N.86 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1998

 

Limites setentrionais inéditos e documentados de aves da região da mata atlântica no Espírito Santo

José Fernando Pacheco & Claudia Bauer - Rio de Janeiro

São divulgados alguns registros inéditos de aves da região da mata atlântica, que representam o novo limite setentrional documentado das formas relacionadas com este bioma no estado do Espírito Santo. Estes dados são provenientes de duas fontes básicas: as anotações manuscritas de Helmut Sick para peles depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro [MNRJ] e gravações produzidas durante oito excursões, entre outubro de 1996 e outubro de 1998, ao sul do estado do Espírito Santo realizadas pelos autores. Estas gravações serão oportunamente depositadas na coleção do Arquivo Sonoro Elias P. Coelho da Universidade Federal do Rio de Janeiro [ASEC]. É indicado o total de peles existentes no MNRJ junto a esta sigla, dentro dos colchetes.

Das 11 espécies tratadas, quatro possuem limite norte na serra do Caparaó, duas em Baixo Guandu e uma em Jatibocas, segundo coleções seriadas de E. Snethlage e H. Sick. Outras quatro tiveram seu limite norte atual estabelecido por meio dos resultados das oito excursões acima citadas. A serra do Caparaó, inserida como Parque Nacional, fica na porção sudoeste do Espírito Santo na divisa com Minas Gerais; Baixo Guandu também próximo a fronteira mineira está na margem direita do rio Doce, 120 km ao norte do Caparaó e Jatibocas, na região serrana capixaba, está a 30 km a oeste de Santa Teresa e cerca de 100 km a nordeste do Caparaó. Dos pontos visitados pelos autores, a Fazenda Pindobas IV é a mais setentrional, estando cerca de 50 km a nordeste do Caparaó, enquanto as localidades mais ao sul mencionadas foram aquelas visitadas no município de Guaçuí, cerca de 40 km ao sul do Caparaó.

Em paralelo ao estabelecimento do limite norte estadual, foi dada a prioridade aos dados cronologicamente mais antigos para divulgação da documentação existente para cada forma. Entretanto, todas as 12 espécies aqui tratadas foram registradas em pontos de igual latitude ou situados mais ao sul, durante o trabalho de campo recém terminado dos autores.

 

Coruja-listrada, Strix hylophila

Fazenda da Serra, Baixo Guandu (ca. 1930S, 4100W) E. Snethlage out / nov. 1925 [MNRJ, 1]

O limite norte corrente desta coruja nos catálogos e obras gerais tem sido "Minas Gerais e Rio de Janeiro" (Meyer de Schauensee 1966, Pinto 1978, Sick 1985, Sibley & Monroe 1990). Isoladamente, Ruschi (1979), sem fornecer detalhes, incluiu o Espírito Santo na área de distribuição da espécie. Recentemente, Bauer & Pacheco (1996, V Congr. Bras. Orn., p.8) relataram a existência do exemplar de Snethlage, contudo sem fornecer localidade e, por extensão, o Espírito Santo foi indicado como novo limite norte por Pacheco na recente edição atualizada da Ornitologia Brasileira (Sick 1997:404).

Curiango-tesourão, Macropsalis forcipata

São Paulo do Aracê, 1100 m (2026S, 4103W) Pacheco, Bauer & P. S. M. Fonseca 18 out 1996

O Espírito Santo tem sido constantemente indicado como limite norte deste curiango (Meyer de

Schauensee 1966, Pinto 1978, Sick 1985, Sibley & Monroe 1990), possivelmente apenas por compilação de Ruschi (1953) que lista a ave para este estado sem fornecer detalhes. Em data mais recente, Ruschi (1976) a relaciona como "extinta no estado após 1967," em pretensiosa especulação.

O registro acima fornecido foi documentado através de filmagem (P. S. M. Fonseca) de um macho (cf. cauda longa) pousado no leito de estrada vicinal, que corta um fragmento de mata localmente conhecido como "mata dos Bellon," nas proximidades do Parque Estadual de Pedra Azul.

A reutilização nomenclatural de M. forcipata em lugar de M. creagra está associada com as razões a serem brevemente divulgadas em nota circunstanciada de Pacheco & B. M. Whitney no Bulletin of British Ornithologists’ Club de dezembro de 1998.

 

Choca-boné-ruivo, Thamnophilus ruficapillus ruficapillus

Fazenda da Serra, Baixo Guandu (ca. 1930S, 4100W) E. Snethlage out / nov. 1925 – [MNRJ, 1]

A Reserva Biológica Augusto Ruschi (ex-Nova Lombardia), Santa Teresa figurava como ponto setentrional de ocorrência da espécie no estado (Forrester 1993, Parker & Goerck 1997). Espécie originalmente disseminada nos campos de altitude do sudeste brasileiro (H. Sick, em 1941, coletou dez exemplares no topo do Caparaó), parece ter aproveitado o desmatamento das montanhas e do planalto interiorano para expandir seus limites. Em nítida contradição a este pressuposto, Ruschi a registrou em Sooretama, baixada do norte do estado (Ruschi 1980) e não a encontrou no Caparaó (Ruschi 1978), onde é abundante.

