Edição Número 82 - MARÇO/ABRIL de 1998 - Pág. 6 -ISSN 0104-2386

AO Number 81 - March/April 1998 - P.6

 

Inteligência animal e Comunicação

Maria Luisa da Silva – Campinas-SP

O tema Inteligência é freqüentemente abordado considerando a a característica no animal de forma antropomórfica, como ocorre em estudos sobre primatas que usam ferramentas, ou sobre a capacidade de aprendizagem de tarefas humanas e apresentadas para os mais diversos grupos animais para serem condicionados a executá-las em laboratório, ou ainda, sobre a capacidade de consciência do próprio ser.

Não desconsideramos a importância das pesquisas deste tipo de inteligência, que muito nos tem ensinado sobre as habilidades cerebrais e fisiológicas, principalmente de animais tradicionalmente criados em laboratório, mas também de várias espécies silvestres, incluindo beija-flores e pequenos roedores quase desconhecidos da nossa fauna. Apenas lembramos que a natureza é muito mais complexa do que as condições produzidas em laboratório. O mundo animal interage sob a ação de diversos estímulos, necessidades e estratégias cruciais para a sobrevivência, que envolvem os mais diversos tipos de inteligência para manutenção da vida.

Os sistemas complexos de comunicação são formas de expressão de inteligência, embora sistemas muito simples não deixem de ser estrategicamente eficientes para diferentes necessidades das espécies.

A comunicação, uma necessidade básica do ser vivo, pode ser química, elétrica, visual ou sonora. Esta última é a modalidade mais utilizada entre as aves, grupo animal que apresenta as melhores condições de estudo por ter sua taxonomia relativamente bem estabelecida, além de serem conspícuas e de hábitos diurnos em sua maioria, facilitando a observação em seu ambiente natural.

As aves se utilizam da comunicação sonora para se reconhecerem como espécie, emitindo um "canto" cujo registro é fácil de ser coletado, guardado e reproduzido, sem interferir no ambiente, nem perturbar o animal.

Estratégias de comunicação sonora

O sinal sonoro emitido pelas aves, muitas vezes melodioso, chamamos de canto e tem como função biológica primordial o reconhecimento específico. De forma simplificada, podemos dizer que o canto pode ser estereotipado ou variado. A maioria dos não-Passeriformes e dos Suboscines apresentam canto estereotipado, que, mesmo emitido por indivíduo criado sob isolamento acústico, pode ser reconhecido pelos indivíduos da mesma espécie. Como exemplo, podemos citar os Tinamídeos, onde a experiência de criadores comprovam que o canto produzido pelos indivíduos criados isolados de outros de sua própria espécie não é modificado, podendo ser reconhecido por indivíduos da natureza. O canto produzido pelo Pinto-do-mato-de-cabeça-vermelha Formicarius colma, espécie de Suboscine de ampla distribuição geográfica, também é estereotipado, apresentando-se com estrutura idêntica em um indivíduo que habita a Amazônia e outro que vive na Mata Atlântica (ver Silva, M. L. (1995). - Estereotipia e versatilidade nos cantos das aves: os padrões de canto em sabiás e outras aves. Anais de Etologia 13: 133-147.).

Em Muscicapidae e Troglodytidae vemos padrões de cantos muito variados, influenciados pela aprendizagem. Em isolamento acústico são cantos discordantes, não reconhecidos pelos indivíduos da mesma espécie. Há casos em que ocorrem variações populacionais, como os dialetos do Tico-tico Zonotrichia capensis e aqueles onde a variação é individual, como no Sabiá-laranjeira Turdus rufiventris.

O Sabiá-laranjeira é uma ave conspícua, que vive em ambiente urbano ou borda de matas secundárias e degradadas. O canto é emitido durante o período reprodutivo, que vai de agosto até o final de janeiro. São territoriais e podem ser encontrados em todo o Brasil, exceto Amazônia. Quanto à variação presente em seu canto, pensava-se em dialetos regionais, mas uma análise mais acurada demonstrou que não há dois indivíduos com o mesmo canto.

