Edição Número 82 - MARÇO/ABRIL de 1998 - Pág. 7 -ISSN 0104-2386

AO Number 81 - March/April 1998 - P.7

 

Novas observações sobre a nidificação de algumas aves em Minas Gerais

 

Marco Antônio de Andrade e Márcia Viegas Greco de Andrade - Belo Horizonte - MG

 

Como todos os interessados em aves sabem, a primavera e o verão são duas estações climáticas de grande importância para as aves, pois compreendem o período de nidificação da maioria das espécies. É nesta ocasião que as aves estão em plena atividade reprodutiva, emitindo suas vozes variadas (cantos, pios, chamadas, alarmes, etc.), defendendo o seu território, podendo ser melhor visualizadas e exibindo cores mais atraentes nas plumagens (Andrade 1997). Neste período, são observados movimentos de cortejos, danças e acasalamentos, bonitos de serem apreciados. Esta época é, sem dúvida, fascinante para as pessoas que querem desenhar, fotografar ou filmar ninhos, gravar os vários tipos de cantos das aves, realizar estudos sobre comportamento reprodutivo ou sobre o desenvolvimento de filhotes, descrever ninhos e ovos ainda desconhecidos, etc.

Os ninhos podem ser encontrados em uma enorme variedade de ambientes, seja sobre o solo, sobre a água, na vegetação aquática, em árvores, arbustos ou moitas, em troncos caídos no chão, em barrancos à beira de estradas, em vasos de jardim, no oco de um bambu, no telhado ou na chaminé de uma casa, etc. Os ninhos apresentam, em geral, formas e padrões variados, dependendo da espécie ou família a que pertence. Alguns são bem simples e outros exibem uma construção bem complexa. A nidificação é uma atividade instintiva das aves. O ninho é um importante caráter taxonômico, devendo ser sempre bem observado e anotado suas características, principalmente quando se tratar de um ninho pouco conhecido ou ainda não descrito pela ciência.

Dando prosseguimento aos estudos sobre comportamento reprodutivo e observações sobre a nidificação de aves no Estado de Minas Gerais, iniciado já a alguns anos, apresentaremos a seguir alguns dados de ninhos e ovos de algumas espécies. Estas observações foram feitas entre os meses de setembro e dezembro de 1997, nas seguintes localidades: 1) Condomínio Nossa Fazenda, município de Esmeraldas, a cerca de 35 Km de Belo Horizonte, em ambiente sob domínio do cerrado, matas secundárias e de atuação antrópica; 2) Reserva da Fazenda Jaguara e Fazenda Império, localizadas no município de Matozinhos, a cerca de 65 Km ao norte de Belo Horizonte, em região de cerrado com remanescentes de matas ciliares. A ordem evolutiva e sistemática das espécies segue Sick (1997).

 

Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) - Família Accipitridae

Ninho do gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) no alto de um angico. Foto: Marco Andrade.

O Gavião-de-penacho, também chamado de "Apacanim", é uma ave rara e ameaçada de extinção em Minas Gerais. No Brasil, sua ocorrência é esparsa e, geralmente, em grandes áreas de florestas. Em setembro de 1997, durante uma viagem de estudos de campo na Reserva da Fazenda Jaguara no município de Matozinhos, tivemos a satisfação de reencontrar um ninho do Gavião-de-penacho em uma mata de galeria onde já havíamos realizado estudos sobre a nidificação deste gavião (Andrade et al. 1997). Esta pequena mata, com cerca de 50 ha, encontra-se ilhada no meio de um cerrado já bastante alterado pela agropecuária. O ninho, construído com fortes e grandes galhos e gravetos, havia sido reformado e estava posicionado em uma enorme forquilha de um Angico, a cerca de 25 m do solo. Observamos que havia um indivíduo adulto deitado no centro do ninho, em posição de incubação. Então, membros de nossa equipe prepararam os equipamentos de escalada e subiram até o ninho. Nele encontraram apenas um ovo de cor branca que estava em cima de folhas verdes, em uma concavidade. Quando a equipe estava subindo na árvore o indivíduo adulto voou para uma árvore próxima e começou a emitir vozes de alarme. Permaneceu neste pouso por alguns minutos e depois voou para outra árvore também próxima ao ninho. Após o ovo ser fotografado, a equipe desceu da árvore e saiu do local para que o indivíduo adulto retornasse ao ninho. Aspectos sobre a biologia reprodutiva de aves de rapina de grande porte, no Brasil, são pouco conhecidos e precisam ser melhor pesquisados visando a conservação das espécies e seus habitats.

 

Gavião-casaca-de-couro (Buteogallus meridionalis ) - Família Accipitridae

Ninho do gavião-casaca-de-couro (Buteogallus meridionalis), no alto de um pequizeiro, contendo um filhote. Foto: Marco Andrade.

É um grande gavião campestre relativamente comum de ser observado. Habita campos, beira de brejos, manguezais e cerrado. Ocorre do Panamá à Argentina, todo o Brasil, sendo restrito na Amazônia (Sick 1997). Em Minas Gerais, este gavião, também conhecido por Gavião-caboclo, Gavião-telha, Gavião-fumaça ou Gavião-rapadura, nidifica em áreas sob o domínio do cerrado em árvores de médio a grande portes. Em 31 de setembro de 1997, encontramos um ninho no alto de um pequizeiro, na Fazenda Império (próximo à Fazenda Jaguara), município de Matozinhos, a cerca de 65 km de Belo Horizonte. O ninho estava apoiado em galhos de uma das extremidades da árvore a cerca de 5 metros de altura do solo e foi construído com gravetos e pequenos galhos secos. No ninho havia um único filhote já emplumado e com poucos dias de vida, que media 12 cm e pesava 63 gramas. Sua envergadura era de apenas 13,5 cm. O filhote apresentava uma larga faixa superciliar creme, um anel periocular anegrado, uma faixa branca na nuca, dorso e asas anegrados, ventre creme com estrias longitudinais negras. A cerca de 500 m deste local, foi encontrado outro ninho de B. meridionalis no alto de uma árvore em uma pastagem no cerrado. Na Argentina, três ninhos deste gavião foram estudados e em todos haviam apenas um ovo elíptico e branco. Estes ninhos estavam situados no alto de árvores entre 10 a 12 m de altura (De la Penhã 1992).

