Edição 73 - Setembro/Outubro 1996 - Páginas 13-14 - ISSN 0104-2386

AO Number 73 - September-October 1996 - P.13-14

Observações preliminares sobre o comportamento do bacurauzinho-da-caatinga (Caprimulgus hirundinaceus) na Estação Ecológica de Aiuaba-CE

Marcelo Ferreira de Vasconcelos e Cleber Cunha Figueiredo - Belo Horizonte-MG

Introdução

Os curiangos e bacuraus, representantes da família Caprimulgidae são, em geral, aves insetívoras de hábitos noturnos e crepusculares que passam o dia pousadas camufladas em seus sítios de repouso. Estes sítios podem ser lajes, pedras, serrapilheira, galhos de árvores, dentre outros.

O bacurauzinho-da-caatinga, Caprimulgus hirundinaceus é a única espécie da família Caprimulgidae endêmica do Brasil, considerada restrita à região nordeste do país (Sick 1985) até a descoberta de uma nova subespécie em Colatina-ES em 1993 (Ribon 1995).

Esta espécie tem em média 16,5 cm de comprimento, sendo uma das menores da família. Na região Nordeste, sua coloração é parda-clara como adaptação ao ambiente ensolarado da caatinga. O macho possui uma faixa branca em cada asa e as pontas das rectrizes externas são brancas (Sick 1985).

Este trabalho tem como objetivo descrever aspectos comportamentais de Caprimulgus hirundinaceus na Estação Ecológica de Aiuaba, uma vez que pouco se sabe sobre as espécies endêmicas brasileiras.

 

Metodologia

As observações comportamentais da espécie foram realizadas em horários crepusculares e noturnos nos dias 13 a 17 de junho de 1995 na Estação Ecológica de Aiuaba-CE, durante o curso: "A Ornitologia na Conservação as Aves Silvestres" realizado pelo CEMAVE -Centro de Pesquisas para Conservação das Aves Silvestres, totalizando 9 horas de observação.

A Estação Ecológica de Aiuaba está localizada no município de Aiuaba-CE entre as coordenadas 06º 35'-06º 46' Lat S e 40º 08'-40º 20' Long W, possuindo uma área de 11.526 ha (Nascimento e Schulz Neto 1996). A área é caracterizada por vegetação de caatinga, tornando-se às vezes esparsa com a presença de solos desnudos e com ocorrência de espécies arbustivas típicas.

As observações foram feitas através de observação direta ou com o auxílio de binóculos Bushnell 8 X 40. Foram descritas vocalizações associadas aos comportamentos.

 

Resultados e Discussão

C. hirundinaceus iniciava suas atividades de vocalização por volta das 17:50 h. A voz mais comum ouvida nesse período era um assobiar do tipo "fuiil" (para maiores detalhes ouvir o segundo exemplo para a espécie em Hardy (1980)). Também podia ser ouvida, porém com menor freqüência, uma voz do tipo "gou-gou-gou / gou-gou-gou" (quarto exemplo para a espécie em Hardy (1980)). Estas duas vocalizações também foram ouvidas durante o período noturno. Durante o período de observação a espécie esteve em intensa atividade por toda a noite e madrugada.

Os substratos nos quais C. hirundinaceus foi observado pousado à noite foram estradas de terra fina, areia e pedras em áreas abertas na caatinga, pedras na beira de um açude e paralelepípedos da sede da Estação Ecológica de Aiuaba. Uma das poucas informações a respeito desta espécie citada por Sick (1985) é que ela "pousa sobre areia ou lajes".

Na estrada de terra que leva à sede da Estação Ecológica de Aiuaba, sempre foram observados (n=7), dois indivíduos juntos pousados aproximadamente 2,5 m um do outro. Nos outros locais, sempre foi observado (n=9) um indivíduo.

A espécie captura insetos voando do chão e retornando ao local de origem, geralmente emitindo uma voz rouca e relativamente baixa do tipo "curral" (voz ausente em Hardy (1980)) entre uma captura (ou tentativa) e outra. O vôos de captura observados duraram cerca de 1 s e tiveram uma altura aproximada de 1,70 m (n=12). Observou-se duas táticas: manobras simples, com a subida e descida direta da ave (n=8) e manobras volteadas, estas últimas provavelmente associadas a uma perseguição da presa (n=4) (Fig.1). Um exemplar de C. hirundinaceus capturado por Pineschi (1995) possuía principalmente dípteros e formigas aladas no estômago.

Enquanto forrageava, C. hirundinaceus mudava a posição de seu corpo dando saltos de aproximadamente 25 cm, nos quais o animal dava um giro no corpo a cada pulo, sempre voltando ao mesmo ponto inicial, porém com o sentido do corpo em outra direção (n=1) (Fig.2). Em uma seqüência de dois pulos, o giro observado foi de 180º. Pode ocorrer também uma mudança do local de captura de insetos através de pulos baixos e frontais de aproximadamente 20 cm de altura (n=2) (Fig.3). Em ambos os tipos de pulos, os animais emitiram a voz "curral". A mudança do local de captura de insetos também pode ser feita através de uma caminhada rápida sobre o solo (n=1) ou de vôos curtos de aproximadamente 2 m de comprimento ou menos (n=3). O deslocamento a pé de outras espécies de Caprimulgidae são bem conhecidas como em Nyctidromus albicollis e em Chordeiles rupestris, sendo que esta última corre gingando como uma gaivota sobre a areia de praias (Sick 1950).

A voz "curral" também foi observada associada a comportamentos de inquietude típicos da família Caprimulgidae, como o levantar e abaixar da cabeça (n=8) e a um pequeno e baixo pulo com pouca abertura das asas, no qual o animal não muda de posição, nem de lugar (n=2) (Fig.4). Foi observado também, uma combinação deste pulo com o deslocamento frontal, aparentemente realizado como uma fuga (n=11).

