N.88 - Março/Abril (March/April) de 1999

 

UMA PROPOSTA PARA PUBLICARMOS MAIS

Deodato Souza* – Feira de Santana-BA

Agradeço o espaço para dar uma resposta pessoal ao ótimo trabalho de Fernando Straube, publicado no último AO (no. 87, jan/fev 99 - página 11), onde ele trata do problema de poderem ser citados, como referência bibliográfica, os "resumos de congressos", quer dizer, os resumos de trabalhos de pesquisa e/ou análise que tenham sido apresentados, aprovados e inscritos para apresentação em congressos científicos. Uns serão contra, outros a favor, mas ninguém, com certeza, quererá impedir a divulgação do conhecimento e o aumento dos recursos científicos de que dispomos para defender a Vida em todas as suas apaixonantes manifestações, entre elas as Aves.

Sem querer tomar partido definitivo, gostaria de levantar dois aspectos interligados, um menor, outro mais profundo, os quais, a meu ver, têm bastante relevo na questão. Antes de tudo, ressalto que trabalho apresentado em congresso deve ser considerado matéria divulgada, pois os congressos existem para isso; o resumo, portanto, só é anterior ao trabalho para os fins burocráticos e administrativos de sua inscrição para apresentação; para o público, ele é o resumo de um trabalho existente, ou seja, é posterior ao trabalho que ele, de forma resumida, informa existir. Pois, aí vem o aspecto menor da questão, a que me referi antes: parece que grande parte ou, até, a maior parte, dos trabalhos apresentados em congressos não existem como peças de literatura científica, escritas (por completo). O autor tem o material necessário para apresentá-lo a uma platéia, mas sob a forma de um "espetáculo" (o espelho de uma coisa) mas não sob a forma de um elenco de dados e conhecimentos recuperáveis e verificáveis.

Contudo, um resumo de trabalho, em um volume publicado adequadamente, pode ser acessado e fornecer um ou mais dados perfeitamente atribuíveis à responsabilidade científica do seu autor; se o resumo diz, por exemplo, que o autor registrou a reprodução de tal espécie de ave em tal lugar e em tal data, o trabalho completo não pode dizer coisa contrária, embora possa dizer mais coisas. Esse resumo já contém informações e conclusões atribuíveis à responsabilidade científica do seu autor, e não há por que não citá-lo como referência bibliográfica. Trabalhos que envolvam elaboração e/ou tratamento estatístico, ou que envolvam uma metodologia (sentido amplo) que precise ser previamente detalhada, porém, já sofrerão uma maior limitação.

Mas a questão, no fundo, não é pessoal, e não se trata de atribuir graus variáveis de responsabilidade a esse ou aquele autor, de acordo com o julgamento subjetivo que fizermos (o que não seria absolutamente científico, aliás). A questão é daquelas que, em vez de serem resolvidas, são superadas pelo seu próprio encaminhamento; se não existem contradições insolúveis, conflitos inevitáveis, dentro da comunidade de pesquisadores, a questão será superada sem que ninguém tenha de ser sacrificado. Aqui, então, quero falar daquele aspecto mais profundo que disse existir antes, e que é o seguinte: é a deficiência dos órgãos de publicação que torna real a questão de podermos citar, ou não, os resumos como referência bibliográfica. A questão, portanto, vista de uma perspectiva mais ampla, não existe em si; se publicarmos mais os trabalhos completos, os resumos voltarão a ser o que realmente são, sem prejuízo de quem os inscreve em congresso e sem prejuízo dos que precisam do material que eles resumem. Para isso, porém, além de deverem existir mais incentivos de todo tipo aos autores, será preciso agilizar os próprios órgãos de publicação, sem afrouxar os critérios de rigor científico universalmente aceitos, não destinados a inviabilizar os trabalhos, mas a trazê-los completamente para dentro da correção necessária. Não devemos deixar passar qualquer oportunidade de divulgar o conhecimento, e existem mais instrumentos para isso do que se pensa: instituições públicas e privadas têm publicações com espaço aberto a todo tipo de trabalhos; por seu lado, publicações avulsas, muitas vezes, são mais ágeis e viáveis que periódicos; e os excelentes esforços dos idealistas (não é preciso citar nomes) que vêm divulgando a bibliografia recente de Ornitologia permitem que um público muito amplo fique sabendo do que está sendo produzido. Vamos escrever trabalhos e publicá-los! Precisamos das máquinas, e não de suas miniaturas, por mais bonitinhas que sejam!

* ANOR – Articulação Nordestina de Ornitologia. Caixa Postal 1506, 44051-000 Feira de Santana-BA

 


 

Histórico de naturalistas e ornitólogos que passaram pela região de Ouro Preto e Mariana, Minas Gerais

Marco Antônio de Andrade & Márcia Viegas Greco de Andrade * - Belo Horizonte - MG

 

Ouro Preto e Mariana são magníficas cidades históricas do Estado de Minas Gerais, localizadas no centro-sul do estado, a cerca de 110 Km de Belo Horizonte. A cidade de Ouro Preto (antiga Vila Rica) já foi a capital mineira, no auge da exploração do ouro e outros minerais que eram abundantes nessa região. Os municípios de Ouro Preto e Marina são bem montanhosos e recebem a influência do Complexo da Serra do espinhaço. A altitude varia de cerca de 1.000 a 1.750 m. As principais tipologias vegetais encontradas nessa região são a mata atlântica, o cerrado e os campos rupestres ou campos de altitude, que abrigam uma fauna e flora peculiares.

