N.86 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1998

 

Descrição da nidificação de Micrastur semitorquatus (Falconiformes: Falconidae) no interior de uma habitação rural, no Município de Sete Lagoas -MG.

 

Eduardo Pio Mendes de Carvalho Filho; Carlos Eduardo Alencar Carvalho; Gustavo Diniz Mendes de Carvalho.

ABSTRACT. Description of Micrastur semitorquatus (Falconiformes: Falconidae) nesting inside a rural dwelling. Description of a nest made in bathroom of an abandoned farmhouse near the city of Sete Lagoas, MG (20º02’S, 44º20’W). After noticing a couple of Micrastur semitorquatus on the surroundings of the house, their nest was found on the ground, inside the house. A tent made of cardboard was mounted near the nest, for better observation. It contained two brown eggs. Both birds, one the white phase (male) and the other on the beige (female), took care of the eggs, and used a small window to get in and of the house. Bones of quarries where found in the proximity of the nest.

 

O gavião – relógio, Micrastur semitorquatus é uma espécie grande, rabilonga, incomum e de colorido muito variado, contendo três fazes (branca, bege e preta). Seus hábitats são grandes florestas, sendo também observados em matas ciliares. Ocorre do leste da Colômbia às Guianas, até o Paraguai e nordeste da Argentina, incluindo o leste do Peru e do Equador e o norte da Bolívia.

Habita regiões florestais do Brasil oeste - setentrional, ocorrendo na Amazônia, Maranhão, Goiás, Mato Grosso e do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul, inclusive o leste de Minas Gerais. (Pinto 1978).

Aspectos sobre a sua biologia reprodutiva e comportamental, são pouco conhecidos. Na América Central e do Sul, merece destaque os estudos realizados por Rochard Boerregaard sobre biologia, conservação e status de Falconiformes (Boerregaard 1995), destacando-se o trabalho de Thorstrom et al. (1990).

Neste estudo apresentamos dados sobre a nidificação de gavião- relógio Micrastur semitorquatus no interior de uma habitação rural, sendo a primeira referência deste tipo de comportamento reprodutivo dessa espécie.

 

MÉTODOS E ÁREAS DE ESTUDO

 

O município Sete Lagoas localiza-se a 60 km ao norte de Belo Horizonte. (20º02`S, 44º20`W). A região é caracterizada pelo bioma de cerrado, contendo alguns fragmentos de matas e capoeiras. Este estudo foi desenvolvido em uma fazenda particular situada na região abrangendo uma área de 60 hectares.

As observações foram realizadas no final do mês de setembro ao início do mês de outubro de 1997, durante 6 visitas ao fragmento de mata da fazenda, totalizando cerca de 28 horas de observações. Nas idas ao local do ninho para auxiliar nas anotações, foram usadas tabelas de comportamento elaboradas pelo grupo.

Para uma melhor observação do comportamento e documentação fotográfica da espécie, foi montada uma tenda de papelão de aproximadamente um metro e meio de altura por um de largura, a uma distância de 4 metros do ninho. A tenda se localizava no corredor da casa enfrente a porta do banheiro. Dentro da tenda, uma pessoa ficava encarregada de tirar fotografias e fazer anotações. As observações foram transmitidas por um rádio de transmissão (walk-talk), que era mantido todo o tempo ligado.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Observamos no mês de setembro um casal de Micrastur semitorquatus constantemente aos arredores de uma pequena casa abandonada perto da mata ciliar da fazenda. No dia 28 de setembro de 1997 foi encontrado um ninho dessa espécie no interior da casa abandonada. O ninho se encontrava no piso de cimento do banheiro junto a parede. O ninho continha apenas uma câmara incubatória que foi arrumada com a terra que havia no piso. Neste havia dois ovos de cor marrom manchados de violeta. Os ovos mediam respectivamente 57,5mm x 44,2mm e 57,3mm x 44,4mm (figura 1). O casal de aves utilizava para a entrada e saída do recinto o basculante do banheiro que media 25cm x 14cm, onde pousavam antes de entrar ou sair.