Durante o crepúsculo do dia 14 de junho, às 17:50 h foi observado um indivíduo pousado em algumas rochas ao lado de um açude vocalizando "curral", dando pequenos pulos e alçando vôo sobre a água. O animal voou rasante sobre a lâmina d'água e tocou-a com o bico, bebendo. Este hábito é citado para o gênero Chordeiles por Sick (1985) e para Podager nacunda por Belton (1994).

Um sítio de repouso foi encontrado por volta das 10:30 h do dia 17 de junho. O local correspondia a uma área parcialmente aberta, sombreada e sem gramíneas. Nas adjacências do sítio haviam muitas juremas (Mimosa sp), leguminosa arbustiva e espinhosa da caatinga que propiciava proteção e sombreamento ao animal em repouso. O indivíduo estava pousado sobre um substrato de pedras e areia. Com a aproximação do observador, o animal deu um pulo de aproximadamente 0,5 m de altura e de comprimento, vocalizando "curral", voltou ao chão, e, com uma maior aproximação do observador, ele correu rapidamente de maneira requebrante sobre as pedras e com as asas fechadas. O indivíduo vocalizou mais uma vez "curral" e voou para trás das juremas, não sendo mais encontrado. Uma fotografia de Claus Meyer contida em Monteiro e Kaz (1995) retrata um indivíduo desta espécie pousado durante o dia em um afloramento rochoso ladeado de xiquexiques (Pilocereus sp). Neste caso, as cactáceas também devam estar fazendo o mesmo papel de proteção das juremas.

A intensa atividade observada para esta espécie durante a noite e madrugada poderia ser explicada pelo fato de que todas as observações foram realizadas em noites de lua cheia. Mills (1986) demonstrou que a luz da lua aumenta significativamente os níveis de atividade no ninho em Caprimulgus vociferus. Provavelmente, pelas táticas de forrageamento empregadas pelas espécies de Caprimulgus, ou seja, ficar pousado e esperando por uma presa, estas espécies parecem depender mais da visão do que as do gênero Chordeiles, que capturam insetos em vôos contínuos (Caccamise 1974, Brigham 1990) e que não são influenciadas pelo ciclo lunar (Brigham e Fenton 1991).

Na mesma área em que se realizou este estudo, cinco outras espécies de aves insetívoras noturnas e crepusculares foram registradas, sendo elas: Otus choliba, Glaucidium brasilianum, Athene cunicularia, Nyctibius griseus e Chordeiles pusillus. Para se avaliar se estas espécies competem ou não com Caprimulgus hirundinaceus seriam necessárias maiores observações, levando em conta a utilização de diferentes micro-habitats e de diferentes táticas de forrageamento associadas a um estudo de dieta de cada uma destas espécies.

 

 

Agradecimentos

Aos colegas J. L. X. Nascimento, A. Schulz Neto e F. M. B. Calazans pela companhia e amizade; R. G. Silveira pela atenção e hospedagem na Estação Ecológica de Aiuaba; aos amigos T. A. Melo Jr., R.Ribon, L. V. Lins e R. B. Machado pela revisão do trabalho e ao Professor Dr. M. Â. Marini pelo apoio.

 

 

Bibliografia

 

Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul: Distribuição e Biologia. São Leopoldo, Ed. UNISINOS. 584 p.

Brigham, R.M. 1990. Prey selection by big brown bats (Eptesicus fuscus) and Common Nighthawks (Chordeiles minor). Am. Midl. Nat. 124:73-80.

Brigham, R.M. & Fenton, M.B. 1991. Convergence in foraging strategies by two morphologically and philogenetically distinct nocturnal aerial insectivores. J. Zool. (Lond.) 223:475-489.

Caccamise, D.F. 1974. Competitive relationships of the Common and Lesser Nighthawks. Condor 76:1-20.

Hardy, J. W. 1980. Voices of New World nightbirds. Ara 6, Gainesville.

Mills, A.M. 1986. The influence of moonlight on the behavior of goatsuckers (Caprimulgidae). Auk 103:370-378.

Monteiro, S. & Kaz, L. 1995. Caatinga: Sertão, Sertanejos. Rio de Janeiro, Ed. Livroarte. 256 p.

Nascimento, J. L. X. e Schulz Neto, A. 1996. Aves da Estação Ecológica de Aiuaba, Ceará. CEMAVE/ IBAMA. 28 p.

Pineschi, R.B. 1995. Aves da Caatinga. In Monteiro, S. & Kaz, L. Caatinga:Sertão, Sertanejos. Rio de Janeiro, Ed. Livroarte. 256 p.

Ribon, R. 1995. Nova subespécie de Caprimulgus (Linnaeus) (Aves, Caprimulgidae) do Espírito Santo, Brasil. Revta. bras. Zool. 12:333-337.

Sick, H. 1950. Contribuição ao conhecimento da ecologia de Chordeiles rupestris (Spix) (Caprimulgidae, Aves). Rev. Brasil. Biol. 10:295-306.

Sick, H. 1985. Ornitologia Brasileira, uma introdução. Brasília, Ed. UnB.

Fig.1: Esquemas de vôos de captura de insetos observados para Caprimulgus hirundinaceus.

Fig.2: Esquema de mudança da posição corporal em Caprimulgus hirundinaceus .

Fig.3: Esquema da mudança de local de forrageamento por Caprimulgus hirundinaceus através de pulos baixos e frontais.

Fig.4: Esquema de salto realizado por Caprimulgus hirundinaceus associado à inquietude.

 

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Última modificação (Last modified): setembro 22, 2012