N.87 - Janeiro/Fevereiro (January/February) de 1999

A atividade naturalística de Herbert Franzoni Berla (1912-1985), ornitólogo e acarologista do Museu Nacional

José Fernando Pacheco & Ricardo Parrini - Rio de Janeiro

 

Um grupo pequeno de pesquisadores brasileiros atuou no cenário ornitológico nacional até os anos 1970. Mesmo se juntarmos a estes, os estrangeiros que por aqui se radicaram e que desempenharam função de pesquisador em uma das três principais instituições brasileiras de História Natural, esse grupo permanece pequeno. Fizeram parte deste grupo e foram especialmente ornitólogos: Emilie Snethlage, no Museu Goeldi, entre 1905 e 1921 e no Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ), entre 1922 e 1929; Olivério Pinto, entre 1929 e 1981 e Eurico Camargo, entre 1939 e 1966, no Museu Paulista; Herbert Berla, entre 1931 e 1980, Augusto Ruschi, entre 1939 e 1986 e Helmut Sick, entre 1960 e 1980, no MNRJ (Cunha 1989, Nomura 1991, 1992, Gonzaga 1991). Eram alemães Snethlage e Sick, embora o segundo tenha se naturalizado brasileiro (Cunha 1989, Gonzaga 1991). Dois contemporâneos deste grupo, ainda vivos, são Fernando Novaes (71 anos) do Museu Goeldi (Silva & Oren 1992) e Hélio Camargo (76) do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, MZUSP (Nomura 1995).

Alguns integrantes rememoráveis destas instituições que produziram trabalhos ornitológicos, embora não tenham sido genuinamente ornitólogos, foram: Emílio Joaquim da Silva Maia [MNRJ], Carl Schreiner [alemão, naturalizado brasileiro, naturalista do MNRJ], Emil Goeldi [suiço, naturalista no MNRJ e diretor do Museu Goeldi], Hermann von Ihering [alemão, naturalista no MNRJ e diretor do Museu Paulista], Alípio de Miranda Ribeiro [MNRJ], Cunha Vieira [Museu Paulista], João Moojen [MNRJ] e Cory Carvalho [Museu Goeldi] (Feio 1960, Nomura 1991, 1995, Sick 1997:45-58).

Nesse contexto, Berla – rivalizando com Eurico Camargo – é o menos conhecido e celebrado de nossos ornitólogos pioneiros (Fig. 1). Em parte, por esta razão, resolvemos resgatar e reunir algumas informações relativas à vida e obra deste naturalista, primeiramente ornitólogo e depois acarologista, que por mais de 40 anos se dedicou à coleção e conservação de material zoológico e aos estudos taxonômicos. A outra motivação, de ordem pessoal, está relacionada com reminiscências do primeiro autor desta nota. Por contingência, foi Berla (e não Sick), quem primeiro "abriu" as portas da coleção de aves do MNRJ a Pacheco, há 21 anos atrás. Sua paciência e gosto em conversar com um novato – primeiro no museu e depois na varanda de sua casa, quando já estava adoentado – foram decisivos para sedimentar em Pacheco o gosto pela classificação das aves. Através destes encontros, Berla pode contar "sua versão" pessoal sobre a história recente da coleção ornitológica do MNRJ, da qual foi, alternadamente, personagem e testemunha.

Os primeiros passos como naturalista (antes de 1940)

Herbert Franzoni Berla nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 7 de abril de 1912, sendo filho do médico Carlos Coimbra Berla e de Maria Elisa Franzoni Berla. Sua vocação naturalística se desenvolveu logo, motivada, sem dúvida, pelas caçadas do pai e amigos, das quais começou a participar desde muito jovem. Parte de sua infância e adolescência foram passadas em Monte Alto, interior de São Paulo; onde seus pais passaram a viver até retornarem ao Rio. Aos 20 anos, foi admitido como praticante-gratuito pela Seção de Zoologia do MNRJ, chefiada na ocasião por Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939). Neste período inicial, pode aprender técnicas de coleta e preservação dos mais variados grupos zoológicos. Em princípio, porém, se interessou especialmente pela preparação de artrópodes em geral. Em 1933, Berla se filiou à Sociedade Entomológica do Brasil, fundada onze anos antes, tendo recebido o 80o título de associado desta Sociedade.

