Edição Número 81 - JANEIRO/FEVEREIRO de 1998 - Pág. 5 -ISSN 0104-2386

AO Number 81 - Janeiro/Fevereiro 1998 - P.5

 

REGISTROS QUESTIONÁVEIS DE AVES DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

I - NON-PASSERES

 

José Fernando Pacheco & Ricardo Parrini - Rio de Janeiro

Classicamente, o Rio de Janeiro, foi um dos principais centros exportadores de material de história natural da América do Sul no século XIX, ao lado da Bahia, Pará, Caiena (Guiana Francesa) e Bogotá (Colômbia). Os lotes de material naturalístico, assim enviados, foram adquiridos por comerciantes europeus - que os mantinham em coleções privadas ("Maison") e, sistematicamente, os vendiam ou permutavam com outros colecionadores - e acabaram constituindo a base de diversos recém-criados gabinetes de história natural e museus.

Diferentemente dos dados geográficos obtidos in loco por cientistas e naturalistas colecionadores contemporâneos, que por aqui viajaram, esses exemplares exportados careciam de informações geográficas minimamente precisas. Na maioria dos casos, esse material comercial, os "trade-skin", era desacompanhado de etiquetas originais que pudessem informar sequer a origem. Como esses exemplares preparados eram exportados por relativamente poucas famílias que se dedicavam a esta atividade, eles podiam ser reconhecidos segundo maneiras peculiares de preparação e acabamento do material, através de técnicas rudimentares de taxidermia repassada aos descendentes. Portanto, todo esse acervo, classificado, etiquetado e catalogado nos países de destino, era reconhecido tão somente por suas características de preparação e, desta maneira, sua origem "aproximada" por comparação era inferida.

Um problema comum relacionado com todo esse material comercial foi a interpretação errônea da origem, que dependia exclusivamente da decisão subjetiva do curador da coleção (ou de algum ornitólogo visitante), a partir do formato aparente da preparação entre os diversos centros exportadores. Esse julgamento errôneo repassado, em algum momento, para a etiqueta se constituiu numa informação incorreta que originou alguns erros perpetuados na literatura sobre a distribuição de algumas espécies sul-americanas. Saber se o exemplar havia sido remetido da Bahia ou de Bogotá não esgotava o problema da origem, considerando que muitos dos exemplares pertencentes a um mesmo centro podiam ter naturalmente múltiplas origens, próximas ou distantes.

Diversas menções para o Rio de Janeiro existentes na literatura ornitológica tiveram origem nesses milhares de exemplares "apócrifos" depositados nas diversas coleções particulares e públicas européias. A probabilidade de uma grande parcela dos exemplares oriundos do "Rio", como assim designado posteriormente, poder efetivamente ter sido colecionada no imediato arredor da cidade do Rio de Janeiro não exclui a possibilidade de origens diversas para uma parcela desses exemplares reunidos em lotes. É nítido que uma parcela foi coletada na vizinha cadeia da Serra do Mar e, a julgar pelas regulares ligações diretas por terra com Minas Gerais, é inegável, também, que outras aves típicas do interior do Brasil tenham sido preparadas e exportadas pelo Rio de Janeiro. Neste último caso, a ausência de dados originais precisos, sobretudo origem e data, mascara o verdadeiro status da presença da espécie no estado do Rio de Janeiro no século passado e obscurece a compreensão do fenômeno de invasão de aves do Brasil Central intensificado a partir desse período, após a intensa destruição das florestas nativas.

Evidentemente, a questão do material de origem comercial não esgota os problemas relacionados à validade dos registros de cada uma das espécies de aves mencionadas para o estado do Rio de Janeiro. Nesta nota, relacionamos uma série de ocorrências onde o registro publicado existente - em geral, o único conhecido para o estado - deve ser questionado segundo um ponto de vista crítico que visa avaliar a coerência de sua potencial existência, a partir da documentação ou das informações disponíveis.

As monografias, ou catálogos são obras compilatórias que se utilizam da uma grande quantidade de dados dispersos, publicados ou inéditos, para sintetizar a distribuição das espécies tratadas. Em geral, devido as suas peculiaridades, essas obras tratam da distribuição em larga escala, esboçadas em mapas de escala grosseira ou mencionando limites esquemáticos. Este procedimento pode levar os consulentes, interessados em registros específicos, a erros de interpretação por diversas vias. No caso do Brasil, por exemplo, as distribuições do tipo "da Bahia ao Rio Grande do Sul", podem sugerir que cada um dos estados intermediários possua registros específicos, o que nem sempre é verdadeiro. Como são de larga utilização, essas obras possuem grande poder de disseminar eventuais imprecisões na distribuição das espécies, assim contribuindo para perpetuação destes indesejáveis erros. A rigor, os registros específicos é que devem formar a base confiável para a construção dos catálogos e não o contrário.

Nem sempre os trabalhos que mencionam o registro para uma determinada espécie fornecem elementos suficientes para um julgamento criterioso de sua autenticidade e coerência. Por não se tratar da finalidade do trabalho, o autor pode deixar de fornecer uma série de dados adicionais, mesmo quando este registro se constitui na primeira menção para um estado ou região. Deixa de ser mencionado, por exemplo, a base do registro, se observado apenas, ou documentado de alguma forma; se documentado, os dados do material utilizado e assim por diante.

Algumas inclusões de registros "novos" em trabalhos diversos, demonstram a despreocupação do autor com relação a distribuição geográfica das espécies. Ao mencionar uma ave, distante de sua área de ocorrência admitida, sem destacar a extensão verificada ou oferecer nenhuma interpretação ou informação adicional, fica patente que o ineditismo do dado foi ignorado pelo autor. A manutenção de dados equivocados de distribuição nos catálogos e listas disponíveis contribui para este mesmo processo de desinformação. Ao presumir que uma determinada espécie exista numa área, quando estaria diante de uma verdadeira extensão de sua distribuição, o autor pode, desta forma, deixar de destacar um registro novo, mesmo que se interesse pelo aspecto da distribuição.

