Edição Número 82 - MARÇO/ABRIL de 1998 - Pág. 10 -ISSN 0104-2386

AO Number 81 - March/April 1998 - P.10

 

Ocorrência do Cipó-canastero (Asthenes luizae) e do Gavião-pernilongo (Geranospiza caerulescens) no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó, Minas Gerais.

Marco A. de Andrade, Márcia Viegas G. de Andrade, Ricardo G.R. Gontijo & Patrícia O. Souza - Belo Horizonte, MG

 

Cipó-canastero (Asthenes luizae):

Asthenes luizae, também conhecido pelo nome popular de "Lenheiro-da-Serra-do-Cipó" ou "João-cipó", foi descrito através de um macho, coletado por F. Lencioni, em 14 de dezembro de 1985, na Serra do Cipó, município de Jaboticatubas, Minas Gerais, a cerca de 1.100 m de altitude (Vielliard 1990). Pode ser identificado pelo dorso marrom-fuligem escuro uniforme; lado ventral cinza, mais claro no abdômen e escuro nos flancos; penas do mento brancas e da garganta pretas com lista central esbranquiçada; asas marrom-fuligem, curtas e arredondadas; cauda relativamente longa e visivelmente graduada, de coloração castanho-canela nas penas externas; íris castanha; lista superciliar clara bem visível; bico e tarsos pretos.

Em 13 de agosto de 1988, J. Hurrell e M. Pearman observaram este novo Furnariidae, na localidade Alto Boa Vista, na Serra do Cipó, e logo o identificaram como um representante do gênero Asthenes, até então desconhecido da ciência. Em 28 de julho de 1989, J. Hurrell e M. Pearman retornaram à Serra do Cipó e registraram 7 indivíduos de Asthenes, também fora dos limites do Parque Nacional da Serra do Cipó. Nesta ocasião realizaram importantes estudos de campo envolvendo o comportamento e vocalizações deste novo Furnariidae (Pearman 1990). O inglês Bruce Forrester também registrou, em 1988, esta espécie na região da Serra do Cipó, fora dos limites do Parque Nacional, tendo feito o primeiro desenho desta espécie. Em dezembro de 1991, Studer & Teixeira (1993) estudaram a biologia reprodutiva do Cipó-canastero a partir de seis ninhos encontrados na Serra do Cipó. Stattersfield et al (1998) mencionam que, infelizmente, Asthenes luizae não ocorre em nenhuma reserva, estando restrito a uma pequena área próxima aos limites do PARNA do Cipó.

Em setembro de 1997, M. A. Andrade, M. I. Ferolla e R. Simpson observaram dois Asthenes luizae a cerca de 300 m à direita da estrada de terra, em direção à Conceição do Mato Dentro, entre os km 6 e 8 da rodovia, na propriedade do Prof. Geraldo Wilson Fernandes. Habita os campos rupestres da região da Serra do Cipó, entre 900 a 1300 m de altitude, em ambiente de vegetação arbustiva com afloramentos rochosos. Pousa no alto de rochas, à beira de penhascos, onde vocaliza e delimita seu território. Uma de suas vozes consiste em um trinado agudo e de curta duração. Quando voa também pode emitir voz de alarme. Alimenta-se de insetos que encontra nas fendas das rochas.

Em 11 de abril de 1998, durante uma excursão à região da Serra do Cipó, tivemos a grata satisfação de registrar pela primeira vez Asthenes luizae no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó, na localidade denominada Travessão, entre 1.185 e 1250 m de altitude, a cerca de 7 km da rodovia, próximo ao município de Itambé do Mato Dentro (MG). Um único indivíduo foi observado primeiramente por Fernando Diniz Mendes, às 11:30 horas, em pleno sol, no alto de uma grande pedreira com vegetação rupestre, em uma área de transição com o campo sujo. O indivíduo adulto deslocava-se sobre as placas de rochas e alçava pequenos vôos curtos entre um arbusto e uma rocha. Andava sobre as pedras e levantava a cauda em posição quase que vertical. No dia 12 de abril de 1998 retornamos à mesma área e fizemos novos registros de suas vocalizações e anotações sobre seu comportamento. Um indivíduo foi fotografado e filmado em VHS, pousado encima das rochas com vegetação rupestre. No mesmo local observamos também o Beija-flor-de-gravatinha-verde (Augastes scutatus) e o Canário-rabudo (Embernagra longicauda), endêmicos de campos altimontanos do complexo da Serra do Espinhaço.