 

Trovoada-da-serra, Drymophila genei

Serra do Caparaó (2022S, 4148W) E. Snethlage ago / set 1929 e H. Sick fev / abr 1941 [MNRJ, 7]

Parque Estadual de Pedra Azul, 1600 m (2024S, 4101W) 5 mai 1997 [ASEC]

Parque Estadual de Forno Grande, 1500m (2131S, 4106W) 6 mai 1997 [ASEC]

O Caparaó continua sendo o ponto setentrional específico de ocorrência da espécie, conforme indicado nas obras gerais, há mais de meio século (Naumburg 1939, Pinto 1978, Sick 1985, 1997). A verificação inédita de sua existência nas matas de neblina da Pedra Azul e Forno Grande representa uma extensão real de distribuição para leste (do eixo do limite norte) de cerca de 80 km.

Embora seja uma das espécies dominantes dos ambientes arbustivos da cumeeira dos Parques do Caparáo e Pedra Azul, D. genei não constou dos inventários de Ruschi (1978, 1982).

O limite norte de ocorrência de D. genei, espécie montícola, restrita aos topos de serra encontra paralelo, nesta latitude, nas espécies: Mackenziena leachii, Oreophylax moreirae, Stephanophorus diadematus, Saltator maxillosus, Poospiza thoracica, Poospiza lateralis e Donacospiza albifrons, mas por enquanto apenas D. genei e S. diadematus foram encontrados na Pedra Azul e Forno Grande.

João-de-mento-ferrugíneo, Phacellodomus erythrophthalmus ferrugineigula

Fazenda Pindobas IV, 1100 m (2019S, 4118W) 20 out 1998 [ASEC]

Santa Marta, 820m (2030S, 4143W) 8 ago 1997 [ASEC]

Parque Est. de Forno Grande , 1000m (2131S, 4106W) 6 mai 1997 [ASEC]

Subespécie vinculada exclusivamente a vegetação dos brejos de montanha ou planalto no sudeste, ocorrendo no entanto em banhados litorâneos no sul do país (Sick 1997). Os dois primeiros pontos do Espírito Santo, acima listados, inseridos no Complexo da Mantiqueira, situam-se mais ao norte que Viçosa, Minas Gerais (2045S, 4253W), localizada no mesmo complexo e ponto de ocorrência mais setentrional anterior da subespécie (Simon, Mattos & Pacheco, 1993 III Congr. Bras. Orn., R.20).

A presença da subespécie no estado é inédita, conquanto Ruschi tenha listado em várias de suas listas apenas a forma nominal (Ruschi 1953, 1979, 1980), incluindo a menção de que estaria "extinta no estado após 1967" (Ruschi 1976). Ademais, a presença específica da forma nominal no Espírito Santo jamais foi confirmada por qualquer evidência adicional.

Limpa-folha-quiete, Syndactyla rufosuperciliata rufosuperciliata

Jatibocas (2005S, 4055W) H. Sick 1940/1941 – [MNRJ, 2]

O limite norte no estado para a Reserva Biológica Augusto Ruschi (ex-Nova Lombardia), Santa Teresa está baseado em duas fontes que não forneceram a base documental do registro (Forrester 1993, Parker & Goerck 1997). Espécie montícola ou do planalto no sudeste, era no Espírito Santo conhecida por peles coletadas no Caparaó (Peixoto Velho 1923). A presença da espécie na Reserva Biológica de Sooretama (Ruschi 1980), pretenso limite norte, é inverossímil.

Borboletinha-do-mato, Phylloscartes ventralis ventralis

Serra do Caparaó (2022S, 4148W) E. Snethlage ago 1929 e H. Sick fev/abr 1941 [MNRJ, 4]

Castelinho, Vargem Alta, 1035m (2030S, 4100W) 18 out 1996 [ASEC]

A região do Caparaó já constava como limite setentrional desta forma no estado, estritamente montícola no sudeste brasileiro (Gonzaga & Pacheco 1995, Sick 1997). Tal qual D. genei, o encontro deste tiranídeo na região de Pedra Azul (Castelinho) representou uma extensão real de distribuição para leste (do eixo do limite norte) de cerca de 80 km. Em adição foram feitos em 1997/1998 registros da espécie para outros quatro pontos da região montanhosa do sul capixaba.

Estalinho, Phylloscartes difficilis

Serra do Caparaó (2022S, 4148W) E. Snethlage ago 1929 e H. Sick fev / abr 1941 [MNRJ, 3]

Embora o Caparaó já constasse como limite norte da espécie (Sick 1985, 1997), a base documental deste registro é pela primeira vez aqui divulgada.

