Edição Número 80 - NOVEMBRO/DEZEMBRO de 1997 - Pág. 10 -ISSN 0104-2386

AO Number 80 - November/December 1997 - P.10

 

HÁBITOS ALIMENTARES DE Tyto alba tuidara (GRAY,1829) NA REGIÃO DE INDAIATUBA - SÃO PAULO, BRASIL.

Fábio da Silva Bergamini*

RESUMO

A coruja Tyto alba (SCOPOLI, 1769) vulgarmente conhecida como Suindara ou Coruja-de-Igreja ,é uma espécie que possui ampla distribuição geográfica no mundo (SICK, 1984). É uma ave muito comum no Brasil.

O objetivo deste trabalho foi de conhecer, durante os anos de 1991 à 1993, os hábitos alimentares da subespécie ocorrente no Brasil, Tyto alba tuidara (GRAY,1829), através das ossadas encontradas em restos regurgitados e, indiretamente foi possível conhecer espécies de pequenos mamíferos da região estudada.

Tyto alba tuidara alimentou-se de Mus musculus brevirostris, Rattus rattus e Rattus norvergicus (49,5%, 37,6% e 12,8% respectivamente) além de outros invertebrados dos grupos Coleoptera, Orthoptera e Aracnídea, que apesar de se notar indícios de algumas estruturas nos regurgitados, não foram considerados nos resultados do trabalho.

Palavras - chave: Tyto alba tuidara; Alimentação de corujas.

ALIMENTARY HABITS OF THE Tyto alba tuidara (GRAY, 1829) IN INDAIATUBA - SAO PAULO STATE, BRAZIL.

Fábio da Silva Bergamini

*ABSTRACT

The owl Tyto alba (SCOPOLI, 1769), better known in Brazil as Suindara or Coruja-de-Igreja is a species that has a large geografic distribution in the world (SICK, 1984) and is a very common bird in Brazil.

The objetive of this work was to study, from 1991 until 1993, the alimentary habits of the Brazilian subspecies Tyto alba tuidara (GRAY,1829), its diet, bones found in regurgitated pellets and indirectly it was possible to contribute to the knonledge of the fauna of small mamals in the region being studied.

Tyto alba tuidara also feeds on Mus musculus brevirostris, Rattus rattus and Rattus norvegicus ( 49,5%, 37,6% and 12,8% respectively) apart from other invertebrates belonging to the group Coleoptera, Orthoptera and Aracnidea which in spite of, having their fragments been found in the pellets, they have not been considerated at the final results of this report.

Key - words: Tyto alba tuidara; Barn Owl’s feeding .

* Bacharelando em Zoologia pela PUCCAMP.

INTRODUÇÃO

Os Tytonideos são as aves mais amplamente distribuídas no mundo e trinta e cinco raças (ou subespécies) são conhecidas. O nome Tyto alba é derivado do Grego tuto (coruja da noite) e Latin alba (branca). A raça que corresponde e denomina a ave pela descrição original e localidade da espécie é Tyto alba alba da Inglaterra e Europa Ocidental (STEYN, 1984).

Inconfundível pela estatura delgada e tons bem claros, lado inferior branco acinzentado assim como a face e , apresentando cerca de 37 cm de altura, sua alimentação segundo SICK,1984, consiste em pequenos vertebrados sendo: roedores, marsupiais, morcegos, anfíbios, répteis e pequenas aves.

Possui hábitos noturnos preferindo nidificar em locais abandonados, como casas velhas ou em forros ou torres de igrejas e grutas.(SICK, 1984).

O presente trabalho teve como objetivo identificar e reconhecer através da análise dos restos alimentares da Tyto alba tuidara, espécies capturadas na região de Indaiatuba -SP, no período de Agosto a Novembro nos anos de 1991 à 1993.

MATERIAL E MÉTODOS

As coletas foram realizadas em dois ninhos distintos para que pudesse ser feito também uma comparação de suas preferências em indivíduos distintos.

· Espécie estudada: Tyto alba tuidara.

· Posição sistemática da espécie, segundo SICK, 1984:

Filo: CHORDATA

Subfilo: VERTEBRATA

Classe: AVES

Ordem: STRIGIFORMES

Família: TYTONIDAE

Gênero: Tyto

Espécie: alba

Subespécie (segundo GRAY, 1829): Tyto alba tuidara

As coletas nos ninhos foram realizadas aos sábados sempre nos mesmos horários: ninho A às 7h00 e ninho B às 8h00.

Após a coleta do material, foi colocado em um vidro com água, mais 3 gotas de detergente e 5 ml de água sanitária, duas pelotas de regurgitados e, após fechar o vidro, agitou-se por cerca de 30 segundos. Isso fez com que as pelotas se fragmentassem.

