Os puxadores das Escolas de Samba II: O fogo é um inverno

Edwin O .Willis - Rio Claro-SP

Em artigo anterior (AO nº 70-1996), registramos que os famosos bandos mistos de variadas aves, nas matas e cerrados, são grupos que viajam juntos, a fim de detectar os ataques de gaviões e outros predadores. Algumas espécies de aves ficam gritando quando aparece um predador, ajudando as outras espécies a fugir. Às vezes os gritadores aproveitam os insetos que o "arrastão" espanta, como no caso da maria-assobiadeira (Sirystes sibilator, Tyrannidae) nas copas das árvores. As "assobiadeiras" nas copas e no sub-bosque da mata, os tiês-da-mata (Habia rubica, Emberizidae), atraem e vagueiam com diversas outras espécies e são "os puxadores das escolas de samba".

Explicamos que, nas zonas abertas, muitas aves dos bandos mistos desaparecem porque os falcões e os gaviões velozes destas zonas atacam tão rapidamente que não dão tempo para dar alarme antes de se esconder, exceto no capim denso no caso de bando misto no cerrado. Entretanto, pode haver um pequeno bando misto mesmo em quintal de sítio ou cidade.

Entre as diversas áreas que estamos pesquisando, no sudeste brasileiro, visitamos as matas das baixadas do norte do Espírito Santo e sul do Estado da Bahia, entre os Rios Doce e Paraguaçu. As matas estão muito destruídas, mas existem algumas áreas preservadas. Nas matas ciliares dentro dos eucaliptais da Aracruz Ceculose S.ª, já registramos muitas aves alimentando-se das infrutescências das embaúbas (Cecropia sp.), até chegando juntas em bandos mistos pequenos, especialmente quando o gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea, Thraupinae), começa a imitar as vocalizações de outras aves. É possível que esta ave chama as demais para ter proteção ao seu redor enquanto se alimenta (Onike et al. 1994).

Nessas viagens, nas baixadas, notamos que as matas pequenas e ilhadas nos pastos secos da região têm muito problema com as queimadas. Mesmo que em ano normal tem bastante chuva, é uma zona de temperaturas altas e muita perda por evaporação, diferente da serra fria e chuvosa, que tem bastante nuvens e neblina para evitar o ressecamento. Esta situação piorou com a agricultura e pecuária nos arredores, com temperaturas altas no chão e ventos secos entrando nas bordas. Quando tem um período de seca acentuada, a cada poucos anos, a serrapilheira e arbustos das bordas estão prontos para pegar fogo.

Antigamente, as bordas eram de rios e brejos, não bordas secas como as de hoje. Uma vez que as pessoas põem fogo nos pastos e capoeiras para "limpar", a situação tornou-se pior. Alguns piromaníacos querem atacar até as matas com a ajuda do fogo. Como resultado, é comum haver queimadas nas poucas matas remanescentes nas baixadas tropicais da região. As Reservas Biológicas de Córrego Grande e Córrego do Veado, também a Floresta Nacional do Rio Preto, as principais áreas protegidas no norte do Espírito Santo, todos pegaram fogo no ano seco de 1986 e perderam muita mata.

No verão de 1995, os meses de janeiro a maio foram muito secos no norte do Espirito Santo e sul de Bahia. Até na serra mais úmida, as estradas tornaram-se poeirentas enquanto estávamos estudando os ninhos do cricrió-suíços (Lipauqus lanioides, Tyrannidae) nas matas da Reserva Biológica Augusto Ruschi, próximas a Santa Teresa. Um morro mais próximo à cidade pegou fogo.

Mais ao norte, entre Itamarajú e Prado, no sul da Bahia, há uma mata grande de cerca de 30.000 ha, da Companhia Brasil-Holanda. A companhia está tirando parte da madeira num sistema de "produção permanente," um pouco cada ano, deixando a mata crescer, com planos de cortar novamente quando as árvores crescerem e atingirem o tamanho por eles desejado. A mata tem áreas grandes com algumas árvores antigas, outras em crescimento desde 20-30 anos atrás. Ali existem muitas aves em extinção sobrevivendo, mesmo com áreas em que a madeira mais valiosa foi retirada.

Em 1995, entretanto, grandes trechos de mata pegaram fogo, por exemplo, um trecho de alguns quilômetros na estrada próximo a entrada. Quando de nossa visita em julho de 1995, a companhia estava tentando retirar alguma madeira dos troncos na área queimada. O sub-bosque estava totalmente queimado, com algumas árvores altas sobrevivendo e algumas epífitas pois o fogo não havia atingido o topo das árvores mais altas. Alguns trechos, notavelmente um trecho de 300 m, não pegaram fogo.

