Edição Número 83 - Maio/Junho de 1998 - Pág. 11 -ISSN 0104-2386

AO Number 83 - May/June 1998 - P.11

 

Uma nova espécie de Scytalopus (Rhinocryptidae) descoberta no Estado do Paraná

 

Marcos Ricardo Bornschein1, 2, 3, Bianca Luiza Reinert1, 2, 3 e Mauro Pichorim4 - Curitiba-PR

Macuquinho-da-várzea: uma nova espécie desconhecida da ciência descoberta nas várzeas da região metropolitana de Curitiba, Paraná, sul do Brasil. Fotos: Tom Grando-Jr.

Vista geral do local da descoberta do macuquinho-da-várzea, área que será completamente alagada ainda este ano pela Barragem do Iraí. A floresta que atravessa a várzea acompanha o curso do rio Iraí. Foto: Mauro Pichorim.

 

Com o objetivo de conhecer as aves das paisagens abertas do Estado do Paraná, sul do Brasil, visitamos em setembro de 1991 os campos úmidos do rio Iraí, que se situam nas proximidades de Curitiba. Causou grande surpresa a observação de três exemplares do curiango-do-banhado (Eleothreptus anomalus), uma ave pouco conhecida e ameaçada de extinção (Bernardes et al. 1990, Collar et al. 1992). Buscando obter maiores informações a seu respeito, investigamos o local diversas vezes até meados de 1996, parte deste período desenvolvendo um projeto apoiado pela American Bird Conservancy. Em abril de 1997 retornamos ao rio Iraí, quando observamos alguns pássaros escuros parecidos com os machos adultos do tiziu (Volatinia jacarina) voando curtas distâncias sobre os campos. Chegando quase a pegar um indivíduo com as mãos, pudemos identificá-lo como sendo um macuquinho (Scytalopus). De início, pensamos tratar-se de machos adultos do macuquinho-serrano (S. speluncae), concordando com a identificação que sempre havíamos dado ao macuquinho ouvido na região. No entanto, suspeitando da coloração e principalmente do ambiente de ocorrência, procuramos confirmar a identificação. A partir disso, obtivemos alguns exemplares e também gravações, cujas análises provaram pertencer a uma nova espécie de Scytalopus desconhecida da ciência.

A família Rhinocryptidae, na qual inclui-se a nova espécie, é composta de 12 gêneros (Sibley e Monroe Jr. 1990), dos quais o mais politípico é Scytalopus, que sofreu grande especiação na Cordilheira dos Andes (Fjeldså e Krabbe 1990, Whitney 1994). Os autores são divergentes quanto ao número de espécies, considerando desde 13 (Sibley e Monroe Jr. 1990, 1993) até 37 (Krabbe e Schulenberg 1997). Nos Andes há ainda espécies novas não descritas e outras cujos nomes não podem ser aplicados com certeza, principalmente pela inexata procedência de alguns tipos (Fjeldså e Krabbe 1990, Whitney 1994, Stotz et al. 1996, Krabbe e Schulenberg 1997). No Brasil foram descobertas até então quatro espécies: S. speluncae e S. indigoticus (macuquinho-perereca) com grande distribuição, S. novacapitalis (macuquinho-de-brasília) no Brasil Central (Sick 1997) e S. psychopompus (macuquinho-baiano) no sul da Bahia (Teixeira e Carnevalli 1989).

A descrição da nova espécie será publicada na revista Ararajuba, de junho deste ano, com o apoio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza. No trabalho a denominamos com o nome comum de macuquinho-da-várzea e o científico, que ainda não pode ser divulgado, em homenagem a sua localidade-tipo, rio Iraí.

O novo Scytalopus se assemelha ao macuquinho-serrano (S. speluncae), diferindo no colorido da plumagem, na forma das retrizes, em três características do osso esterno, em cinco características da morfologia da siringe (aparelho vocal das aves) e no canto.

O macuquinho-da-várzea é uma ave de pequeno porte, com cerca de 12 a 15 g, que apresenta coloração preta no dorso e cinza no ventre, tanto nos machos quanto nas fêmeas (figura 1). Habita brejos de várzeas situados na planície de inundação de alguns rios (figura 2), onde a vegetação é alta (ca. 60–180 cm) e forma uma trama densa e fechada de finas folhas de capins e ciperáceas. Excetuando escassas briófitas, o chão da várzea é desprovido de pequenos vegetais, certamente devido a pouca luminosidade, o que confere um aspecto de solo nu. Grande parte da luz é retida pela vegetação. Na metade da altura da várzea a luminosidade é equivalente a do estrato inferior de uma floresta primária. Rente ao solo a luminosidade é quase nula, tal qual uma noite.

Devido as características do ambiente onde vive, dificilmente é observado. No entanto, deflagra-se mais facilmente pelo canto, que consiste da prolongada repetição de uma nota curta. Quando irritado, chega a cantar sem interrupções por mais de dez minutos.

Encontramos a nova espécie somente em três áreas, todas situadas na região metropolitana de Curitiba. Nas margens do rio Iraí ela é comum, mas o local será alagado ainda este ano pela Barragem do Iraí, que foi projetada para abastecer Curitiba com água. Nas outras duas áreas ela aparentemente é rara. Estes locais já sofreram queimadas e no momento estão sendo parcialmente aterrados. As estradas que margeiam estas várzeas provocaram um parcial represamento, causando o desaparecimento da vegetação original nos pontos mais fundos e a substituição por taboa (Typha dominguensis). Talvez pela ação do fogo, uma Mimosaceae está invadindo e descaracterizando grande parte do resto destas várzeas.