Observamos que os dois pássaros se revezavam na incubação dos ovos (figura 2). Registrou-se que a coloração do macho estava na fase clara e a da fêmea na fase bege. Foram encontrados nas bordas do ninho, alguns ossos espécies de presas dos falcões. Os ossos encontrados eram de três presas de mesma espécie, contendo um conjunto de pernas e pés de uma ave e mais duas vértebras caudais e um tarço junto a tíbia. Constatamos que a espécie das presas era a Saracura Três Potes (Aramides cajanea) onde será confirmado em laboratório por técnicos no assunto. Em uma das visitas, vimos a fêmea sair do ninho com uma presa em uma das garras, assustada com a nossa chegada. A área de caça usada pelo casal era o fragmento de mata que continha um açude bem próximo.

No dia 5 de outubro de 1997, os ovos foram coletados por um funcionário da fazenda, pois no dia seguinte a casa iria ser ocupada por outros funcionários.

REFERÊNCIAS

Bierregaard, R. O. (1995). The biology and conservation status of central and sound American Falconiformes: a sugervey of current Knowledge. Bird conservation international 5:325-340.

Hoyo, Josep, Elliot, Andrew e Sargatal, Jordi (1994). HandBook of the birds of the world, volume 2. Bird life international Lynx Editions 638p.

Lufte, Jager D. (1997) Greifvogel & Eulen. Sehen Staunen.Wissen, Gerstenberg.60p.

Pinto, O. (1978). Novo catálogo das aves do Brasil. 1ª parte. São Paulo. 446p.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Pacheco José. F., Ed. Nova Fronteira.862p.

Snyder, Helen & Noel, Raptores Nort american Birds of Prey. voyageur Press.

Weidensaul, Scott. Raptores The Birds of Prey. An Almanac of Hawks, Eagles, and Falcons of the World. Lyons & Burford.382p.

figura1: Ninho com ovos de Micrastur semitorquatus situado no banheiro de

uma habitação rural. Crédito: Alessandro Diniz Sartorelli

figura2: Fêmea de Micrastur semitorquatus arrumando os ovos. Crédito: Eduardo Pio Mendes De Carvalho Filho

 

S .O .S Falconiformes – Rua Odilon Braga, N.º 1370, Mangabeiras,

CEP 30310-390.Belo Horizonte- MG.

Tel. (031)225-5597

CGC: 02.759.638/0001-36

E-mail: falconiformes@vsnet.com.br


 

ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES CONTIDAS NOS AUTOS DE INFRAÇÃO RELATIVOS À CAÇA, CATIVEIRO E COMÉRCIO ILEGAL DE AVES SILVESTRES, PARANÁ - BRASIL

Gisley Paula Vidolin1, Mauro de Moura Britto2 - Curitiba-PR

1 INTRODUÇÃO

 

O exercício da fiscalização no Estado do Paraná foi por muitos anos desenvolvido sem que se fizesse uma avaliação periódica do seu efeito, análise esta que poderia ter proporcionado novas ações a cada período. Com o objetivo de avaliar as informações registradas nos autos de infração relacionados à fauna, iniciou-se a execução deste trabalho. O tráfico e a comercialização de animais silvestres, bem como a estimativa de animais de interesse cinegético é caracterizado pela ausência de qualquer informação sistematizada e estatística por parte dos órgãos responsáveis pela fiscalização e defesa do meio ambiente, o que dificulta um prognóstico do impacto dessas atividades sobre a fauna regional e nacional (WWF, 1995).

Com o levantamento dos dados constantes nos autos de infração, pôde-se elaborar um banco de dados com informações desta natureza, o que possibilitou enumerar as espécies que sofrem maior pressão de caça, bem como aquelas destinadas ao cativeiro e ao comércio ilegal, e também as regiões do Estado onde estas práticas são mais freqüentes, além da possibilidade de avaliar o desenvolvimento das atividades ao longo dos anos, norteando uma melhor análise e, conseqüentemente, um direcionamento mais adequado aos escritórios regionais em termos de orientação e estratégias a serem adotadas, a fim de otimizar as ações em todo o Estado.

 

2 MATERIAL E MÉTODOS

 

Os dados disponíveis neste trabalho, foram obtidos através do levantamento das informações constantes nos autos de infração e apreensão relativos a atividades cinegéticas e apreensão de animais silvestres, arquivados no Instituto Ambiental do Paraná (IAP), oriundos de 20 escritórios regionais, ao longo dos últimos 18 anos.

Os métodos utilizados resumem-se na compilação de informações e na sua organização, basicamente definindo quais as espécies de mamíferos apreendidas; a quantidade de apreensão; quais as infrações predominantes e local e ano em que ocorreram os delitos (de acordo com a Lei 5.197/67).

