Edição Número 77- MAIO/JUNHO de 1997 - Pág. 12 - ISSN 0104-2386

AO Number 77 - Maio/Abril 1997 - P.12

 

Os ovos das aves: aspecto, cor e dimensões

Alberto Masi – Itália

O aspecto da casca

A maior parte dos ovos, na maioria das espécies de aves, ao tato é rugosa ou ligeiramente granulosa; a casca tem aspecto rígido. À vista aparecem todas porosas. Segundo a espécie se apresentam opacas, brilhantes, lúcidas, semi-lúcidas ou farinosa e como gesso sem poro com ou sem riscos e aranhões. Ainda não é conhecida como acontece a disposição da pontuação ou riscos sobre a superfície da casca naquelas espécies que a apresentam disposta "em coroa" em volta do pólo obtuso. De certo se sabe que cada espécie apresenta as mesmas cores, as mesmas manchas e que em cada ninhada e sobre cada ovo são diferentes. Algumas espécies a apresentam muito cheias, outras com menos, outras ainda esparsas muito irregularmente. Em uma tentativa podemos resumir a variedade das cores dos ovos de ave como segue, como exemplo: Ovo de cor uniforme. Ovo manchado; maculado, pontuado, rabiscado, assinalado com estrias marcadas ou leves. Ovo coberto camada de gesso.

Ovo de cor uniforme

Branco, esbranquiçado ou creme

Azul ou cinza-azulado

Verde, esverdeado ou verde-oliva

Azul, azul-intenso

Vermelho, avermelhado, ruivo-oliva, róseo

Achocolatado, vermelho-tijolo, vermelho-sangue

Negro

Ovo manchado

Manchado, pontuado, salpicado, marcado de estrias leves ou fortes

Branco, esbranquiçado ou creme (marcado de vermelho, canela, marrom, negro ou cinza)

Creme, amarelo ou camurça (marcado de vermelho, canela, marrom, negro ou cinza)

Azul ou cinza-azulado (marcado de vermelho, canela, marrom, negro ou cinza)

Verde oliva (marcado de negro ou cinza escuro ou cinza)

Oliva escuro (marcado de negro ou cinza escuro ou cinza)

Esverdeado (marcado de vermelho, canela, verde-escuro, oliva-marrom, oliva-escuro, negro ou cinza)

Purpurina (marcado de vermelho, vermelho-escuro, marrom, negro, cinza-escuro ou cinza)

Camurça escuro intenso (marcado de marrom, negro ou cinza)

Ovo coberto por camada de gesso:

Disposto em modo

uniforme

parcial

estriado de cor branca

reticulado

 

parcial

reticulado de cor amarela

Parcialmente:

Estriado e reticulado durante a incubação assume cor diferente

A cor do ovo

A cor do ovo constitui uma adaptação genética útil à sobrevivência da ave. Desenvolve uma função mimética harmonizando-se com o ambiente circunstante possuindo a característica da função biológica para o valor utilitário e evolutivo do caracter hereditário, sem valor taxonômico, em relação ao modo de vida e de nidificação. A cor é devida a pigmentos, substâncias compostas de especiais estruturas químicas provenientes dos alimentos e dependentes do sistema endócrino sob o influxo da tireóide, depositados em parte sobre a camada externa da casca (cutícula) e em parte na casca, a nível do útero. Os pigmentos – por sua vez – proveriam da degeneração dos glóbulos vermelhos entre a parede do trato genital, estrato epitelial da mucosa, contidos entre órgãos efetores especializados. Os pigmentos mais importantes são: Melaninas, Homocrômios, Carotenóides. As melaninas são pouco solúveis e provêm dos alimentos que introduzem no organismo substâncias compostas, formadas de proteínas, pertencentes ao grupo dos aminoácidos benzênicos derivados da tirosina (derivam dos hormônios da glândula tireóide) por oxidação e por parte de algumas enzimas. Originam coloração negra, cinza e tonalidade marrom. Os homocrômios derivam do metabolismo (aminoácido triptófano) por excreção, e originam coloração marrom-escuro. Os carotenóides solúveis nas gorduras retiradas da alimentação, além de fornecerem a xantofila contendo oxigênio, produzem todas as cores amarela, alaranjada, marrom e violeta. Para coloração participam além disso dois corantes de base, pertencentes a dois grupos químicos: porfirina e cianina. A porfirina, derivada da hemoglobina, contribui para a formação de marcas com coloração vermelha, marrom e negra (ooporfirina). A cianina, derivada de pigmentos biliares, contribui na formação dos tons azuis e verdes (oocianina, bilirrubina). Às vezes contribuem também ácidos húmicos provenientes do terreno ou da decomposição de vegetais em putrefação, que provocam coloração amarronzada. As cores que podem ser produtos cobrem uma gama muito vasta e sua distribuição é devida a hormônios ou a ações nervosas ou a uma combinação de mais fatores (1).