Até 1940, quando foi admitido como Auxiliar de Escritório VIII (Port. 1038, de 3/6/40 – MN), sua vinculação com o Museu Nacional era equivalente a de um estagiário dos dias atuais. O seu maior e mais constante amigo, o herpetologista Antenor Leitão de Carvalho (1910-1985), resolveu se inscrever [também] como praticante gratuito da Seção de Zoologia do MNRJ em 1933 (Nomura 1993). Ambos, Antenor e Berla, tornarem-se grandes amigos e vizinhos do bairro de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, a partir desta época (Fig. 2).

Berla, da mesma forma que "Antenor não tinha formação acadêmica como acontecia com muitos zoólogos da sua época" (Nomura 1993). Em 1932, ele concluiu o curso secundário no Ginásio Arte e Instrução (no bairro carioca de Cascadura) e, simultaneamente, ficou quites com o serviço militar obrigatório. Nos anos seguintes, estudando, aprimorou seus conhecimentos de Inglês e Francês. Sendo descendente de família suiça, Berla entendia um pouco de Alemão, por influência familiar.

Excursões oficiais do início da carreira e outras atividades (1940-1946)

Sua primeira excursão oficial a serviço do Museu Nacional, antes da contratação contudo, foi realizada ao oeste de São Paulo (Ilha Seca) e Mato Grosso do Sul (Salobra) em fevereiro e março de 1940, como auxiliar de João Moojen, acompanhando expedição do Instituto Oswaldo Cruz (Travassos 1940).

Sua segunda missão oficial no campo, se deu no segundo semestre do mesmo ano, quando foi requisitado pelo Diretor do Serviço de Estudos e Pesquisas da Febre Amarela Silvestre (SEPFA), para desempenhar as funções de ornitólogo da excursão a ser realizada ao norte do Espírito Santo. Pinto (1945:315) informa que este trabalho de colecionamento de exemplares ornitológicos, realizado entre agosto e novembro de 1940, foi fruto do convênio do SEPFA com a Fundação Rockfeller, americana. Ainda segundo Pinto (1945), participaram como coletores desta excursão, além de H. F. Berla, o americano Ernst G. Holt e os brasileiros G[entil] Dutra e L[eoberto] C. Ferreira e as localidades trabalhadas foram [Lauro Muller,] Pau Gigante (= Ibiraçu, seg. Paynter & Traylor 1991), [São Domingos,] Colatina e [Água Boa,] Santa Cruz. Apesar de não se conhecer o total de peles colecionadas nesta campanha, sabe-se que o material reunido foi encaminhado, pelo menos, ao MNRJ (Ruschi 1951) e ao MZUSP (Pinto 1945) e que cerca de 300 peles estão depositadas na primeira instituição (obs. pess.).

Alguns exemplares coletados em Mambucaba, região sul do Estado do Rio de Janeiro, atestam a atividade de Berla em agosto de 1940; portanto, um pouco antes de sua partida para o Espírito Santo (Pacheco et al. 1997). Nesta ocasião, esteve nas Fazendas Cedro e Rubião, repetidamente exploradas por ele e João Moojen entre 1939 e 1958. Outras localidades no Estado do Rio de Janeiro e na região Sudeste em geral foram visitadas e revisitadas, durante toda a sua carreira de coletor zoológico. Uma relação completa destes locais trabalhados não é possível completar sem o exame do material depositado no MNRJ e nas instituições estrangeiras. Examinamos ou temos informações sobre material ornitológico coletado por Berla nas seguintes localidades adicionais e respectivas datas: Jacarepaguá e Barra da Tijuca, na capital, RJ (1940-1969), Parati, RJ (1950, 1956), Ibitinga, SP (1951), Guapé, MG (1952), Tinguá, RJ (1958), Faz. da Serra, Itatiaia, RJ (1968, 1969), Mendes, RJ (1970) e Faz. Coroado, Ponte Coberta, RJ (1970).

