Edição Número 74- Novembro/Dezembro de 1996 - Pág. 11 - ISSN 0104-2386

Abstract of AO Number 74 - P.11 - November/December 1996


 

1896-1996. CENTENÁRIO DE OLIVÉRIO PlNTO: "O PAI DA ORNITOLOGIA BRASILEIRA"

Herculano M. F. Alvarenga - Taubaté-SP

 

Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente pelos anos de 1966 a 1987, por ocasião das minhas primeiras visitas ao então Departamento de Biologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Era um homem magro, algo encurvado por uma conspícua cifose, extremamente polido e elegantemente vestido.

Olivério Mário de Oliveira Pinto nasceu em Jau, SP, em 11 de março de 1896. Ainda bastante jovem, mudou-se para Salvador onde fez seus estudos básicos, demonstrando já um grande interesse pela zoologia. Passou a lecionar Ciências Naturais e, devido à ausência de curso superior nesta área, ingressou na medicina. Formou-se em 1921, na segunda turma de médicos da Faculdade de Medicina da Bahia (a primeira fundada no Brasil), aos 25 anos de idade.

Retornou a São Paulo em 1922, na região de Araraquara onde se instalou como clínico geral, criando e dirigindo o primeiro laboratório de análises clínicas da região, passando também a lecionar Ciências Naturais na Escola de Odontologia e Farmácia que ali acabara de fundar-se. Em 1924 casou-se com Alice Alves de Camargo, de tradicional família paulista.

Possuidor de grande dom artístico, começou a fazer desenhos técnicos para o eminente zoólogo Afrânio do Amaral, então diretor do Instituto Butantã, que percebendo sua habilidade e conhecimento indicou-o ao renomado historiador Alfonso d’Escragnolle Taunay então diretor do Museu Paulista. Taunay imediatamente designou-o para o cargo de pesquisador em Zoologia daquela Instituição.

Olivério Pinto passou então a se dedicar somente à pesquisa zoológica. Iniciou em 1931 com um estudo sobre os sciurídeos (esquilos) brasileiros, tendo posteriormente publicado outros trabalhos sobre mamíferos, especialmente primatas. Ainda em 1931, descreveu um caso de albinismo em perdiz (Rhynchotus) iniciando então um desempenho maravilhoso para a ornitologia brasileira, que culminaria em 1938 e 1944 com o "Catálogo das Aves do Brasil" em 2 volumes, totalizando 1266 páginas. Foi esta a primeira ordenação da nomenclatura, classificação e distribuição das aves do Brasil, indubitavelmente o marco do início de uma nova era da ornitologia brasileira.

Em 1939, com o desmembramento do antigo Museu Paulista, criou-se o Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo e Olivério Pinto passou a ser seu diretor, acumulando ainda o cargo de Chefe da Divisão de Ornitologia. Foi o criador e primeiro editor das publicações científicas "Arquivos de Zoologia" e "Papéis Avulsos", que até hoje representam a produção daquela Instituição. Aposentou-se em 1956, mas permaneceu na Casa, em seu gabinete de trabalho, dando continuidade às pesquisas. Foi somente em 1969 que todo o acervo do Departamento passou para a Universidade de São Paulo e a Instituição foi denominada de Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Olivério Pinto continuava suas pesquisas e em 1978, aos 82 anos de idade, tendo se esgotado a edição do primeiro volume do seu "Catálogo das Aves do Brasil’’, publicou a primeira parte do "Novo Catálogo das Aves do Brasil’’.

Antes de Olivério Pinto, as aves brasileiras já haviam sido estudadas principalmente por naturalistas brasileiros e estrangeiros radicados no Brasil como E. A. Goeldi, H. von Ihering, R. von Ihering, Emília Snethlage, Carlos Euler, José Pinto da Fonseca, Alípio Miranda Ribeiro e outros. Entretanto, o legado de Olivério Pinto sobrepujou a somatória de todos aqueles que o antecederam.

Sua obra científica é versada mais sobre a taxonomia e a distribuição das aves no Brasil, conhecimento imprescindível e básico para as demais pesquisas em comportamento e conservacionismo. Discute com minúcias e extrema clareza as variações geográficas e as barreiras zoogeográficas que separavam as espécies ou subespécies dos representantes da nossa avifauna.

No total, publicou pouco mais de uma centena de trabalhos científicos, sendo a maioria destes de grande porte e inestimável valor, vários dos quais com mais de uma centena de páginas, repletos de minúcias. Dotado de uma caligrafia perfeita, escrevia quase todos seus trabalhos à mão, raramente usando a velha máquina de escrever. Cientista competente e detalhista, conhecia a língua portuguesa como poucos e dominava o latim com extrema habilidade.

De 1929 a 1962 fez inúmeras viagens científicas aos estados do Acre, Roraima, Pará, Mato Grosso, Goiás e outros, presenteando nossa ciência com diversos volumes sobre a avifauna de cada região visitada. Em 1942, em uma expedição científica, esteve perdido por três longos dias nas matas do Vale do Rio Doce, no Espírito Santo, onde quase sucumbiu; esse heróico cientista, em 1962, aos 66 anos de idade, teve sua saúde bastante abalada por uma malária adquirida em sua expedição a Roraima. Pesquisador notável de campo e laboratório, sempre manteve um ritmo invejável na sua produção científica.