A nossa intenção primordial é chamar a atenção para registros questionáveis sob variados aspectos, impedindo que a sua alegada validade leve a distorções em todas as avaliações de natureza faunística, biogeográfica e conservacionista derivadas de seu cômputo indevido.

A seguir, são listadas 11 razões sintéticas para contestar a validade dos registros publicados e, em seguida, são relacionadas as espécies, alguma vez mencionadas para o estado, enquadradas nestes casos:

a) baseado somente em pele de origem comercial, ou "Rio de Janeiro" , sem dados adicionais, aliado a ausência de outros registros confirmatórios

b) derivado apenas de uma menção genérica embutida em catálogos ou trabalhos monográficos sem associação direta com registros específicos realizados dentro dos limites do estado

c) embora exista uma menção específica - baseada (ou provavelmente baseada) em material - o trabalho não fornece informações suficientes para um julgamento crítico da presença da espécie no estado

d) meramente mencionada ou listada sem informações adicionais ou documentação para casos onde a presença no estado requer corroboração

e) o material citado no trabalho original foi reexaminado pelos autores e identificado como espécie diversa

f) observação não documentada, requer documentação por envolver formas de difícil determinação no campo

g) observação não documentada, relacionada a espécie, sem hábito migratório, com distribuição distante dos limites do estado

h) observação não documentada, descartada posteriormente pelo autor do registro, através de comunicação pessoal aos autores

i) registro existente não incorpora tratamento taxonômico vigente e requer reexame crítico do material ou dos dados de observação, caso existentes

j) baseado apenas numa designação arbitrária de localidade-tipo sem outra evidência da presença no estado

k) introdução sugerida de espécie exótica (ou simplesmente, não autóctone) sem confirmação da existência de população estabelecida em liberdade

 

Painho, Oceanodroma castro ( f , g )

Coelho, E. P. et al. 1990. Bol. Inst. Oceanogr. 38(2):166

Anhuma, Anhima cornuta ( b )

Pinto, O. M. O. 1964. Ornitologia Brasiliense, p. 39

Gaviãozinho, Gampsonyx swainsoni ( c, h )

Hellmayr, C. E. & B. Conover 1949. Field Mus. Nat. Hist. Zool. Ser. 13, part 1, nr. 4: 291

Weinberg, L. F. 1986. Bol. FBCN 21:175

Gavião-do-mangue, Buteogallus aequinoctialis ( b )

Pinto, O. M. O. 1978. Novo catálogo das aves do Brasil, p. 60

Aracuã, Ortalis guttata ( d )

Silveira 1968. Bol. Geográfico 27(203):70

Frango-d’água-pequeno, Porphyrula flavirostris ( a, e )

Barth, R. 1957. Bol. Pque Nac. Itatiaia 6:105

Sick, H. & L. F. Pabst 1968. Arq. Mus. Nac. 53:120

Gaivota-rapineira, Catharacta skua ( i, f )

Meyer de Schauensee, R. 1966. The species of birds of South America, p. 102

Sick, H.1985. Ornitologia brasileira, uma introdução, p. 272

Trinta-réis-antártico, Sterna vittata ( c )

Meyer de Schauensee, R. 1966. The species of birds of South America, p. 108

Pomba-do-orvalho, Columba maculosa ( g )

Scott, D. A. & M. de L. Brooke 1985. In: Conservation of tropical forest birds, p. 133

Rola-de-coleira, Streptopelia decaocto ( k )

Sick, H.1985. Ornitologia brasileira, uma introdução, p. 285

Maracanã-guaçu, Ara severa ( d )

Descourtilz, J. T. 1854. Ornithologie brésilienne p.12

Periquito-australiano, Mellopsittacus undulatus ( k )

Sick, H.1985. Ornitologia brasileira, uma introdução, p. 313

Bacurau-rabo-de-seda, Caprimulgus sericocaudatus ( j )

Dickerman, R. W. 1975. Bull. Brit. Orn. Cl. 95(1):19

Taperá-de-buriti, Reinarda squamata ( g )

Scott, D. A. & M. de L. Brooke 1985. In: Conservation of tropical forest birds, p. 134

Beija-flor-canela, Ramphodon dohrni ( a )

Salvin, O.1892. Cat. Birds Brit. Mus. 16:43

Beija-flor-de-barriga-branca, Amazilia leucogaster ( d )

Silva Maia, E. J. 1851. In: Bibliotheca Guanabarense [1851]: 45-52

Chifre-de-ouro, Heliactin bilophum ( d, b )

Ruschi, A. 1965. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, Sér. Div. 30:3

Pinto, O. M. O. 1978. Novo catálogo das aves do Brasil, p. 214

Surucuá-de-coleira, Trogon collaris ( a )

Fraser, L.1857. Proc. Zool. Soc. Lond. [1856]:368

Surucuá-de-coroa-azul, Trogon curucui ( a, m, d )

Hellmayr, C. E. 1929. Field Mus. Nat. Hist. Zool. Ser. 12(18):422

Pinto, O. M. O. 1938. Rev. Mus. Paulista 22:290

Silveira 1968. Bol. Geográfico 27(203):72

Picapau-de-asa-vermelha, Veniliornis affinis ( d )

Swainson, W. M. 1822. Zoological Illustrations, pl. 78

Picapau-de-garganta-preta, Campephilus melanoleucos ( d )

Spix, J. B. 1824. Avium species novae, p. 56

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Última modificação (Last modified): 16-dez-2012