Importantes áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade podem ser encontradas nessa região, como: o Parque Estadual do Itacolomi, a Estação Ecológica do Tripuí, o Parque Municipal Cachoeira das Andorinhas, a Serra de Ouro Preto, o Pico do Frasão e a imponente Serra do Caraça. Essas áreas abrigam espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, tendo sido incluídas recentemente em um importante diagnóstico sobre a Biodiversidade em Minas Gerais (Costa et al 1998).

Com o intuito de resgatar um pouco da história de alguns naturalistas e ornitólogos que realizaram estudos ou somente passaram pela região de Ouro Preto e Mariana, apresentamos a seguir um breve resumo de fatos históricos.

No início de 1813, chegou ao Rio e Janeiro, na qualidade de Cônsul da Rússia, o alemão Georg Heinricch von Langsdorff (1774-1852). Percorreu o sul de Minas Gerais até as minas de chumbo de Abaeté, com escala em Vila Rica (atual Ouro Preto), preocupando-se mais com as coleções entomológicas. Langsdorff fez interessantes observações sobre a história natural de várias regiões por onde passou e deixou sua importante contribuição à zoologia brasileira, particularmente ao estudo sistemático da avifauna coletada durante as expedições (Pinto 1979).

Um dos primeiros naturalistas a percorrer o Estado de Minas Gerais com estudos voltados para a avifauna foi Georg Wilhelm Freireyss (1789-1825), que veio para o Brasil em outubro de 1813, trazido pelo Barão de Langsdorff. Partiram do Rio de Janeiro a 29 de junho de 1814, em direção ao Rio Paraibuna. Freireyss chegou em Vila Rica (atual Ouro Preto) no dia 9 de agosto de 1814, onde realizou excursões botânicas na região e fez algumas observações sobre as aves. Freireyss e seus auxiliares deixaram belos desenhos sobre as paisagens e a exploração de minerais nos arredores de Vila Rica (Freireyss 1982).

O botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1799-1853) empreendeu longa viagem pelo interior de Minas Gerais (Saint-Hilaire, 1974). Na companhia do Barão de Langsdorff e do médico botânico brasileiro Antônio Ildefonso Gomes, a 7 de dezembro de 1816 Saint Hilaire partiu do Rio de Janeiro em direção a Ouro Preto, onde permaneceu cerca de 15 dias na casa do Barão de Eschwege. Depois prosseguiram em direção ao norte, passando por Mariana, Catas Altas e Itajuru. Langsdorff também levou para Ouro Preto o botânico Luiz Rieel (1790-1861) e o pintor Rugendas. Saint-Hilaire e outros botânicos-naturalistas que estiveram na região de Ouro Preto e Mariana coletaram importante material oriundo dos campos rupestres da região. Naquela época as belas Vellozias (plantas típicas de campos rupestres, da Família Velloziacea) já chamavam a atenção de botânicos, como Saint-Hilaire.

O naturalista Friedrich Sellow (1789-1831) esteve em Ouro Preto em setembro de 1818 e de lá excursou até o Rio das Velhas e São Francisco, passando por Sabará, Mariana e Serra do Itambé.

O zoólogo Johann Baptist von Spix (1781-1826) e o botânico Karl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868) chegaram em Minas Gerais em fevereiro de 1818 e rumaram para Ouro Preto, onde foram recebidos por Eschwegw, então diretor e engenheiro de minas, de quem obtêm instruções para visitar a aldeia de índios no rio Xopotó. Essa excursão naturalista ocorreu no período de 31 de março a 21 de abril, quando tiveram a oportunidade de fazer coletas de material botânico na região de Mariana e Ouro Preto. Em outra excursão, Spix e Martius percorreram algumas serras da vizinhança, como os picos do Itacolomi e Itabira.

Em 1834, o paleontólogo dinamarquês Peter W. Lund (1801-1880) viajou de Curvelo para Ouro Preto, onde esteve com o botânico Riedel. No período de 3 a 17 de janeiro de 1835, Lund realizou pesquisas na região de Mariana, tendo a oportunidade de registrar algumas espécies de aves como o pintassilgo (C. magellanicus) e a choca-de-asa-ruiva (Thamnophilus torquatus), (Pinto 1950).

