Edição 73 - Setembro/Outubro 1996 - Página 8 - ISSN 0104-2386

AO Number 73 - September-October 1996 - P.8

Uma visita a

CRAX - Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre

 

Criada há quase 10 anos, a CRAX - Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre (Caixa Postal 3030, Salvassi - 30112-970 Belo Horizonte-MG; Tel/Fax 031 - 624.0539) é uma associação científica sem fins lucrativos que visa, na prática, a recuperação de algumas espécies das nossas aves. Tem sua sede em Contagem-MG. Desenvolvendo técnicas de reprodução e manejo para reintrodução em ambientes naturais, o projeto hoje é reconhecido internacionalmente e já atinge 100 espécies da avifauna brasileira, somando cerca de 1500 indivíduos (90% nascidos em cativeiro) espalhados em 200 viveiros. Só na última estação de criação foram obtidos 350 filhotes de espécies ameaçadas de extinção. Fundada pelo Sr. Roberto Azeredo, que cede esta entrevista para os leitores do AO, a CRAX desenvolve um know how importante em matéria de reintrodução na natureza de espécies multiplicadas em cativeiro e é exemplo de solução para os sérios problemas de preservação.

 

AO: Como surgiu a CRAX?

Sr. Roberto Azeredo: Desde a minha infância que venho pesquisando a reprodução de aves silvestres brasileiras em cativeiro. No início eu me dedicava a reprodução de passeriformes. Depois evolui para aves de maior porte, principalmente cracídeos e tinamídeos. A CRAX nasceu pela necessidade de dar continuidade ao trabalho de uma maneira mais organizada, já que como hobby eu sentia profundas limitações para continuar meu trabalho.

Com a inclusão de maiores recursos técnicos e financeiros foi possível ampliarmos o número de espécies trabalhadas, contribuindo assim para atuar objetivamente na recuperação de espécies muito ameaçadas de extinção.

AO: A que se deve o sucesso da CRAX?

Sr. Roberto Azeredo: O que se objetiva é desenvolver todos os esforços para, na prática - e não no discurso -, recuperar o que ainda resta de nossas aves. Assim, toda a pesquisa é desenvolvida buscando técnicas de manejo capazes de facilitar a reprodução no cativeiro. Existe uma grande preocupação em selecionar matrizes e reprodutores com características bem representativas de cada espécie, ou seja, animais que não tenham o padrão de tamanho da espécie ou apresentam defeitos físicos são eliminados do conjunto de matrizes com a finalidade de que seus defeitos não passem para a frente. É muito importante preservar cada espécie com as características mais expressivas de cada uma delas (tamanho, cor etc.).

AO: Como vê a conscientização ecológica hoje?

Sr. Roberto Azeredo: Apesar da consciência ecológica ter evoluído para melhor nos últimos tempos, as ações teóricas ainda predominam. É necessário que os trabalhos teóricos venham lado a lado com as ações práticas, caso contrário, num futuro próximo, vamos ter inúmeros trabalhos teóricos publicados, discursos gravados denunciando as agressões ao nosso meio ambiente, mas não teremos o mais importante: os animais e os nossos campos, florestas e rios. Daí a importância dos trabalhos em cativeiro para recuperação dos animais que estão desaparecendo.

Quando falamos em ações práticas, elas vão desde a criação, manutenção e fiscalização de reservas naturais, até a criação em cativeiro de animais ameaçados de extinção, com o objetivo de desenvolver trabalhos de reintrodução na natureza. O reflorestamento com espécies nativas, enriquecendo o que resta de nossas matas, é também uma ação que achamos ser também de fundamental importância.

AO: Poderia fazer uma síntese dos trabalhos desenvolvidos pela CRAX?

Sr. Roberto Azeredo: Algumas espécies tiveram maior enfoque, como o mutum-do-bico-vermelho (Crax blumenbachii) e o macuco (Tinamus solitarius). O sucesso obtido com a reprodução em cativeiro destas duas espécies veio justificar a fundação da CRAX, que visa a reprodução e o manejo de espécies raras e ameaçadas de extinção, em cativeiro, para reintrodução em ambiente natural.

