N.80 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1997

Edição Número 80 - NOVEMBRO/DEZEMBRO de 1997 - Pág. 8 -ISSN 0104-2386

AO Number 80 - November/December 1997 - P.8

 

O Fotógrafo de Natureza

Luiz Claudio Marigo – Rio de Janeiro-RJ

O Brasil é um país de grande diversidade biológica e abriga quase a terça parte de todas as florestas tropicais remanescentes na Terra. Estes fatos, de tão grande importância, são pouco compreendidos por muitos órgãos do governo e menos ainda pela população brasileira. Por isso, acho que a função social do meu trabalho é chamar a atenção da opinião pública para a tremenda riqueza de formas de vida e também para sua beleza, produzindo um conhecimento mais amplo e profundo de nossos ecossistemas, plantas e animais. Somente poderemos salvar nossa biodiversidade se pudermos compreendê-la melhor e se a preocupação com a conservação da natureza conquistar os brasileiros. Penso que apenas quando um sentimento de cuidado e respeito pela natureza se conquistar a sociedade brasileira, e isto se dará apenas pela educação, poderemos ter certeza de que nossa flora e fauna estarão preservadas para as gerações futuras. Já publiquei centenas de fotografias, talvez milhares, em revistas brasileiras e estrangeiras, em jornais, livros, calendários, cartões-postais, e até em embalagens de chocolate para crianças e espero, assim, ter inspirado algumas crianças a abandonar suas atiradeiras e jovens fotógrafos a apontar suas câmaras fotográficas para nossas aves.

Eu amo a natureza e ganho a vida trabalhando com a natureza, da mesma maneira que o homem primitivo, como os caçadores e coletores fizeram no passado e, por tudo isso, sinto-me profundamente comprometido com a conservação da natureza. Isso me levou a propor a criação da reserva do Mamirauá (uma das maiores florestas inundadas da Terra), junto com meu amigo José Márcio Ayres e a procurar no sertão nordestino, junto com Carlos Yamashita, Roberto Otoch, Francisco Pontual e Tony Juniper, o último indivíduo selvagem da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Mas o meu jeito de apoiar a Conservação é através da fotografia, e tento fazer o melhor possível. Acredito que a qualidade e a beleza das imagens fotográficas são fundamentais para cativar a visão das pessoas e conquistar seus corações, aumentando sempre o número daqueles que defendem a natureza. Espero que o meu trabalho transmita a mesma alegria e emoção que sinto na natureza e que as minhas fotografias nunca se transformem num mero documento do passado.

Anodorhynchus hyacinthinus

Indo no jipe de um amigo em direção ao Pantanal, encontramos o ninho deste casal de araraúnas, no retiro Santa Isabel, perto de Cáceres (MT). A viagem foi interrompida e passamos dois dias acampados, com dedicação exclusiva ao espetacular casal de psitacídeos. As fotografias foram feitas de longe, para não perturbar a nidificação, com uma grande teleobjetiva de 800mm.

Tangara velia.

Embora esta fotografia, de uma ave da coleção de Fernando Pinto, de Maceió, tenha sido feita numa barraca especial que desenvolvi para a fotografia de pequenas aves, gosto especialmente dela porque descreve bem a saíra-diamante (Tangara velia). Tanto o uropígio como a região ventral estão bem aparentes e a saíra está numa postura natural, sem aparentar qualquer estresse.

Cyanopsitta spixii

Em junho de 1990, Carlos Yamashita, Roberto Otoch, Francisco Pontual, Tony Juniper e eu, partimos em busca da ararinha-azul no sertão nordestino. Na época, a ararinha-azul era considerada extinta na natureza, mas tínhamos notícias de que no sul do Piauí vivia ainda uma pequena população. Estas notícias eram falsas e acabamos descobrindo o último indivíduo que os traficantes da região tinham deixado na região de Curaçá, onde o ornitólogo suíço Paul Roth tinha redescoberto a "spixii". Foram necessários 5 dias no esconderijo colocado perto da caraibeira onde as ararinhas costumavam nidificar para conseguir esta foto, que mostra também sua companheira, a maracanã (Propyrrhura maracana). A última ararinha-azul era extremamente desconfiada... E foi justamente isso o que garantiu sua liberdade!

A dificuldade da fotografia de natureza pode ser resumida numa frase simples: "é difícil encontrar os modelos... e quando são encontrados, só pensam em fugir do fotógrafo". Acho que a fotografia de aves ganha um valor especial quando apresenta as aves livres, totalmente selvagens, em seu hábitat, e nos momentos de comportamento mais significativo. Este foi o principal critério que utilizei para selecionar estas imagens

Os japiins (Cacicus cela) nidificam em galhos bem isolados, geralmente no centro de áreas alagadas e perto de ninhos de vespas para evitar predação por macacos e outros animais. Nesta foto aparece um macho fazendo um "demonstração", mostrando o uropígio amarelo enquanto vocaliza para afirmar sua posição hierárquica superior na escolha dos pontos onde foram construídos os ninhos da colônia.

A jacutinga (Pipile jacutinga) é uma espécie rara e ameaçada de extinção. Seu hábito de fazer pequenas migrações em busca da frutificação do palmito torna sua conservação um problema difícil nas pequenas reservas da mata atlântica. Mas, o Parque Estadual Intervales, na região litorânea do estado de São Paulo, contíguo a outras reservas estaduais, é o lugar ideal para a observação deste cracídeo. Esta fotografia foi tirada de manhã cedinho, e foi difícil acreditar em tanta sorte. No dia seguinte da minha chegada ao Parque, meu motorista avisou: "a jacutinga está aí fora!..." Saí, olhei a ave com dois filhotes que no mesmo instante fugiram numa direção, enquanto a mãe voava para uma árvore alta. Pensei que até eu organizar meu equipamento, todo desmontado e embalado para viagem, a jacutinga fugiria. Levei uns 5 minutos apreciando a ave voltar para o meu alojamento e começar a preparar o material. Uma foto de uma jacutinga .selvagem, na natureza, é tão rara quanto esta ave lindíssima.

O japu-pardo (Psarocolius angustifrons) visita as roças da Amazônia para se alimentar de mamão e outras frutas cultivadas. Toda tarde, um bando destas aves chegava num pomar próximo a sede do Parque Nacional Madidi, na Amazônia boliviana, no sopé dos Andes. Para fotografá-lo, montei uma tocaia num mamoeiro que já haviam começado a comer e esperei. Sim, eu esperei...

Cardeal-amarelo

O cardeal-amarelo (Gubernatrix cristata) está ameaçado de extinção devido à captura para o comércio de animais silvestres. De plumagem exuberante e canto harmonioso é muito apreciado por passarinheiros. Habita os campos do sul do Rio Grande do Sul, perto da fronteira, e também o Uruguai e a Argentina.

 

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Última modificação (Last modified): 28 fev 2014