Edição Número 83 - Maio/Junho de 1998 - Pág. 11 -ISSN 0104-2386

AO Number 83 - May/June 1998 - P.11

 

Notas sobre a Águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) e registros de sua ocorrência em Minas Gerais.

Marco Antônio de Andrade & Márcia Viegas Greco de Andrade - Belo Horizonte-MG

 

Informações gerais

 

Harpyhaliaetus coronatus é uma águia de grande porte que mede cerca de 66 cm de comprimento e pesa cerca de 3 kg. Sua distribuição geográfica abrange a Bolívia, Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Possui uma coloração cinza escura por quase todo o corpo, sendo um pouco mais clara nas partes inferiores. As asas são largas; cauda curta, com a ponta e uma faixa transversal branca; as pernas são relativamente longas e amareladas (Sick 1997). No alto da cabeça destaca-se um topete com poucas penas. O imaturo tem uma faixa superciliar creme e as partes inferiores com estrias esbranquiçadas. Habita áreas abertas e pode ser observada no crepúsculo. Pousa no alto de buritis, postes, onde emite uma fina voz de alarme. Sobrevoa veredas e matas ciliares no cerrado. Nidifica no alto de árvores, a cerca de 6-8 m de altura. Fora do período reprodutivo vive solitariamente.

 

Distribuição em Minas Gerais

 

No Estado de Minas Gerais já foi observada nos biomas do cerrado e da mata atlântica. No período de 24 a 28 de janeiro de 1997 um casal foi observado na área do Santuário de Vida Silvestre da Fazenda São Miguel, que possui cerca de 10.000 ha., no município de Unaí, noroeste do Estado, a cerca de 900 m de altitude (Andrade & Andrade-Greco 1997). Nesta área um casal já nidificou no cerrado, na borda de uma vereda, a cerca de seis metros do solo, onde capturava tatus para se alimentar (O. Torres, com. pes.). Há vários registros de sua ocorrência na região de Unaí, desde 1990.

Em 1997, membros do Clube de Observadores de Aves - COA observaram a águia-cinzenta sobrevoando a Estação Ecológica do Tripuí, em Ouro Preto (R. Gontijo, com. pes.). Provavelmente ocorre também na região de Mariana, próximo à Serra do Caraça. Em 5 de abril de 1996, um indivíduo foi observado no município de Itambé do Mato Dentro, em área de campo rupestre (Ribeiro 1997). Este parece ser o primeiro registro da espécie para a região da Serra do Cipó, no complexo do Espinhaço, divisor dos biomas do cerrado e mata atlântica. É bem provável que ela ocorra em outras localidades na Serra do Cipó, onde há predominância de campos-cerrado.

Em 18 de janeiro de 1998, um indivíduo foi observado no município de Uberlândia, por Dimas Pioli, pousado em um poste alto de transmissão de eletricidade, no meio de um pasto com árvores esparsas, a cerca de 100 m da estrada Uberlândia-Uberaba (Pioli, com. pes.). Em 26 de abril de 1998, dois indivíduos foram observados na mesma linha de transmissão, na mesma rodovia, próximo do local da observação anterior, no município de Uberaba, região de cerrado (Pioli, com. pes.).

Há também registros de sua ocorrência na localidade denominada Chapada de São Domingos, Carbonita, julho de 1988 (observação de G.T. Mattos, in litt.) e em Caldas (1927; in Collar et al 1992).

 

Ocorrência em outros estados e em unidades de conservação

 

No Brasil, sua distribuição geográfica abrange os Estados do Maranhão, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Collar et al 1992). No Rio Grande do Sul os registros de ocorrência da águia-cinzenta são escassos, sendo o último datado de 1978 (Belton 1994).

Em Unidades de Conservação do Brasil, Harpyhaliaetus coronatus já foi registrada no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros e no Parque Nacional das Emas, Estado de Goiás, em áreas abertas no cerrado (Wege & Long 1995). Na Chapada dos Guimarães (MT), no Parque Nacional de Brasília (DF), na Serra da Bocaina (SP) e outras localidades (Collar et al 1992). Observada no Santuário de Vida Silvestre da Fazenda São Miguel, município de Unaí (MG), na Estação Ecológica do Tripuí, próximo ao Parque Estadual do Itacolomi, municípios de Ouro Preto e Mariana. Há um registro de nidificação da águia-cinzenta na Estação Ecológica do IBGE (DF), perto de Brasília (O.Torres, com. pes. 1997).

 

Águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) pousada em um tronco.

Desenho de: Giancarlo Zorzin, 1998.

 

 

 

 

Locais de ocorrência da Águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) em Minas Gerais e limites. Adaptado de: Machado et al, 1998 (Fundação Biodiversitas).

