Edição Número 74- Novembro/Dezembro de 1996 - Pág. 13 - ISSN 0104-2386

Abstract of AO Number 74 - P.13 - November/December 1996

 

 

OBSERVAÇÕES SOBRE NINHOS E OVOS DE ALGUMAS AVES EM MINAS GERAIS.

Marco Antônio de Andrade - Belo Horizonte - MG

 

A primavera e o verão são duas estações climáticas de grande importância para as aves, pois compreendem o período de nidificação da maioria das espécies de aves. É nesta ocasião que as aves estão em plena atividade, emitem seus diversos tipos de vozes (cantos, pios, chamados, alarmes), defendem o seu território, podem ser melhor visualizadas e exibem colorações mais atraentes nas plumagens (Andrade 1993). Neste período, são observados movimentos de cortejos, danças e acasalamentos, bonitos de serem apreciados e até mesmo filmados. Além disso, a vegetação encontra-se mais verde e florida, as chuvas estão presentes (pelo menos na região Sudeste do país) e, conseqüentemente, aumenta a disponibilidade de uma importante fonte alimentar para as aves: os insetos. Este período é, sem dúvida, fascinante para as pessoas que querem desenhar, fotografar ou filmar ninhos, gravar os vários tipos de cantos das aves, realizar estudos sobre comportamento reprodutivo ou sobre o desenvolvimento de filhotes, descrever ninhos e ovos ainda desconhecidos etc. (Andrade 1995).

Os ninhos podem ser encontrados em uma enorme variedade de ambientes, seja sobre o solo, sobre a água, na vegetação aquática, em árvores, arbustos ou moitas, em troncos caídos no chão, em barrancos à beira de estradas (pica-pau-do-campo, joão-bobo), na entrada ou interior de grutas e abrigos rochosos (andorinhões do gênero Streptoprocne), em vasos de jardim (sabiás, corruíra), no oco de um bambu, no telhado (andorinhas) ou chaminé de uma casa (andorinhão-do-temporal), em torres de igrejas antigas (coruja-suindara), em um poste de luz (pardal) ou até mesmo em um transformador de alta voltagem. Os ninhos apresentam, em geral, formas e padrões variados, dependendo da espécie ou família a que pertence. Alguns são bem simples e outros exibem uma construção bem complexa.

Dando prosseguimento aos estudos sobre comportamento reprodutivo e observações sobre a nidificação de aves no Estado de Minas Gerais, iniciado já a alguns anos, apresentaremos a seguir dados sobre ninhos e ovos de algumas espécies. Estas observações foram feitas entre os meses de setembro e novembro de 1996, nas seguintes localidades: 1) Condomínio Nossa Fazenda, município de Esmeraldas, a cerca de 35 Km ao norte de Belo Horizonte, em ambiente sob domínio do cerrado, matas secundárias e de atuação antrópica; 2) Parque Estadual do Ibitipoca, município de Lima Duarte, a cerca de 300 Km ao sul de Belo Horizonte, em campo rupestre; 3) Vele do Matutu, município de Aiuruoca, a cerca de 385 Km ao sul de Belo Horizonte, em área de mata atlântica, bosques de araucária e campos de altitude; 4) município de Mariana, a cerca de 120 Km a sudeste de Belo Horizonte. A ordem evolutiva e sistemática das espécies segue Sick (1993).

 

Falcão-de-coleira (Falco femoralis) - Família Falconidae

 

Em 10 de setembro de 1996 foi encontrado um ninho deste falcão no município de Mariana, em área sob o domínio de mata atlântica e campos rupestres, a cerca de 1.000 m de altitude. O ninho era aberto, no formato de uma plataforma com cerca de 35 cm de diâmetro e 20 cm de altura, construído com fortes gravetos secos e bem trançados. Estava localizado no alto de um poste de madeira, de eletrificação rural, a cerca de 6 metros do solo, em área aberta. Uma das laterais estava apoiada e trançada em um cabo de aço que passava pelo poste. Apenas um indivíduo (sexo indeterminado) foi observado deitado no ninho, provavelmente incubando os ovos. Segundo M. de la Peña (1992), o Falcão-de-coleira põe de 2 a 3 ovos elípticos de coloração ocre manchados com pintas castanhas por toda a superfície. Höfling & Camargo (1993), mencionam que o casal constrói um ninho de gravetos no alto de uma árvore e que os ovos medem 40-48 x 31-36 mm. Em Minas Gerais, Falco femoralis já foi observado caçando insetos, cobras e pequenos roedores no cerrado e áreas campestres. Pode ser observado sobrevoando áreas urbanas como em Belo Horizonte e São Paulo.

