Edição Número 83 - Maio/Junho de 1998 - Pág. 5 -ISSN 0104-2386

AO Number 83 - May/June 1998 - P.5

 

O banho do beija-flor-rubi, Clytolaema rubricauda, observado no Parque Estadual da Pedra Azul, Estado do Espírito Santo

 

Marcelo Ferreira de Vasconcelos e Eurípedes Pontes Júnior - Belo Horizonte

 

Os beija-flores são aves restritas às Américas, com 78 espécies no Brasil (Sick 1997). Apesar destas aves terem sido intensivamente estudadas por Augusto Ruschi no Estado do Espírito Santo, muito ainda se tem o que descobrir a respeito da história natural dos beija-flores (Y. Oniki, com. pess. 1997).

De acordo com Sick (1997), os beija-flores banham-se em folhas molhadas, tomam banhos de chuva ou mesmo dos respingos de cascatas e de regadores de grama, podem imergir ligeiramente em córregos de águas límpidas e até mesmo nos copos centrais de bromeliáceas.

O beija-flor-rubi, Clytolaema rubricauda (Figura 1), é uma espécie florestal do Sudeste do Brasil, sendo que os machos possuem a garganta vermelha (quando vista ao sol) e as fêmeas e os machos jovens possuem coloração canela nas partes inferiores (Sick 1997). Ruschi (1973) descreveu o banho de C. rubricauda da seguinte forma; "...O banho desta espécie é tomado nas cascatas ou jatos e respingos das mesmas, para tanto podem pousar sobre a rocha onde os respingos caem ou diretamente vão em vôo direto ao jato de água, assim repetem por várias vezes, para buscarem em seguida um pouso para a higiene da plumagem...".

Este trabalho tem por objetivo descrever algumas observações sobre o comportamento de banho do beija-flor-rubi observado nos dias 10 e 11 de fevereiro de 1998 no Parque Estadual da Pedra Azul em uma altitude de 1470 m. O Parque Estadual da Pedra Azul (Figura 2) (20o24’S; 41o01’W) está localizado no município de Domingos Martins, Estado do Espírito Santo. A altitude na área varia de 1220 a 1909 m, compreendendo as vegetações dos afloramentos rochosos e da floresta ombrófila altimontana. A avifauna desta área já foi anteriormente estudada por Ruschi (1982) e mais recentemente por Bauer et al. (1997).

Por volta das 16:00 h do dia 10 de fevereiro de 1998, foi observado um indivíduo macho de C. rubricauda se banhando na borda da mata em um córrego raso (cerca de 0,5 cm de profundidade) de água límpida que escorria superficialmente sobre o afloramento de granito. Este pequeno córrego possuía uma largura de cerca de 60 cm. A ave pousou no córrego sem bater as asas (Figura 3A), mergulhou suas partes inferiores levemente na água (Figura 3B) e chacoalhou o corpo batendo as asas, ainda pousada no mesmo local (Figura 3C). A ave levantou vôo e pousou em alguns galhos na borda da mata, emitindo uma vocalização do tipo "puí" e retornou a repetir a mesma seqüência de comportamentos descrita acima, no mesmo local anteriormente observado.

No dia 11 de fevereiro de 1998, foi observado no mesmo local, por volta das 14:00 h, o mesmo comportamento também por parte de um macho de C. rubricauda (provavelmente o mesmo indivíduo observado no dia anterior). A ave abaixava o corpo na água corrente superficial e chacoalhava-se, batendo as asas da mesma forma descrita acima (Figura 3). Este comportamento durou cerca de 1,5 min. e após este tempo, a ave levantou vôo pousando em um galho de um arbusto da borda da mata. O comportamento de banho observado para o beija-flor-rubi no Parque Estadual da Pedra Azul difere dos descritos por Ruschi (1973, 1986), uma vez que em nossas observações não foi utilizado qualquer tipo de quedas d’água como cascatas, sendo o banho realizado apenas na água corrente superficial sobre o afloramento de granito.

 

Agradecimentos

 

Ao biólogo Edson Valpassos Reuter Motta pela hospedagem, amizade e companhia nas caminhadas e escaladas no Parque Estadual da Pedra Azul e a todos os funcionários da reserva, em especial aos guardas J. Bellon e "Primo".

 

Referências bibliográficas

 

Bauer, C., J.F. Pacheco e P.S.M. da Fonseca. 1997. As matas primárias do entorno do Parque Estadual da Pedra Azul (Sul do Espírito Santo) e sua relevância na manutenção da avifauna florestal dependente. p. 136. In: VI Congresso Brasileiro de Ornitologia. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais. Resumos...

Ruschi, A. 1973. Algumas observações sôbre: Clytolaema rubricauda (Boddaert), 1783. Boletim do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, Série Zoologia 72:1-3.

Ruschi, A. 1982. Mamíferos e aves observadas na Reserva Biológica de Pedra Azul no Estado do Espírito Santo. Boletim do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, Série Zoologia 103:1-15.

Ruschi, A. 1986. Aves do Brasil, beija-flores, v. 5. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.

 

Figura 1. O beija-flor-rubi, Clytolaema rubricauda fotografado no Parque Estadual da Pedra Azul, ES. Foto: M. F. Vasconcelos.

Figura 2. Vista parcial do Parque Estadual da Pedra Azul, no município de Domingos Martins, ES. Foto: M. F. Vasconcelos.

Figura 3. Comportamento de banho do beija-flor-rubi, Clytolaema rubricauda, observado no Parque Estadual da Pedra Azul. A- Ave pousada na água corrente superficial. B- Imersão das partes inferiores na água. C- Chacoalhar do corpo e bater das asas. Esquemas realizados a partir de observações de campo e fotografias.

 


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Última modificação (Last modified): 03-mar-2014