Fizemos estudos breves das aves e em abril-maio de 1996, retornamos para mais alguns dias de pesquisa, comparando o trecho queimado com as áreas não queimadas mais ao norte na estrada principal da mata. No intervalo, o crescimento de novos arbustos de Trema micrantha no sub-bosque foi impressionante. Os arbustos já atingiam 3 a 4 metros de altura em um ano. Ruschi (1979) talvez tivesse razão quando afirmou que esta espécie cresce mais rapidamente que os eucalíptos e que deve ser usada para celulose ao invés de árvore introduzida. Mais ao norte na estrada, trechos queimados não tinham Trema mas estavam com Solanaceae e outros arbustos de até 1 m de altura.

Assim, em um ano, a vegetação se regenera, ocorrendo a chamada sucessão vegetal. Após o inverno, no hemisfério norte, as aves voltam na primavera. Semelhantemente, a passagem do fogo, e um inverno, onde depois vem a primavera. E preto ao invés de branco (da neve), mas não é o fim do mundo. Entretanto, o que ocorre com as aves? Com os puxadores das escolas de samba? E na Bahia, o que acontece?

Estava chuvoso, com frente fria se aproximando, no primeiro dia que fiz os levantamentos (nos intervalos entre as chuvas) de aves no trecho queimado. No dia seguinte, 1 de maio, o céu ficou "azul e branco" e consegui andar 4 quilômetros no trecho queimado, mais 4 no retorno, próximo ao meio-dia.

Como em julho do ano anterior, na mata queimada, não faltavam aves. De fato, as aves das copas não pareciam ter grandes dificuldades. Estavam voando distâncias maiores entre as copas ainda vivas e verdes, 50-100 m, ao invés de 20-50 m entre copas nas matas onde foi tirada a madeira, mas não estavam ausentes.

De manhã cedo, mesmo na chuva, o raro papagaio "chauã" (Amazona rhodocorythra) parecia até mais comum e alegre que na mata não queimada, talvez prevendo novos buracos para colocar ninhos nas árvores mortas. "Chauã, chauã" e "pau-pau-pau-pau" gritavam em casal, além de outras músicas complicadas quando pousados alto nos galhos secos. É ave em extinção, mas ocorre em números mesmo nas matas queimadas da região.

O assobio, tipo grilo, das asas brancas do raro anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea, Tyrannidae) ainda passava entre as copas distantes na zona queimada, podendo visitar as infrutescências das embaúbas. Mesmo que em extinção, ocorre nas grandes matas remanescentes, pegando frutos das Melastomataceae e outras árvores médias ou altas, sobrevivendo ao fogo. Na chuva, às 09:00, ele estava nas copas junto com outras aves (Pachyramphus validus, Tyrannus melancholicus, Chelidoptera tenebrosa, etc.) nas copas mortas ou vivas voando atrás de "aleluias", a forma alada de cupins.

Encontrei uma ou outra cotingas-crejoás (Cotinaga maculata), machos azuis separados das fêmeas pintadas de escuro, nas árvores altas ainda vivas. Parecia mais comum na mata não queimada, "trabalhando" as Melastomataceas e outras árvores frutíferas, às vezes em grupos de anambés.

Um grupo do raro apuim-de-costa-preta (Touit melanonota) sobrevoava as matas queimadas, gritando "trilili"; alguns apuins-de-cauda-amarela (T. surda) estavam nas copas da mata não queimada, chamando "tu-im" ou "tu-it," que lhe deu o nome genérico e popular. Pionus menstruus e Brotogeris tirica (ou B. viridissimus, no caso de Olivério Pinto estar correto quando diz que "tirica" é outra ave), foram comuns nas zonas queimadas e não queimadas. Parecia que as aves frugívoras das copas não estavam extintas nas zonas queimadas, estavam conseguindo frutos.

Então, o que aconteceu com as aves frugívoras que utilizam os níveis médios? Parecia que as tiribas-grandes, Pyrrhura cruentata, não estavam nas matas queimadas durante as chuvas da manhã. Entretanto, na tarde do mesmo dia, mesmo com chuva, apareceu um grupo voando, juntos e rápidos, parando em trepadeiras ainda verdes. No dia seguinte, poucos grupos foram registrados na mata queimada, menos na mata não queimada. Também, poucos araçarís (Pteroglossus torquatus) e tucanos (Ramphastos vitellinus) estavam em zonas queimadas, somente onde as árvores ainda estavam vivas.

