Edição Número 82 - MARÇO/ABRIL de 1998 - Pág. 5 -ISSN 0104-2386

AO Number 81 - March/April 1998 - P.5

Estudo do comportamento de Furnarius rufus Gmelin, 1788 (Aves - Passeriformes - Furnariidae) em Curitiba, Paraná, Brasil.

Liliani Marília Tiepolo1 & Leny Cristina Milléo Costa2 – Curitiba-PR

O comportamento do joão-de-barro, Furnarius rufus, foi observado na cidade de Curitiba, (25 25’ 04" S e 49 14’30" W), Estado do Paraná, no período de julho de 1992 a novembro de 1994.

As observações foram realizadas no campus da PUC/PR - Pontifícia Universidade Católica do Paraná, localizado no bairro Prado Velho, também em partes dos bairros Cristo Rei e Alto da Rua XV.

Este estudo teve por objetivo ampliar o conhecimento sobre o comportamento desta espécie neotropical comum em Curitiba. As observações fundamentam-se em análises qualitativas e quantitativas dos padrões motores sendo descritas e quantificadas 27 posturas referentes aos comportamentos de manutenção, agonístico e reprodutivo nas diferentes estações do ano.

O comportamento de manutenção é a mais freqüente atividade observada; o joão-de-barro passa a maior parte do tempo forrageando em busca de alimento, limpando as penas, limpando o bico ou descansando.

O comportamento agonístico inclui ações interespecíficas na defesa do ninho, foram observadas reações contra o pardal (Passer domesticus), andorinhas (Notiochelidon cyanoleuca), e sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris). A maior intensidade ocorre contra o pardal, já que este pode ocupar o ninho do joão-de-barro antes da incubação.

Outra ação agonística interespecífica observada foi em períodos de alimentação e com a relação a presença de predadores como os gaviões (Polyborus plancus e Buteo magnirostris).

A maioria das ações agressivas intraespecíficas estiveram relacionadas com a territorialidade. Este pássaro ocupa um território estável usado para todas as atividades e defendido durante todo o ano através de ameaças, perseguições e ataques. As ameaças ocorreram durante todos os meses mas na primavera, elas acentuam-se e os "conflitos de duetos" tornam-se comuns nas fronteiras dos territórios.

A territorialidade é um mecanismo que consome muito tempo dos animais e a agressão envolvida pode trazer sérios riscos de ferimentos. Um fator que deve ser levado em consideração nos ambientes modificados pelo homem, quando se analisa o comportamento agonístico, é a existência de barreiras como edificações, muros e ruas que atuam, muitas vezes, como fronteiras de territórios, chegando mesmo a impedir com que os indivíduos se vejam, principalmente quando se trata de uma espécie que passa a maior parte do tempo no chão forrageando, como é o caso do joão-de-barro. Este fato faz com que os conflitos territoriais sejam reduzidos.

O comportamento reprodutivo de Furnarius rufus, por se tratar de espécie monogâmica, foi estudado através da nidificação e cuidados com a prole. Este período baseia-se na cooperação entre macho e fêmea, desde o início da construção do ninho até a independência dos filhotes. Como pode ocorrer duas posturas por ano e os filhotes permanecem no território dos pais por pelo menos 4 meses, o período reprodutivo inicia-se em março e pode estender-se durante todo o ano se ocorrer a segunda postura.

Furnarius rufus constrói um ninho por ano onde pode criar até duas proles, sendo o barro o principal material usado para a confecção, mas utiliza-se também folhas, gramíneas, palla, areia, esterco, pêlo de animais, inclusive caco de vidro. O ninho finalizado é liso internamente e enrugado por fora, assumindo o formato de forno, pesando em média 4,1 kg. com as paredes de 3 a 4 cm.

Nas áreas do presente estudo, totalizaram-se 86 ninhos analisados, construídos desde 1992, sendo que 57% foram construídos em árvores, 29% em postes telefônicos ou de luz e 14% em edificações. Os ninhos foram construídos no mínimo a 3,5 m do solo até ao máximo 12,25 m de altura, sendo a maioria deles encontrados entre 5,5 e 7,0 m (44%). Grande parte dos ninhos foram construídos em árvores, principalmente Araucaria angustifolia (57%).

A maior parte dos ninhos orientam-se para o Norte (27 ninhos), mas não há uma diferença significativa pois 17 ninhos orientam-se para Leste, 18 para Oeste e 13 para o Sul.

A atividade construtiva do ninho foi observada em todas as estações do ano estando relacionada a fatores abióticos que influenciam na reprodução como as chuvas, ventos e estiagem prolongada.

No ambiente urbano, Furnarius rufus vem se adaptando bem às modificações da paisagem pelo homem, expandindo sua população para o grandes centros onde verifica-se uma relação da densidade populacional desta espécie com a distribuição da população humana. _____________

1 Bióloga

Rua Pres. Beaurepaire Rohan, 213 - CEP 80050-340 - Curitiba, PR. E-mail: Gluck@datasoft.com.br

2 Professora Adjunta do Departamento de Biologia da PUC/PR

Resumo de Monografia apresentada em 1994 ao Curso de Biologia da PUC/PR

Agradecimentos: Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa concedida. Aos ornitólogos e amigos Ligia Mieko Abe e Pedro Scherer-Neto pelo apoio concedido na realização desta publicação.

Ninhos de joão-de-barro fotografados em S.Paulo - AE

 


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Última modificação (Last modified): 18-dez-2012