N.87 - Janeiro/Fevereiro (January/February) de 1999

 

Resumos de congressos não são referências bibliográficas?

 

Fernando C. Straube * - Curitiba-PR

 

Em uma publicação científica há várias formas para citações de outros trabalhos, estejam eles sob forma escrita, estejam verbalizados - para apenas um ouvinte, ou muitos. Na verdade, não existe uma definição clara para o que seja uma publicação, embora sua contagem signifique pontuação valiosa em provas de títulos. Considerar publicação, então, dependerá de alguns critérios, desde excessivamente simplistas (uma comunicação oral, por exemplo) até exigentes demais (pesquisas publicadas em periódicos de distribuição internacional ou mesmo em livros).

Os resumos editados por ocasião de encontros científicos são um dos tipos de publicação mais polêmicos, principalmente quando questiona-se sua validade. Cabem igualmente na presente crítica as monografias, dissertações e teses e até mesmo certos relatórios técnicos.

Chamados de gray papers por alguns, os resumos foram difundidos por muito tempo como alternativa para a dificuldade de publicação em periódicos nacionais ou estrangeiros. Essa prática ainda existe; porém, no mínimo e felizmente, deixou de ser tão comum. É certo também que alguns autores aproveitam-se para divulgar seus resultados em resumos com vistas a assegurar prioridade de resultados, visto sua rápida publicação e fácil preparo dos originais. Também alguns pecam quanto à qualidade dos resultados apresentados e mesmo em questões básicas de gramática.

Não há como concordar, contudo, que não sejam aceitos como "referências bibliográficas" em periódicos, tal como recentemente proposto no "instruções aos autores" da Ararajuba: Revista Brasileira de Ornitologia. Essa posição contraria inclusive as normas da ABNT que prevêem como referências até mesmo entrevistas, cartões postais, partituras e a Bíblia... Discorda também de obras básicas de método científico (vide L.Rey, 1993: Planejar e redigir trabalhos científicos. Edgard Blücher).

Quais seriam efetivamente os motivos para tamanho preconceito sobre os resumos?

Aparentemente os livros de resumos não atingem um grande número de leitores (e potenciais citadores) por sua tiragem pequena e distribuição localizada. Ao contrário desse pensamento, porém, tais publicações têm uma dispersão muito maior do que se imagina. Eles são entregues a todos os participantes inscritos em encontros científicos e é inegável que em tais congressos há uma concentração máxima de especialistas por metro quadrado!

Ainda com relação à distribuição (e por conseqüência acessibilidade) os livros de resumos são mais acessíveis nas bibliotecas brasileiras do que publicações editadas em certos periódicos nacionais e estrangeiros, alguns deles francamente utilizados pelos autores mais produtivos da atualidade. Quantas bibliotecas públicas brasileiras possuem, por exemplo, a assinatura do Bulletin of the British Ornithologists’ Club, provavelmente o periódico estrangeiro mais utilizado por autores brasileiros contemporâneos? E mais: resumos podem ser obtidos diretamente se solicitados às sociedades científicas, as quais costumam armazenar boas quantidades de exemplares.

A proposta apresentada em uma Assembléia Geral da SBO (Sociedade Brasileira de Ornitologia), para a impressão do livro de resumos após os encontros brasileiros de Ornitologia, incluindo apenas os títulos que foram efetivamente apresentados é também estranha. Um dos objetivos do livro de resumos já é servir como um meio de acompanhar uma apresentação a fim de selecionar in situ as pesquisas de maior interesse para cada um, bem como uma avaliação a priori de métodos, resultados e conclusões. Como cumprir essa finalidade sem ter às mãos o livro? E mais, por que onerar ainda mais as entidades financiadoras e organizadoras dos encontros com custos (grandes!) postais, visando o subseqüente envio para cada participante?

O impacto de uma publicação é definido, dentre outros aspectos, pela sua citação em outras publicações. Não há como negar que muitos resumos são realmente importantes como citações. A prova disso está na sua presença marcante em obras básicas da Ornitologia neotropical: o Ornithological Gazetteer of Brazil , a nova edição do "Ornitologia Brasileira" e em vários periódicos do Brasil e exterior. Se algum autor necessita citar um resumo é porque a informação que lá está já tem o conteúdo suficiente para enriquecer uma discussão. É consenso admitir que seria muito melhor optar por publicações integrais; porém, quando essas não estão disponíveis, o problema precisa ao menos ser remediado.