Outra ave frugívora, de níveis médios, o raro cochó (Carpornis melanocephalus, Tyrannidae), não apareceu no primeiro dia. Cedo, na manhã seguinte, entretanto, estava pegando frutos em árvore a 10 m do chão e 30 m do pedaço de mata não queimada. Emitiu um "chó" alto e animado depois de minha passagem. Os cricriós (Lipauqus vociferans) não eram comuns, mas gritavam em trechos onde mais árvores estavam vivas.

Em ambos os dias, passando o trecho principal não queimado, encontrei um bando misto saindo das copas e níveis médios e entrando dentro da mata queimada. No segundo dia, um casal de maria-assobiadeira estava a frente do grupo, "puxando a escola". Interessante foi que as aves das copas estavam descendo perto do observador, nos arbustos de Trema, pulando perto do chão como se estivessem nas copas. Movimentando-se rapidamente estavam agindo como se estivessem descendo para as copas em um vale na mata. Visitaram algumas árvores pequenas sobreviventes de Melastomataceae mas, em geral, estavam procurando insetos - os Trema não tinham frutos ainda.

Próximo ao chão, junto com os saís-azuis (Dacnis cavana), saíras-sete-cores (Tanqara seledon), outras saíras (T. mexicana, T. velia), mariquitas (Parula pitivaumi), saíras-galegas (Hemithraupis flavicollis), tiês-galo (Tachyphonus cristatus), um ou outro arapaçu (Dendrocolaptes platyrostris, Xiphorhynchus quttatus, Lepidocolaptes fuscus, Dendrocolaptidae) estavam subindo os troncos queimados junto com o bando. Até um casal de limpa-folha-gritadores (Furnariidae, Philydor leucophrys, escrito "leucophrus" em alguns livros) estava visitando as bromélias enormes ainda vivas junto com o grupo, mesmo que fora da mata fechada.

O bico-virado-carijó (Xenops rutilans, Furnariidae) examinou os cipós mortos, junto com pequenos picapaus (Veniliornis affinis) da mata. Dentro dos arbustos baixos, voava um ou outro tinguaçu-de-cabeça-cinza (Attila rufus, Tyrannidae) em vez da espécie A. spadiceus (tinguaçu-cantor) mais comum na mata não queimada. Descendo das copas, um casal de Troqon surrucura estava junto com o bando, perto do chão. Outras aves das copas, inclusive araponguinhas (Tityra inquisitor, T. cayana) e caneleiros (Pachyramphus marginatus, P. validus) estavam mais acima.

Parecia que as aves das copas e níveis médios estavam juntas, usando os arbustos de 3-4 m de altura, os troncos ou árvores vivas. Na Amazônia, quando os rios sobem sobre os igapós ou várzeas, somente os topos das árvores aparecem, parecendo um pasto sujo de arbustos (Oniki 1985). A água, neste caso, e o "inverno" causado pelo fogo, comprimem a vegetação em uma faixa estreita, forçando as aves de diferentes níveis a se juntarem próximo ao nível do "substrato."

Em dois outros trechos da estrada, no segundo dia, encontrei bandos mistos puxados por assobiadeiras, perto do chão, em lugares onde números maiores de árvores sobreviveram ao fogo. Em um bando estava um casal de pequenos Ornithion inerme (Tyrannidae), poaieiros-de-sombrancelhas, pulando em ervas-de-passarinho (Loranthaceae), deixadas pelo fogo a 10-15 m do chão. O fogo queima bastante em um lugar, menos em outro.

Longe ou junto com os bandos mistos, encontrei grupos de chorozinhos barulhentos (Herpsilochmus rufimarqinatus, Thamnophilidae) e nicolaus (Campylorhynchus turdinus, Troglodytidae), onde o fogo tinha deixado trepadeiras densas nos troncos altos. Várias espécies de picapaus estavam presentes mesmo que os caurés (Falco rufiqularis) e gaviões-carijós (Buteo maqnirostris) estivessem caçando na mata aberta pelo fogo, enquanto Buteo albonotatus (gavião-caçador, em julho de 1995), Falco femoralis, Leucopternis polionota e outros Falconiformes sobrevoavam a mata queimada. Não apareceram na área Spizaetus ornatus, Micrastur sp. e outros caçadores da mata não queimada e, deve ter mudado a "guilda" dos predadores. As aves da mata podem ter corrido riscos novos, devido às diferentes espécies de predadores, mesmo que continuando em bandos mistos.