Em suas viagens pelos estados de Pernambuco e Alagoas, resolveu pelo menos dois dos maiores enigmas da ornitologia sulamericana: redescobriu (1950) a raríssima arara-azul-de-Lear (Anodorhynchus leari), fixando a região próxima de Joazeiro, entre o oeste de Pernambuco e o norte da Bahia como sua provável pátria típica, o que foi confirmado posteriormente; em 1952 redescobriu o enigmático mutum-de-Alagoas (Mitu mitu), representante de um gênero de galiformes amazônicos em pleno litoral nordestino, hoje uma espécie certamente extinta na natureza.

Olivério Pinto descreveu dezenas de espécies novas de aves brasileiras e outras tantas subespécies (total de 62 formas), feito este que certamente não poderá ser igualado por outro ornitólogo.

Em 1964 publicou o 1o volume de "Ornitologia Brasiliense", trabalho de exímio sistemata, que demonstrava uma grande preocupação em caracterizar os táxons supraespecíficos (gêneros, sub-famílias, famílias, sub-ordens e ordens), descrevendo seus detalhes anatômicos, sendo ainda o único trabalho na ornitologia brasileira com essa característica. Infelizmente, outros volumes dessa obra, embora quase concluídos, não foram publicados.

Em 1979 publicou seu último livro: "A Ornitologia através das idades (século XVI a século XIX)", obra que muito enriquece a literatura sobre história da ciência do Brasil; neste ano contraiu uma virose que prejudicou sua visão a tal ponto de não mais permitir sua produção acadêmica.

Olivério Pinto aos 85 anos de idade, em viagem à região de Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, junto com seus familiares, sentiu-se enfermo, sendo internado em um nosocômio de Piracicaba, onde faleceu no dia 13 de junho de 1981.

Sua biografia, uma lista de todas suas publicações, bem como uma relação das espécies e subespécies por ele descritas, foi feita por H. Nomura (Ciência e Cultura, 36(7): 1235-42; julho de 1994).

Deixou ainda um vasto arquivo de correspondências com inúmeras celebridades da ornitologia da época, que certamente poderá adicionar importantes fatos à história da ornitologia.

Pelo exemplo deixado de homem correto, de cientista brilhante e sobretudo por ter construído o alicerce da nossa ornitologia, Olivério Pinto merece ser reconhecido como o "PAI DA ORNITOLOGIA BRASILEIRA".

 

 

(* )- Pós graduando em Zoologia no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo Bolsista CAPES Rua Colômbia, 99. 12030-520 - Taubaté, SP.

 


 

Quantas Aves tem o Brasil?

Em primeira mão para os leitores do AO na Internet o ornitólogo Fernando Pacheco, coordenador da publicação da nova edição do clássico ORNITOLOGIA BRASILEIRA - UMA INTRODUÇÃO, de Helmut Sick, revela: são 1677 as espécies de aves encontradas identificadas atualmente no Brasil. O livro, que será lançado no VI Congresso Brasileiro de Ornitologia, dia 24 de fevereiro de 1997, tem sua revisão encerrada no início de dezembro.

Para o Sr. Fernando Pacheco, "existe uma nítida tendência, mais que geométrica, de descrições de espécies novas para o Brasil, já que nos vinte últimos anos foram descritas 21. A demonstração de que haverá crescimento é de que nos primeiros 10 anos, ou seja, de 1976 a 1986 foram descritas 5 espécies novas e no segundo período, de 1986 a 1996, foram descritas 16, quer dizer, mais que o triplo do primeiro período". E ele arrisca um prognóstico: "Pelo 'andar da carruagem', para os próximos 10 anos pode-se especular que haja a descrição de 30 outras novas espécies, embora que as novidades vão diminuir enquanto a destruição dos hábitats aumentam, porém acontece uma elevação do número de novos ornitólogos." Ainda sobre a nova edição do livro do Sick, o coordenador disse que foram respeitadas as opiniões taxonômicas do autor, com características conservadoras.


 

O Brasil será o primeiro país em número de aves!

Com exclusividade para os leitores do AO, o Sr. Fernando Pacheco revela que "segundo uma projeção otimista, na virada do milênio o Brasil deverá ocupar o primeiro ranking em número de espécies de aves". E expõe os números:

 

 

Edição do livro de Sick Número de espécies p/Brasil
1a.-1985  1590
2a.- em inglês- 1993 1635
3a. - 1996 1677

Ranking mundial atual:

País Número de espécies
Colômbia  1746
Peru 1707
Brasil 1677

A justificativa para tal previsão está nos números e em alguns fatos, como diz o Sr. Pacheco: "O Brasil, ocupando agora o terceiro posto, com a posição taxonômica conservadora do Sick, tem 1677. Considerando-se um tratamento menos conservador o Brasil teria 1730 espécies. Em 1986 a diferença entre Colômbia e Brasil era de quase 100 espécies; assim, atualmente essa diferença poderia ser de apenas 15 espécies. Nos últimos 10 anos a pesquisa na Colômbia parou devido aos sérios problemas que aquele pais vive, enquanto que no Peru essas pesquisas aos poucos estão sendo retomadas, com a liberação dos tours etc. E o Brasil, como disse, eleva rapidamente o número de ornitólogos atuantes".

 

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