Resumo da Edição Número 75- JANEIRO/FEVEREIRO de 1997 - Pág.5- ISSN 0104-2386

Abstract of AO Number 75 - January/February 1997 - P.5

 

O necessário pacto entre os preservacionistas e os criadores de aves silvestres

Luiz Fernando de A. Figueiredo - São Paulo-SP

Em janeiro de 1986 foi lançado o primeiro número do Boletim CEO, editado pelo Centro de Estudos Ornitológicos, cujo Editorial, por mim escrito, teve como título "A avifauna e os criadores de aves silvestres". Hoje, após 11 anos, percebo que as mesmas motivações para ter escrito aquele, ainda motivam escrever este artigo.

Naquele, lembrava que "os criadores de aves silvestres têm em comum com os observadores de aves, entre estes os ornitólogos, o fato de serem admiradores e amantes das aves". Admitia que "os criadores podem fornecer dados sobre diversos aspectos da biologia de algumas aves. A ave numa gaiola ou viveiro é acessível a uma fácil observação, como num laboratório" e que "no campo da conservação da avifauna a grande contribuição dos criadores é a reprodução de espécies ameaçadas de extinção". Por outro lado, trazia à discussão alguns possíveis aspectos negativos desta prática, considerando que "uma ave silvestre em cativeiro, a não ser que tenha nascido em cativeiro, é um flagrante de uma contravenção penal, já que é prova de que foi capturada ou comprada de algum vendedor". Lembrava ainda que "se fosse respeitada universalmente a ética de não se comprar animais silvestres ou produtos decorrentes de sua caça, estes traficantes estariam fatalmente falidos". Comentei ainda o fato de que a principal ameaça à extinção das espécies era a destruição dos hábitats destas, sem a preocupação de manter reservas adequadamente protegidas, representativas destes hábitats. Considerei ainda que o problema da extinção não era apenas o da extinção da espécie na biosfera como um todo, mas também as extinções locais. E, por fim, comentei que a observação de aves era uma alternativa para os amantes das aves à sua manutenção em cativeiro.

Hoje é fácil perceber que este assunto continua dando margem a muitas reflexões. Duas das criações bem sucedidas de aves silvestres são a de bicudos e curiós. Isto porque estas aves despertaram sempre um grande interesse dos passarinheiros. Entretanto não mais tenho tido a oportunidade de ver curiós em muitas várzeas onde os vi quando criança, bicudos muito menos ainda, pois já naquela época eram raros nestes lugares. Concordo plenamente que sua criação em cativeiro é uma garantia da salvação pelo menos de seus genomas, mas não seria muito melhor tê-los ainda nas várzeas, enriquecendo sua biodiversidade? Até que ponto sua extensa extinção em milhares de localidades não foi decorrência do desejo de tê-los engaiolados?

Continuo apoiando o desenvolvimento das técnicas de criação e reprodução em cativeiro como de fundamental importância para o salvamento de muitas espécies. Cyanopsitta spixii é certamente o melhor exemplo. A salvação de seu genótipo e quem sabe um dia o consigamos, a possibilidade de reintroduzí-la em seu hábitat natural, está integralmente nas mãos dos criadores que detêm os últimos exemplares vivos. Mas, volta a provocação de uma reflexão: não fosse exatamente este desejo de tê-las em cativeiro, será que ainda não existiriam populações viáveis em libnerdade, a despeito de todas as agressões ao hábitat?

Argumenta-se que, criando-se as espécies em cativeiro e colocando-as no mercado, desestimula-se sua procura na natureza, onde sobreviverão em paz. Por um lado isto é até meio óbvio. Ninguém se preocupará em traficar periquitos australianos da Austrália, quando eles aqui se reproduzem como galinhas. Mas há uma grande falácia e um grande risco nesta proposta. E os fatos comprovam isto. A facilidade de criar bicudos e curiós não impediu sua extinção em milhares de localidades. E a possibilidade de comprar aves de estimação ali na esquina não extinguiu o lucrativo tráfico de animais silvestres, terceiro tráfico em volume de dinheiro mobilizado. Por uma razão muito simples: a demanda não acontece do modo que queremos que ela aconteça, mas sim segundo regras próprias. A ambição humana não se contenta em ter apenas aquelas aves disponíveis no mercado de aves criadas em cativeiro, mas sim exatamente aquelas mais raras, mais caras, menos possuídas. Portanto é extremamente perigoso estimular o gosto pela manutenção de aves silvestres em cativeiro como pets. O tiro sairá pela culatra. Estimular as pessoas a possuírem Amazona aestiva, criada em criadouros comerciais, acabará estimulando também as pessoas a terem outras espécies de Amazona, e outras espécies de animais. Não pretendo que os criadores (me refiro aos não científicos e não conservacionistas) deixem de ter o direito e o gosto por esta prática. Vivemos numa democracia, à qual sou totalmente favorável. Um criador certa vez me fez uma confissão que considero de total franqueza e altamente esclarecedora: "isto é minha cocaína". Mas julgo incorreto e insensato qualquer tipo de estímulo da comunidade à manutenção de aves em cativeiro apenas como animais de estimação (enfeite, canto etc.) simplesmente pelo fato de que não existe nenhum objetivo científico ou preservacionista nisto. O único objetivo que pode haver é o comercial. E neste caso defendo o princípio ético de que este tipo de exploração econômica da natureza não deve ser estimulada. Lugar de animal silvestre é na natureza!

No ano passado promovemos um debate em uma das reuniões do Centro de Estudos Ornitológicos com o tema: "A importância da criação de aves silvestres em cativeiro como estratégia de preservação". Convidamos diversos criadores de aves para o encontro. Apenas dois compareceram. Diversas vezes já ouvi comentários de que muitos criadores de aves, cadastrados como criadores científicos ou conservacionistas usam estas criações como pontos de tráfico. É uma acusação séria. Um jornal ambientalista publicou recentemente matéria em que uma ONG carioca levantava esta mesma dúvida com relação a alguns criadores daquele Estado. Pode ser um crime de difamação e calúnia. Mas também pode ser um crime de tráfico de animais silvestres.

Por estes motivos sugiro um pacto entre os preservacionistas e os criadores de aves silvestres: só serão considerados legítimos os criadouros realmente científicos ou preservacionistas. E para que não haja dúvida sobre a idoneidade de cada um, seus proprietários os manterão permanentemente abertos às entidades preservacionistas que os queira fiscalizar. Pode haver restrições. Por exemplo: entidades cadastradas nos Consemas, no IBAMA, no CONAMA, na Rede de ONGs da Mata Atlântica, no PROAONG etc. Aliás isto deveria ser previsto em Lei. Os criadores que mantêm aves silvestres em cativeiro por simples deleite de seus donos serão tolerados, já que no estado atual das tecnologias neste campo, não é recomendável soltar animais já habituados ao cativeiro. Mas não será permitido o comércio de animais silvestres, nacionais ou estrangeiros (exceto aqueles que já têm status de domésticos e que não são animais em perigo na natureza). E também não será permitido qualquer forma de estímulo da sociedade, especialmente dos jovens, à manutenção de animais silvestres em cativeiro como animais de estimação.

Se for possível aos criadores aceitarem todas estas cláusulas, tenho certeza que será possível comemorar-se um pacto. Caso contrário, voltaremos ao assunto daqui a onze anos.

São Paulo, 4 de fevereiro de 1997.

 

 

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Última modificação (Last modified): novembro 11, 2012