Barbudinho-do-sul, Pogonotriccus eximius

Fazenda Pindobas IV, 1150 m (2019S, 4118W) 26 jan 1998 [ASEC]

O Espírito Santo aparece indicado como limite norte deste tiranídeo em catálogos e obras gerais (Meyer de Schauensee 1966, Sick 1985, Ridgely & Tudor 1994), possivelmente apenas por compilação de Ruschi (1953) que primeiramente listou a ave para este estado sem fornecer subsídios.

O registro sonoro aqui divulgado é o único documento disponível para corroborar a presença da espécie no estado. Em Minas Gerais, a espécie atinge pontos mais ao norte, como indicam as duas peles da Fazenda Taveira, Mariana, MG (2017S, 4327W), depositadas no MNRJ, coletadas por E. Snethlage em março de 1926.

Garrincha-açu, Thryothorus longirostris longirostris

Serra das Cangalhas, Guaçuí, 815m (2052S, 4139W) 23, 24 out 1997 [ASEC]

Faz. do Castelo, Guaçuí, 590m (2052S, 4142W) 29, 30 jan 1998 [ASEC]

Antes destes dois registros sonoros, o limite norte documentado (porém inédito) desta forma era a Faz. Barra Alegre, Muriaé, MG (2110S, 4222W), onde E. Snethlage coletou quatro exemplares em novembro de 1926.

Aparentemente, T. longirostris tem limitada distribuição no Espírito Santo, estando restrito aos capões florestados de média altitude da região sudoeste do estado, sendo substituído no litoral capixaba pela congênere abundante, T. genibarbis. Os registros anteriores da espécie para o estado são provavelmente errôneos ou tiveram origem esquemática (Ruschi 1953, Meyer de Schauensee 1966, Forrester 1993).

Tico-tico-do-banhado, Donacospiza albifrons

Serra do Caparaó (2022S, 4148W) H. Sick fev / abr 1941 [MNRJ, 2]

Tal qual P. difficilis, o Caparaó constava como limite norte da espécie (Sick 1985, 1997), contudo somente aqui a divulgação da base documental é fornecida.

Referências

Forrester, B.C. 1993. Birding Brazil. A check-list and site guide. Irvine: John Geddes Printers.

Gonzaga, L.P. & J.F. Pacheco. 1995. A new species of Phylloscartes (Tyrannidae) from the mountains of southern Bahia, Brazil. Bull. Brit. Orn. Cl.. 115(2): 88-97.

Meyer de Schauensee, R. 1966. The species of birds of South America and their distribution. Narberth, Penn: Livingston Publishing Company for the Academy of Natural Sciences Philadelphia.

Naumburg, E.M.B. 1939. Studies of birds from eastern Brazil and Paraguay, based on a collection made by Emil Kaempfer. Bull. Amer. Mus. Nat. Hist. 76: 231-276.

Parker III, T. A. & J. M. Goerck 1997. The importance of national parks and biological reserves to bird conservation in the Atlantic forest region of Brazil. Pages 527-541 in Studies in Neotropical ornithology honoring Ted Parker ( J. V. Remsen, Jr., Ed.). Ornithological Monographs No. 48, American Ornithologists’ Union.

Peixoto Velho, P.P. 1923. Breve notícia sôbre a ornis do Caparaó. Bol. Mus. Nac., Rio de Janeiro, 1: 23-26.

Pinto, O. M. O. 1978. Novo Catálogo das Aves do Brasil. Primeira Parte: Aves não Passeriformes e Passeriformes não Oscines, com exclusão da família Tyrannidae. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, S.A.

Ridgely, R.S. & G. Tudor. 1994. The birds of South America, 2. Austin: University of Texas Press.

Ruschi, A. 1953. Lista das aves do Estado do Espírito Santo. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, Zool. 11: 1-21.

Ruschi, A. 1976. Espécies de vertebrados que não mais, a partir de 1967 para cá foram encontradas no território do Estado do Espírito Santo. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, no especial: 115-118.

Ruschi, A. 1978. Mamíferos e aves do Parque Nacional do Caparaó. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, Zool. 95: 1-28.

Ruschi, A. 1979. Aves do Brasil. São Paulo: Editora Rios.

Ruschi, A. 1980. A fauna e a flora da estação biológica de Sooretama. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, Zool. 98: 1-24.

Ruschi, A. 1982. Mamíferos e aves observadas na Reserva Biológica de Pedra Azul no Estado do Espírito Santo. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, Zool. 103: 1-15.

Sibley, C.G. & B.L. Monroe. 1990. Distribution and taxonomy of birds of the world. New Haven: Yale University Press.

Sick, H. 1985. Ornitologia Brasileira, uma Introdução. Brasília: Ed. Univ. Brasília.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Edição revista e ampliada por José Fernando Pacheco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014