Edição Número 79- SETEMBRO/OUTUBRO de 1997 - Pág. 9 -ISSN 0104-2386

AO Number 79 - September/October 1997 - P.9

 

Certhiaxis cinnamomea como hospedeiro de Molothrus bonariensis no sul do Brasil.

Rafael A. Dias 1 e Giovanni N. Maurício 2 – Pelotas-RS

O conhecimento do espectro de hospedeiros de um parasita é um pré-requisito básico em estudos de parasitismo. No Brasil, segundo Sick (1997), são conhecidas 58 espécies de Passeriformes em cujos ninhos foram encontrados ovos de Molothrus bonariensis ou que foram observados alimentando filhotes do referido parasita. Em toda a área de ocorrência de M. bonariensis, Friedmann e Kiff (1985) arrolam 201 espécies nestas condições. Sick (1997) conclui que futuras observações certamente ampliariam a lista de hospedeiros no Brasil, que não inclui Certhiaxis cinnamomea, furnarídeo paludícola de ampla distribuição na América do Sul e um dos principais hospedeiros do cuculídeo Tapera naevia. Friedmann (1963) inclui a forma típica de C. cinnamomea na relação de espécies atingidas por M. bonariensis minimus, nome atribuído, segundo Pinto (1944), à populações deste icteríneo encontradas na porção setentrional da América do Sul, incluindo o extremo norte do Brasil. Babarskas e López Lanús (1993) mencionam dois ninhos do referido furnarídeo contendo ovos, e outro um filhote de M. bonariensis, na província de Buenos Aires, Argentina. Abaixo, relatamos observações a respeito de um caso de parasitismo de M. bonariensis em C. cinnamomea no sul do Rio Grande do Sul.

No dia 14 de janeiro de 1994, no banhado do Pontal da Barra (31o47’S, 52o14’W), município de Pelotas, Rio Grande do Sul, encontramos, em uma área de banhado raso, próxima a um capão de mata palustre, um ninho de C. cinnamomea, construído na base de uma touceira de Scirpus californicus (Cyperaceae). A extremidade inferior do ninho situava-se a cerca de 15 cm de altura em relação à lâmina d’água. Um exame mais cuidadoso revelou a presença de quatro ovos brancos no interior do ninho. Em uma nova observação, dia 21 de janeiro de 1994, constatamos a existência de um ovo adicional, identificado como pertencente a M. bonariensis. Este ovo apresentava formato oval, de colorido creme, pontilhado de preto. Iniciamos, então, o acompanhamento das atividades de C. cinnamomea, totalizando, aproximadamente, 12 horas de observações, durante 10 dias, em horários alternados (manhã/tarde). A fim de verificar o desenvolvimento de ovos e ninhegos, rápidas e cuidadosas observações foram realizadas através do orifício de entrada do ninho. O ovo do parasita eclodiu em 24 de janeiro de 1994, dois dias antes da primeira eclosão dos ovos do hospedeiro. Sick (1997) afirma ser de 10 a 11 dias o período de incubação de ovos de M. bonariensis em ninho de Zonotrichia capensis. Considerando tal informação, concluímos que a postura do ovo do parasita deu-se na tarde ou noite de 15 de janeiro de 1994, tendo em vista termos visitado o ninho nesta data, pela manhã, e não registrado nenhuma anormalidade. Os outros 3 ovos do hospedeiro não tiveram sua incubação concluída. O grande tamanho do filhote do parasita (aproximadamente o dobro de seu pseudo-irmão) não permitiu visualizar se os ovos perderam-se no fundo do ninho ou se foram retirados pelos pais. As atividades diárias do casal de hospedeiros relacionavam-se principalmente com a alimentação dos ninhegos, além de reparos no ninho e higiene do mesmo. No dia 07 de fevereiro de 1994, após um período de quatro dias sem observações, foi constatada a morte de ambos os ninhegos, por razões desconhecidas, e o conseqüente abandono do ninho por parte dos pais.

É necessário determinar o grau e a freqüência com que espécies de hospedeiros são parasitadas e apurar se a criação do parasita tem êxito ou não (Friedmann 1963). Considerando os poucos registros de parasitismo de M. bonariensis em C. cinnamomea e o fato de não termos registrado adultos deste último cevando filhotes do primeiro, durante aproximadamente dez anos de observação em áreas palustres da região (onde ambos são comuns), acreditamos que o icteríneo apenas excepcionalmente deposita seus ovos no ninho do furnarídeo.

 

AGRADECIMENTOS

Somos gratos a José Fernando Pacheco pelas sugestões ao manuscrito, fornecimento de bibliografia e constante apoio. Também agradecemos a Juan Mazar Barnett e Rosendo Fraga por seu inestimável auxílio na obtenção de informações da Argentina.

REFERÊNCIAS

Babarskas, M. e López Lanús, B. (1993) Nidos nuevos o poco conocidos para la provincia de Buenos Aires. Nuestras Aves 28: 27-28.

Friedmann, H. (1963) Host relations of the parasitic cowbirds. Bull. U. S. Nat. Mus. 233: 1-276.

Friedmann, H. e L. F. Kiff (1985) The parasitic cowbirds and their hosts. Proc. West. Found. Vertebr. Zool. 2: 225-304.

Pinto, O. M. de O. (1944) Catálogo das aves do Brasil, 2a parte. São Paulo: Departamento de Zoologia, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.

Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

 

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Última modificação (Last modified): novembro 13, 2012