 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

No período decorrente entre os anos de 1980 e 1997, foram apreendidas 17.778 aves, das quais destacam-se 32 famílias distintas. Dentre estas a família Columbidae foi representada em 46% das apreensões (8.228 indivíduos apreendidos), seguida pela Emberizidae com 34% (6.053 indivíduos apreendidos), Tinamidae com 5% (861 indivíduos apreendidos), Psittacidae com 4,5% (822 indivíduos apreendidos), Fringillidae com 4% (692 indivíduos apreendidos),Turdidae com 2% (389 indivíduos apreendidos), sendo o percentual restante atribuído a outras famílias, cujo número de apreensões foi pouco expressivo se comparado com as famílias citadas.

A Fig. 1 demonstra o número de exemplares apreendidos referente às 32 famílias:

Fig. 1 - Percentual das Principais Famílias de Aves Apreendidas

 

Observa-se a partir da Fig. 1, a predominância de espécies da família Columbidae, referindo-se a morte por envenenamento, envolvendo principalmente a Zenaida auriculata, espécie que causa prejuízos às culturas da soja e trigo através da ingestão de grãos contaminados e, conseqüentemente de aves de rapina (Polyborus plancus e Coragyps atratus) e de alguns indivíduos da Família Tytonidae, por predarem pássaros contaminados. Em certos casos é notório o uso de agrotóxicos sob forma de iscas, que incidentalmente provocam a destruição de muitas outras espécies, inclusive domésticas. Estes animais ficam impedidos de fugir, sendo capturados com maior facilidade.

A Tabela 1 relaciona os casos de envenenamento em Municípios do Estado:

 

TABELA 1 - Casos de envenenamento de aves em regiões do Estado

 

Municípios

Ano

Tipo de semente

Tipo de inseticidas

Animais atingidos

Maringá

1993

milho

AZODRIN

milhares de pombas-amargosas; alguns espécimes de gavião-carcará, tico-tico, chopim e corujas

Jacarezinho*

1994

milho, arroz e trigo

MALATHION

30 pombas-amargosas e 50 galinhas

Pitanga

1995

arroz

CARBOFURAM

aproximadamente 20 pombas-amargosas e asa-branca

Campo Mourão

1991 1992 1993

arroz

não especificado no auto de infração

aproximadamente 3000 aves:

pombas-amargosas, pombas-asa-branca, e alguns espécimes de gavião

Toledo

1985

trigo

não especificado no auto de infração

milhares de pombas-amargosas, e alguns espécimes de codorna

Londrina

1993

 

não especificado no auto de infração

milhares de pombas-amargosas, e dezenas de urubus

(*) Comprovado como crime proposital

 

Famílias constituídas por pássaros canoros tiveram um percentual significativo de apreensões, destacando-se neste sentido a família Emberizidae (Sicalis flaveola (67%), Sporophila spp. (7,5%), Saltator similis (4%), Oryzoborus angolensis (3%), Ramphocelus bresilius (2,5%), Euphonia spp. (1,5%), Tangara spp. (1%), entre outras); a família Fringillidae (Carduelis magellanicus); a família Turdidae (Turdus rufiventris (16%) e Platycichla flavipes (15%) principalmente) e a família Icteridae (Gnorimopsar chopi (71%) e Icterus cayanensis (17%)).

Em relação a família Tinamidae os autos de infração também revelaram morte por envenenamento de 500 espécimes de codorna (Nothura maculosa) através da ingestão de sementes contaminadas. Os indivíduos incluídos nesta família como a própria N. maculosa (77%), Rynchotus rufescens (15%), Crypturellus sp. (5%), Tinamus solitarius (3%), são aves cuja a caça é muito apreciada devido as dificuldades e do mimetismo que possuem, como o vôo baixo e veloz (o que exige certas estratégias de abate pelo caçador), a cor da plumagem e tamanho, o que dificulta sua identificação e visualização no ambiente (SANTOS, 1950). Das espécies apreendidas Tinamus solitarius e Crypturellus sp. estão ameaçadas de extinção.

Os Psittacideos, por sua vez, são aves muito apreciadas como animais de estimação (GONZAGA, 1987), além de despertar interesse por seus atrativos de vocalização, plumagem e por ser no Brasil onde ocorre o maior número de espécies (SICK, 1984). Além disso estão entre as aves mais "inteligentes" do mundo (SICK, op. cit.). As espécies mais apreendidas foram papagaios (70%) destacando-se Amazona aestiva, Amazona brasiliensis e Amazona vinacea, sendo os dois últimos ameaçados de extinção; periquitos (13%); e araras (7%), estando entre elas Ara chloroptera e Ara ararauna ambas ameaçadas de extinção (SEMA, 1995).