Segundo consulta a literatura e colegas pesquisadores que já viram Asthenes luizae na Serra do Cipó, este consiste no primeiro registro da ocorrência de Asthenes luizae, espécie endêmica do Brasil e ameaçada, no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó, uma importante Unidade de Conservação inserida no bioma dos campos e cerrados. Acreditamos que o Cipó-canastero também deve ocorrer em outras localidades do parque onde exista habitat semelhante.

 

 

Gavião-pernilongo (Geranospiza caerulescens):

No dia 10 de abril de 1998, durante uma excursão ao Parque Nacional da Serra do Cipó, M. Andrade e R. Gontijo observaram um Gavião-pernilongo, às 9:30 horas, sobrevoando uma pequena capoeira densa que acompanha o riacho Congonhas, permeada por campos altimontanos alterados, a cerca de 1.150 m de altitude. O indivíduo sobrevoou esta capoeira e depois pousou em uma árvore à média altura, podendo ser bem visualizado durante alguns minutos. No dia seguinte, 11 de abril, às 8:30 horas, tivemos a oportunidade de observar novamente o Gavião-pernilongo nesta mesma área. Desta vez ele alçou vôo de uma capoeira à outra, entrando com agilidade no interior da "matinha" ciliar que deveria ter aproximadamente 1,5 hectares. Neste mesmo local observamos a Pomba-asa-branca (Columba picazuro) e outro Falconiforme: o Falcão-quiri-quiri (Falco sparverius), ambos sobrevoando a área. Sick (1997) menciona que Geranospiza caerulescens ocorre localmente em todas as regiões do Brasil. Mas, os registros de sua ocorrência em Minas Gerais são escassos. Segundo a literatura consultada este é o primeiro registro desta espécie para o Parque Nacional e região da Serra do Cipó.

 

AMEAÇAS ÀS ESPÉCIES

 

Uma das principais ameaças à estas duas espécies é a destruição de seus habitats pelas queimadas, transformando os campos naturais e rupestres em áreas de pastagens. Anualmente, os incêndios continuam ocorrendo na região da Serra do Cipó e cada vez mais os poucos remanescentes de capoeiras e matas ciliares vão diminuindo. As populações de Asthenes luizae são pequenas e vivem isoladas. Caçadores e colecionadores inescrupulosos de aves raras também podem representar uma ameaça às estas duas espécies.

 

ESTRATÉGIAS DE CONSERVAÇÃO

 

Proteger e fiscalizar os campos rupestres onde Asthenes luizae ocorre na Serra do Cipó e conhecer melhor a sua biologia reprodutiva e seu território são medidas que devem ser tomadas a curto prazo. Como ação preventiva, deve-se fazer um controle mais rígido das queimadas, controlando os focos de incêndios nos remanescentes de matas ciliares. Sugerimos investigar outras áreas dentro dos limites do PARNA Serra do Cipó, afim de tentar obter novos registros destas espécies e ampliar suas distribuições geográficas. No caso do Asthenes luizae também é conveniente pesquisar outras serras do complexo do Espinhaço, onde exista habitat semelhante.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Pearman, M. 1990. Behaviour and vocalizations of an undescribed Canastero Asthenes sp. From Brazil. Bull. B.O.C. 110(3):145-153.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Stattersfield, A.J., M.J.Crosby, A.J.Long & D.C.Wege. 1998. Endemic Bird Areas of the World: priorities for biodiversity conservation. Cambridge: BirdLife International.

Studer, A. & D.M. Teixeira. 1993. Notas sobre a biologia reprodutiva de Asthenes luizae Vielliard, 1990 (Aves, Furnariidae). Resumos do III Congresso Brasileiro de Ornitologia, Pelotas. p. 44

Vielliard, J. 1990. Uma nova espécie de Asthenes da serra do Cipó, Minas Gerais, Brasil. Ararajuba 1: 121-122.

 


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Última modificação (Last modified): 02-mar-2014