O Programa Integrado de Preservação de Espécies da Fauna Silvestre, elaborado pela CRAX, divide-se em 6 fases: 1- Definição das espécies a estudar; 2- Obtenção das matrizes e dos reprodutores; 3- Domínio da reprodução e do manejo, em cativeiro; 4- Multiplicação do plantel; 5- Intercâmbio científico; 6- Reintrodução na natureza e distribuição seletiva.

Assim, as nossas atividades seguem este programa, ressaltando-se, no entanto, que os trabalhos com as espécies que citamos anteriormente, encontram-se bem evoluídos e a CRAX já está trabalhando em sua reintrodução em ambiente natural.

Na CRAX temos hoje cerca de 100 espécies da nossa avifauna, somando quase 1500 indivíduos, em 200 viveiros. Destas espécies destacam-se o mutur-do-bico-vermelho (Crax blumenbachii), a jacutinga (Pipile jacutinga), o macuco (Tinamus solitarius), o jaó (Crypturellus n. noctivagus), a jacucaca (Penelope jacucaca), o chauá (Amazona rhodocorytha), o papagaio-de-cara-rixa (Amazona brasiliensis) e o gavião real (Harpia harpyja), tidas como raras ou ameaçadas de extinção. Das 100 espécies existentes, várias estão se reproduzindo, tendo-se obtido, na última temporada, 350 filhotes. Das aves existentes hoje na CRAX, 90% nasceram em suas instalações.

AO: Quando começou o trabalho com o mutum?

Sr. Roberto Azeredo: Entre os vários trabalhos que estamos desenvolvendo, o primeiro foi com o mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii), que teve início em meados de 1975, quando alguns casais foram observados em seu hábitat natural, na região de Teixeira de Freitas-BA. Em julho de 1978 foi capturado o primeiro casal e o segundo um ano depois, ambos na mesma região (sul da Bahia, Teixeira de Freitas). De 1979 a 1985 quatro novos indivíduos de origens genéticas diferentes foram incorporados ao conjunto de matrizes e reprodutores. A partir de 1990 foi assinado um acordo de cooperação científica com a Celulose Nipo Brasileira S/A - CENIBRA. O acordo tem como principal objetivo desenvolver trabalhos de reintrodução na natureza de espécies da avifauna brasileira oriundas das regiões onde a CENIBRA possui reservas de mata nativa.

AO: Quais outras espécies passaram a ser objeto do projeto e como ele se desenvolveu?

Sr. Roberto Azeredo: Foram escolhidas 4 espécies para o início dos trabalhos: Crax blumenbachii, Tinamus solitarius, Crypturellus n. noctivagus e Pipile jacutinga.

A área escolhida para as primeiras experiências é uma porção de mata atlântica em bom estado de regeneração, à margem direita do rio Doce, no município de Ipaba - MG, somando 1469,00 ha de preservação permanente e reserva legal de propriedade da CENIBRA, denominada Fazenda Macedônica. O primeiro trabalho, como disse, foi com o mutum-do-sudeste, espécie que ocorreu primitivamente do sul da Bahia, leste de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Atualmente está restrito à pouquíssimas áreas do sul da Bahia (Parque Nacional de Monte Pascoal) e norte do Espírito Santo (reserva de Sooretama e reserva de Linhares).

A CRAX, naquela oportunidade, possuía aproximadamente 400 exemplares de Crax blumenbachii sendo que apenas 8 indivíduos não haviam nascido em suas instalações.

A CRAX definiu, em princípio, soltar 30 casais de mutuns, que foram selecionados de um grupo de 100 filhotes. Os indivíduos mais mansos ou com defeitos foram excluídos do grupo de soltura.

Dentro da reserva foram feitas trilhas, construídos poços d’água em pontos distantes do rio Doce, lagoas e nascentes, construído o viveiro de adaptação das aves até o momento da soltura.

O viveiro foi construído no meio da floresta procurando dar condições bem semelhantes às do ambiente natural, com árvores altas e outras vegetações próprias da mata.