Quanto aos tipos de infração, pode-se constatar que houve maior índice de animais caçados (37%), mantidos em cativeiro (31%), animais envenenados (14%), animais comercializados (7%) e transporte de animais (6%).

As regiões do Estado onde estas atividades são mais freqüentes, foram relacionadas com a localização do escritório regional do IAP. Dos 366 registros realizados o ERMAG teve maior percentual de autos lavrados, seguido pelo ERCMO, ERPGO e ERCBA.

Este resultado porém, não serviu como base comparativa entre eficiência da atuação dos escritórios, devido a diferença no número de funcionários existentes entre eles, disponibilidade de veículos, além da freqüência e demanda de denúncias, diferentes para cada região do Estado e muitas vezes de um escritório para outro, devido a localização, verba disponível, existência de vias de conexão (estradas) com outros centros, cobertura de vegetação, etc.

 

4 CONCLUSÃO

 

A evolução do processo de fiscalização é difícil de ser avaliada quanto à sua eficácia, em função de que o esforço de campo despendido é diferenciado de uma região para outra ou mesmo de um escritório para outro, ocasionando inexistência de padronização deste esforço através dos anos, face a questões institucionais intrínsecas, sejam elas estruturais, de disponibilidade de verbas ou mesmo às alterações da cobertura vegetacional neste período. Por outro lado, as denúncias contra a caça e tráfico que também são variáveis de região para região, tem exercido forte pressão ao poder público, exigindo um atendimento quase que imediato ao delito denunciado, tornando o denunciante um componente essencial no processo de fiscalização. Outro fator que contribui com isto, é a falta de centros de triagem para atendimento e avaliação clínico-biológica dos animais vivos apreendidos nas operações de fiscalização, o que atua como fator desestimulante, uma vez que existem poucos locais apropriados para encaminhamento dos animais apreendidos.

A partir desta análise geral, estas informações serão direcionadas para cada escritório regional do IAP (20 escritórios), para que cada um deles possa analisar e opinar sobre os resultados regionais obtidos (se os dados são reais e/ ou parciais); que fator existente na região ou no próprio escritório favorece a prática da caça, cativeiro ou comércio ilegal da fauna silvestre; que dificuldades o escritório encontra em termos de localização, estrutura e características regionais e o que sugere para um melhor desempenho da atuação da equipe de fiscalização e em termos de conscientização da população local. Desta forma, a questão da fiscalização no Estado poderá ser melhor direcionada, em termos de orientação e estratégias a serem adotadas.

Estes dados podem ser considerados parciais por não representarem a questão de apreensão de fauna num contexto geral, mas são suficientes para demonstrar o estado atual da fiscalização e também um diagnóstico dos principais problemas relacionados à fauna, até então inexistentes.

Sem a análise dos autos de infração de fauna, não haveria como avaliar e diagnosticar quais espécies que sofrem maior pressão de caça ou que são comercializadas, nem mesmo definir estratégias de ação a serem adotadas pelos escritórios regionais, mediante as ocorrências predominantes, adequadas à realidade regional.

 

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

GONZAGA, L. P. 1987. Aves Brasileiras Ameaçadas de Extinção. In: Encontro Nacional de Anilhadores de aves. Rio de Janeiro, p. 130-152.

 

SANTOS, E. 1950. Caças e Caçadas. Ed. Briguiet & Cia. Rio de Janeiro. 282p.

 

SECRETARIA ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE - Lista Vermelha de Animais Ameaçados de Extinção no Paraná. Curitiba, Paraná. SEMA, 1995. 176 p.

 

SICK, H. 1984. Ornitologia Brasileira, uma introdução. Brasília. Ed. Universidade de Brasília. 827p. 2 vols.

 

WORLD WILDLIFE FOUNDATION (WWF). Tráfico de Animais Silvestres no Brasil. 1° informe. Brasília, WWF, 1995. 48 p.

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1 Bióloga, Departamento de Flora e Fauna - DIBAP/IAP

2 Biólogo, M. Sc., Chefe do Departamento de Flora e Fauna - DIBAP/IAP

 

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014