N.88 - Março/Abril (March/April) de 1999

 

Evidência de ocorrência histórica do Pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) no Estado do Rio de Janeiro

José Fernando Pacheco & Paulo Sergio Moreira da Fonseca - Rio de Janeiro-RJ

 

Fig. 1 – Exemplar de Mergus octosetaceus coletado por Delalande, provavelmente, no Estado do Rio de Janeiro em 1816.

 

Fig. 2 – Reprodução dos dados, diretamente escritos na madeira, do antigo pedestal que serviu de base ao mesmo exemplar de Mergus octosetaceus, antes da desmontagem.

 

Das espécies brasileiras descritas até a primeira metade do séc. XIX, indicadas como originalmente provenientes do Brasil, ou mesmo mais vagamente, como da "América do Sul" ou "Novo Mundo", a sua quase totalidade teve suas localidades-tipo melhor delimitadas até a década de 1940, especialmente por autores como Berlepsch, Hellmayr e Pinto. O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) foi uma das poucas dessas espécies que permaneceu com sua localidade original "Brésil", sem uma melhor restrição geográfica.

Mergus octosetaceus foi descrito, em 1817, por Louis Jean Pierre Vieillot (1748-1831), um dos mais produtivos naturalistas-descritores franceses do século passado. Desde então, a espécie tem sido encontrada no Brasil, nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Goiás, Paraná e Minas Gerais, além do nordeste da Argentina e leste do Paraguai (Sick 1997:239). Tratando-a como espécie ameaçada, Collar et al. (1992:80) acrescentaram um registro baseado em exemplar proveniente do Mato Grosso do Sul e não aceitaram as indicações, consideradas vagas, para a Bahia e o Rio de Janeiro. No caso da Bahia, a origem sugerida (Fisher 1981) se baseara em material comercial exportado no século XIX para a Europa, que poderia ter se originado de província diversa (v. Pacheco & Parrini 1998). No caso do Rio de Janeiro, a indicação de Stresemann (1954) foi considerada textualmente como "apparently as a guess".

Embora não explicado, Stresemann (1954) provavelmente se baseou, para incluir Rio de Janeiro dedutivamente dentro da área de distribuição do pato-mergulhão, na informação de Berlioz (1929) de que um dos exemplares utilizados na descrição da espécie fora coletado por "Delalande de son voyage au Brésil en 1817(sic)" . Esta correta associação de Delalande com o Rio de Janeiro já fora várias vezes apontada em notas de Hellmayr, como p.ex. Menégaux & Hellmayr (1906:29) "comme Delalande fils n' a voyage qu'aux environs de Rio de Janeiro, ce type doit provenir de cette localité".

Pierre Antoine Delalande (1787-1828) viajou ao Brasil, em 1816, em companhia do célebre botânico e naturalista Auguste Saint-Hilaire. Pelo que se pode depreender através das informações existentes no livro de narrativa de viagem de Saint-Hilaire, as investigações de Delalande, por motivos de saúde, se restringiram apenas à província do Rio de Janeiro, tendo retornado à França após curta permanência, entre junho e dezembro, levando consigo as coleções obtidas (Saint-Hilaire 1830).

Além de coletar nos arredores da cidade, Delalande teria viajado com Saint Hilaire até um local chamado "Ubá", onde se hospedaram na fazenda de J. Rodrigues de Almeida, próxima às margens do rio Paraiba do Sul (Saint-Hilaire 1830). Esta fazenda Ubá, fundada no séc. XVIII, ainda se encontra bastante conservada e está situada próximo a Andrade Pinto (22014' S,43025'W), tendo sido João Rodrigues Pereira de Almeida um importante barão do café (Pires 1995). Delalande utilizou-se do antigo "Caminho do Tinguá" (Lamego 1963: map. p. 24) para transpor a Serra do Mar, exatamente a oeste da atual Reserva Biológica do Tinguá, e atingir terras do vale do rio Paraíba do Sul.

