N.86 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1998

 

GUARÁ: ETIMOLOGIA DO VOCÁBULO E PARTICIPAÇÃO NA ORIGEM DE ALGUNS TOPÔNIMOS PARANAENSES

Fernando Costa Straube - Curitiba-PR

Desvendar ou atribuir origens etimológicas para vocábulos de uso corrente na língua portuguesa, pode ter objetivos vários que não os voltados à lingüística pura e simples. Com a grande difusão da consciência de preservação dos recursos naturais essa atividade pode entremear-se com a educação ambiental e, por conseguinte, à conservação.

Representante de primeira linha como "espécie-estandarte" (flagship species) para a conservação, o guará (Eudocimus ruber), uma ave ameaçada de extinção e largamente distribuída no litoral do Brasil, vem assim sendo usado com freqüência em várias propostas de preservação e conscientização ambientalista.

O guará (Eudocimus ruber) foi uma das primeiras espécies da avifauna brasileira a chamar a atenção dos cronistas que visitaram o Brasil poucos anos após o seu descobrimento. Já no Século XVI era conhecido na Europa, por intermédio do Duque Karl von Croy (1560-1612) e dos relatos de viajantes como Hans Staden e Fernão Cardim (Teixeira, 1992; Cunha, s.d.).

A primeira menção à denominação vernácula de Eudocimus ruber foi, provavelmente, aquela apresentada por Staden (1557): uwara pirange, colhida dos tupinambá e acompanhada de uma descrição morfológica satisfatória. Autores quinhentistas portugueses (Anchieta, 1560; Gândavo, 1576; Cardim, 1584; Soares 1590 in Cunha, 1982) já usavam o designativo "guará" (ou com outras grafias pouco distintas), sendo esse um indicativo de que se trate da forma original do vocábulo, tal como coletado diretamente dos íncolas.

Há assim, uma questão importante na formação do vocábulo: nenhum autor posterior a Staden teria mencionado o adjetivo vermelho (piranga) ao designativo, sendo provável que esse autor o tenha feito a fim de ressaltar o colorido da espécie, atribuindo-lhe uma adjetivação ao substantivo uwara, cuja origem é discutida a seguir.

O vocábulo, tal como utilizado atualmente, deve ter uma origem distinta do termo "guirá" (usado freqüentemente como prefixo na língua portuguesa, às vezes modificado em "ara-" ou "guara-") oriundo do guyrá tupi, traduzido como ave, simples e genericamente.

É pouco aceitável que os indígenas brasileiros, altamente detalhistas em sua nomenclatura popular (vide Jensen, 1988), não utilizassem uma designação mais específica para um organismo tão característico. O vermelho-carmim de sua plumagem, que tanto chamou a atenção de exploradores do passado jamais poderia passar sem uma adjetivação diagnóstica. Além do mais, a espécie em foco era francamente utilizada pelos indígenas, não apenas como matéria-prima para ornamentação, mas também em rituais, confecção de adornos (Staden, 1557) e mesmo na alimentação (Fernandes, 1963).

Essa confusão entre a denominação genérica (referente às aves como um todo) e a específica (referente à espécie Eudocimus ruber) é bastante freqüente (Sampaio, 1928; Amaral, 1976) e assim, é muito mais provável que esses vocábulos não sejam cognatos.

 

ARARA D’ ÁGUA

Em discussão etimológica sobre o vocábulo, Alencar (1865) o grafou como "gará", acreditando ser originário de "ig-água e ará-arara; arara-d’água, assim chamada pela bela cor vermelha". Esse mesmo autor alertou inclusive sobre o fato da palavra estar corrompida de sua verdadeira origem, posição que concordaria com a forma "guarara" de Couto (1757).

Apesar de relativamente bem amparada, essa interpretação, porém, discorda de uma regra básica em línguas do tronco tupi: para significar "arara d’água", a palavra deveria ser grafada como "ara + y" e não o contrário, visto a necessária posição do substantivo no início do vocábulo.

 

ONOMATOPÉIA

O fragmento "-coro-" (foneticamente semelhante a guará) e suas variáveis, é comumente utilizado para designar as espécies da família Threskiornithidae, como em "corocoró" ou "caraúna" (Mesembrinibis cayennensis), "curucaca" ou "curicaca" (Theristicus caudatus) e "tapicuru" (Phimosus infuscatus) (Pinto, 1978, Lopes, 1981, Scherer-Neto, 1982). Essa denominação genérica é, entre os Wayampi, makorokoro (Jensen, 1988) e cra-ú entre os Carajá (Brito, 1950). Inclui-se na questão, um outro nome onomatopéico: "carão" (Aramus guarauna) ave limícola integrante de outra família (Aramidae) mas morfologicamente semelhante às espécies anteriores.

