N.87 - Janeiro/Fevereiro (January/February) de 1999

 

Cupins alados (Neocapritermes sp.) como alimento do tico-tico, Zonotrichia capensis

Marcelo Ferreira de Vasconcelos - Belo Horizonte

Figura 1. Comportamento de um indivíduo de Zonotrichia capensis predando cupins alados (Neocapritermes sp.). A: Aproximação da ave da abertura na terra de onde saíam os cupins alados. B: Predação de cupins alados pela ave. Esquemas realizados a partir de observações de campo e de fotografias.

 

Os cupins ou térmitas (Isoptera), encontrados principalmente nas regiões tropicais, são insetos que possuem diferentes castas em cada espécie (operários, soldados e reprodutores) (Krishna 1969). Alguns indivíduos reprodutores são alados e realizam vôos de dispersão em resposta à diferentes condições, como por exemplo, fatores sazonais e atmosféricos (Stuart 1969). Nestes vôos, os indivíduos reprodutores deixam os cupinzeiros para se dispersarem e posteriormente se acasalarem e formarem novas colônias (Nutting 1969). Desta forma, as revoadas de térmitas são um evento imprevisível e uma enorme gama de predadores oportunistas se aproveitam destes eventos, incluindo as aves (De Bont 1964, Nutting 1969, Thiollay 1970, Dial e Vaughan 1987, Sazima 1989, Sick 1997). Uma vez que a dieta e o comportamento alimentar das aves brasileiras ainda é pouco conhecido, o objetivo deste trabalho é citar a predação de cupins alados pelo tico-tico, Zonotrichia capensis, uma espécie que se alimenta tanto de material vegetal, quanto de insetos (Schubart et al. 1965, Davis 1971, Novoa et al. 1996, Sick 1997).

As observações foram realizadas no dia 28 de setembro de 1997 na Estação de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental de Peti (EPDA-Peti) (19o54’S, 43o23’W), pertencente à Companhia Energética do Estado de Minas Gerais (CEMIG), município de Santa Bárbara, Minas Gerais, sudeste do Brasil. A vegetação predominante na área de estudo é a de floresta estacional semidecidual, com a ocorrência de vegetação rupestre que cresce sobre poucos afloramentos rochosos. Os cupins observados (soldados, operários e alados) foram coletados com pinça, depositados em um frasco com álcool 70% e identificados até gênero com o auxílio de Mathews (1977) e de uma chave artificial não publicada de autoria de H. R. C. de Negret. O comportamento alimentar da ave foi observado e foram feitas fotografias para posteriores análises.

Por volta das 17:30 h, foi observado um indivíduo de Z. capensis forrageando sobre o solo na borda de uma mata próxima à barragem da EPDA-Peti. Alguns minutos antes havia caído uma chuva rala de pouca duração (cerca de 10 minutos) e observou-se que a ave estava se alimentando de cupins alados do gênero Neocapritermes que saíam de uma abertura de aproximadamente 3 cm de diâmetro em um monte de terra. A ave aproximou-se desta abertura de onde saíam os cupins alados (figura 1A) e capturou os insetos com o bico (figura 1B), engolindo os mesmos por inteiro. Em um intervalo de cerca de três minutos, a ave capturou mais de quinze indivíduos alados de cupins no solo.

Embora não tenham sido encontrados registros na literatura a respeito da predação de alados de Neocapritermes sp. por Z. capensis, outros autores citam a utilização de insetos na dieta do tico-tico (Schubart et al. 1965, Davis 1971, Novoa et al. 1996, Sick 1997), sendo este item mais utilizado nos períodos reprodutivos (Davis 1971, Sick 1997), em épocas de maior demanda energética (Novoa et al. 1996) e nos períodos de muda (Davis 1971). Em uma localidade do Estado de Minas Gerais próxima à Peti, na Serra do Curral (19o57’S, 43o54’W), foi registrada a reprodução de Z. capensis em uma época semelhante, com a visualização de um ninho com dois filhotes no dia 27 de outubro do ano anterior (obs. pess.). Deste modo, o indivíduo de Z. capensis observado poderia estar se aproveitando de uma maneira oportunística de um recurso abundante naquele momento por se encontrar possivelmente em uma época de maior demanda energética, isto é, no período reprodutivo, uma vez que os cupins são presas com altos teores proteicos e lipídicos e possuem alto conteúdo de água (Nutting 1969).

 

AGRADECIMENTOS

 

Sou grato à CEMIG pela hospedagem na EPDA-Peti, à Professora Ivana R. Lamas que organizou a viagem ao local e ao Professor Dr. Marcos Rodrigues (UFMG) pela leitura crítica do manuscrito. Este trabalho é dedicado às Professoras Denize J. Domingos e Terezinha A. Gontijo pelas suas contribuições ao estudo da ecologia dos cupins nos cerrados do Estado de Minas Gerais.

 

REFERÊNCIAS

 

Davis, J. (1971) Breeding and molt schedules of the Rufous-collared Sparrow in coastal Perú. Condor 73:127-146.

De Bont, A. F. (1964) Termites et densité d’oiseaux, p. 273-283. In: A. Bouillon (ed.) Etudes sur les termites africains. Paris: Masson

Dial, K. P. e T. A. Vaughan (1987) Opportunistic predation on alate termites in Kenia. Biotropica 19:185-187.

Krishna, K. (1969) Introduction, p. 1-17. In: K. Krishna e F. M. Weesner (eds.) Biology of termites, v. 1. New York: Academic Press.

Mathews, A. G. A. (1977) Studies on termites from the Mato Grosso State, Brazil. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências.

Novoa, F. F., C. Veloso e M. V. López-Calleja (1996) Seasonal changes in diet, digestive morphology and digestive efficiency in the Rufous-collared Sparrow (Zonotrichia capensis) in Central Chile. Condor 98:873-876.

Nutting, W. L. (1969) Flight and colony foundation, p. 233-282. In: K. Krishna e F. M. Weesner (eds.) Biology of termites, v. 1. New York: Academic Press.

Sazima, I. (1989) Peach-fronted Parakeet feeding on winged termites. Wilson Bull. 101:656-657.

Schubart, O., A. C. Aguirre e H. Sick. (1965) Contribuição para o conhecimento da alimentação das aves brasileiras. Arq. Zool. 12:95-249.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.

Stuart, A. M. (1969) Social behavior and communication. In: K. Krishna e F. M. Weesner (eds.) Biology of termites, v. 1. New York: Academic Press.

Thiollay, J. M. (1970) L’exploitation par les oiseaux des essaimages de fourmis et termites dans une zone de contact savane-forêt en Côte-d’Ivoire. Alauda 38:255-273.

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014