N.85 - Setembro/Outubro (September/October) de 1998

 

Notulae et Corrigenda X

O status de ,,acurana" como nome vulgar específico do bacurau Hydropsalis climacocerca

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro

O bacurau-tesoura Hydropsalis climacocerca, de ampla distribuição nas várzeas amazônicas tem sido preferencialmente denominado ,,acurana" por Sick (1997. Ornitologia Brasileira, p. 420) e por Willis & Oniki (1991. Nomes gerais paras aves brasileiras, p. 22). Na fonte mais antiga, que foi possível apurar, o uso de ,,acurana" na Amazônia está indicado apenas para Podager nacunda em Snethlage (1914. Catálogo das aves amazônicas, p. 179), embora no índice da obra tal nome apareça grafado unicamente como acuraua. Sob a denominação de acuraua, esta autora nomeia também Hydropsalis climacocerca e Nyctidromus albicollis. Diretamente por compilação deste dado, duas décadas mais tarde, Cunha Vieira (1936. Nomes vulgares das aves do Brasil, Rev. Mus. Paul. 20:440) utilizou ,,acurana" como nome preferencial de Nyctidromus albicollis, sem fazer alusão a forma acuraua e ainda, curiosamente, Pinto (1938. Catálogo das aves do Brasil, p. 233-237) se utiliza apenas da forma ,,acurana" como sinônimo dos nomes populares das mesmas espécies indicadas anteriormente por Snethlage.

A julgar pelas evidências é possível chegar a duas conclusões relativas ao nome ,,acurana": a primeira é que este não é denominação popular específica de Hydropsalis climacocerca e segundo, que estamos diante de uma "palavra de papel", segundo o jargão lexicográfico.

A pedido, Mauro Villar (do Instituto Antonio Houaiss de Lexicografia, Rio de Janeiro), informa que a locução "palavra de papel" possui a seguinte acepção técnica: "palavra originária de erro ortográfico, tipográfico ou de má leitura de originais ou ainda de pronúncia incorreta".

Logo, ,,acurana" existiu apenas na disseminação desavisada do evidente erro tipográfico da obra de Snethlage, ou seja, a palavra real sempre foi acuraua. Esta, por fim, é apenas sinônimo da designação bacurau no entender do caboclo da Amazônia, sendo como esta igualmente de origem onomatopéica.

 

UFRJ- Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil


 

Mais uma espécie de ave para o Estado de Minas Gerais: Caprimulgus hirundinaceus vielliardi

Marcelo Ferreira de Vasconcelos e Lívia Vanucci Lins - Belo Horizonte

Recentemente descrita por Ribon (1995), da região de Colatina (ES), a subespécie Caprimulgus hirundinaceus vielliardi foi encontrada por nós em julho e setembro de 1997 em hábitats xéricos de afloramentos rochosos no município de Aimorés (MG). Embora Ribon (1995) cite a ocorrência de um espécime no Museu Nacional do Rio de Janeiro proveniente de Jequitinhonha (MG), que foi identificado por Helmut Sick como Caprimulgus nigrescens e que talvez possa se tratar de C. h. vielliardi, estes são os primeiros registros documentados desta ave para o Estado de Minas Gerais, sendo que a espécie não consta na listagem de aves do Estado (Mattos et al. 1993). Maiores detalhes sobre o hábitat desta ave em Minas Gerais e observações sobre seu comportamento estarão sendo publicados no próximo número de Ararajuba.

Agradecimentos

Agradecemos à IESA e à CEMIG pelo suporte financeiro deste trabalho.

 

Referências

 

Mattos, G. T., M. A. Andrade e M. V. Freitas. 1993. Nova lista de aves do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Acangaú.

Ribon, R. 1995. Nova subespécie de Caprimulgus (Linnaeus) (Aves, Caprimulgidae) do Espírito Santo, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia 12:333-337.