Considerando que muitos outros naturalistas coletaram nos arredores imediatos da cidade do Rio de Janeiro, é no trecho médio do rio Paraíba do Sul ou nos ribeirões menores que lhe são afluentes, que torna-se admissível supor tenha Delalande coletado o exemplar do pato-mergulhão. Embora o conhecimento atual o aponte como uma espécie interiorana, não há razões para duvidar de um registro antigo "um pouco mais" litorâneo, considerando-se que a espécie fora coletada em Blumenau, na bacia do rio Itajaí, a cerca de 50 km do litoral de Santa Catarina (Berlepsch 1874). No presente, o rio Paraíba do Sul, sofre com elevados índices de poluição e seu vale possui paisagem arrasada e quase nada apresenta da sua cobertura florestal original (Carauta 1988). Em suma, é altamente improvável que o pato-mergulhão subsista em algum trecho da bacia desse rio. Admitindo sua ocorrência passada nesta região, é lícito supor que ele tenha daí desaparecido em decorrência da expansão da cultura cafeeira no séc. XIX, que em termos ambientais foi fortemente destrutiva (v. Drummond 1997).

Em 7 de abril de 1998, P.S.M.F esteve no Museum d' Histoire Naturelle de Paris e constatou a existência, até nossos dias, do aludido exemplar de Mergus octosetaceus. O espécime, inicialmente montado para exposição, foi desmontado e arrumado como exemplar em série. Está registrado na etiqueta NC (nouveau catalogue) 29, AC (ancien catalogue) 15514. Na antiga base de montagem, está gravado no fundo: "Brésil Delalande 1817". Esta data diz respeito, naturalmente, a data de chegada de Delalande a Paris, sabendo-se que ele deixou o Rio de Janeiro em dezembro de 1816.

Não pretendemos designar o exemplar parisiense como lectótipo, embora possivelmente J-F. Voisin (que está retrabalhando o material tipo) possa vir a indicá-lo como tal. Também não descartamos a possibilidade de Vieillot ter tido outros exemplares da espécie, possivelmente de outras origens, para servir de base à sua descrição. Porém, julgamos oportuno sugerir que seja designado o interior do Estado do Rio de Janeiro, como localidade-tipo restrita de Mergus octosetaceus, considerando que existe evidência suficiente para formalizar tal proposição.

Agradecimentos

Agradecemos aos nossos colegas Bret M. Whitney e Johann Becker por suas valiosas sugestões ao texto e auxílio nas traduções e a Jean-François Voisin, do Laboratoire de Mammifères et Oiseaux, Museum National d’Histoire Naturelle, que gentilmente permitiu a P.S.M.F examinar e fotografar o exemplar de Mergus octosetaceus coletado por Delalande.

Referências:

Berlepsch, H. von 1874. Zur Ornithologie der Provinz Santa Catharina, Süd-Brasilien. J. Orn. pp.242-284.

Berlioz, J. 1929. Catalogue systématique des types de la collection d’Oiseaux du muséum (I. Ratites - II. Palmipédes). Bull. Mus. Nat. Hist. Nat. Paris, 2 ser. 1:58-69

Carauta, J. P. P. 1988. Conservação da flora no trecho fluminense da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Albertoa 1(11):85-136.

Collar, N. J., Gonzaga, L.P., Krabbe, N. Madroño Nieto, A., Naranjo, L. G., Parker III, T. A. & Wege, D. C. 1992. Threatened birds of the America: The ICBP/IUCN Red Data Book. Cambridge, UK: International Council for Bird Preservation,

Drummond, J. A. 1997. Devastação e preservação ambiental no Rio de Janeiro. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense.

Fisher, C. T. 1981. Specimens of extinct, endangered or rare birds in the Merseyside County Museums, Liverpool. Bull. Brit. Orn. Cl. 101:276-285.

Lamego, A. R. 1963. 0 homem e a serra. Setores da evolução fluminense IV. Rio de Janeiro: IBGE-Conselho Nacional de Geografia.

Menégaux, A & Hellmayr, C. E.. 1906. Étude des espèces critiques et des types du groupe des Passereaux Trachéophones de l’Amérique tropicale appartenant aux collections du muséum. III. Dendrocolaptidés. Bull. Soc. Hist. Nat. Autun. 19:42-126.

Pacheco, J. F. & R. Parrini (1998a) Registros questionáveis de aves do Estado do Rio de Janeiro. I - Non-Passeres. Atualidades Orn. 81:5

Pires, F. T. F. 1995. Roteiro e legendas In: Cruz, P. O., Pires, F. T. F., Mercadante, P., Miranda, A. da R. & Czajkowski, J. Fazendas: Solares da região cafeeira do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Saint-Hilaire, A. de 1830. Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais. Paris: Grimbert et Dorez.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Edição revista e ampliada por J. F. Pacheco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

Stresemann, E. 1954. Ausgestorbene und austerbende Vogelarten, vertreten im Zoologischen Museum zu Berlin. Mitt. Zool. Mus. Berlin 30:38-53.