Apesar dessa argumentação, seria pouco admissível supor uma origem onomatopéica para o nome popular de Eudocimus ruber , visto que a espécie pouco vocaliza, tanto em vôo como no forrageamento, restringindo-se a manifestações crocitantes em contatos interespecíficos (R.Silva e Silva, J.Vielliard, C.Yamashita, P.Martuscelli, M.M.Argel-de-Oliveira, E.O.Willis, 1997 com.pess.).

 

AVE DE ADORNO

Outra interpretação etimológica para o vocábulo poderia ser aguá + guyrá (adorno + ave), uma alusão ao uso das penas daquela ave para a confecção de objetos de adorno e vários artefatos de arte plumária, mas, tal como o y-ará de José de Alencar, falha na construção.

A fração guy do guyrá tupi, é nasal-gutural, podendo ficar parcialmente oculta e sobreposta ao aguá durante a fonalização; essa poderia ser a causa de uma conversão de uma palavra com quatro sílabas para outra com duas. Cabe ressaltar que o y gutural das línguas do tronco tupi (um intermediário fonético entre "i" e "u"), por não encontrar equivalente no alfabeto romano, causou equívocos históricos na grafia de muitos nomes coletados diretamente de informantes indígenas (Magalhães, 1913; Dennler, 1939). Além do mais, embora o tupi e o guarani sejam originários de um tronco comum (o proto-tupi-guarani), depois separado em proto-tupi (que gerou o tupi moderno ou nhengatu) e proto-guarani (que gerou o guarani moderno ou avanhé), vários vocábulos sofreram reduções e adições de fonemas, em sua história evolutiva (Rodrigues, 1945).

 

GALANTE

Seguindo pela mesma linha, surgem outros vocábulos trazidos do guarani que poderiam permitir uma avaliação bem mais aceitável do que a anterior: jegua ká (substantivo; qualquer tipo de ornamento e também o adorno de flechas e toda a arte plumária), jeguá (verbo; estar adornado com esse tipo de ornamento), jegua rã (adjetivo; referindo-se ao uso desse ornamento). Esse último vocábulo serve, por extensão, para adjetivar uma pessoa (ou qualquer vivente) galante, faustuosa, ou seja, que apresente-se pomposamente trajada ou, que chame atenção pela vestimenta. Assim, tal interpretação não conflita com a designação dada por Staden e tampouco dos cronistas posteriores, apesar de ser necessário admitir a supressão da primeira sílaba.

 

OUTROS GUARÁS

Guará como palavra de línguas portuguesa é utilizada na designação de pelo menos três organismos animais: ave (Eudocimus ruber), mamífero (Chrysocyon brachyurus) e peixe (família Carangidae) (Ferreira, 1985).

O vocábulo guyrá (e sua forma derivada guará) não é cognato com o aguará, forma corrupta de jaguá (originalmente traduzida como gato ou cachorro, indistintamente) que deu origem ao substantivo redundante "lobo-guará". Também errônea é a tradução de guará como vermelho, uma dedução muito freqüente e sem qualquer embasamento surgida de uma comparação entre o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e o guará (Eudocimus ruber) amparada pelo colorido avermelhado desses animais. Problemas semelhantes encontrou Amaral (1976) ao discutir a etimologia de "grapirá" para o popular tesourão (Fregata magnificens).

Além da controvérsia etimológica, o guará tem sido identificado, em algumas obras lexicográficas, como sinônimo do flamingo (Phoenicopterus ruber), outra espécie de ave completamente distinta que apresenta coloração rósea, com alguns detalhes vermelhos nas asas. Eventualmente também é reconhecido como o colhereiro (Ajaia ajaja), por força da mesma incorreção do colorido da plumagem.

Quanto ao "arara", é difícil atribuir origem etimológica outra (ara, em tupi) que não onomatopéica. Há muito tempo, entretanto, a grafia que designa os grandes Psittacidae de cauda longa (araras) tem sido motivo de discussão quanto à sua verdadeira formação. Tal como o exemplificado pelo guará (Eudocimus ruber), seria inadmissível atribuir uma origem genérica simplificada (guyrá) para o vocábulo arara. Apresentando cores também chamativas, a essas aves não caberia igualmente uma designação generalista.