 

Curiango (Nyctidromus albicollis) - Família Caprimulgidae

Foto 1: Curiango, Nyctidromus albicollis, incubando os ovos durante o dia. Vale do Matutu, Aiuruoca. Foto de M.A. Andrade.

Foto 2: Ninho de Nyctidromus albicollis no solo, com dois ovos camuflados entre folhas secas. Foto de M.A. Andrade.

 

Em 27 de setembro de 1996 foi encontrado um ninho deste Curiango, durante o dia, na região denominada Vale do Matutu, município de Aiuruoca, na borda de uma capoeira, a 1.230 m de altitude. O ninho estava localizado no solo, próximo à uma trilha onde transitavam pessoas, cavalos e burros. No ninho havia um indivíduo incubando dois ovos de coloração rosa-pêssego, salpicado com pintas amarronzadas por toda a superfície. Estavam camuflados entre folhas secas semelhantes à plumagem de Nyctidromus albicollis e também à coloração dos ovos (ver foto). Um ovo pesou 8g e o outro 7,5g. Durante o dia o Curiango permaneceu incubando os ovos e no crepúsculo saiu para caçar insetos. Foram fotografados os ovos e o Curiango adulto deitado no ninho. Não foi possível acompanhar a eclosão dos ovos e o desenvolvimento dos filhotes. A nidificação desta espécie já era conhecida pela ciência, tendo sido estudada, por exemplo, por H. Alvarenga (1996) e M. Vasconcelos et al (1996). Os hábitos reprodutivos de Nyctidromus albicollis foram observados por Alvarenga, no município de Taubaté (SP), nos anos de 1966 e 1967, em um bambuzal, onde encontrou dois ovos medindo 31-32 x 21,5-22 mm. Vasconcelos acompanhou duas nidificações (uma com 1 ovo e outra com 2 ovos) na Estação Ecológica da UFMG, em Belo Horizonte, durante o segundo semestre de 1994. Segundo Höfling & Camargo (1993), a incubação dura de 16 a 19 dias e à noite ela é realizada pela fêmea e durante o dia pelo casal.

 

Pica-pau-do-campo (Colaptes campestris) - Família Picidae

 

Em 15 de novembro de 1996 um indivíduo foi observado saindo do interior de um buraco em um barranco situado à beira de uma estrada de terra, nas proximidades do Parque Estadual do Ibitipoca, município de Lima Duarte. A entrada do buraco estava bem mexida e com rastros de unhas. O diâmetro da abertura da cavidade no barranco tinha cerca de 13 x 15 cm. O Pica-pau-do-campo nidifica também em cupinzeiros no meio do pasto e em cavidades nos troncos de árvores. Põe de 3 a 5 ovos brancos. Os filhotes são alimentados com larvas de insetos. Colaptes campestris vive em áreas abertas, no cerrado, na caatinga e campos no alto de serras.

 

Grimpeiro (Leptasthenura setaria) - Família Furnariidae

 

Em 28 de setembro de 1996 foi encontrado um ninho do Grimpeiro na região do Vale do Matutu, município de Aiuruoca, em área de mata atlântica e bosques de araucárias, a 1.250 m de altitude. O ninho, localizado próximo à extremidade de um galho do Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia), a cerca de 7 metros do solo, apresentava o formato esférico e fechado. Um indivíduo foi observado levando material para o ninho (parecia uma raiz). Devido às dificuldades de acesso ao ninho, não foi possível tomar medidas e nem examinar o material utilizado para a confecção e acabamento do ninho. Leptasthenura setaria é um pássaro comum neste local, onde vive associado quase que exclusivamente ao Pinheiro-do-Paraná, entre 1.200 e 1.400 m de altitude. Segundo M. de la Peña (1988), o ninho de L. setaria ainda não foi descrito com detalhes e seus ovos são brancos. Belton (1994), menciona ter observado um indivíduo carregando musgos fibrosos para um ninho em construção na parte mais alta de um pompom de araucária, no Rio Grande do Sul. Este ninho era fechado, pequeno e redondo, com um diâmetro de até 8 cm. O Grimpeiro está constantemente em atividade, procurando alimento debaixo da casca do tronco e galhos, e entre as folhas espinhentas da araucária, movendo-se tanto na parte superior quanto na inferior de galhos horizontais. Vocaliza tanto em vôo quanto pousado nas araucárias.