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José Fernando Pacheco , UFRRJ - Instituto de Biologia, Lab. de Ornitologia, Rodovia BR465 Km 7, 23851-970 - Seropédica, RJ. Paulo Sergio Moreira da Fonseca, BNDES – Superintendência de Planejamento. Av. Chile, 100 - 14o andar 20139-900, Rio de Janeiro, RJ


 

Nota sobre a presença do uru, Odontophorus capueira na Serra do Caraça, município de Catas Altas, Minas Gerais

Marcelo Ferreira de Vasconcelos - Belo Horizonte

Figura 1. O uru ou capoeira, Odontophorus capueira. (Foto: M.F. Vasconcelos).

 

O uru ou capoeira, Odontophorus capueira (Fig. 1) é uma espécie ameaçada de extinção no Estado de Minas Gerais (Lins et al. 1997, Machado et al. 1998), sendo suas principais ameaças: o desmatamento, a caça e a distribuição isolada da espécie no Estado (Ribon e Simon 1998).

Embora Carnevalli (1980) cite a presença de O. capueira na Serra do Caraça, município de Catas Altas, MG em meados da década de 1970, a ocorrência desta espécie nesta localidade não consta no Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais (Machado et al. 1998, Ribon e Simon 1998).

Entretanto, durante o crepúsculo do dia 21 de novembro de 1998 (por volta de 18:30 h do horário normal), eu ouvi a característica vocalização desta espécie em uma formação florestal próxima ao Santuário do Caraça, a cerca de 1.250 m de altitude. Tal fato está de acordo com Sick (1997), que cita que a vocalização de O. capueira é emitida principalmente durante o crepúsculo, na época reprodutiva compreendida entre os meses de agosto e novembro, no sudeste do Brasil.

Conforme relatos de um antigo morador da região da Serra do Caraça, profundo conhecedor da fauna e da flora, a "capoeira" (como é conhecida localmente) ocorria anteriormente em outras áreas da região, estando atualmente desaparecida de muitos fragmentos florestais, possivelmente devido à pressão de caça exercida pela população local (J. Rocha, comunicação pessoal 1998). Alguns moradores possuem, inclusive, apitos de caça que imitam a vocalização de O. capueira. Mesmo em outras áreas de matas preservadas da região, como por exemplo a Reserva de Peti, a espécie aparentemente ainda não foi registrada (Carnevalli et al. 1989, Ribon e Simon 1998, obs. pess.). Desta forma, torna-se importante a preservação das matas montanas da Serra do Caraça para a conservação de O. capueira no Estado de Minas Gerais.

 

AGRADECIMENTOS

 

Sou grato ao Pe. Célio M. Dell’Amore por permitir minha entrada no Parque Natural do Caraça para realizar pesquisas e ao Sr. José da Rocha ("Zé Rochinho"), meu grande amigo, que forneceu valiosas informações sobre Odontophorus capueira na região da Serra do Caraça.

 

REFERÊNCIAS

 

Carnevalli, N.E.D. 1980. Contribuição ao estudo da ornitofauna da Serra do Caraça, Minas Gerais. Lundiana 1:88-98.

Carnevalli, N.E.D., R.B. Machado, A. Brandt, I.R. Lamas, L.V. Lins, L.P. Barros e A.L.T. Souza. 1989. Estudo qualitativo da avifauna da Estação de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental de Peti - EPDA-Peti. Relatório não publicado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais.

Lins, L.V., A.B.M. Machado, C.M.R. Costa e G. Herrmann. 1997. Roteiro metodológico para elaboração de listas de espécies ameaçadas de extinção - Contendo a lista oficial da fauna ameaçada de extinção de Minas Gerais. Publicações Avulsas da Fundação Biodiversitas 1:1-50.

Machado, A.B.M., G.A.B. Fonseca, R.B. Machado, L.M.S. Aguiar e L.V. Lins. 1998. Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Ribon, R. e J.E. Simon. 1998. Odontophorus capueira (Spix, 1825). In: A.B.M. Machado, G.A.B. Fonseca, R.B. Machado, L.M.S. Aguiar e L.V. Lins (eds.) Livro vermelho das espécies ameaçadas de extinção da fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

 

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014