 

A QUESTÃO TOPONÍMICA

Há centenas de topônimos, entre ilhas, rios, serras e mesmo municípios paranaenses e de todo o Brasil, que se utilizam do vocábulo guará para a sua formação (Leão, 1924-1928; Leão, 1934; IBGE, 1950; Tibiriçá, 1985). Alguns dos exemplos regionais mais clássicos são Guaraguaçu, Guaraituba, Guarapari, Guararema e Guaraúna.

É praticamente impossível reconhecer a origem de vários desses nomes, uma vez que a transliteração da língua indígena original para a portuguesa adulterou muito a forma escrita (e fonética) das palavras. Guarapuava, por exemplo, não poderia mesmo ter sido inspirada na ave guará uma vez que sua localização interiorana impossibilita a ocorrência da espécie. Ao contrário, Guaratuba é, sabidamente um local historicamente habitado por grandes populações desses animais (Mafra, 1978) e assim, bastante provável a formação do topônimo provindo de guará (Eudocimus ruber) + tuba (grande quantidade). O mesmo é aplicável a outros municípios brasileiros conhecidos pela igual abundância da espécie como Guaratiba (Rio de Janeiro) e Guarapari (Espírito Santo) (Saint-Hilaire, 1851). Há mesmo duas formações insulares, situadas na Baía de Paranaguá e Guaratuba e denominadas Ilha do Guará, devido à grande quantidade de Eudocimus ruber em tempos passados.

Caso distinto é o de Guaraqueçaba, freqüentemente interpretado como "pouso [e também metaforicamente ninho] de guarás" (Ferreira, 1996). Varnhagen (1907) cita como utensílio doméstico dos índios da região litorânea do Brasil, a keçaba , traduzindo-a como rede. Keçaba, para efeitos dessa discussão, é uma metáfora, em língua proto-tupi-guarani, que efetivamente significa "lugar de dormir". Ainda hoje, no guarani moderno, o substantivo kehá (ke=dormir + há=lugar), tem igual significado.

Entretanto, o guara- do topônimo não deve se aplicar à espécie Eudocimus ruber conforme sugerido por vários autores. Tal posição é improvável porque Eudocimus ruber não possui qualquer registro histórico como espécie abundante na região ou que pudesse servir de inspiração para a denominação do topônimo. Nesse caso, prefere-se "pouso de aves", resultante da composição guyrá (ave) adicionado de kessaba (rede e, por metáfora, local de descanso ou pouso) que é mais concordante com a grande abundância de espécies limícolas que se reúnem ao entardecer em vários locais desse município estuarino.

 

 

Agradecimentos

Aos bons amigos Nelson Pérez-V. e Carlos Yamashita, ambos também estudiosos da Etnozoologia e aos orientadores Pedro Scherer-Neto e Dante Martins Teixeira. A Robson Silva e Silva, Maria Martha Argel-de-Oliveira, Jacques Vielliard, Edwin O.Willis e Paulo Martuscelli pelas informações etnozoológicas e sobre o guará em ambiente natural. A Alberto Urben-Filho, Michel Miretzki, Paulo Labiak, Lydia Poleck, Arion Dall’Igna Rodrigues e Silvia Regina Tozato Prado pelas críticas e sugestões às versões preliminares deste estudo.

 

 

Referências

Alencar, J.de.1865. Iracema. Rio de Janeiro, B.L.Garnier.

Amaral, A.do. 1976. Linguagem científica. São Paulo, Revista dos Tribunais. 297 pp.

Brito, O.X. de B.1950. Nomes, na língua carajá, de algumas plantas e animais do Brasil Central. Arquivos do Museu Paranaense 8:147-164.

Couto, D.L. 1757 (1904). Glória de Pernambuco: desaggravos do Brasil e glorias de Pernambuco. Anais da Biblioteca Nacional 24:1-355 e 25:3-214.

Cunha, A.G.da. s.d. (1966). Coisas notáveis do Brasil. Vol.1. Reprodução fac-similar e transcrição dos manuscritos quinhentistas da Biblioteca da Real Academia de la historia, de Madrid, e da biblioteca da Universidade de Coimbra. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro. 209 pp.

Cunha, A.G.da. 1982. Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi. São Paulo, Melhoramentos. 357 pp.