(1) O mecanismo de distribuição é pelos pesquisadores ainda muito debatido, todavia recentes pesquisas parecem demonstrar que o movimento dos pigmentos seja provocado pelos gradientes de potencialidade elétrica que criam na célula e que fazem movem os grânulos de pigmentos carregados negativamente.

Eu uma célula pode-se encontrar mais de uma cor e várias cores podem difundir-se independentemente ou por somatória. Por somatória, nos Pelicanos e nos Phenicopterus, a gema do ovo é de cor vermelha.

Por oxidação de algumas enzimas, o ovo na perdiz-chilena Nothoprocta perdicaria, da América meridional, liso e resplandente como porcelana, de cor uniforme e vivaz vermelho-sangue (penas ao se posto) torna-se de cor negra intensa no curso da incubação. Pela decomposição das plantas aquáticas em putrefação, nos podicipediformes, os ovos que na deposição são brancos ou branco-azulados, lisos e não-brilhantes, assumem uma coloração marrom com marcas esparsas marrom-escuro, tornando-se calcáreas. Nos fetondídeos se manifesta ao contrário. Na deposição o único ovo tem uma coloração vermelha ou marrom; no curso da incubação, pela umidade ou em seguida ao contato com o corpo da ave, depois de bolhado, gradualmente vai assumindo uma coloração branca pela solubilidade do pigmenta na água. Uma particular coloração se observa na membrana interna dos ovos nos ciconídeos e em alguns alcides (o fenômeno se manifesta pelo excesso de pigmentos biliares não solúveis). A cegonha branca põe ovos com a membrana interna de cor amarela; a cegonha negra com a membrana interna de cor verde. A arau-negra com a membrana interna de cor verde; a garça marinha com a membrana interna de cor esverdeada. Distúrbios na produção, distribuição (degradação) e formação dos pigmentos criam ovos polimorfos, de cor diferente na mesma ninhada. Exemplo conhecido é aquele do rabirruivo-algerino (Phoenicurus moussieri) que na mesma ninhada põe ovos brancos e azuis.

O pássaro alfaiate (Orthotomus sutorius) põe na mesma ninhada, normalmente composta de quatro ovos, ovos de cor branca, de cor verde, de cor rosa manchado de vermelho claro e com pontos de violeta e negro, e ovos de cor esverdeada tendente ao azul.

Do ponto de vista biológico as colorações mais importantes são aquelas que constituem uma adaptação ao ambiente (mimetismo do ambiente). Tais colorações são chamadas crípticas e disruptivas.

Colorações crípticas: os meios pelos quais se valem os animais para protegerem-se dos inimigos utilizando a cor ou a forma do próprio corpo ou causando mudanças da própria cor para adaptar-se a um particular substrato.

Colorações disruptivas: os desenhos bem evidentes e geralmente irregulares que distraem a atenção do contorno rela tornando muito difícil o reconhecimento do ambiente circunstante.

Ambas "as colorações" por mimetismo são usadas pelas aves menos que nas espécies nidificantes em grandes colônias, já que a defesa da ninhada é assegurada pela coletividade inteira.

O agachar-se sobre os ovos pode ser considerado um exemplo de coloração críptica (com várias exceções).

A ave mimetiza o local do ninho com a cor e a forma do corpo. As aves nidificantes em terrenos, como as ave-frias (Vanellus vanellus) e os maçaricos-reais Numenius arquata (e todos os outros), fornecem um exemplo de coloração disruptiva. Pões ovos sombreados de marrom e verde-oliva manchados de avermelhado dificilmente distinguíveis do irregular substrato sobre o qual jazem.

Uma característica da coloração é a mancha na formação da qual contribui a protoporfirina.

Examinando a casca de um ovo manchado, podemos notar que algumas marcas são superficiais com coloração viva; outras aparecem profundas, penetrantes, como coloração menos forte. As primeiras são definidas máculas superficiais, as segundas máculas profundas. Em muitos casos, as máculas superficiais cobrem parcialmente aquelas profundas; poderia ser a prova que o corante se deposita por camadas à proporção que ocorre a formação da casca. A cor e as manchas dos ovos geralmente são uma característica da espécie apresentando diversidade e variedade notáveis, de um indivíduo para outro, devidas a causas externas do ambiente ou a particularidades intrínsecas à constituição da espécie que a apresenta também no número das marcas coloridas pela sua disposição sobre ovos da mesma ninhada. Os ovos de gaivota e de arau o demostram completamente; quem já pôde ver uma coleção oológica destas espécies deve ter ficado confuso ao constatar a diversidade e a incrível variedade das colorações de base e das marcações. Segundo o estudioso Beat Tschantz, da Universidade de Berna, a diversidade e variedade, encontradas em indivíduos diversos pertencentes à mesma espécie, constituem um meio para reconhecer o próprio ovo (referindo ao arau-comum, Uria aalge).