Em 1941, Berla inicia suas atividades na localidade de Pedra Branca, em área de encosta florestada da Serra do Mar. Neste ano, suas atividades de coleta e observações biológicas foram concentradas em duas excursões a esta localidade; a primeira entre 6 de janeiro e 19 de julho e a segunda entre 15 de novembro e 19 de dezembro. Como fruto direto desta atividade, ele publicou em 1944 a "Lista das aves colecionadas em Pedra Branca, município de Parati, Estado do Rio de Janeiro, com algumas notas sôbre sua biologia" (Bol. Mus. Nac. Zool. no. 18:1-21). Este seu primeiro artigo foi pioneiro e fundamental para o conhecimento ornitológico da região da "Costa Verde" do Estado do Rio de Janeiro (Pacheco et al. 1997).

Ainda em 1941, foi admitido como Conservador XI do MNRJ. No final deste ano, foi incumbido da determinação científica dos 206 exemplares de aves oriundas da ‘sexta excursão do Instituto Oswaldo Cruz à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil’, conforme citado em Travassos & Teixeira de Freitas (1942:269). Desta mesma série, no ano seguinte, ele recebeu outros 241 exemplares oriundos da "sétima excursão" para desempenhar igual tarefa (Travassos & Teixeira de Freitas 1943).

Entre fevereiro e abril de 1942, esteve colecionando aves e pequenos mamíferos em Lagoa Santa, Minas Gerais. Foram estimadas cerca de 200 peles oriundas desta excursão, que estão depositadas na coleção seriada do MNRJ (obs. pess.); contudo, ainda não estudadas ou divulgadas em conjunto. Também em 1942, foi admitido para a função de Naturalista-Auxiliar (Port. 260, de 12/5/42 – MN).

Em seu currículo, está registrado sua aprovação em concurso para o cargo de Naturalista da Divisão de Zoologia em 1944. Sua nomeação foi, segundo o mesmo documento, feita no ano seguinte, sendo enquadrado na Classe "J" do Quadro Permanente do Ministério da Educação.

Entre 23 de junho de 1944 e 25 de maio de 1945, Berla colecionou aves na Zona da Mata de Pernambuco, a convite do Serviço de Biologia de Pesca. Suas amostras foram, em sua maioria, provenientes de Dois Irmãos (área verde de Recife), da Usina São José, (município de Igaraçu), Engenho Pirajá (município de Mercês) e Campo Grande (município de Limoeiro) Esta foi a sua mais bem sucedida expedição em termos de resultados, especialmente porque Pernambuco, bem como o Nordeste em geral, tinham sua avifauna ainda muito pouco estudada. A relação do material identificado (cerca de 300 peles) e das "espécies observadas, porém não colecionadas" foram divulgadas na íntegra em 1946 na "Lista das aves colecionadas em Pernambuco, com descrição de uma subespécie n., de um alótipo fêmea e notas de campo" (Bol. Mus. Nac. Zool. no. 65:1-35).

Neste artigo, Berla descreveu a subespécie nordestina do macuco, Tinamus solitarius pernambucensis, bem como fez a primeira descrição da fêmea de Mymeciza ruficauda soror, forma descrita por Pinto (1940) e privativa da mata atlântica nordestina, entre a Paraíba e Alagoas (Pinto 1978).

Como resultado de seus estudos de gabinete, a frente da coleção ornitológica do MNRJ, dois outros artigos foram publicados em 1946. No primeiro "Alteração na posição sistemática de Pyrrhura pfrimeri Miranda Ribeiro, 1920 " (Bol. Mus. Nac. Zool. no. 64:1-3) Berla decidiu, a partir do exame dos lectótipos, pela inclusão deste táxon como subespécie de Pyrrhura leucotis. Tal tratamento subespecífico para a tiriba P. pfrimeri foi mantido até a recente sugestão de Olmos et al. (1997), que recomendou o status de espécie para esta forma endêmica do Brasil Central. No segundo artigo "Uma nova espécie do gênero Todirostrum Lesson, 1831 (Passeriformes Tyrannidae)" (Summ. Bras. Biol. 1(8):1-3) ele descreve um novo táxon baseando-se num exemplar único colecionado por Emil Stolle, a serviço da Comissão Rondon na década de 1910, no rio Jamarí, "Mato Grosso" (=Rondônia). Atualmente, esta forma é considerada subespécie de Poecilotriccus capitalis, podendo nem mesmo possuir caracteres subespecíficos distintivos e "somente [em 1986] foi reencontrada" pela expedição do Field Museum em Cachoeira Nazaré, Rondônia (D. F. Stotz in Ridgely & Tudor 1994:538). Estes autores, entretanto, desconheciam que a atividade de coleta do pessoal do Museu Goeldi já havia encontrado P.[capitalis] tricolor na Serra dos Carajás, sul do Pará em 1983-85, como se depreende da leitura de Novaes (1987).