Em junho de 1834, o naturalista inglês Charles James Fox Bunbury (1808-1866) chegou em Ouro Preto, depois de ter passado por muitas montanhas e margens de pequenos riachos nos vales ornados por samambaias. Bunbury excursionou nas Serras do Itacolomi e de Ouro Preto, onde se encantou com os rochedos de quartzo e com as curiosas Vellozias. Depois de passar cinco dias em Ouro Preto, seguiu para a cidade de Mariana, distante poucos km. Esteve também no arraial de Bento Rodrigues, nas cidades de Catas Altas, Santa Bárbara e na região da Serra do Caraça. Entre Mariana e Bento Rodrigues, o naturalista Bunbury descreveu: "Muitas partes dessa região são cobertas de espessas florestas que, no entanto, não tem o exuberante desenvolvimento das matas da Serra do Mar". Em seu diário, Charles Bunbury descreveu com detalhes fatos relacionados com a história e as belezas naturais dos locais onde passou (Bunbury 1981).

Outro viajante naturalista que muito contribuiu com a ornitologia mineira foi Karl Hermann Burmeister (1807-1892). Ele esteve em Ouro Preto no dia 7 de maio de 1852. Burmeister preparou um relato completo de sua viagem ao Brasil, com a descrição cuidadosa das espécies de mamíferos e aves e sua distribuição. A obra foi publicada em três volumes, entre 1854 a 1856, intitulada: "Systematische Uebersicht der Thiere Brasiliensis".

O viajante Francis Laporte (conde de Castelnau, 1812-1880) iniciou sua excursão pelo interior de Minas em 12 de outubro de 1843, rumo a Barbacena e depois para Ouro Preto, onde chegou no dia 3 de dezembro. Junto com outros viajantes, Castelnau realizou excursões mineralógicas pelos arredores da antiga capital de Minas, Vila Rica, onde permaneceu cerca de 15 dias. A expedição dirigida por Castelnau deixou modestos resultados para a ornitologia brasileira (Pinto 1979).

Em 1885 viajou por Minas Gerais o entomologista francês Pierre E. Gounelle, visando especialmente colecionar beija-flores. Chegou a possuir notável coleção, reunindo exemplares oriundos do Pico do Itacolomi, em Ouro Preto (Pinto 1952)

Já no século XX, em 1918, Pinto da Fonseca, trabalhando para o Museu Paulista (atual Museu de Zoologia da USP), iniciou seus trabalhos nos arredores de Mariana, na qualidade de naturalista-colecionador. Partiu de Mariana em junho de 1919 rumo a Ponte Nova. As coleções de Pinto da Fonseca deram uma grande contribuição à ocorrência de várias espécies de aves em Minas Gerais.

A ornitóloga Emilie Snethlage coletou espécimes de aves no rio Gualacho, em 1925, ao norte de Mariana, próximo à Serra do Caraça. O rio Gualacho passa no Distrito de Antônio Pereira, margeando a importante Serra de Ouro Preto.

Mais recente, no período de 1980 a 1982, o naturalista Geraldo T. de Mattos, trabalhando para o Instituto Estadual de Florestas - IEF, realizou diversos levantamentos de fauna em Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais. Estudou as aves do Parque Estadual do Itacolomi, onde encontrou um pássaro endêmico da Serra do Espinhaço: o canário-rabudo ou rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda). Mattos também observou outras interessantes espécies de aves como os beija-flores Lophornis magnifica e Heliactin cornuta. Em 1985, os ornitólogos M. Andrade e M.V. Freitas observaram nos campos rupestres do Parque Estadual do Itacolomi, município de Ouro Preto, o beija-flor-de-gravatinha-verde (Augastes scutatus) e o papa-moscas-de-costas-cinza (Polystictus superciliaris), dois interessantes endemismos deste ecossistema. Posteriormente, registraram em matas do Parque do Itacolomi algumas espécies ameaçadas de extinção, como: pavó (Pyroderus scutatus), tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris) e tropeiro-da-serra (Lipaugus lanioides), (Andrade 1998).

 

Referências bibliográficas:

 

Andrade, M.A. (1998). O Parque Estadual do Itacolomi e suas aves. Uiraçu 2(2):4.

Bunbury, C.J.F. (1981). Viagem de um Naturalista Inglês ao Rio de Janeiro e Minas Gerais (1833-1835). Belo Horizonte: Itatiaia, 123 p.

Costa, C.M.R. et al (1998). Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas para sua conservação. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas. 94 p.

Freireyss, G. W. (1982). Viagem ao interior do Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp. 138 p.

Pinto, O. (1950). Peter W. Lund e sua contribuição à ornitologia brasileira. Papéis Avulsos Deptº. Zool., São Paulo, 9 (18): 269-284.

Pinto, O. (1952).Súmula histórica e sistemática da ornitologia em Minas Gerais. Arq. Zool., São Paulo, 8 (1): 1-51.

Pinto, O. (1979). A Ornitologia do Brasil Através das Idades (século XVI ao século XIX). São Paulo. 117 p.

Saint-Hilaire, A. de (1974). Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e São Paulo – 1822. Belo Horizonte: Itatiaia, 125 p.

 

 

* Fundação Acangaú, Rua Cura Dars 1189/3, 30430-080, Belo Horizonte, MG. Tel/Fax: (031) 332-7596 - marc @ bhnet.com.br

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014