Fenômenos ainda inexplicáveis (a parte a teoria adaptamental) são aqueles relativos à deposição de ovos diferentes na coloração em alguns Cucos parasitas. O cuco-oriental Cuculus saturatus põe ovos brancos pontilhados de marrom, parasitando o fuinha-dos-juncos Cisticola juncidis e põe ovos brancos, sem pontilhados, quando parasita os "liù" no Himalaia ocidental; no Japão, parasitando os "Rosignoli di macchia" (espécie do gênero Luscinia), põe ovos de cor achocolatada.

O cuco-jacobino (Clamator jacobinus), do gênero Clamator, tanto aquele da África norte-oriental como aquele da Índia setentrional, é indestinguível, perfeitamente idêntico a espécie africana põe ovos brancos, a espécie indiana põe ovos azul-esverdeados.

Os ovos das aves, não obstante as diferenças notáveis de especialização, as vezes são bem difíceis de distinguir, como no caso da rola-turca e do mocho-pequeno (Glaucidium passerinum). Estas espécies põe ovos semelhantes pela forma, com e tamanho médio (ovos brancos, lisos, Ovais-curtos, 29 x 23 mm). Diferenciam-se um pouco no peso: rola-turca 8,5 g – mocho-pequeno 9,0 g (valores médios).

A evolução tem produzido uma grande variedade de cores nos ovos das aves. Nos primórdios acha-se que fossem de cor branca, como os ovos dos répteis. Querendo-se manter um paralelo ave-répteis, procurando-se uma explicação, podemos dizer que os ovos das aves de coloração branca foram mantidos naquelas espécies que nidificam em moitas ou que antes de abandonar o ninho cobrem os ovos, como os répteis. Enquanto as espécies nidificantes ao aberto apresentam ovos de diversas cores com várias pigmentações. Existem exceções presentes nas ratitas, pelicanos, paínhos e albatroses que põem ovos brancos ou esbranquiçados e nidificam em aberto.

Dimensões dos ovos

Usa-se classificar os ovos das aves em: pequenos, médios e grandes, ou curtos, normais e compridos.

Considerando-se o comprimento podem ser:

Curtos: de 10 a 40 mm de comprimento

Normais: de 40 a 70 mm

Longos: acima de 70 mm.

Em cada espécie os ovos das aves são surpreendentemente constantes nas dimensões médias (comprimento x largura) e ligeiramente variável no peso. As dimensões variam em função da nutrição havida e àquela que pertence a ave: aves grandes põem ovos grandes, com mais nutrientes. Com exceções: o ovo do kiwi é maior que o do pelicano embora o kiwi seja da metade do pelicano.

O conteúdo pode refletir o grau de cuidado que recebem os filhotes: aves nidífugas põe ovos maiores que as nidícolas e os ovos destas últimas contém menos gema que aqueles das nidífugas. Em percentual, a gema das aves nidífugas representa 40% do peso total do ovo; nas aves nidícolas somente 18 a 20%. Em algumas nidífugas o ovo é maior também se o tamanho da ave que o tem posto é igual a outro de espécie nidícola (gênero Charadrius - Turdus ).

os "Rosignoli di macchia" (espécie do gênero Luscinia). Comparando duas espécies de peso idêntico, por exemplo a narceja-comum Gallinago gallinago e o tordo-zonal Turdus pilaris, ambos pesam cerca de 150 gr, se compreende a diversidade pensando nas diferenças existentes entre as duas espécies ao abrir: o ovo da narceja-comum pesa cerca de 18 gr, enquanto aquele do tordo-zonal pesa somente 8 gr. Entre os ovos das aves que ora vivem o menor é o do beija-flor Lophornis ornata, pesando menos de 0,25 gr e medindo em média 10,5 a 6,5 mm. Os mais volumosos são aqueles do avestruz Struthio camelus, pesando cerca 1,600 kg e medindo em média 160 x 138 mm. Para as espécies que nidificam na Itália, o menor é aquele da estrelinha-de-poupa Regulus regulus, com 0,71gr e medindo12,2 x 10,0 mm; o maior é o do cisne-real Cygnus olor, com 342gr, medindo 115 x 75 mm. O maior ovo que já existiu e que se conhece é o do fóssil Aepyornis de Madagascar: pesava 12 kg, media 37,5 cm de comprimento e tinha uma capacidade de cerca de 9 litros.

No volume, o ovo não tem relação com o tamanho ou com o peso da ave. Existem variações consideráveis.

Num mesmo grupo, o ovo é proporcionalmente mais pesado nas espécies menores:

- 6% de peso total no albatros

- 15% no fulmar

- 22% na paínho-de-cauda-quadrada

é mais leve nas espécies maiores:

 

- 1,7 % do peso total no avestruz

- 2,4 % do peso total na águia-rabalva

- 13,0% do peso total na carriça (Troglodytes troglodytes)

Tradução: PSF

Alberto Masi, 1997

 

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Última modificação (Last modified): novembro 12, 2012