Edição Número 74- Novembro/Dezembro de 1996 - Pág. 12 - ISSN 0104-2386

Abstract of AO Number 74 - P.12 - November/December 1996


O "Acrobata" das florestas do sudeste da Bahia, Acrobatornis fonsecai, um novo gênero e espécie de furnarídeo.

José Fernando Pacheco, Bret M. Whitney & Luiz Pedreira Gonzaga - Rio de Janeiro

Nesse último mês de setembro, publicamos na Wilson Bulletin (vol. 108, pp. 397 - 448) a descrição de Acrobatornis fonsecai, um novo gênero e nova espécie de Furnariidae da mata atlântica do sudeste da Bahia. Essa novidade ornitológica proveniente do Brasil é matéria de evidência nos noticiários da imprensa especializada mundial. Essa notável descoberta foi apresentada com largo destaque no New York Times; mereceu espaço na Associated Press para sua veiculação global e, entre nós, ganhou matéria de meia página no O Globo.

A revelação desta nova ave surgiu, conjugadamente, de nosso trabalho e interesse na região de mata atlântica da Bahia, em especial a região ao norte do rio Jequitinhonha, e da perspicácia de seu primeiro observador, Paulo Sérgio Moreira da Fonseca. Desde 1992, o Laboratório de Ornitologia da UFRJ vem desenvolvendo uma série de pesquisas básicas, na região montanhosa do centro-sudeste da Bahia, com intuito de investigar a avifauna dos fragmentos florestais remanescentes, até então praticamente desconhecida. Os resultados até agora obtidos superaram largamente as expectativas iniciais. Em relativamente pouco tempo pudemos divulgar a descoberta de duas espécies novas de passeriformes, a saber: o Borboletinha-baiano, Phylloscartes beckeri Gonzaga & Pacheco, 1995 e o João-baiano, Synallaxis whitneyi Pacheco & Gonzaga, 1995; além de estender a distribuição de outras 27 espécies da mata atlântica do sudeste, que ainda não haviam sido assinaladas para a Bahia.

Foi em uma dessas tentativas de se conhecer a avifauna dessas montanhas isoladas que, em novembro de 1994, esta terceira novidade e, sem dúvida, a mais espetacular delas, batizada de Acrobatornis fonsecai, nasceu para os olhos da ciência. O economista Paulo Sérgio M. Fonseca - com toda a justiça o nosso homenageado no batismo desta espécie nova - é dedicado ornitólogo amador e experiente observador de aves.

Num momento mágico daquela manhã chuvosa - que minutos antes julgávamos perdida para maiores investidas - "PS" chamou a atenção de Pacheco para uma avezinha cinza de hábitos agitados. Esta ave acompanhada de uma outra de igual aparência e hábitos, mas de coloração marrom, fazia parte de um bando misto que se deslocava sobre a mata que sombreia a plantação de cacau, na Serra das Lontras, município de Arataca, Bahia. A insistência de PS foi tão grande e tão enfática que Pacheco - entretido que estava com algo muito interessante e 30 m distante - se deslocou rapidamente e ainda pôde por alguns instantes observar com clareza o par daquelas criaturinhas, então enigmáticas.

Ficaram então por alguns momentos se perguntando o que seria aquele pássaro. Por conhecerem quase todas as espécies da mata atlântica no campo, as especulações cresceram. Seria algo que não recordavam ? Alguma espécie desaparecida ? Um migrante ou vagante de alguma região distante? Mas, não havia outra alternativa melhor do que admitir que estavam diante mesmo de algo novo, não conhecido.

O curioso foi que os seus hábitos acrobáticos de se pendurar nas extremidades e de fazer uma "escalada negativa" com grande agilidade por baixo dos galhos, não ajudaram de início a concluir sobre que família pertencia este pássaro de hábito tão único.

Animados com este fabuloso encontro foram realizadas duas outras expedições - janeiro e outubro de 1995 - com a intenção primordial de estudar a nova espécie, que já chamávamos de "Acrobata". Nestas tentativas foi nossa intenção, de maneira orientada, colher o máximo de informações possíveis que viessem fundamentar a descrição desse novo táxon. Estas duas novas expedições não poderiam ter tido melhor êxito. Descobrimos o ninho dessa nova espécie, localizamos 52 pontos de ocorrência, fixando basicamente os limites ao sul e ao norte de sua distribuição; documentamos o repertório vocal da espécie através de gravações analógicas e digitais; obtivemos material osteológico e destinado a análises bioquímicas e produzimos uma série de fotografias e registros em vídeo do seu hábitat, ninhos e manobras comportamentais.

O que torna digno de destaque esta nova ave - a ponto de propormos um novo gênero para separá-la do conjunto - é a sua plumagem adulta cinza e preta; plumagem juvenil bem diferenciada da adulta; patas e bico de coloração rosa vivo e seu peculiar comportamento acrobático de forrageamento nas copas. O leitor irá se perguntar: - Esses detalhes são suficientes para que se proponha criar um novo gênero ? Bem, nós apresentamos em nosso artigo (longo, por sinal) uma análise da morfologia, vocalizações, nidificação e comportamento que sustenta a hipótese de que esta nova ave não pode ser incluída em nenhum outro gênero existente. Esta análise considerou um grupo de 20 espécies sul-americanas supostamente relacionadas que, por parâmetros adequados, julgamos serem úteis nessa avaliação de parentesco. Ao final, sugerimos que a sua posição filogenética possa ser próxima dos gêneros Asthenes e Cranioleuca e que, em alguns aspectos, Acrobatornis se mostra próximo dos gêneros Xenerpestes e Metopothrix. Estes dois últimos considerados numa posição sistemática incertae sedis e ainda muito mal conhecidos sob o ponto de vista biológico.

O Acrobata ocorre numa região limitada da mata atlântica de tabuleiro do sudeste da Bahia, entre os rios Jequitinhonha e rio das Contas, que está quase completamente convertida em plantações de cacau. A cacauicultura se desenvolve nessa região utilizando-se do sistema de cabruca, que consiste no cultivo do cacaueiro sob influência da sombra. Este sombreamento é alcançado com a manutenção de grandes árvores copadas preservadas da floresta primária original.

Este padrão restrito de distribuição do Acrobata entre esses dois grandes rios do litoral baiano encontra paralelo na distribuição do ameaçado mico-leão-de-cara-dourada, Leontopithecus chrysomelas. Ao contrário do mico-leão, a "mata cabrucada" oferece reais condições de sobrevivência ao Acrobata.

Onde quer que existam grandes árvores copadas sombreando o cacau entre Itabuna e Camacan, mesmo que estejam ao longo da BR-101, o Acrobata está presente Entretanto, a cacauicultura, base da economia local por séculos, tem sofrido um catastrófico, aparentemente irrecuperável, declínio na produção devido a disseminação da "vassoura-de-bruxa", doença causada pelo fungo Crinipellis perniciosa, que tem resistido a diversas formas de controle. Dessa maneira, fazendeiros vêm ultimamente cortando as grandes árvores - da qual o Acrobata é totalmente dependente - para serem vendidas, assim substituindo a cacauicultura por outras atividades econômicas que prescindem da floresta.

 

UFRJ- Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil

 

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