 

Status da Águia-cinzenta

 

No panorama mundial, de acordo com a situação definida pela IUCN (Lista Vermelha, 1996) a águia-cinzenta encontra-se na categoria de espécie vulnerável. Está presente nos anexos da CITES: Anexo II. Segundo a importante publicação "Birds to Watch 2: The World List of Threatened Birds" (Collar et al, 1994) Harpyhaliaetus coronatus está incluída na categoria de vulnerável. É considerada rara e geralmente escassa na natureza (Mountfort 1988). No Brasil, de acordo com a lista oficial do IBAMA (1989) a espécie é considerada ameaçada de extinção. Segundo a "Lista da Fauna Ameaçada de Extinção de Minas Gerais", publicada na Imprensa Oficial de Minas Gerais, em 20 de janeiro de 1996 (deliberação do COPAM nº 041/95) a espécie está ameaçada, na categoria em perigo. Na recente publicação: "Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna de Minas Gerais", Harpyhaliaetus coronatus é citada (págs.:222-223) como uma espécie em perigo de extinção no Estado (Machado et al 1998).

Particularmente, consideramos Harpyhaliaetus coronatus em melhor situação em relação aos demais Acipitrídeos florestais de grande porte que estão ameaçados. Não é uma espécie dependente exclusivamente de ambiente florestal e parece estar ampliando sua área de distribuição.

 

Principais ameaças à espécie

 

Os critérios utilizados para a inclusão na lista das espécies ameaçadas de extinção em Minas Gerais foram: destruição de habitat, exploração predatória (caça, perseguição), populações pequenas e presença na lista oficial do IBAMA (Machado et al 1998).

Sem dúvida, a principal ameaça à espécie é a drástica destruição de seu habitat, que nos últimos anos vem diminuindo consideravelmente em Minas Gerais e outros Estados do país. Outra ameaça é a sua perseguição ou caça por fazendeiros, pois devido a seu grande porte pode ser considerada predadora de animais domésticos. Assim como outras aves de rapina de grande porte, pode também correr o risco de ser abatida como um troféu de caça. No Estado de Santa Catarina a ampliação da agropecuária e as queimadas dos campos, que restringem os campos naturais, juntamente com a caça, devem estar contribuindo para a diminuição de sua população (Rosário 1996).

 

Estratégias de conservação

 

Algumas medidas devem ser tomadas a curto prazo e para isso recomenda-se uma melhor proteção dos remanescentes de cerrado, veredas e matas ciliares onde a espécie ainda pode ocorrer no Estado, a realização de estudos em campo que visem determinar sua ocorrência em outros locais e o conhecimento de sua biologia reprodutiva. Como ação preventiva, deve-se fazer um controle mais rígido dos desmatamentos e queimadas em sua área de distribuição.

Uma eficaz estratégia de conservação e manejo da espécie, a médio e longo prazos, seria a realização de um programa de reprodução em cativeiro, utilizando-se de zoológicos e criadouros conservacionistas credenciados junto ao IBAMA, visando a sua reintrodução na natureza. Programas de educação ambiental em escolas e para funcionários de empresas proprietárias de áreas onde Harpyhaliaetus coronatus ocorre também devem ser desenvolvidos, afim de conscientizar as comunidades locais sobre a importância desta espécie na cadeia biológica, onde ocupa elevados níveis tróficos. Sugere-se também a identificação de áreas chaves para a conservação dessa espécie e o ecossistema onde vive.

 

Agradecimentos

 

Agradecemos especialmente a Dimas Pioli, colega observador de aves na região de Uberlândia e outras cidades do Triângulo Mineiro, pelo fornecimento de dados de campo; à Osvaldo Torres, pelo apoio durante nossa estada no Santuário de Vida Silvestre da Fazenda São Miguel e fornecimento de informações sobre a fauna da região de Unaí; e aos colegas do Clube de Observadores de Aves – COA/BH.

 

Referências

 

Andrade, M. A. & M. V. Andrade-Greco. 1997. Avifauna na Fazenda São Miguel. Belo Horizonte: Fundação Acangaú. 25 p. (Relatório Técnico não publicado).

Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia. São Leopoldo: UNISINOS. 584 p.

Collar, N.J.; L.P.Gonzaga; N.Krabbe; A.Madroño Nieto; L.G.Naranjo; T.A.Parker III; D.C. Wege (1992). Threatened Birds of the Americas: The ICBP/IUCN Red Data Book. 3ª ed., parte 2. Cambridge: ICBP.

Collar, N.J.; M.J. Crosby & A.J. Stattersfield (1994). Birds to Watch 2: The World List of Threatened Birds. Cambridge: BirdLife International. 407 p.

Machado, A. et al (1998). Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas. 605 p.

Mountfort,, G. (1988). Rare Birds of the World. London: Collins/ICBP Handbook.

Ribeiro, R.C.C. 1997. Ocorrência de águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) no município de Itambé do Mato Dentro, MG. Atualidades Ornitológicas (78): 14.

Rosário, L. A. 1996. As aves em Santa Catarina: distribuição geográfica e meio ambiente. Florianópolis, FATMA. 326 pp.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Wege, D.C. & A.J. Long. 1995. Key Areas for Threatened Birds in the Neotropics. Cambridge: BirdLife International. 311 p.

 


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Última modificação (Last modified): 03-mar-2014