Edição 73 - Setembro/Outubro 1996 - Página 2 - ISSN 0104-2386

AO Number 73 - September-October 1996 - P.2

Um Estudo Filogenético de Psitacídeos (Psittaciformes, Aves) Baseado em Seqüências de Genes Mitocondriais

 

Cristina Yumi Miyaki - São Paulo-SP

 

Resumo

 

Visando o estudo filogenético, neste trabalho foi realizado o seqüenciamento direto de três genes mitocondriais (rDNAs 12S e 16S e citocromo b) de várias espécies de psitacídeos brasileiros, totalizando 2kb por indivíduo. Estes genes foram analisados em separado e em combinações como se fossem um único gene. Foram utilizados dois indivíduos de cada uma das seguintes espécies: Amazona aestiva e Pionus menstruus (cauda curta e arredondada); Deroptyus accipitrinus (cauda longa e larga); Anodorhynchus hyacinthinus, Ara ararauna, Aratinga aurea, Cyanopsitta spixii, Guaruba guarouba, Nandayus nenday e Pyrrhura picta (cauda longa e ponteaguda). Infelizmente para Nandayus nenday, não foi possível seqüenciar o citocromo b por completo e somente para este gene, esta espécie não foi utilizada. Além destas espécies brasileiras, um psitacídeo australiano (Melopsittacus undulatus) também foi estudado quanto aos mesmos genes para comparação. As seqüências obtidas foram alinhadas tomando como base a seqüência publicada de Gallus gallus que foi considerado como grupo externo. Os resultados obtidos mostram que a composição de nucleotídeos dos DNAs mitocondriais estudados, em relação às suas porcentagens, é semelhante à encontrada em outros organismos. As diversas análises filogenéticas com os rDNA 16S e citocromo b mostraram uma clara separação entre as espécies brasileiras de cauda curta das de cauda longa. Esta separação não foi observada com o rDNA 12S, o que poderia ser resultado da sua pequena porção analisada, ou mesmo pelo fato de os genes estudados terem histórias evolutivas diferentes.

Além de estudar este grupo de psitacídeos, foram utilizadas seqüências de citocromo b de outras espécies de psitacídeos estudadas por outros autores. Estas comparações foram divididas em dois grupos: uma contendo seqüências de 888pb e outra de 273pb. O primeiro grupo incluiu as nove espécies brasileiras aqui estudadas e sete espécies australasiáticas (Geopsittacus occidentalis, Melopsittacus undulatus, Neophema petrophila petrophila, Pezoporus wallicus wallicus, Platycercus icterotis xanthogenys, Polytelis anthopeplus westralis e Strigops habroptilis) estudadas por Leeton e colaboradores (1994). No segundo grupo, foram comparadas parte das seqüências destas dezesseis espécies com outras espécies africanas (Poicephaus senegalus e Psittacus erithacus), australasiáticas (Cacatua goffini, Melopsittacus undulatus, Nymphicus hollandicus e Purpureicephalus spurius) e americanas (Amazona autumnalis autumnalis, A. oratrix oratrix, A. tucumana, A. xanthops, Graydidascalus brachyurus e Pionus senilis) seqüenciados por Birt e colaboradores (1992). Os resultados das análises filogenéticas do primeiro grupo mostram a divergência entre as espécies do Brasil e da Australásia, concordando com a hipótese de separação da Gondwana. Apesar de as topologias obtidas com o segundo grupo de espécies não serem tão consistentes, uma delas mostra a mesma divergência. O fato de Amazona xanthops aparecer longe das demais espécies de Amazona, adiciona mais dados de sustentação para sua exclusão do gênero.

Concluindo, os eventos de separação das espécies segundo o continente e segundo a morfologia da cauda (que devem ter ocorrido há muito tempo) puderam ser bem estabelecidos neste estudo. No entanto, as relações entre as espécies brasileiras de cauda longa não puderam ser estabelecidas, talvez devido a características intrínsecas dos genes seqüenciados ou pelo fato de esta especiação ter sido recente e simultânea.

Tese de Doutoramento de Cristina Yumi Miyaki

Orientadores: Anita Wajntal - Departamento de Biologia, IBUSP, São Paulo, Brasil; Terry Burke - Department of Zoology, University of Leicester, Leicester, Inglaterra.

 

 

 

AO - SERVIÇOS - LINKS