Coletas na Zona da Mata Mineira e últimos trabalhos de ornitologia (1947-1957)

Em 1947, Berla começa a excursionar regularmente ao vale do rio Doce, na Zona da Mata Mineira. Passou desta forma a aproveitar as facilidades advindas da transferência de seu pai, o Dr. Carlos Berla, para a cidade de Raul Soares, utilizando-a como base para suas atividades de coleta de material. Lá o seu pai passou a clinicar e se integrou a vida política local, tendo sido também prefeito. A cidade de Raul Soares fica a 35 km ao sul do Parque Estadual do Rio Doce e relativamente próximo de algumas tradicionais localidades de coleta de material naturalístico, como Caratinga, Matipó e Vargem Alegre. Berla pode trabalhar ainda em muitos dos grandes trechos de matas primárias, típicas do alto vale do rio Doce, e acompanhar infelizmente o processo de desmatamento maciço dessa região que se estendeu até o final da década de 1950. Para demonstrar a potencialidade ornitológica de Raul Soares, naquela época, basta dizer que Berla coletou amostras de Tinamus solitarius, Crypturellus noctivagus, Leucopternis lacernulata e Thamnomanes caesius.

A grande parte do material naturalístico coletado por Berla, a partir deste ano de 1947, começa a ser comercializada com museus americanos. Não existe uma estimativa do total de peles de aves que ele, durante duas décadas, enviou especialmente ao Field Museum, de Chicago e ao Museu de Los Angeles, mas é possível que lá esteja a maior parte de todo o seu material coletado. Vale lembrar que muitas das peles coletadas ao longo de toda a sua carreira foram preparadas por sua esposa, Iniah Medeiros Berla (1915-1995), com quem casara em 19 de maio de 1938 (Fig. 5). Estas peles, com acabamento mais caprichoso, são identificadas pelas iniciais I.M.B., constantes da etiqueta.

De todas as espécies coletadas em Raul Soares uma, em particular, merece destaque: Curaeus forbesi. Quatro exemplares desta rara e ameaçada espécie de icteríneo foram coletados em 1957, enviados aos Estados Unidos e incorporados às coleções acima referidas (Short & Parkes 1979). Encontra-se Raul Soares a mais de 1.200 km das localidades nordestinas de registro de C. forbesi (Alagoas e Pernambuco) e até hoje não foi confirmado o encontro de populações intermediárias desta espécie.

Os importantes exemplares da faixa de hibridação entre as aloespécies Ramphocelus bresilius x Ramphocelus carbo, oriundos da região do alto rio Doce, foram também coletados por Berla em setembro de 1948 (Novaes 1959).

Em 1954 publica, como produto tardio de sua campanha a Pernambuco, realizada dez anos antes, o artigo "Um novo Psittacidae do Nordeste Brasileiro (Aves, Psittaciformes)" (Rev. Bras. Biol. 14(1):59-60), onde descreve o papagainho ou apuim, Touit surda ruficauda. Sua diagnose baseada num menor tamanho e em sutis diferenças na coloração das retrizes do macho a partir de 3 exemplares, foi questionada por Forshaw (1973) quando sugeriu que "mais material deve ser obtido antes de se confirmar a validade desta raça".

