N.86 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1998

 

Registros de duas espécies de aves ameaçadas de extinção em Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais: Amazona vinacea e Pyroderus scutatus

Marcelo Ferreira de Vasconcelos - Belo Horizonte

 

A ocorrência de espécies ameaçadas em Unidades de Conservação é de grande interesse, pois nestas áreas ocorre maior proteção dos remanescentes florestais, possibilitando, conseqüentemente, maior proteção destas espécies para seu futuro manejo. Desta forma, o objetivo deste trabalho é o de citar breves registros de duas espécies de aves ameaçadas em Minas Gerais conforme Lins et al. (1997) e Machado et al. (1998) em Unidades de Conservação deste Estado.

 

Figura 1. Dois indivíduos de Amazona vinacea pousados em uma árvore morta, onde possivelmente havia um ninho, na mata do Parque Estadual do Rio Doce, Minas Gerais. Original: M.F. Vasconcelos

 

Papagaio-de-peito-roxo, Amazona vinacea

 

Um par de indivíduos desta espécie, provavelmente um casal, foi observado por volta das 07:15 h do dia 19 de setembro de 1998, pousando em um tronco alto de uma árvore morta em ambiente florestal, próximo ao Centro de Pesquisas do Parque Estadual do Rio Doce, município de Marliéria. Um deles se aproximou de uma cavidade da árvore (possivelmente um ninho), enfiando a cabeça na mesma (Fig. 1). Esta cavidade encontrava-se a cerca de 8 m do solo. O outro indivíduo permaneceu pousado no tronco um pouco acima do primeiro por cerca de 30 s (Fig. 1). Ao perceberem a minha presença, as duas aves ficaram inquietas e voaram para outro ponto da mata, como que se estivessem querendo desviar minha atenção do possível ninho. Sick (1997) cita que os Psittacidae "...mostram-se cautelosos ao extremo..." nos arredores de seus ninhos, o que fortalece a possibilidade das aves observadas estarem nidificando. Embora esta espécie de papagaio seja citada ocorrendo em três outras Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais (Melo-Júnior 1998) a mesma ainda não foi aparentemente registrada no Parque Estadual do Rio Doce (Collar et al. 1992, Machado 1995, Melo-Júnior 1998).

 

Figura 2. Vegetação florestal a cerca de 1.050 m de altitude próxima à Fazenda do Engenho no Parque Natural do Caraça, onde Pyroderus scutatus foi registrado. Foto: M.F. Vasconcelos

 

Pavó, Pyroderus scutatus

 

A vocalização de um indivíduo desta espécie foi ouvida por volta das 08:30 h no dia 25 de julho de 1998 em uma mata próxima à Fazenda do Engenho no Parque Natural do Caraça, município de Catas Altas. A ave vocalizava sua típica voz de "sopro em garrafa vazia" no interior da mata a cerca de 1.050 m de altitude (Fig. 2). Embora esta espécie já seja conhecida na Reserva de Peti (Andrade 1998, M.F.V. obs. pess.) que se encontra localizada relativamente próxima ao Parque Natural do Caraça, não foram encontradas referências da ocorrência desta ave no Caraça (Carnevalli 1980, Andrade 1998). Apesar da vegetação florestal não ser contínua entre a Reserva de Peti e o Parque Natural do Caraça, ainda ocorrem certos fragmentos florestais expressivos na região de Santa Bárbara e de Catas Altas que merecem ser investigados mais detalhadamente, onde a espécie talvez possa ser registrada. Como uma estratégia de conservação para P. scutatus em Minas Gerais, Andrade (1998) sugere que sejam ampliados os "...estudos de campo que visem determinar sua ocorrência em outros locais...", sendo este registro, desta forma, de grande importância para a conservação da espécie no Estado.

 

AGRADECIMENTOS

 

Sou grato ao Pe. Célio M. Dell’Amore por permitir minha entrada no Parque Natural do Caraça para a realização de estudos avifaunísticos e aos colegas Valéria Tavares, Julio Antonio Lombardi e Marcelo Henrique Marcos pela companhia na viagem ao Parque Estadual do Rio Doce. Agradeço também ao IEF pela hospedagem no Parque Estadual do Rio Doce.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Andrade, M.A. 1998. Pyroderus scutatus (Shaw, 1792). In: A.B.M. Machado, G.A.B. Fonseca, R.B. Machado, L.M.S. Aguiar e L.V. Lins. (eds.) Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Carnevalli, N. 1980. Contribuição ao estudo da ornitofauna da Serra do Caraça, Minas Gerais. Lundiana 1:88-98.

Collar, N.J., L.P. Gonzaga, N. Krabbe, A. Madroño Nieto, L.G. Naranjo, T.A. Parker III e D.C. Wege. 1992. Threatened birds of the Americas. The ICBP/IUCN Red Data Book. 3a ed. Washington DC: Smithsonian Institution Press.