Dennler, J.G. 1939. Los nombres indígenas en guaraní de los mamíferos de la Argentina y países limítrofes y su importancia para la sistemática. Physis 16(48):225-244.

Fernandes, F. 1963. Organização social dos Tupinambá. São Paulo, Difusão Européia do Livro. 375 pp.

Ferreira, A.B.de H. 1985. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Ferreira, J.C.V. 1996. O Paraná e seus municípios. Maringá, Ed.Memória Brasileira.

IBGE, 1950. Vocabulário geográfico do estado do Paraná: contribuição para o dicionário geográfico brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 148 pp.

Jensen, A.A. 1988. Sistemas indígenas de classificação de aves: aspectos comparativos, ecológicos e evolutivos. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi.

Leão, A.E.de. 1934. Indice paranaense [ou] Supplemento [do] Diccionario historico e geographico do Paraná. Curitiba, Impressora Paranaense. 215+120 pp.

Leão, E.A.de. 1924-1928. Diccionario historico e geographico do Paraná. Curitiba, Impressora Paranaense. 2594 pp.

Lopes, J.C.da V. 1981. Curucaca. Curitiba, Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense.

Mafra, 1978. História do município de Guaratuba. Curitiba, ed.do autor.

Magalhães, C.de 1913. O Selvagem. Rio de Janeiro, Livr.Ed.Magalhães. 304 pp.

Oren, D.C. 1990. As aves maranhenses do manuscrito (1625-1631) de Frei Cristóvão de Lisboa. Ararajuba 1:43-56.

Pinto, O.M.de O. 1978. Novo catálogo das aves do Brasil. São Paulo, Empr.Graf.Rev.Tribunais.

Rodrigues, A.D. 1945. Diferenças fonéticas entre o Tupi e o Guarani. Arquivos do Museu Paranaense 4:333-354.

Saint-Hilaire, A. 1851 (1978). Voyage dans l’interieur du Brésil: Voyage dans les Provinces de Saint-Paul et de Saint-Catherine. Tome II. Belo Horizonte, Itatiaia. Coleção Reconquista do Brasil, Volume 9. 209 pp.

Scherer-Neto, P. 1982. Aspectos bionômicos e desenvolvimento de Theristicus caudatus (Boddaert, 1783) (Aves, Threskiornithidae). Dusenia 13(4):145-149.

Staden, H. 1557 (1927). Warhastig Historia und Beschreibung eyner Landtschaft in der Wilden nacketen Grimmigennenschfresser Leuthen in der Newenwelt America gelegen. Frankfurt, Wüsten. Edição Fac-similar.

Teixeira, D.M. 1992. As fontes do paraíso - um ensaio sobre a Ornitologia no Brasil holandês (1624-1654). Revista Nordestina de Biologia 7(1/2):1-149.

Tibiriçá, L.C. 1985. Dicionário de topônimos brasileiros de origem tupi: significação dos nomes geográficos de origem tupi. São Paulo, Traço. 197 pp.

Varnhagen, F.A.de 1907. História geral do Brasil, antes de sua separação e independência de Portugal. São Paulo.

 

 

Anexo 1: Sinonímia vernacular de Eudocimus ruber (apud. Cunha, 1982; Oren, 1990, Teixeira, 1992).

 

Uwara pirange Staden, 1557.

Guarâ Anchieta, 1560; Cardim, 1584; Vasconcelos, 1663.

Goará Gândavo, 1576.

Guará Cardim, 1585; Soares, 1590; Monteiro, 1610; Vasconcelos, 1663; Heriarte, 1667; Matos, 1696; Betendorf, 1698; Rocha-Pita, 1730; Sampaio, 1777; Durão, 1781; Casal, 1817; Guimarães, 1869; Alencar, 1874; Assis, 1875; Coelho-Neto, 1926; Aranha, 1929; Cruls, 1930; Morais, 1938.

Guara Lisboa, 1631; Marcgrave, 1648.

Guoara Lisboa, 1631.

Guarara Couto, 1757.

Gará Alencar, 1865.

 

Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Rua Pres.Carlos Cavalcanti, 954. São Francisco. Caixa Postal 1644. Curitiba/PR- Brasil. 80 001-970. Tel/fax (041)322-7784; e-mail: juruva@aol.com.br.

 

AO - SERVIÇOS - LINKS
Você pode enviar perguntas ou comentários sobre este site para ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS.
Send mail to ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS with questions or comments about this web site.
Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014