 

Guaracava-de-barriga-amarela (Elaenia flavogaster) - Família Tyrannidae

 

Um ninho deste Tiranídeo foi encontrado em outubro de 1996, em um sítio no Condomínio Nossa Fazenda, município de Esmeraldas, no alto de uma árvore não identificada, a cerca de 3 metros do solo e à beira de uma estrada. O ninho, fixado em uma forquilha, era em forma de uma pequena tigela aberta revestida com musgos, liquens e raízes. Um indivíduo foi observado incubando os ovos e depois pousado em um galho da árvore. Não foi possível acompanhar o nascimento dos filhotes. Segundo M. de La Peña (1988), Elaenia flavogaster põe dois ovos brancos com pintas castanhas e cinzas.

 

Maria-branca (Xolmis cinerea) - Família Tyrannidae

 

Observada nidificando novamente, pelo terceiro ano consecutivo, no alto de uma Palmeira-imperial, em outubro/novembro de 1996, a cerca de 12 metros de altura do solo, às margens de uma lagoa, no Condomínio Nossa Fazenda. Provavelmente, trata-se do mesmo casal. O ninho era aberto, em forma de uma cesta ou taça, consistindo de um amontoado de gravetos fortes e de tamanho mediano, fixado em uma forquilha, na inserção da folha com o tronco. Macho e fêmea se revezaram na incubação dos ovos e nos cuidados com os filhotes, que foram alimentados com insetos caçados em vôo, num raio de aproximadamente 80 metros de distância do ninho. Ao entardecer, captura cupins alados para alimentar a prole. A Maria-branca voa silenciosamente e com grande habilidade, mostrando o branco visível que tem nas asas. Voa freqüentemente com as pernas pendentes, com os dedos fechados como punho, lembrando uma ave de rapina. Não se afasta de seu território reprodutivo, cujo ninho é o centro das atenções (Andrade 1996). Pousa no alto da folha de Palmeira-imperial, às vezes, junto com outras espécies de Tiranídeos, tais como: Machetornis rixosus e Tyrannus melancholicus. A fêmea põe ovos brancos ou cremes com desenhos escuros variados (Höfling & Camargo 1993).

 

 

Caneleiro-verde (Pachyramphus viridis) - Familia Tyrannidae

 

Observado nidificando novamente no alto de um Pinheiro (Pinus sp), a cerca de 6 m do solo, em novembro de 1996, no jardim arborizado de um sítio, no Condomínio Nossa Fazenda, município de Esmeraldas. O ninho era esférico, em forma de uma bola, com uma única entrada, medindo entre 20 a 25 cm de diâmetro. O material utilizado na construção do ninho constituiu de: raízes e fibras vegetais, folhas e capins secos, algumas penas na entrada, paina da árvore Paineira (Chorisia speciosa - Familia Bombacaceae) e outros materiais não identificados. Vocalizam bem próximo ao ninho e defendem seu território contra intrusos. O macho foi visto caçando insetos nas proximidades do ninho.

 

Andorinha-morena (Alopochelidon fucata) - Família Hirundinidae

 

Em 28 de setembro de 1996 foi encontrado um ninho da Andorinha-morena no Vale do Matutu, município de Aiuruoca, em área campestre, a cerca de 1.280 m de altitude. O ninho estava localizado na cavidade de um barranco, à beira de uma trilha, a 1 metro do solo. Tinha cerca de 46 cm de profundidade na horizontal e 8,5 x 7,5 cm de diâmetro na entrada do ninho. O casal foi observado levando material (pequenos e finos ramos) para o interior da cavidade. Outros indivíduos voavam no local e caçavam cupins. Sick (1985), menciona ser desconhecido o ninho desta espécie de andorinha, que pode ser numerosa no Brasil central. Porém, Belton (1994) menciona ter encontrado um ninho em 1972, no Rio Grande do Sul, cuja câmara era relativamente grande, revestida com capim e penas, no final de um túnel com 1,3 m de comprimento. Nele haviam três ninhegos com pesos variando de 15,5 a 16,5g. Na primavera e verão a Andorinha-morena surge em pequenos grupos em áreas abertas do Vale do Matutu, devendo desaparecer da região ou diminuir sua população no inverno.