A participação na fase inicial da Machris Brazilian Expedition foi destaque nas atividades de Berla em 1956. Esta grande expedição interdisciplinar executada pelo Los Angeles County Museum e patrocinada pelo milionário Maurice Machris, com o apoio do MNRJ, teve como objetivo primordial investigar a fauna e a flora do Planalto Central Brasileiro (Delacour 1957). Dois acampamentos-base foram levantados na região das cabeceiras do rio Tocantins, próximo as localidades de São João da Aliança e Formoso, ambas no norte de Goiás (Stager 1961; Fig 4). Os trabalhos de campo desta expedição começaram em 12 de abril de 1956 e se estenderam até 15 de junho de 1960 (Stager 1961, Fig 6). Embora, Berla tenha participado apenas das atividades nos primeiros meses, sua ajuda foi valorosamente reconhecida quando Stager (1961:7) registrou:

"I cannot speak too highly of the help I received from Mr. Berla, for it was his excellent knowledge of the avifauna of Brazil that made our ornithological efforts in Goiás a real success"

Um total de 859 espécimes de aves foram coletados nesta expedição. Todos, com exceção dos tipos, estes encaminhados ao MNRJ, foram depositados no Museu de Los Angeles. Stager (1959) descreve uma subespécie de juruva, oriunda do norte de Goiás, em homenagem a Berla, Baryphthengus ruficapillus berlai. Recentemente, entretanto, esta forma foi considerada inválida por Straube & Bornschein (1991).

O ano de 1957 pode ser considerado como um marco divisor da carreira naturalística de Berla. Neste ano ele é admitido como Pesquisador Assistente do Conselho Nacional de Pesquisas e publica seus dois últimos artigos ornitológicos genuínos. A partir do ano seguinte, até a sua aposentadoria, ele passa a estudar e produzir apenas trabalhos de acarologia, mais especificamente sobre ácaros que vivem nas penas das aves. Portanto, essa mudança de campo de atuação mantém, em parte, sua vinculação com a ornitologia. Esses dois artigos de 1957 provém de suas atividades de gabinete, reavaliando material do MNRJ coletado por terceiros. Berla em "Sobre o gênero Merulaxis Lesson, 1830 (Aves, Rhinocryptidae)" (Bol. Mus. Nac. Zool. no. 167:1-7) reconhece diferenças entre um espécime da Bahia (Ilhéus) em confronto com outros do resto de sua distribuição, antecipando-se, em parte, às conclusões de Sick (1960) sobre a mesma matéria, que culminaram com a descrição de Merulaxis stresemanni. Em "Sobre a validade de Crypturellus variegatus lakoi (Miranda Ribeiro, 1938) (Aves, Tinamiformes)" (Rev. Bras. Biol. 17(3):303-304), ele defende a separabilidade desta forma – não admitida pelos demais autores - a partir do exame dos lectótipos depositados no MNRJ.

Os holótipos das três formas descritas por Berla, encontram-se depositadas na coleção ornitológica do MNRJ: Tinamus solitarius pernambucensis Berla 1946, no de registro MN 24626; Todirostrum tricolor Berla 1946, MN 13145, Touit surda ruficauda Berla 1954, MN 24681 (Gonzaga 1989a:29,30, Gonzaga 1989b:62).

A dedicação ao estudo sistemático dos ácaros plumícolas (1958-1973)

Berla foi um dos pioneiros no estudo de ácaros plumícolas de aves brasileiras. Desde 1940, quando de sua excursão ao Espírito Santo, ele começou a acumular lâminas destes ectoparasitas, obtidas a partir do material ornitológico coletado. Antes de 1958, ano em que passou a publicar artigos sobre ácaros, apenas três artigos descrevendo novos táxons destes artrópodes haviam sido produzidos no Brasil, Novaes & Carvalho (1952a, 1952b) e Novaes (1953). Ainda assim, em sua maior parte, o material utilizado pelo seu colega Novaes, na descrição destas novas espécies, havia sido também coletado por Berla.

Até 1973, ele publicou 13 artigos onde descreveu a seguinte quantidade de novos táxons: 1 família, 13 gêneros e 42 espécies, além de elaborar redescrições mais completas de 5 espécies que haviam sido superficialmente descritas no século passado. A seguir é fornecida a relação integral destes artigos:

Berla, H. F. 1958. Analgesidae Neotropicais. I – Duas Novas espécies de Pterodectes Robin, 1868 (Acarina – Proctophyllodinae) coletadas em Fringillidae, Aves, Passeriformes. Bol. Mus. Nac., Zool. no. 186:1-6.