Quando totalmente dissolvidas despejou-se o conteúdo em uma peneira e, os ossos puderam ser separados facilmente com o uso de pinças.

Não havendo necessidade de se fixar o material encontrado, no final de cada período de coleta, pôde-se, contar numerar e observar o material, ocorrendo assim a identificação do mesmo, segundo a metodologia utilizada por MOOJEN, 1952.

Não foi levado em consideração as coletas dos primeiros sábados dos meses de Agosto, época que era feita uma limpeza e retiravam - se todos regurgitados anteriores, contando apenas as coletas realizadas a partir do sábado seguinte. Então, se coletava o material para que o ninho pudesse ficar sem vestígios, podendo assim, ter um controle mais preciso.

O trabalho de campo deu-se na cidade de Indaiatuba - SP na região Sudoeste do estado de São Paulo, com Latitude entre paralelos: 23o 00’ e 23o 15’ Sul e Longitude entre meridianos: 47o 04’ e 47o 20’ WG.

Ninho A

Situado na Fazenda do Bicudo, no lado Oeste à cerca de 3 Km de Indaiatuba, ninho encontrado em um dos pastos da fazenda em uma árvore de grande porte; em uma abertura no tronco a 3 metros de altura com dimensões interna do ninho: 78cm x 42cm com 33cm de altura.

Ninho B

Situado na Fazenda Pimenta, no lado Leste à cerca de 7 Km de Indaiatuba, ninho localizado em uns dos cantos de um galpão abandonado que provavelmente se tratava de um paiol À proximidade dos ninhos A e B, pôde ser observado pastagens, canaviais, algumas árvores de médio porte e pequenos arbustos. Os dados referentes a mensuração segundo MOOJEN, 1952 puderam ser comparados com espécimes da coleção de gaveta de pele cheia " Taxidermia Científica", particular do Sr. Paulo Rotter.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No decorrer do ano de 1991, entre os meses de Agosto à Novembro foram efetuadas coletas nos dois ninhos de Tyto alba tuidara ( designados como A e B), encontrados em locais bem distantes um do outro, após observação e localização dos mesmos, realizada entre Maio e Julho do mesmo ano.

As coletas , então começaram a serem feitas no dia 10 de Agosto nos dois ninhos , após ter sido efetuada uma limpeza nos mesmos para que pudesse haver um controle da quantidade de regurgitados a serem coletados nos sábados seguintes. Durante o mês de Agosto, nos dias 10, 17, 24 e 31 foram coletados no ninho A, 167 regurgitados; no ninho B, 161 somando-se um total de 328 regurgitados. O mesmo método ocorreu no decorrer dos meses até o dia 30 de Novembro, somando-se um total de 18 dias de coleta e um total de 714 e 674 regurgitados para os ninhos A e B respectivamente. No dia 3 de Agosto é que efetuou-se a limpeza dos ninho (tabela 1.1).

Com relação aos anos seguintes, 1992 e 1993, foi desenvolvido o mesmo processo usando-se os mesmos critérios (tabelas 1.2 e 1.3).

Após obtenção do material coletado e, uma vez processado, pôde-se iniciar a triagem e identificação dos crânios encontrados.

TABELA 1.1 - Número de regurgitados por Tyto alba tuidara, encontrados nos ninhos A e B durante o ano de 1991.

 

REGURGITADOS

ANO

MÊS

DIAS

NINHO - A

NINHO - B

SUBTOTAL

1991

AGOSTO

3

-

-

-

   

10

42

41

83

   

17

41

39

80

   

24

42

41

83

   

31

42

40

82

 
 

SETEMBRO

7

45

36

81

   

14

41

40

81

   

21

43

40

83

   

28

41

39

80

 
 

OUTUBRO

5

38

40

78

   

12

40

41

81

   

16

44

39

83

   

26

41

37

78

 
 

NOVEMBR0

2

46

42

88

   

9

42

40

82

   

16

45

40

85

   

23

39

39

78

   

30

42

40

82

 
 

TOTAL

18

714

674

1388

TABELA 1.2 - Número de regurgitados por Tyto alba tuidara, encontrados nos ninhos A e B durante o ano de 1992.

 

 

REGURGITADOS

ANO

MÊS

DIAS

NINHO - A

NINHO - B

SUBTOTAL

1991

AGOSTO

1

-

-

-

   

8

48

43

91

   

15

45

47

92

   

22

45

45

90

   

29

47

39

86

           
 

SETEMBRO

5

51

48

99

   

12

49

50

99

   

19

49

49

98

   

26

49

49

98

           
 

OUTUBRO

3

50

51

101

   

10

49

50

99

   

17

49

48

97

   

24

50

47

97

   

31

49

50

99

           
 

NOVEMBRO

7

52

45

97

   

14

50

49

99

   

21

51

50

101

   

28

49

51

100

           
 

TOTAL

18

832

811

1643

TABELA 1.3 - Número de regurgitados por Tyto alba tuidara, encontrados nos ninhos A e B durante o ano de 1993.