Lins, L.V., A.B.M. Machado, C.M.R. Costa e G. Hermann. 1997. Roteiro metodológico para elaboração de listas de espécies ameaçadas de extinção (contendo a lista oficial da fauna ameaçada de extinção de Minas Gerais). Publicações Avulsas da Fundação Biodiversitas 1:1-50.

Machado, A.B.M., G.A.B. Fonseca, R.B. Machado, L.M.S. Aguiar e L.V. Lins. 1998. Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Machado, R.B. 1995. Padrão de fragmentação da Mata Atlântica em três municípios da bacia do Rio Doce (Minas Gerais) e suas conseqüências para a avifauna. Tese de Mestrado. Belo Horizonte: Instituto de Ciências Biológicas/ Universidade Federal de Minas Gerais.

Melo-Júnior, T.A. 1998. Amazona vinacea (Kuhl, 1820). In: A.B.M. Machado, G.A.B. Fonseca, R.B. Machado, L.M.S. Aguiar e L.V. Lins. (eds.) Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.


 

Studbook – Papagaio-de-cara-roxa

Rogério Ribas Lange – Curitiba-PR

 

A necessidade da proteção de espécies silvestres é hoje uma realidade cruel. Muitas espécies animais estão caminhando rapidamente, através da redução de suas populações, para níveis próximos dos fundamentais, quando a diversidade genética torna-se insuficiente para mantê-las viáveis a longo prazo.

A proteção das espécies silvestres pode ser desenvolvida por dois grandes caminhos denominados:

in situ, associada ao conceito de Preservação, ou seja à proteção das populações naturais. Visa perpetuar populações naturais em seus ambientes de origem, dotando-os de segurança, reduzindo ou eliminando os fatores que as estão perturbando. É desenvolvida através de diversos mecanismos, mas principalmente com a institucionalização de parques e reservas.

In vitro ou ex situ associada ao conceito de Conservação, visa perpetuar espécies através da criaçào em cativeiro.

Por mais que os dois caminhos apresentem diferenças conceituais, de estratégias e filosóficas, visam a consecução dos mesmos objetivos básicos e não devem conflitar e sim somar esforços.

A conservação ex situ, tem como uma de suas ferramentas mais importantes o cadastramento das populações cativas. O pleno conhecimento do plantel de animais de uma determinada espécie, o domínio de informações como a procedência, o sexo, a classe etária e outros detalhes que implicam necessariamente na identificação dos animais através de marcas (anilha ou micro-chip) é indispensável para a administração e acompanhamento. Este procedimento visa a otimização do sucesso reprodutivo e da qualidade dos animais produzidos em cativeiro, sempre perseguindo a idéia de manter uma população viável a longo prazo.

O instrumento utilizado para este cadastramento é o Studbook, uma instituição oficializada que busca estabelecer e manter atualizado um banco de dados, o mais completo possível, de uma determinada espécie mantida em cativeiro. O Studbook é desenvolvido por uma pessoa física, denominada Studbook keeper. É implantado mediante a aprovação de organismos internacionais de conservação da natureza, do IBAMA e da Sociedade de Zoológicos do Brasil (SZB) e conta com o suporte logístico do Zoológico de Curtiba.

O termo studbook, originário da língua inglesa, surgiu a partir da composição de stud, que significa criação de cavalos ou conjunto de cavalos pertencentes a uma determinada pessoa ou grupo, e book, que significa registrar, inscrever, cadastrar. Tem o mesmo significado do termo pedigree, mais utilizado para animais domésticos.

Estamos iniciando a implantação do studbook do papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), espécie de psitacídeo endêmico da floresta atlântica, de ocorrência no litoral dos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Trata-se de ave ameaçada de extinção que vem sofrendo redução pronunciada de suas populações naturais nas últimas décadas.

O studbook visa efetuar e manter atualizado o censo do papagaio-de-cara-roxa em cativeiro, reunir e divulgar dados e informações que favoreçam a manutenção e a reprodução.

De início, é importante reunir endereços e fazer contato com criadores particulares, instituições e zoológicos que detenham animais em cativeiro, informações ou mesmo que possam colaborar. O banco de dados está sendo implantado tendo como base o programa informatizado SPARKS (Single Population Analysis Recoords Keeping System) que faz parte do International Species Information System (ISIS), cedidos pela AZA (American Zoo and Aquarium Association – Brasil Fauna Interest Group).

Se você tem um papagaio-de-cara-roxa, alguma informação ou está disposto a ajudar, entre em contato com Rogério Ribas Lange, E-mail: rrlange@inetone.com.br , Zoológico de Curitiba, Rua Presidente Faria s/nº Fone: 041-222-2742.

 

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014