Berla, H. F. 1958. Analgesidae Neotropicais. III – Redescrição de Pteronyssus chiasma Trouessart, 1885 (Acarina, Pterolichinae), hóspede de Ramphastidae (Aves, Piciformes). Rev. Bras. Biol. 18(3):337-339.

Berla, H. F. 1959. Analgesidae Neotropicais. II– Três Novas espécies de Trouessartia Canestrini, 1889 (Acarina – Proctophyllodinae), hóspedes de Fringillidae (Aves, Passeriformes). Bol. Mus. Nac., Zool. no. 208:1-8.

Berla, H. F. 1959. Analgesoidea Neotropicais. IV– Sôbre algumas espécies novas ou pouco conhecidas de acarinos plumícolas. Bol. Mus. Nac., Zool. no. 209:1-17.

Berla, H. F. 1959. Analgesoidea Neotropicais. V– Sôbre uma espécie nova de Proctophyllodes Robin 1868 e redescrição de Pterolichus varians selenurus Trouessart, 1898 (Acarina, Pterolichinae). Rev. Bras. Biol. 19(2):203-206.

Berla, H. F. 1959. Analgesoidea Neotropicais. VI– Um novo gênero de acarinos plumícolas (Acarina, Proctephyllodinae). Hóspede de Oxiruncidae (Aves, Passeriformes). Studia Entom. 2(1-4):31-32.

Berla, H. F. 1960. Analgesoidea Neotropicais. VII– Novas espécies de acarinos plumícolas. Anais Acad. Bras. Ci. 32(1):95-105.

Berla, H. F. 1960. Analgesoidea Neotropicais. VIII– Acarinos plumícolas parasitas de aves do Brasil. Rev. Bras. Biol. 20(2):149-153.

Berla, H. F. 1959. Analgesoidea Neotropicais. IX– Uma nova espécie de Trouessartia Canestrini, 1899. Bol. Mus. Nac., Zool. no. 241:1-5.

Gaud, J. & H. F. Berla 1963. Deux genres nouveaux de Sarcoptiformes plumicoles (Analgesoidea). Acarologia 5(4):644-648.

Gaud, J. & H. F. Berla 1964. Fainalges trichocheylus n.g, n.sp., curieux représentant de la famille des Analgidae. Acarologia 6(4):690-693.

Gaud, J., W. T. Atyeo & H. F. Berla 1972. Acariens Sarcoptiformes plumicoles parasites des Tinamous. Acarologia 14(3):393-453.

Berla, H. F. 1973. Analgesoidea Neotropicais. X– Uma nova espécie de Pterodectes Robin, 1877. Rev. Bras. Biol. 33(1):21-22.

Não sendo apenas pioneira, a sua contribuição ao estudo dos ácaros plumícolas no Brasil, teve caráter de inegável relevância, visto que, nenhum outro autor brasileiro, até o momento, dedicou tantos

esforços ou produziu maiores resultados no estudo taxonômico destes ectoparasitas (I. Ferreira, com. pess.).

Os holótipos de suas novas espécies de ácaros, a partir de informação constante dos trabalhos originais de descrição, encontram-se [supostamente] depositados no MNRJ, Smithsonian Institution, Washington, D.C.; American Museum of Natural History, Nova Iorque; Muséum National d’Histoire Naturelle, Paris; Ohio State University, Colombus.

Seu nome consta como o ‘quase único’ especialista em Analgesoidea Neotropicais na extensa relação de acarologistas do Mundo preparada por Johnston (1979).

Epílogo

Embora a grande maioria de seus trabalhos de campo tenham se concentrado na região Sudeste, existe registro de que Berla esteve, ao menos uma vez, coletando material zoológico na Amazônia. Novaes (1974:14) informou que ele esteve no Amapá, entre setembro e outubro de 1963, reunindo algum material ornitológico, principalmente na Serra do Navio. Desta coleção, Pacheco conseguiu em 1982 encontrar apenas um exemplar nas coleções do MNRJ; trata-se de um exemplar não sexado de Glyphorynchus spirurus da Serra do Navio, coletada em 9 de setembro, não relacionado por Novaes (1974).