Com relação a este projeto foram desenvolvidas até o momento as seguintes atividades: estudos preliminares da reserva flora/fauna; seleção do 1o e 2o grupo (30 casais); exames clínicos, pesagens e anilhamento; período de aclimatação; quarentena, observações diárias e testes alimentares; exames clínicos; soltura do 1o grupo em 1/9/91 e do 2o grupo em 17/2/93; construção de pontos de observação na mata; reforma da sede da Fazenda para receber pesquisadores e desenvolver trabalhos de educação ambiental.

Os mutuns só foram soltos quando todo o grupo apresentava condições perfeitas de vôo.

Paralelamente foram desenvolvidos trabalhos de educação ambiental em toda região do projeto (palestras, encontros, cartazes, viveiros de demonstração etc.).

Em 1995 foi encontrado o primeiro filhote de mutum do grupo reintroduzido. O nascimento dos primeiros filhotes do mutum nos mostra que a reintrodução na natureza pode realmente salvar espécies ameaçadas.

Os estudos e o acompanhamento dos grupos reintroduzidos prosseguem normalmente em ritmo de rotina visando a coleta dos dados e as observações necessárias à documentação e à análise dos trabalhos de reintrodução, que devem ser encarados como de longo prazo, permanente e irreversível.

Outra espécie do acordo CENIBRA/CRAX que está também numa etapa avançada é o macuco (Tinamus solitarius).

Este projeto está sendo desenvolvido também na reserva da Fazenda Macedônia, no município de Ipaba - MG. Já foram soltos, a princípio, 70 macucos.

Foi assinado outro acordo de cooperação científica, em 29/10/92, entre a COPASA - MG - Companhia de Saneamento de Minas Gerais e a CRAX. Este projeto prevê a reintrodução do macuco na Reserva Florestal, denominada Área de Proteção da Captação dos Fechos, numa extensão de 1.074 hectares, no município de Nova Lima - MG.

Esta região está enquadrada como de transição entre o Cerrado e Mata Atlântica, com predominância de áreas de Mata Ciliar, Cerradão e Campos de Altitude.

A COPASA construiu um viveiro de aclimatação dentro da reserva.

A CRAX, a princípio, soltou na área da COPASA, 30 macucos.

Com relação a estes projetos foram desenvolvidas até o momento as seguintes atividades: seleção do 1o, 2o e 3o grupo para a CENIBRA e para a COPASA; exames clínicos, pesagens e anilhamento (CEMAVE); quarentena, observações diárias e testes alimentares; período de aclimatação; soltura na CENIBRA em 01, 05 e 08/95 e na COPASA em 06, 08/95 e 07/96.

Os estudos e o acompanhamento também prosseguem normalmente, em ritmo de rotina, visando a coleta dos dados e as observações necessárias à documentação e à análise dos trabalhos de reintrodução, que devem ser encarados como de longo prazo, permanente e irreversível.

Além dos acordos acima mencionados, a CRAX ainda possui outro, visando a reintrodução de espécies ameaçadas de extinção em seu ambiente natural. Dentre eles, destaca-se o com a Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG.

AO: Quais são as perspectivas da CRAX?

Sr. Roberto Azeredo: Os trabalhos da CRAX a um só tempo pesquisam assuntos importantes e pouco conhecidos como a reintrodução, avançam na área tão promissora do desenvolvimento auto-sustentado, ensejam ótimas oportunidades de exercitar a educação ambiental e, principalmente, contribuem para o salvamento de espécies condenadas à extinção, com resultados práticos e bons índices obtidos.

A CRAX Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre se mantém através de patrocínios e doações. Seus trabalhos são desenvolvidos em parcerias com reservas oficializadas pelo IBAMA com condições de segurança para a realização de projetos de reintrodução na natureza.

Sede da CRAX, em Contagem-MG, nua vista panorâmica.

Área para incubação

Nascimento de um Crax blumenbachii em chocadeira.

Grupo de mutuns sendo preparados para projetos de reintrodução.

Mutuns dentro do viveiro de adaptação.

Mutuns sendo soltos na mata.

Em liberdade.

Sangue sendo retirado de um macuco para exames laboratoriais.

Macuco chocando dentro do viveiro.

Macho de macuco com filhotes.

Grupo de macucos sendo preparado para projeto de reintrodução.

Sr. Roberto Azeredo segurando um macho de Crax blumenbachii na sede da CRAX.

 

 

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