Desde a colonização de Curitiba, as várzeas da região começaram a ser fortemente impactadas. Muitos bairros da cidade foram construídos sobre este ambiente. Atualmente, as poucas áreas que sobraram continuam sendo destruídas pela extração de areia do subsolo, pelo pastoreio do gado, por aterros para loteamentos e construções de estradas, pelo fogo etc. Nos próximos anos o governo ainda vai construir mais três barragens nos arredores de Curitiba, que também alagarão muitas várzeas.

Embora tenhamos efetuado registros do macuquinho-da-várzea apenas na região metropolitana de Curitiba, acreditamos que ele exista em outras áreas. Na descrição científica comentamos que ele pode ocorrer em todas as várzeas do planalto meridional do Brasil e, talvez com menor probabilidade, também nos ambientes parecidos que existem na região dos campos gerais e campos de altitude.

Neste sentido, cumpre ressaltar que investigamos muitas várzeas do interior do Paraná e constatamos que elas têm sofrido semelhante perda de área e descaracterização ao observado nos arredores de Curitiba. A título de exemplo, a várzea do Parque Estadual de Vila Velha, além de queimar freqüentemente, está sendo parcialmente submersa por uma barragem que visa formar um lago com propósitos recreativos. No município de Castro, a agricultura mecanizada vai até as margens dos rios, passando pelas várzeas. Na região do rio Tibagi, também há o problema da mineração de areia etc.

A perda de hábitat, a fragmentação de áreas e os impactos sobre os locais remanescentes são tão intensos, que certamente devem ter reduzido drasticamente as populações do novo Scytalopus. Aliado a isto, há que se levar em conta também que esta espécie apresenta limitada capacidade de vôo, tornando-se particularmente suscetível ao fogo.

Considerando ainda que o homem desconhece a importância do ambiente que o rodeia, que as fiscalizações são quase inexistentes, que a prática dos incêndios não irá parar da noite para o dia e que o gerenciamento político e o crescimento populacional do Paraná não se harmonizarão milagrosamente com os recursos naturais, vislumbramos um panorama crítico para a conservação do novo Scytalopus.

Por causa de todos os fatores apresentados, acreditamos que o macuquinho-da-várzea é uma espécie ameaçada de extinção.

A conservação do ambiente do novo Scytalopus também é necessária para a manutenção de outras aves ameaçadas, a saber: curiango-do-banhado (E. anomalus), tio-tio (Phacellodomus striaticollis), papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta) e bonito-do-piri (Tachuris rubrigastra). Além disso, as várzeas da região metropolitana de Curitiba contém muitas plantas ameaçadas de extinção (Hatschbach e Ziller 1995), várias delas endêmicas e já abrigaram outras hoje extintas (G. Hatschbach com. pess., 1998). A perpetuação das várzeas ainda assume especial importância ao homem, pois desempenham importante papel na manutenção da qualidade da água.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bernardes, A. T., A. B. M. Machado e A. B. Rylands (1990) Fauna brasileira ameaçada de extinção. Belo Horizonte: FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS para a Conservação da Diversidade Biológica.

Collar, N. J., L. A. P. Gonzaga, N. Krabbe, A. Madroño Nieto, L. G. Naranjo, T. A. Parker III e D. C. Wege (1992) Threatened birds of the Americas. The ICBP/IUCN Red Data Book 2. 3ª ed. Cambridge: International Council for Bird Preservation.

Fjeldså, J. e N. Krabbe (1990) Birds of the high Andes. Svendborg: Zoological Museum Univ. of Copenhagen e Apollo Books.

Hatschbach, G. G. e S. R. Ziller (1995) Lista vermelha de plantas ameaçadas de extinção no Estado do Paraná. Curitiba: Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SEMA e Deutsch Gesellschaft für Taechnische Zusammenarbeit – GTZ.

Krabbe, N. e T. S. Schulenberg (1997) Species limits and natural history of Scytalopus tapaculos (Rhinocryptidae), with descriptions of the Ecuadorian taxa, including three new species. Ornithological Monographs 48:47-88.

Sibley, C. G. e B. L. Monroe Jr. (1990) Distribution and taxonomy of birds of the world. New Haven: Yale Univ. Press.

Sibley, C. G. e B. L. Monroe Jr. (1993) A suplement to distribution and taxonomy of birds of the world. New Haven e London: Yale Univ. Press.

Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Edição revista e ampliada por José Fernando Pacheco. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

Stotz, D. F., J. W. Fitzpatric, T. A. Parker III e D. K. Moskovits (1996) Neotropical birds: Ecology and conservation. Chicago: The Univ. of Chicago Press.

Teixeira, D. M e N. Carnevalli (1989) Nova espécie de Scytalopus Gould, 1837, do nordeste do Brasil (Passeriformes, Rhinocryptidae). Bol. Mus. Nac., Zool., 331:1-11.

Whitney, B. M. (1994) A new Scytalopus Tapaculo (Rhinocryptidae) from Bolivia, with notes on other Bolivian members of the genus and the magellanicus complex. Wilson Bull. 106(4):585-614.

1 Pesquisador(a) colaborador(a) da Divisão de Museu de História Natural "Capão da Imbuia", SMMA-PMC, Curitiba, Paraná, Brasil.

2 Pós-graduação em Engenharia Florestal/Conservação da Natureza, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil.

3 Endereço para correspondência: Av. República Argentina 1927, apto. 903, 80260-010, Curitiba, Paraná, Brasil. E-mail: mbr@bbs2.sul.com.br

4 Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná, Caixa Postal 19020, 81531-990, Curitiba, Paraná, Brasil. E-mail: pichorim@bio.ufpr.br

 


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Última modificação (Last modified): 03-mar-2014