Por conta desse raciocínio, ficaram realmente estranhas, em um volume recente da Ararajuba (v.5, n.1; 1997), as citações a dados apresentados em um Congresso (não em um livro de resumos, como deveria ser) Brasileiro de Ornitologia, em determinada página (?!) como se, por pura inflexibilidade, fosse vergonhoso escrever a palavra "resumos". Congressos não têm páginas e pelo simples fato de que as informações disseminadas por meio dele são importantes é que se publicam livros de resumos. Ademais, se a idéia é facilitar o acesso à informação, o que significa "CBO" (citado no mesmo artigo), para um leitor estrangeiro ou desavisado?

Os resumos podem ainda ser um indicativo da evolução dos vários campos da Ornitologia e também da preferência dos autores, uma vez que se tratam de veículo sinóptico de resultados em massa e extremamente abrangentes. Os ornitólogos estão falhando em não realizar uma análise séria sobre os caminhos da Ornitologia brasileira, com vistas a um direcionamento maior às linhas de pesquisa mais fortes e incentivos aos campos mais atrasados. E os livros de resumos, por permitirem informações quali-quantitativas e temporais desse tipo, são instrumentos básicos para um estudo visando orientar um avanço manejado de nossas pesquisas. Eu imagino que um estudo parecido com o publicado pelo Sérgio Borges na Ararajuba (vol.3, 1995), enfocando as dissertações e teses, seria no mínimo bastante esclarecedor e útil.

A extinção dos resumos como forma de referência gera uma anomalia metodológica séria. As chamadas comunicações pessoais (nunca redigidas da maneira como afirmadas verbalmente e sofrendo efeito de interpretações) ou mesmo dados obtidos de fontes documentais nominais (os in litt. , cuja leitura restringe-se ao receptor do documento) passam a ter valor maior do que algo escrito e divulgado?

O Código Internacional de Nomenclatura Zoológica considera em seu artigo 8º: "Para ser considerado publicação, no sentido desse Código, um trabalho, quando divulgado pela primeira vez: (1) deve ser reproduzido em tinta sobre papel, por algum método que assegure numerosas cópias idênticas; (2) deve ser divulgado com o propósito de utilização científica, pública e permanente; (3) deve ser obtido por compra ou distribuição gratuita; e (4) não deve ser reproduzido ou distribuído por algum método proibido..." (Papavero org. , 1994). Assim, que novos caminhos para a Ararajuba (e outros periódicos que repetem a exigência aqui discutida) poderíamos esperar se suas normas são conflitantes com o próprio instrumento básico para a nomenclatura dos animais?

 

PROPOSTAS

1. Ao contrário de segregados, como se fossem informações não-citáveis, os resumos deveriam, isso sim, sofrer uma triagem mais refinada por parte das comissões científicas dos congressos e talvez mesmo serem aceitos em dimensões maiores, favorecendo discussões mais aprofundadas.

 

2. Os resumos dos congressos de Ornitologia poderiam ser incluídos na própria Ararajuba; assim sofreriam uma análise por parte do seu corpo de referees melhorando sua qualidade. Há algo parecido nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, para os quais recebem-se resumos de trabalhos ainda não publicados na íntegra mas em franco andamento. Isto forçaria os participantes dos congressos a atualizarem suas anuidades e facilitaria muito a própria distribuição da Ararajuba, reduzindo inclusive custos de postagem.

 

3. A distribuição dos cadernos de resumos depende também da agilidade do próprio editor para sua distribuição formal e informal. Exemplares excedentes (e sempre são muitos) deveriam ser enviados diretamente aos centros de pesquisa mais carentes do Brasil, ou mesmo estados brasileiros selecionados por não terem sido representados nos congressos. Da mesma forma, deveriam chegar às mãos de outros centros mais importantes do exterior, simplesmente por envio pelos correios. Tal procedimento iria aumentar, e muito, o processo de divulgação dos resultados apresentados nos livros de resumos. Também poderia enriquecer a brilhante proposta do Mauro Galetti (World Birdwatch 18,4:1996) para fomentar bibliotecas com títulos ornitológicos relevantes.

 

*. Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Rua Pres.Carlos Cavalcanti, 954 - São Francisco. Caixa Postal 1644. Curitiba/PR. 80 001-970. E-mail: juruva@aol.com.br .

 

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Last modified): 05 março, 2014