto, M. O. de O. (1955) Súmula histórica e sistemática da ornitologia de Minas Gerais. Arquivos de Zoologia do Estado de São Paulo 15: 1-51.

7- Nobre, H. R. e L. F. Silveira (1994) Novas ocorrências de Jacamaralcyon tridactyla (Aves: Galbulidae) em MG, com observações sobre sua ecologia. In: Congresso Brasileiro de Ornitologia, 4, Recife, 1994. Resumos... Recife: Universidade Federal Rural de Pernambuco. p.129.

8- Collar, N.J., M.J. Crosby e A.J. Stattersfield (1994) Birds to watch 2: the world list of threatened birds. Cambridge: BirdLife International.

9- Wege, D.C. e A.J. Long (1995) Key areas for threatened birds in the neotropics. Cambridge: BirdLife International.

10- Andrade, M. A. (1991) Notas sobre aves ameaçadas de extinção que ocorrem no estado de Minas Gerais. SOM 39:16-17.

11- Melo Júnior, T. A. (1992) Carta sobre o VIII Encontro Nacional de Observadores de Aves. Charão 17:21.

12- Narosky, T. e D. Yzurieta (1987) Guía para la identificacion de las aves de Argentina e Uruguai. Buenos Aires: Asociacion Ornitológica del Plata.

13- Brandt, L.F.S. (1993) Novos registros de alguns Accipitridae (Falconiformes) raros no estado de Minas Gerais In: Congresso Brasileiro de Ornitologia, 3, Pelotas, 1993. Resumos... Pelotas: Universidade Católica de Pelotas. p.65.

14- Forrester, B. (1993) Birding Brazil: a checklist and site guide. Irvine: Ed. do autor.

15- Pineschi, R.B. (1990) Aves como dispersores de sete espécies de Rapanea (Myrsinacea) no maciço do Itatiaia, estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ararajuba 1:73-78.

 

 

Gostaria de agradecer a José Fernando Pacheco e Cláudia Bauer, Ricardo Gontijo, Luiz Guilherme e Doralice Mendes, Mauro Guimarães Diniz, André Carvalhaes, Henrique Rocha Nobre, Luiz Fábio da Silveira, Cláudio Theófilo de Freitas, Mário Lúcio e Lourdes Fontana, Maria Ignez Ferolla, Marcus Vinícius de Freitas, Ney Carnevalli, Cristina Roscoe e Rodrigo Toledo, que dividiram comigo os momentos oportunos de observação dessas aves em campo. Finalmente, a Lívia V. Lins, por permitir o acesso e a utilização da coleção ornitológica na U.F.M.G

 

Rua Afonso Cláudio,181, Renascença, 31130-670, Belo Horizonte, MG, Brasil.

 

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