 

 

REGURGITADOS

ANO

MÊS

DIA

NINHO - A

NINHO - B

TOTAL

1993

AGOSTO

7

-

-

-

   

14

56

54

110

   

21

58

56

109

   

28

56

59

115

           
 

SETEMBRO

4

58

58

116

   

11

56

59

115

   

18

57

59

116

   

25

58

56

114

           
 

OUTUBRO

2

52

52

115

   

9

54

54

108

   

16

56

59

115

   

23

54

58

112

   

30

52

52

104

           
 

NOVEMBR0

6

58

56

105

   

13

55

58

113

   

20

57

59

116

   

27

50

59

109

           
 

TOTAL

17

880

912

1792

 

TABELA 2

  TABELA 1.1 TABELA 1.2 TABELA 1.3

NINHO

A

B

A

B

A

B

REGURGITADOS

714

674

832

811

880

912

CRÂNIOS INTEIROS

1834

1799

2828

2746

3024

3080

CRÂNIOS QUEBRADOS

224

216

396

284

254

332

OSSOS NÃO IDENT.

64

72

104

218

242

236

Mus musculus

957

893

1332

1199

1512

1691

Rattus rattus

798

805

942

1061

1104

1047

Rattus norvegicus

79

101

554

482

408

342

AVES

-

-

-

02

-

-

 

 

Obs.: Em todos os regurgitados pôde-se observar a presença de estruturas pertencentes às seguintes grupos: Coleóptera, Orthoptera e Aracnídea.

As pelotas variavam de tamanho, de poucos milímetros, até 80 mm de comprimento.

Notou-se que, a maior porcentagem de animais silvestres capturados pela Tyto alba tuidara, somando-se os ninhos A e B nos períodos de Agosto a Novembro dos anos de 1991 a 1993, foi de: (A) Mus musculus brevirostris com 49,5%, (B) Rattus rattus com 37,6%, (C) Rattus norvegicus com 12,8% e Passer domesticus com 0,013%.

Uma segunda ave foi encontrada, mas não foi possível sua identificação ( fig.1).

Figura 1 - Percentual de roedores silvestres encontrados em regurgitados:

A - Mus musculus brevirostris

B - Rattus rattus

C - Rattus norvegicus

Com relação aos ossos quebrados, possivelmente foram triturados por bicadas no ato da caçada. Supõe-se que os ossos não identificados, possam pertencer a animais silvestres não totalmente maturos que, por essa razão tiveram algumas partes desmanchadas ou separadas por não estarem totalmente calcificadas.

Como foram encontrados regurgitados menores contendo a ossada de apenas um indivíduo, isso vem confirmar às observações de SICK, (1984) que cita em sua obra que, vários animais pequenos devorados, provocam pelotas maiores do que um único animal grande engolido.

Pode ser observada a ocorrência de ninhadas em ambos os ninhos, que variava de 2 a 4 indivíduos. Durante as coletas realizadas em 1991, o ninho B não possuía filhotes nem ovos nos meses de Agosto a começo de Novembro, porém, na última semana do mesmo mês, mais precisamente no dia 23 de Novembro, havia um ovo no ninho. Em 1993, no mesmo ninho haviam 2 filhotes no começo das coletas (fig.2).

Fig. 2 - Foto do ninho encontrado na Fazenda Pimenta, onde pode ser observado a presença de dois filhotes e regurgitados na forração do ninho.

Esta observação confirma que as corujas do gênero Tyto não possuem uma época do ano específica para postura , sendo esta apropriada de acordo com a alimentação ocorrente da área em que hora habita (SICK, 1984 e TICEHURST, 1935).

A Tyto alba tuidara é uma caçadora muito versátil, restrito à regiões tropicais e subtropicais que, embora, se alimente de roedores, sua caça é extremamente variada. Provavelmente por causa de sua distribuição em quase todo mundo, Leslie H. Brown, 1970 (in VOOUS, 1989) descreveu a Tyto alba como "o pássaro mais bem sucedido da Terra". A T. alba permaneceu basicamente uma espécie principalmente subtropical que, provavelmente tem se espalhado para fora de climas quentes com sucesso, apenas pela associação direta com o homem. Obviamente, onde o homem se encontra existe lixo e, onde são também encontrados os ratos e camundongos.

Na América do Sul, a dieta da Tyto alba tuidara também foi observada, e que consiste principalmente de mamíferos incluindo roedores, marsupiais e morcegos (HAVERSCHMIDT, 1962 in VOOUS, 1989), mas também de pequenas aves, insetos, anfíbios e répteis (SICK, 1984), como pode ser observado na figura 3.