Análise do canto do Sabiá-laranjeira

Em tese de Mestrado apresentada no Programa de Pós-graduação em Neurociências e Comportamento da Universidade de São Paulo, analisamos o canto de T. rufiventris utilizando gravações provenientes de toda sua área de distribuição, disponibilizadas pelo Arquivo Sonoro Neotropical da Unicamp. Os registros de cada indivíduo foram submetidas à medições em Sonógrafo Digital Uniscan II, cujo monitor permitiu a classificação e medição das unidades de canto, aqui denominadas notas. As notas não correspondem à definição tradicional de notas musicais; são apenas unidades que podem ser visualmente diferenciadas no sonógrafo. Foram medidos parâmetros temporais e de freqüência, além de receber uma identificação alfabética pela ordem de aparecimento na gravação. O esquema abaixo exemplifica o procedimento.

 

Resultados

Estudamos gravações de 44 indivíduos, provenientes de toda a área de distribuição e encontramos diferentes níveis de variação do canto. O tamanho do repertório, isto é, a quantidade de tipos diferentes de notas que compõem o canto, variou de 1 a 36. O tamanho das frases, formadas por um conjunto de notas, é igualmente muito variável. Quanto às seqüências de notas, podem se apresentar em padrões previsíveis ou não. Há indivíduos cujo canto são basicamente compostos de frases do tipo:

a b c d e

a b c d f

e outros que denominamos versáteis, no sentido de apresentarem múltiplos padrões ou mesmo a inexistência de padrões reconhecíveis, e que são, dessa forma, imprevisíveis quanto ao seqüenciamento:

a d f g

i k d f ...

Há indivíduos com repertórios longos e estereotipados e outros que emitem poucas notas com seqüenciamento imprevisível.

O estudo de todos os tipos de notas produzidos na amostra permitiu a apresentação do "dicionário" de notas do Sabiá-laranjeira, com 592 tipos diferentes de notas, dentre as quais somente 24 foram compartilhadas entre 2 ou 3 indivíduos diferentes. A maioria dos que possuíam notas em comum não eram vizinhos entre si, fato que corrobora a inexistência de dialetos regionais.

Os parâmetros físicos não são muito variáveis, o canto é emitido em uma estreita faixa de freqüência e com uma ritmicidade característica, além da configuração das notas obedecer à uma padronização constituída de sons puros e modulados; são esses parâmetros que podem definir o canto específico. A variação nos tipos e nas seqüências de notas permite um reconhecimento individual, mesmo aos nossos ouvidos. Há ainda uma variação intra-individual ao longo do tempo, pela qual podemos reconhecer tipos de notas e seqüências diferenciadas em dias diferentes de observação do canto de um mesmo indivíduo.

Significado da variação de canto

A variação do canto do Sabiá-laranjeira demonstrou ser individual, contrariando a literatura e a interpretação popular, que acreditava na existência de dialetos populacionais. É provável que o reconhecimento individual seja interessante para manutenção dos territórios.

Quanto aos mecanismos de aquisição de repertório, não sabemos se novos tipos de notas são produzidos pela criatividade individual ou se são adquiridos a partir da aprendizagem de elementos dos cantos dos vizinhos. Ambos mecanismos são possíveis, juntos ou isolados.

O número excessivo de tipos de notas à nível de espécie pode ser resultado de uma sofisticação da transmissão redundante da informação. Seria necessário saber qual a unidade real do código de comunicação entre os Sabiás. Estudos com play-back de cantos artificialmente modificados poderiam elucidar a questão.

Ainda há vários pontos a serem esclarecidos, como o porquê da semelhança entre cantos de espécies sintópicas diferentes do gênero Turdus, embora os grupos específicos sejam bem definidos e os parâmetros físicos do canto sejam distintos, assunto que será abordado em minha tese de doutorado.

Conclusão

Diante do exposto, podemos dizer que o estudo da inteligência animal nos complexos sistemas de comunicação existentes pode abrir precedentes para pesquisas em grupos animais cujos sistemas são atualmente mal compreendidos, além de evitar as errôneas generalizações que vemos freqüentemente, criando uma base aplicável nas mais diversas situações, e na contra-mão, aplicável até mesmo no entendimento da comunicação humana.

Doutoranda em Neurociências e Comportamento, USP


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Última modificação (Last modified): 18-dez-2012