 

Bico-de-veludo (Schistochlamys ruficapillus) - Família Emberizidae, Subfamilia Thraupinae

 

No dia 16 de novembro de 1996 foi encontrado um ninho de Bico-de-veludo no Parque Estadual do Ibitipoca, na borda de uma capoeira com vegetação rupestre, à beira de um caminho onde transitavam pessoas e carros, a cerca de 1.320 m de altitude. O ninho estava fixado em uma forquilha de um pequeno arbusto, rodeado por uma moita de capim gordura, a cerca de 60 cm do solo. Tinha a forma de uma pequena tigela aberta, trançada com folhas secas de capim gordura e finos gravetos. O ninho apresentou as seguintes medidas: diâmetro externo = 11 x 13 cm; diâmetro interno = 6,5 x 7,5 cm; profundidade = 6,5 cm. O diâmetro da moita que envolvia o ninho era de aproximadamente 1 metro. O ninho estava em construção, em fase de acabamento final. Um indivíduo foi observado duas vezes levando material para o ninho.

 

Sanhaço-do-coqueiro (Thraupis palmarum) - Família Emberizidae, Subfamilia Thraupinae:

 

Observado nidificando novamente, pelo segundo ano consecutivo, no alto de uma Palmeira-imperial, a cerca de 8 m do solo, à beira de uma lagoa, em outubro/novembro de 1996, no Condomínio Nossa Fazenda, em Esmeraldas. O ninho estava localizado na inserção da folha com o tronco (na bainha foliar), era aberto e tinha a forma de uma pequena tigela. Devido à difícil localização do ninho, não foi possível ver os ovos e acompanhar o desenvolvimento dos filhotes. Segundo Höfling & Camargo (1993), põe em geral 2 ovos de coloração creme esbranquiçada, com manchas cinzas, pardas ou negras, sendo incubados durante 14 dias. Esta espécie está associada à presença de palmeiras e coqueiros, local preferido para pousar e cantar. Seu canto é esganiçado, agudo e metálico, podendo ser escutado à distância. Sua voz é bem mais forte do que a de Thraupis sayaca (Andrade 1996).

 

 

AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha esposa bióloga Márcia V.G. Andrade pela participação em algumas saídas de campo; aos sócios do Clube de Observadores de Aves - COA de Belo Horizonte, que colaboraram em observações de campo no Vale do Matutu e Parque do Ibitipoca, especialmente os amigos Ricardo Gontijo, Patrícia, Maurício Andrade, Helena, Rosalba, Lótus e Wilmer; aos Diretores do Parque Estadual do Ibitipoca, Rita e Paulo; e à Adriana Ferreira pela hospitalidade, incentivo e apoio durante os estudos realizados no Vale do Matutu.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Alvarenga, H.M.F. 1996. Sobre os hábitos de reprodução do Curiango Nyctidromus albicollis (Gmelin,1789). IN: Congresso Brasileiro de Ornitologia, 5º, Campinas, SP. Resumos... UNICAMP. p.5

Andrade, M.A. 1993.A Vida das Aves. Belo Horizonte: Editora Líttera Maciel. 160 p.

Andrade, M.A. 1996. Observações sobre ninhos e comportamentos reprodutivos de algumas aves em Minas Gerais. Atualidades Ornitológicas, (68): 6, nov/dez.

Belton, W. 1994.Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia. São Leopoldo: Ed. UNISINOS.

De La Peña, M. 1988. Guia de Aves Argentinas: Passeriformes. Buenos Aires: LOLA.

De La Peña, M. 1992. Guia de Aves Argentinas. 2ª Edição, Tomo II (inclui ninhos e ovos). Buenos Aires: LOLA.

Höfling, E. & Camargo, H.F.A. 1993. Aves no Campus. São Paulo: Instituto de Biociências da Universidade Federal de São Paulo. 126 p.

Sick, H. 1985. Ornitologia Brasileira: uma introdução. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Vol. 2

Sick, H. 1993. Birds in Brazil: a Natural History. Princeton University Press. 705 p.

Vasconcelos, M.F.; Figueiredo, C.C. & Carvalho, H.A. 1996. Acompanhamento de duas nidificações de Nyctidromus albicollis na Estação Ecológica da UFMG, Belo Horizonte, MG. IN: Congresso Brasileiro de Ornitologia, 5º, Campinas, SP. Resumos... UNICAMP. p.123

 

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