Mesmo que em perigo, as aves das copas e níveis médios da mata pareceram estar sobrevivendo na zona queimada. O mesmo não aconteceu com as aves do sub-bosque, exceto para algumas espécies. Os bandos mistos ao redor de Habia rubica e Thamnomanes caesius (uirapuru-de-bando, a ser discutido em outro artigo desta série), somente foram encontrados nas matas não queimadas. Uma ou outra ave do sub-bosque cantou marcando presença, principalmente no trecho não queimado (Schiffornis turdinus, o flautim-marrom; Phaethornis ruber e Glaucis dohrnii, beija-flores; Ramphocaenus melanurus, balança-rabo-de-bico-longo; Troqon collaris, um surucuá; Leptopoqon amaurocephalus, abre-asa-cabeçudo; Lathrotriccus euleri, talvez ave de inverno), mas muitas aves das matas estavam ausentes (Pipra rubrocapilla e Machaeropterus requlus, mesmo que Pipra pipra estava com um bando misto; Thalurania qlaucopis, Troqon rufus, Campephilus robustus, Formicarius colma, Myrmotherula urosticta, Drymophila squamata; Glyphorynchus spirurus e Xiphocolaptes albicollis, Automolus leucophtalmus, Turdus fumigatus e T. albicollis).

Os inhambús, entretanto, pareciam ter repopulado o sub-bosque de Trema (Crypturellus soui, C. variegatus) e C. tataupa ocorreu somente na mata queimada. Arremon taciturnus e algumas chocas e parentes (Thamnophilus punctatus, Myrmotherula axillaris, Pyriglena leucoptera) estavam saindo nos arbustos de Trema até 100 m ou mais do trecho de mata não queimada. Myiornis auricularis, um tiranídeo pequeno de trechos densos de trepadeiras, estava até mais comum onde a mata foi queimada.

Algumas aves de fora da mata invadem com o fogo - até Furnarius rufus (julho de 1995), Fluvicola nenqeta e Pitanqus lictor longe da água. Híbridos entre Sporophila caerulescens e S. niqricollis, Volatinia iacarina, e Columbina squammata comem sementes; Pitanqus sulphuratus, Myiozetetes similis e Troqlodstes aedon tornam-se numerosos; Glaucis hirsuta aparece nas flores. Mesmo que as invasoras possam "repor" as espécies perdidas 1 por 1, são aves comuns e não endêmicas ou raras.

Em geral, o fogo é prejudicial para aves dos bandos mistos do sub-bosque mas, aves de bandos mistos das copas conseguem sobreviver quando têm árvores sobreviventes, trechos de mata pouco ou não queimadas, e a regeneração natural com Trema micrantha e outras espécies nativas.

O fogo é como um inverno longo, mas não justifica destruir o que restou da mata. Os fazendeiros e outras pessoas devem deixar a mata crescer novamente, promover os corredores ou as ligações com outras matas, deixando as aves repovoar a mata.

Nem é bom colocar os sem-terra, porque com os assentamentos junto ao pontal leste da mata de Bralanda, em 1994, houve as pessoas caçando dentro da mata, destruição completa de capoeiras e matas em regeneração, poluição da água e pouca produção de alimentos. Precisamos deixar a primavera chegar, ao invés de continuar o inverno do fogo para sempre!

Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) e à Universidade Estadual Paulista (UNESP) pelo apoio às nossas pesquisas, aos Srs. Artur e Hermínio Tisser e funcionários da Companhia Brasil-Holanda pela permissão de trabalhar em suas matas. Especialmente, estou grato à Yoshika Oniki pela ajuda durante e depois dos trabalhos de campo.

Bibliografia

Oniki, Y. 1985. Why robin eggs are blue and birds build nests: statistical tests for Amazonian birds. Amer. Ornit. Union Monog. 36: 536-545.

Oniki, Y., T. A.de Melo Júnior, E. T. Scopel & E. º Willis. 1994. Bird use of Cecropia (Cecropiaceae) and nearby trees in Espirito Santo State, Brazil. Ornitologia Neotropical 5(2): 109-114.

Ruschi, A. 1979. Posição das florestas artificiais na conservação dos recursos naturais renováveis. Bol. Mus. Biol. M. Leitão, Número Comemorativo XXX Aniv., p. 108-111.

Willis, E. O. 1966. Os puxadores das escolas de samba. I. "Assobiadeiras" no quintal. Atualidades Ornitológicas (70): 5-6.

 

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