Fig.3:

Obs.: Legenda figura 4. Regurgitados: 1 - Crânio de Mus musculus; 2 - Sementes de painço, alpiste e uma terceira não identificado; 3 - Várias mandíbulas de Rattus rattus encontradas no mesmo regurgitado; 4 - Osso esterno de ave não identificada; 5 - Vértebra de ave não identificada; 6 - Bico de ave não identificada; 7 - Par fêmur de ave não identificada; 8 - Cálamo de penas.

Quando nos ninhos ocorria a presença de filhotes, notou-se que, os regurgitados maiores, apresentavam 1 ossada completa além de 2 crânios adicionais (esse valor se alterava de regurgitado para regurgitado), ou seja, o número de crânios encontrados em um regurgitado era sempre superior ao número de ossadas completas. Enquanto que, em regurgitados menores possivelmente oriundos do filhote mais velho, apresentavam ossadas com os crânios. Concluiu-se que os adultos, além da dieta do dia, também se favoreciam com as cabeças das presas capturadas que seriam servidas aos filhotes mais jovens, uma vez que, a presa era dilacerada e servida em pequenos pedaços. Isso confirma dado bibliográfico segundo Bühler, 1981(in VOOUS, 1989) que cita que filhotes maiores recebem ratinhos inteiros e os pequenos apenas pedacinhos.Nas coletas do ninho B, durante o ano de 1993 isso tornou-se evidente por causa da freqüência que se encontravam regurgitados com essas divisões de crânios e restos de ossadas.

Comparando-se estes regurgitados com regurgitados do ninho A, notou-se uma semelhança no hábito levando-se em conta a presença de filhotes, em algumas ocasiões, no ninho A.

Referente as sementes encontradas no regurgitado, tanto para alpiste e painço apresentavam a suas respectivas cascas. Sabe-se que as aves descascam as sementes para se alimentar, sendo neste caso sugerido que isso possa indicar que estas sementes pertenciam ao conteúdo estomacal de roedores viventes nas imediações urbanas.

CONCLUSÃO

O método empregado teve resultados significantes que também ajudaram nas conclusões finais. Referente as observações dos casais de T. a. tuidara na cidade de Indaiatuba, SP, notou-se um comportamento típico da espécie, uma vez comparado à bibliografia pesquisada.

Levando-se em consideração apenas a ocorrência de ossos de pequenos mamíferos em regurgitados de Tyto alba tuidara, coletados na região de Indaiatuba - São Paulo, Brasil, as espécies identificadas em sua dieta foram: Mus musculus brevirostris, 49,5% para Rattus rattus 37,6% e para Rattus norvegicus, 12,8%.

BIBLIOGRAFIA:

MONES, A & XIMÉNEZ, A.& CUELLA, J. 1983. Análises del contenido de bolos de regurgitación de Tyto alba tuidara con el hallargo de um nuevo mamífero para el Uruguay. Trab.V.Congr.Latinoamer.Zool., 1:166-167.

MOOJEN,J.1952. Os roedores do Brasil. ed.Gráfica Revista dos Tribunais Ltda. São Paulo-SP-213 p.

PAYNE,R.S. 1962. How the Barn Owls locates prey by hearing. Living Bird 1: 151-159.

SICK,H.1984. Ornitologia Brasileira, Uma Introdução. 3 ed. Brasília: Universidade de Brasília, 324 -333. (Vol.I).

STEYN,P. 1984. A delight of owls. Tanager Books. Southern Africa, 1-39.

TAYLOR,I.1994. BARN OWLS Predator-prey relationships and conservation Cambridge University. Press. NY, 304p.

TICEHURST,C.B. 1935. On the food of the Barn Owl and its bearing on Barn Owl populations.Ibis 2: 329-335.

VOOUS,K. H. 1989. Owls of the Northern Hemisphere. Singapore: C.S. Graphic. PTE. 320 p.

AGRADECIMENTOS

Desejo expressar meus agradecimentos ao técnico do laboratório de Zoologia do ICB da PUCCAMP Luiz Carlos Alves Rodrigues pelo incentivo a publicar este trabalho; ao professor Sr. Paulo Rotter por permitir o acesso à sua coleção particular de mamíferos e, ter me orientado no que diz respeito à pratica de identificação e comparação do material coletado com o existente em sua riquíssima coleção , afim de confirmar o que foi visto em teoria bibliográfica e, pela taxidermia das aves coletadas; ao Ornitólogo Sr. Rolf Grantsau pela orientação à bibliografia referente ao autor da subespécie brasileira Tyto alba tuidara

 

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Última modificação (Last modified): 16 dez 2012