 

O bacurauzinho-da-caatinga, Caprimulgus hirundinaceus vielliardi fotografado em Aimorés (MG). Foto: M. F. Vasconcelos



Duas evidências de existência no passado do curiango-do-banhado, Eleothreptus anomalus no Estado do Rio de Janeiro

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro

O estado do Rio de Janeiro tem sido seguidamente omitido da distribuição de Eleothreptus anomalus, considerando que "entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul" seja a faixa usualmente constante nas obras gerais (Meyer de Schauensee 1966, Pinto 1978, Sick 1997) ou específicas (Straube 1990). Uma busca a fontes históricas da literatura ornitológica do estado revelou registros não acatados da espécie, ainda passíveis de uma revalidação.

Numa passagem do texto do trabalho de Euler (1869) referente a E. anomalus lê-se (traduzido do alemão): "Eu a encontrei nas coleções do Sr. de Roure, que a abateu nas florestas vizinhas [de Nova Friburgo]. Segundo o Prof. Burmeister [1856] o Sr. Beske igualmente remeteu de lá [exemplares da espécie] ao Museu de Berlim. Ela é de qualquer maneira habitante da nossa província".

Euler, em outra parte no mesmo artigo, informa que o Sr. de Roure mantinha uma coleção [de aves], e que as vendia para os museus europeus, mencionando especificamente o Museu da Basiléia, na Suiça. Entretanto, ele menciona que Roure há mais de 20 anos mantinha atividades nas montanhas de Nova Friburgo, mas precisamente em Macahé-Flusse, o que corresponderia a região atualmente conhecida como Macaé de Cima (cabeceiras of Rio Macaé). Jean de Roure é lembrado especialmente pela homenagem que recebeu na denominação científica da saíra-apunhalada, Nemosia rourei por ele coletada em 1870 (Veja AO 82:6). Por sua vez C. H. Beske ou Bescke, fora naturalista colecionador residente em Nova Friburgo, tendo sido conhecido comerciante de objetos de ciências naturais, sobretudo insetos (Sick 1997:54).

É plausível que não haja razões para suspeitar da origem das peles de E. anomalus – como fez Sick (1997:54) ao sugerir uma origem diversa da região de Nova Friburgo – após o testemunho publicado de C. Euler, acima transcrito. Como evidência marginal da presença da espécie na drenagem do Paraíba do Sul, é relevante mencionar a sua presença histórica no lado paulista deste vale, conforme material coletado por J. Natterer num área campestre em Mattodentro (Pelzeln 1869:12). Esta localidade visitada pelo célebre naturalista austríaco, em novembro de 1818, fica na região de Taubaté.

Esta nota foi viabilizada através da competente tradução do artigo de Euler realizada pelo querido amigo Johann Becker, entomologista do Museu Nacional, a quem agradeço. Sou grato ainda a Claudia Bauer e a Mort Isler, respectivamente, pela leitura crítica e envio de material bibliográfico.

Referências:

Burmeister, H. (1855) Systematische Uebersicht der Thiere Brasiliens, vol. 1. Berlin: Georg Reimer.

Euler, C. (1869) Beiträge zur Naturgeschichte der Vögel Brasiliens. J. Orn 17:241-255

Meyer de Schauensee, R. (1966) The species of birds of South America and their distribution. Narberth: Livingston.

Pelzeln, A. von (1869) Zur Ornithologie Brasiliens. Wien: A. Pichler’s Witwe & Sohn.

Pinto, O. M. O. (1978) Novo catálogo das aves do Brasil, primeira parte. São Paulo: Emp. Gráf. Rev. dos Tribunais.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Straube, F. C. (1990) Notas sobre a distribuição de Eleothreptus anomalus (Gould, 1837) e Caprimulgus longirostris longirostris Bonaparte, 1825 no Brasil (Aves: Caprimulgidae). Acta Biol. Leop. 12(2):301-312.

 

UFRJ- Instituto de Biologia, Depto. de Zoologia, Laboratório de Ornitologia, CCS Cidade Universitária, 21944-970 - Rio de Janeiro - RJ, Brasil

 

AO - SERVIÇOS - LINKS
Você pode enviar perguntas ou comentários sobre este site para ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS.
Send mail to ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS with questions or comments about this web site.
Última modificação (
Last modified): 04 março, 2014