 

Socozinho (Butorides striatus) - Família Ardeidae

Detalhe do ninho do socozinho (Butorides striatus) contendo três ovos. Foto: Marco Andrade.

Em setembro de 1997 encontramos um ninho de Socozinho às margens de uma pequena lagoa de um sítio no Condomínio Nossa Fazenda. O ninho foi construído com gravetos secos que estavam apoiados em um galho grosso de uma árvore que avançava sobre a água. Como acontece nos Ardeídeos, o ninho era frágil, raso e os ovos estavam bem visíveis. No ninho haviam três ovos de cor azul-esverdeada ou azul celeste (ver foto). Somente um indivíduo adulto foi observado incubando e protegendo os ovos. Quando alguma pessoa se aproximava do local do ninho, o indivíduo adulto se afastava balançando a cabeça e a cauda, deixando os ovos expostos a predadores. Segundo De la Penhã (1995), os ovos são postos a cada 48 horas, o período de incubação é em torno de 20 a 21 dias e os filhotes permanecem no ninho cerca de 15 a 16 dias. Butorides striatus é uma ave migratória, geralmente solitária, e às vezes nidifica em colônias (Sick 1997).

 

Peitica (Empidonomus varius) - Família Tyrannidae

Em dezembro de 1997 encontramos um ninho do Peitica em uma árvore de graviola, a cerca de três me de altura do solo, no Sítio da Princezinha, no Condomínio Nossa Fazenda, município de Esmeraldas, a 35 km de Belo Horizonte. O ninho era aberto, em forma de uma tigela rasa e relativamente frágil. O material utilizado na construção foi pequenos palitos entrelaçados com gavinhas secas. O ninho media cerca de 12,5 cm de diâmetro. No ninho haviam dois filhotes já emplumados. Somente um indivíduo adulto foi observado alimentando os filhotes com larvas de insetos e defendendo o território próximo ao ninho. Sempre que algumas pessoa se aproximava do ninho, o indivíduo adulto mostrava-se agitado, emitindo fortes vocalizações e, às vezes, alçava vôos rasantes sobre o ninho. Segundo De la Penhã (1988), E. varius põe dois ovos branco-creme com pintas castanhas e cinzas, mais concentradas no polo maior. Empidonomus varius adulto mede 19 cm, é migratório e ocorre em todas as regiões do Brasil (Sick 1997).

 

Caneleiro-verde (Pachyramphus viridis) - Familia Tyrannidae

Em outubro de 1994, registramos um casal nidificando no alto de um Pinheiro (Pinus sp), a cerca de 8 m do solo, em um jardim arborizado de um sítio, no Condomínio Nossa Fazenda (Andrade, 1996). Em novembro de 1997, encontramos outro ninho do Caneleiro-verde sendo construído desta vez no alto de um Guapuruvu, a cerca de 12 m de altura, em outro sítio do Condomínio. O ninho era esférico, em forma de uma bola, com uma entrada lateral. O casal trabalha junto na confecção do ninho, incubação e alimentação dos filhotes. Vocalizam bem próximo ao ninho e defendem seu território contra intrusos. Segundo Fraga & Narosky (1985), Pachyramphus viridis põe de 2 a 4 ovos de coloração cinza-pardacento claro ou ocre, com manchas pardas em um dos polos. Nesta mesma árvore, a cerca de três metros do ninho do Caneleiro-verde, um casal de Caneleiro-de-boné-negro (Pachyramphus validus) também estava construindo um ninho esférico, com material constituído por raízes, folhas secas, paina. É comum estas duas espécies nidificarem na região. Pachyramphus viridis mede 14 cm e pode ocorrer em todo o Brasil.

 

 

Referências bibliográficas

 

Andrade, M.A. 1996. Observações sobre ninhos e ovos de algumas aves em Minas Gerais. Atualidades Ornitológicas, (74): 13, nov/dez.

Andrade, M.A. 1997. A Vida das Aves. Belo Horizonte: Acangaú. 160p. (2ª edição)

Andrade, M.A. et al. 1997. Primeiro anilhamento de Spizaetus ornatus (Accipitridae) no Brasil e dados sobre a sua nidificação em Minas Gerais. IN: Resumos do VI Congresso Brasileiro de Ornitologia, Belo Horizonte, UFMG. p. 175.

De La Peña, M. 1988. Guia de Aves Argentinas: Passeriformes. Tomo V. Buenos Aires: LOLA.

De La Peña, M. 1992. Guia de Aves Argentinas. 2ª Edição, Tomo II (inclui ninhos e ovos). Buenos Aires: LOLA.

De La Peña, M. 1995. Ciclo Reprodutivo de las Aves Argentinas. Santa Fé, Argentina: Centro de Publicaciones, Universidad Nacional del Litoral. 194 p.

Fraga, R. & Narosky, S. 1985. Nidificacion de las aves argentinas. Buenos Aires: Asociación Ornitológica del Plata.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

 


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Última modificação (Last modified): 02-mar-2014