Em 1965-6, esteve nos Estados Unidos em viagem de pesquisas, após receber uma bolsa da Fundação John Simon Guggenheim. Neste período pode aproveitar a oportunidade para visitar coleções ornitológicas e acarológicas depositadas nas instituições americanas, bem como realizar diversos contatos profissionais.

Segundo portarias administrativas do MNRJ, publicadas no Bol. UFRJ, após 1969, foram concedidas a Berla diversas autorizações para realizar excursões à varias localidades de diferentes estados. Essas excursões visavam coletar material zoológico nas seguintes regiões: arredores da cidade do Rio de Janeiro (1969, 1973, 1974), outros locais do Estado do Rio de Janeiro (1969, 1970, 1971, 1974, 1975, 1976), São Paulo (1969), Minas Gerais (1969, 1970), Maranhão (1970, 1971), Espírito Santo (1974, 1977) e Bahia (1969, 1970, 1974). Isto demonstra que ele se manteve ativo – em atividades de campo - até 1977, quando sérios problemas cardíacos foram diagnosticados.

Em 1980, Berla se aposentou como Professor Titular (Port. 26, de 14/1/80 – MN), cargo que já ocupara desde o enquadramento funcional havido em 1969. A partir daí, distancia-se gradativamente de suas atividades naturalísticas, devido ao progressivo agravamento de sua doença cardíaca, que acabaria por levá-lo a morte em 10 de fevereiro de 1985.

Uma curta nota biográfica sobre Berla, constando da obra de Nomura (1995:57-58), indica ter sido ele homenageado também em duas descrições de insetos: Dicrana herberti Machado Filho, 1957 (Dermaptera, Pygidicranidae) e Oxysarcodixia berlai Lopes, 1975 (Diptera, Sarcophagidae).

Mais recentemente, Pacheco (1995) homenageou a memória de Berla, dedicando-lhe o trabalho, em reconhecimento a sua contribuição no esclarecimento de detalhes relativos a história das coleções de aves do MNRJ.

 

Agradecimentos

Aos familiares do biografado, especialmente a Amílcar Berla e Cremilda de Medeiros Pinto, pelas importantes informações prestadas, empréstimo das fotografias, confiança e apoio prestados. Aos Prof. e colegas Fernando C. Novaes, H. Nomura, J. Becker, F. Olmos, L. P. Gonzaga, Maria José V. da C. Santos pelo envio de material bibliográfico, discussão de idéias ou esclarecimento de alguns pontos obscuros. Aos colegas Claudia Bauer e Paulo Sérgio Moreira da Fonseca pela leitura crítica do manuscrito e, por fim, ao Prof. Ildemar Ferreira, da UFRRJ pelas informações relativas ao "estado da arte" do estudo de ácaros plumícolas e calamícolas no Brasil.

 

Referências

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Fig. 1 – Berla a frente da coleção de orquídeas de seu pai

Fig. 2 – Herbert Berla (lado esquerdo) ao lado de Antenor Leitão de Carvalho, grande herpetólogo e seu grande amigo

Fig. 3 – Berla a frente da estação ferroviária de Raul Soares, MG, cidade que sediou grande parte de sua atividade naturalística

Fig. 4 – Mapa mostrando o itinerário da ‘Machris Brazilian Expedition’ ao Brasil Central em 1956 (cf. Stager 1961)

Fig. 5 – Sua esposa, Iniah Medeiros Berla, a frente da caminhonete que adquiriu em 1951 para auxiliar nos trabalhos de campo.

Fig. 6 – Comitiva da ‘Machris Brazilian Expedition’, fotografada em Anápolis, GO. Berla é o terceiro à esquerda (Anônimo 1956)

"Nenhum outro autor brasileiro dedicou tantos esforços ou produziu maiores resultados no estudo dos ácaros plumícolas no Brasil"

 

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014